Fênix - Até as cinzas voarem
1 Prólogo
Um autódromo vazio, sem público nas arquibancadas, sem bandeiras se agitando, apenas um som ensurdecedor pairava no ar.
O som de um motor alemão v6 turbo híbrido, que acelerava na longa reta do autódromo a mais de 360 km/h enquanto uma equipe de engenheiros, mecânicos que trabalharam a madrugada inteira, e claro, o chefe de toda a estrutura, acompanhavam as voltas do carro.
Ao cruzar a linha de chegada, reduziu instantaneamente a velocidade, mas não o coração e a adrenalina de quem pilotava.
-QUE ISSO MOLEQUEEE!!! UHUUUUUULLL!!! PORRA!!! QUE DOIDO MANO! Agora sim temos um carro de corrida de verdade!! — exclamou o piloto, pelo rádio, quase deixando os engenheiros surdos.
Mas, segundos depois, todos estavam comemorando, finalmente tinham o necessário para alcançar o topo e iriam lutar até o fim.
Anos antes — Março de 2019
Em um café no centro, enquanto várias pessoas liam o noticiário nos celulares e bebericavam suas xícaras de café, um homem estava atento à televisão, que passava algo que ele sempre amou desde a infância: uma corrida de Fórmula 1. Mais especificamente, a segunda corrida daquela temporada, já que a primeira tinha sido exibida de madrugada por se passar no Oriente Médio.
O resultado da corrida não era exatamente o que ele esperava, já que sua equipe e seu piloto favorito não haviam vencido, mas ele não se importava com quem vencia ou perdia, só de sentir a emoção de assistir a corrida era o suficiente para alegrar suas manhãs.
Após o final da transmissão da corrida, ele retorna para sua casa, onde trabalhava em home-office, mas ao passar pela sua garagem, observou o velho Pontiac restaurado e bem preservado por ele mesmo. Aquele momento em que montou o carro, há quase dez anos, foi um dos momentos mais marcantes de sua vida. Sempre foi fascinado por carros e corridas, seu bisavô, avô e pai também. Ele lamentava o fato de que mesmo sendo grandes fãs, nunca conseguira ser um piloto profissional.
Mas, enquanto ele lamentava nunca ter tido a chance de ter uma carreira, um pensamento surgiu em sua mente:
"Eu não posso pilotar, mas posso comandar uma equipe de F1 e sentir o prazer de estar nas corridas para sempre"
E foi com esse pensamento, que imediatamente ali, naquela garagem minúscula e fechada que mal entrava sol, de frente para o carro antigo que era sua maior paixão, pegou seu celular e fez uma ligação.
No terceiro toque, alguém atendeu:
-Lacerda Designs, boa tarde — disse a voz do outro lado.
-Boa tarde, com que eu falo? — perguntou ele, mesmo sabendo da resposta.
-Gilberto Lacerda, dono e CEO da empresa. Em que posso ajudar?
-Não reconhece minha voz? Velho amigo?
A ligação ficou muda por alguns instantes. Por um momento, ele pensou que o homem do outro lado da linha tinha desligado o celular, mas logo voltou a ouvi-lo.
-Eduardo Silveira?
-Eu mesmo. Quanto tempo hein? — riu ele.
-Acho que, desde o fim da faculdade?
-Ah, você nunca esqueceu né?
-Claro que não! Amizades verdadeiras nunca se esquecem!
-Isso aí! Eu também nunca esqueci de você e nem da promessa que fizemos juntos.
Os olhos de Gilberto se arregalaram.
-Está dizendo que têm um projeto para nós dois trabalharmos juntos? — perguntou ele, animado.
-Sim. Já tem nome, só falta passar para o papel! — respondeu Eduardo, animado.
-Então vamos nos encontrar e colocar esse projeto em ação!
O ânimo na voz de Gilberto deixou Eduardo muito feliz e exaltado. Era um sonho que poderia se tornar realidade com a colaboração de seu antigo amigo, que não via há décadas.
Horas depois, ambos estavam no escritório de Gilberto. Eduardo esticou o papel com o projeto sobre a mesa e contou todos os detalhes do que planejava.
Mas, para sua surpresa — ou frustração, Gilberto coçou a cabeça enquanto olhava a folha com desdém.
-O que foi? — questionou.
-Uma equipe de Fórmula 1? — Gilberto o encarou.
-Sim, é um sonho antigo desde que meu pai viu a Copersucar ser extinta no fim dos anos 80.
-Mas você sabe que isso é caro demais, não sabe?
-Sim, eu sei. Mas também sei que o que tenho é o suficiente para poder construir uma. Só preciso de um projetista para desenhar e fazer o carro. E não conheço ninguém mais talentoso do que você para isso.
-Eduardo, isso é loucura! Eu não desenho carros de corrida faz anos. E nunca sequer desenhei um monoposto de Fórmula 1.
-Eu sei, mas você entende bastante de tudo o que um carro de Fórmula 1 precisa. Eu quero que a equipe seja cem por cento brasileira, incluindo a fábrica. E eu não conheço mais nenhum projetista de carros aqui nesse país subdesenvolvido que tinha tudo para ser um dos mais ricos e populares do mundo, mas se perdeu em muitas coisas.
Aquelas palavras deixaram Gilberto encabulado. Seu amigo não estava apenas o elogiando, estava mostrando uma determinação contagiante. Eles sempre gostaram muito de carros e corridas, sempre assistiam às corridas de pilotos dos anos 80 e 90 serem campeões e compartilhavam informações à medida que cresciam e aprendiam mais sobre tudo de automobilismo. Também lembrou das segundas feiras, nos intervalos da faculdade, em que discutiam sobre a corrida de domingo e virava o assunto da semana até a próxima corrida chegar.
Quando as lembranças cessaram, seu olhar se encontrou novamente com o de Eduardo, que o encarava fixamente, esperançoso.
Então, Gilberto suspirou e sorriu.
-Então, por onde começamos? — perguntou.
Eduardo sorriu de volta.
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