Fênix - Até as cinzas voarem
7 Seguindo em frente
A chuva fina que caída sobre o cemitério em São Paulo parecia acompanhar o peso no peito de cada membro da Vortex GP. O caixão lacrado de Gilberto, uma exigência dos protocolos sanitários rigorosos da época devido à pandemia, estava coberto por uma bandeira do Brasil e por um capô de fibra de carbono cru — um pedaço do carro que ele mesmo havia desenhado e ajudado a lixar com as próprias mãos.
Eduardo estava de pé ao lado da sepultura, com o rosto pálido e os olhos fundos pelo cansaço e pelo luto. Ao seu lado, Gustavo e Rafael vestiam ternos escuros, em silêncio absoluto. Poucas pessoas podiam estar ali devido às restrições de aglomeração, o que tornava o adeus ainda mais doloroso e solitário.
A mente de Eduardo, no entanto, insistia em voltar para o caos de Melbourne.
Quando a notícia da morte de Gilberto chegou, a equipe estava literalmente presa do outro lado do mundo. Com o cancelamento do GP e o anúncio iminente do lockdown global, as companhias aéreas cancelaram voos e os preços das poucas passagens restantes dispararam. Os patrocinadores da Vortex haviam fechado as torneiras e a conta bancária da equipe não tinha um único dólar para pagar o frete do carro de volta, muito menos os bilhetes de emergência para os funcionários que viajaram para a Austrália e ajudar a pôr o carro na pista.
A salvação não veio de um patrocinador, mas de uma negociação dura travada no fundo do box, ainda com as lágrimas secando no rosto de Eduardo.
Ao ver a equipe à beira do colapso e correndo o risco de ficar largada em um aeroporto australiano, Hunter e Nicolas se aproximaram. Eles eram empresários experientes, pragmáticos e, acima de tudo, protetores dos investimentos que representavam seus pilotos.
— Eduardo, nós precisamos tirar o Gustavo e o Rafael daqui hoje — disse Hunter, num tom sério, tirando o passaporte do bolso. — Mas eles não vão sem a equipe. Se o time quebrar aqui, a carreira deles na F1 acaba antes de começar.
— Eu não tenho como pagar a volta de ninguém agora, Hunter — confessou Eduardo, com a voz embargada. — Os patrocinadores suspenderam os repasses assim que a corrida foi cancelada. Estou zerado.
Nicolas, que até então mantinha uma postura distante, cruzou os braços e olhou para o chassi desmontado no fundo da garagem.
— Nós cobrimos os custos — disparou Nicolas. — Eu e o Hunter vamos adiantar o dinheiro das passagens de todo mundo e o frete marítimo de emergência para os equipamentos. Mas não é de graça.
Eduardo ergueu os olhos, atento.
— O que vocês querem?
— Em troca — explicou Hunter —, a Vortex GP nos passa uma porcentagem dos direitos de premiação e de imagem que a equipe receberia da FIA no final da temporada. Além disso, queremos uma cláusula de prioridade na renovação do contrato dos dois pilotos sem multa rescisória caso a equipe não consiga alinhar o carro no grid quando a temporada retornar. É o nosso seguro. Se o projeto afundar de vez, pelo menos meus pilotos ficam livres.
Era um contrato leonino, nascido do desespero, mas era a única corda jogada no poço. Eduardo sabia que Gilberto faria de tudo para salvar as pessoas antes de salvar o metal. Ele assinou o termo aditivo no próprio balcão do box, usando uma caneta emprestada.
Graças a esse acordo amargo, todos conseguiram embarcar no último voo comercial que saiu de Melbourne rumo a Guarulhos antes do fechamento total das fronteiras.
Assim que o avião pousou no aeroporto, Eduardo pegou suas bagagens e nem sequer passou em casa. Mesmo com o suor nos cabelos e no rosto e uma cara de jet lag ele não desistiu e foi direto para o cemitério. Marizete havia lhe dado todas as instruções de hora e local do velório horas antes dele embarcar, então ele foi direto para lá com a equipe"
De volta ao presente, o som da terra caindo sobre a madeira do caixão trouxe Eduardo de volta à realidade do cemitério.
A cerimônia estava no fim. Hunter e Nicolas assistiam de longe, respeitando o espaço, debaixo de guarda-chuvas pretos. Eles haviam garantido o retorno de todos, mas agora a dívida da equipe com eles era gigantesca — e a pressão para entregar resultados no futuro, ainda maior.
Rafael se aproximou de Eduardo e colocou a mão em seu ombro.
— Chefe... o que a gente faz agora? A fábrica tá fechada pelo lockdown, o Gilberto não tá mais aqui e a gente deve uma fortuna pros empresários.
Eduardo olhou para a bandeira do Brasil sobre o caixão do amigo, limpou a água da chuva do rosto e respondeu com uma firmeza que nem sabia que ainda possuía:
— Agora a gente cumpre a promessa. Quando essa pandemia passar e abrirem os portões de algum autódromo, nós vamos colocar esse carro na pista. Por ele, e por cada centavo que tivemos que vender do nosso futuro pra voltar pra casa — ele fungou o nariz.
***
As semanas seguintes ao enterro foram um teste de sanidade. O silêncio do galpão em São Paulo, antes preenchido pelo eco de motores e ferramentas, agora era ensurdecedor. Com a decretação do lockdown e os decretos municipais, Eduardo precisou agir rápido para não ver a Vortex GP ruir completamente na inércia.
A primeira grande batalha foi a transição para o trabalho remoto. Para uma equipe de Fórmula 1 de ponta, com servidores potentes em nuvem, isso já era um desafio; para a Vortex, foi quase artesanal.
Eduardo autorizou os engenheiros a levarem as poucas estações de trabalho da fábrica para suas casas. Telas pesadas e gabinetes adaptados foram colocados nos porta-malas de carros populares. As reuniões diárias de aerodinâmica passaram a acontecer por chamadas de vídeo no Zoom, frequentemente interrompidas por conexões de internet instáveis, latidos de cachorros ao fundo e filhos pequenos dos mecânicos curiosos diante da câmera.
Ele também ordenou que Gustavo e Nicolas comprassem simuladores para colocar em algum lugar de suas casas, a fim de conseguirem treinar, o que foi obedecido prontamente pelos dois, uma semana depois.
-Chefe, consegui comprar meu próprio simulador de corrida — disse Gustavo, mostrando um cockpit improvisado com uma cadeira gamer — o item mais caro de todo o kit — um volante G920 com câmbio borboleta e pedais, uma televisão de 350 polegadas.
-Eu também senhor, não é tão sofisticado, afinal, a minha cadeira é de madeira e tive que comprar uma mesa maior para o computador, mas ao menos o volante Fanatec com pedais valeram a pena, estou gostando demais deles — disse Rafael, mostrando o setup gamer dele.
-Que bom, meninos. Mas e quanto aos testes físicos? — perguntou Eduardo.
-Montei uma academia aqui no quintal da minha casa. Tenho uns sacos de cimento, garrafas de água, coisas que preciso usar para treinar o pescoço e todas as partes que meu corpo precisa — disse Rafael.
-Bem, eu não tenho um quintal no meu apartamento, mas eu também consegui improvisar algumas coisas para treinar — disse Gustavo.
-Ótimo, continuem assim. Não podemos desistir. Pelo Gilberto — afirmou ele.
Sem poder rodar simulações pesadas sem o computador central da fábrica, a equipe teve que ser criativa. O chefe de aerodinâmica fragmentou as tarefas de CFD (Dinâmica de Fluidos Computacional): cada engenheiro rodava um pedaço da análise no seu próprio computador doméstico durante a noite e, pela manhã, juntavam os dados como em um quebra-cabeça.
Quando algumas atividades presenciais essenciais foram liberadas sob protocolos rígidos, a fábrica passou por uma transformação radical para poder receber visitas cruciais — como fiscalizações da vigilância sanitária, os próprios pilotos e, principalmente, Hunter e Nicolas, que queriam ver onde o dinheiro deles estava sendo empregado.
Eduardo transformou o galpão em uma verdadeira zona de contenção sanitária:
Na grande porta de correr, onde antes ficava a placa acolhedora de boas-vindas, agora havia um totem com álcool em gel, tapetes sanitizantes com água sanitária e um termômetro digital infravermelho. Ninguém pisava no cimento queimado sem ter a temperatura checada e anotada em uma prancheta.
O Protocolo de Máscaras: O uso de máscaras PFF2/N95 era obrigatório e inegociável. A equipe teve que comprar caixas do próprio bolso, reduzindo ainda mais a margem de custo.
Distanciamento no Chassi: Na área de montagem, marcas de fita zebrada amarela e preta no chão delimitavam o espaço de cada mecânico. Apenas dois profissionais podiam trabalhar no carro por vez, mantendo dois metros de distância. O trabalho que antes levava duas horas agora demorava o dobro, já que cada ferramenta precisava ser borrifada com álcool 70% antes de passar de uma mão para a outra.
Em uma tarde de terça-feira, Hunter e Nicolas foram até a fábrica para inspecionar os trabalhos. A atmosfera era surreal.
Os empresários chegaram de máscara, mantendo o distanciamento. Gustavo e Rafael também estavam presentes, usando macacões limpos e máscaras personalizadas com a bandeira do Brasil. Não houve apertos de mão, tapinhas nas costas ou o tradicional café servido na recepção.
— A sensação é de estar em um laboratório clandestino — comentou Hunter, a voz abafada pelo tecido da máscara, enquanto olhava para o chassi do carro cercado por fitas de isolamento e com apenas um mecânico ajustando a suspensão dianteira.
— É o único jeito de continuarmos operando sem tomar uma multa que feche a equipe ou colocarmos a vida de alguém em risco — respondeu Eduardo, mantendo a distância regulamentar. — Perdemos o Gilberto. Eu não vou perder mais ninguém aqui dentro.
Rafael caminhou até o simulador improvisado no fundo da fábrica. O equipamento também passava por um protocolo rigoroso: o volante de borracha e o assento eram higienizados com pano e álcool a cada troca de piloto.
— O ritmo está mais lento, chefe? — perguntou Nicolas, cruzando os braços e analisando os relatórios de medição.
— O ritmo físico, sim — admitiu Eduardo. — Mas os meninos estão treinando o traçado das pistas europeias no simulador de casa todos os dias. E a engenharia está otimizando cada grama da asa traseira por videoconferência. Nós não paramos um segundo, Nicolas. O dinheiro de vocês não está sendo jogado fora.
Hunter olhou para o fundo da fábrica, onde a mesa de Gilberto permanecia intocada, com um par de óculos de proteção e um croqui do carro ainda sobre a madeira. Ele suspirou, o vapor da sua respiração embaçando levemente os óculos.
— A FIA deve anunciar o novo calendário em breve — disse Hunter. — As primeiras corridas na Europa serão com portões fechados e bolhas sanitárias extremamente severas. Estejam prontos. Se o carro quebrar na primeira volta, a paciência dos nossos investidores acaba.
— Nós estaremos prontos — garantiu Eduardo, olhando para os dois pilotos que acenaram positivamente com a cabeça.
Quando os empresários saíram, o som do borrifador de álcool higienizando a maçaneta da porta principal ecoou pelo galpão vazio. A Vortex GP estava machucada, operando na ponta dos dedos e sob o fantasma da pandemia, mas a engrenagem continuava girando.
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