Ao sair do escritório do seu velho amigo, Eduardo sentia-se eufórico. Ele sabia que era cedo demais para falar algo, mas pelo menos, o interesse estava lá e Gilberto havia prometido voltar à entrar em contato com ele quando conseguisse.

Ao chegar em casa, foi direto para a cozinha rústica de sua casa. Com piso em porcelanato que imitava madeira ou cimento queimado, prateleiras abertas de madeira maciça, exibindo as louças, panelas de cobre. uma ilha de madeira escura com banquetas pretas, a geladeira inox de porta dupla, que estava cheia de mantimentos como carne e laticínios, uma parede de pedra clara ao fundo, bem onde estava localizado o fogão de mármore e armários em carvalho, pendentes industriais.

Indo direto até a cafeteira, fez um café forte e colocou na xícara. Ele soprou por alguns segundos antes de começar a tomar. Percebeu que havia deixado o café quente demais, mas daquela vez, não suspirou e nem reclamou, não queria se sentir chateado ou frustrado por um motivo tão bobo naquele dia após o reencontro com seu amigo.

Depois de um tempo, saiu da cozinha e foi direto para seu escritório. Em cima da mesa de centro, estava seu notebook, já ligado e logado na sua conta. Ao lado dele, um mouse sem fio esperando para ser usado. Ele repousou a xícara de café do outro lado do computador e respirou fundo, olhando para o escritório que mal dava para ver as cores devido aos seus pôsteres de pilotos icônicos como Ayrton Senna, Emerson Fittipaldi, até Chico Landi, o primeiro brasileiro da F1 que seu avô acompanhou as corridas antes de ter seu pai, estavam lá. Fora outras imagens de carros clássicos como o Mclaren Mp4/4 de 1988 do próprio Senna e de Alain Prost, o inesquecível Lotus preto e dourado de 97T e 98T de 1985 e 1986, respectivamente, além da Lotus 99T, Jordan SevenUp de 1991 Jordan 194 de 1994 e a Ferrari de 2004 cujo som ele sempre que podia, colocava na internet os vídeos dela correndo só para escutar o barulho do motor acelerando. Aquele V10 italiano gritando nas retas eram música para seus ouvidos desde sempre.

Ele só voltou à realidade quando o telefone começou a tocar.

-Chefe, estamos com um lote incrível de fibra de carbono pronto para ser processado — disse um dos funcionários.

-Que ótimo, qual é a largura e o tamanho das peças? Sabe dizer? — perguntou ele.

-De cinco a dez metros, senhor. E temos um estoque ótimo que não é usado há muito tempo. Devemos jogar fora?

Eduardo quase saltou da cadeira.

-De jeito nenhum — respondeu — Guarde no depósito.

-Guardar? O que o senhor vai fazer com tudo isso? O estoque é grande.

-É para um projeto pessoal. Não posso revelar ainda.

O funcionário ficou alguns segundos sem responder, mas logo assentiu.

-Está bem, vou pedir para guardarem, chefe -disse.

-Ótimo, muito obrigado. Assim que o projeto sair do papel, irei mostrar a todos — prometeu ele.

-Certo, até mais.

E assim, Eduardo passou o resto do dia sentado no escritório só resolvendo coisas de trabalho. Quando já eram quase oito da noite, seu telefone tocou.

-Alô? — disse ele.

-Está ocupado? — perguntou Gilberto, sem rodeios.

-Eu não, por quê?

-Venha até o meu escritório. Você precisa ver isso.

Curioso e preocupado com o tom de seu amigo, Eduardo saiu do escritório e pegou seu casaco com as chaves do seu Pontiac laranja perfeitamente limpo. Desde que o comprou e restaurou com peças compradas pela sua própria empresa, desenvolveu uma obsessão por deixar a pintura mais limpa e brilhante possível.

E não por arrogância, nem por ser excêntrico, mas porque ele sempre teve um hábito herdado por seu bisavô, passado de geração para geração: tudo aquilo que você ama, deve ser cuidado ao extremo.

Ao ligar o carro, o som do motor V8 turbo ecoou pela garagem cinza, cheia de prateleiras com peças sobressalentes do carro, além de baterias, galões de combustível ou de óleo. E claro, pneus novos encostados quase na porta de entrada, deitados um por cima do outro. Após um minuto esquentando o carro, Eduardo saiu com o clássico pelas ruas da cidade de Brasília, que se encontravam totalmente iluminadas e bem movimentadas, mas agora sem o fluxo constante de carros.

O caminho levou cerca de vinte minutos para chegar. Gilberto não pediu que ele fosse encontrá-lo em casa ou em qualquer estabelecimento, mas sim, no escritório da empresa dele. E ao chegar no portão, ficou impressionado com o tamanho imponente da fachada. Era cinza claro e totalmente limpa, como se todos os dias alguém a lavasse até brilhar, fora a logo da empresa, que era composta por um "G" estilizado na borda do prédio e perfeitamente nítido. Diferente de Gilberto, que gostava de ter um escritório gigante em um prédio comercial no centro, Eduardo era mais sossegado, mas não desleixado, preferindo trabalhos em home-office.

Ao estacionar o carro, foi recebido por um homem de farda, era o segurança do prédio, que o conduziu até o elevador no trigésimo andar.

Levou alguns segundos, mas dentro daquele espaço apertado, o coração de Eduardo começou a bater tão forte que dava para escutar as batidas dele sem nem precisar ficar perto. A curiosidade estava o deixando daquele jeito. Quando finalmente saiu, a porta do escritório ia do chão ao teto e era de madeira também, mas uma madeira mais rústica, mais dura e pesada, do tipo que só gente milionária consegue ter.

Eduardo tocou a campainha e esperou dois segundos até Gilberto aparecer.

-Olá velho amigo. Entre — sorriu ele.

-Obrigado — disse Eduardo, sem conter a felicidade.

Ao entrar, enquanto Gilberto fechava a porta atrás deles, Eduardo olhou em volta e não conseguia acreditar no que seus olhos mostravam:

O escritório de Gilberto era cheio de:

miniaturas de F1 dos anos 80;livros de Adrian Newey, Gordon Murray e Colin Chapman;cadernos repletos de projetos que jamais saíram do papel.


-O que foi? — perguntou Gilberto.

-Eu? Nada — disfarçou ele, falhando miseravelmente.

-Por quê parece tão impressionado? Parece que nunca viu um escritório assim na vida. Duvido que o seu não tenha pelo menos um pouco disso.

-Bem... Tem alguns cartazes, tem DVD's dos filmes de automobilismo, mas nunca isso. E para um homem igual a você, um engenheiro aeronáutico brasileiro e trabalhou durante anos na Embraer, é chocante saber que possui um escritório com coisas nada relacionadas à aviação.

-Engano seu, meu chapa. Olha bem atrás de você — riu Gilberto.

Foi então que Eduardo girou a cadeira e viu um móvel grande, com uma televisão média de tela plana da Philco. Ao redor dela, vários aviões de todos os tipos que já existiram, desde o famoso e eterno 14-bis, passando pelo DC-10 até um Boeing 747 da Varig, empresa brasileira já extinta há anos.

E acima dela, não apenas outras miniaturas de aviões, mas pôsteres de carros e pilotos lendários.

-Tá bem, agora eu retiro o que eu disse — disse Eduardo, virando-se novamente para seu amigo.

-Ótimo, porque agora você pode ganhar sua surpresa — disse Gilberto, abrindo uma gaveta da sua mesa e entregando-lhe uma folha — Ainda não está pronto, esse é só o esboço inicial. Falta ainda desenhar o interior dele, mas ao menos o chassi já está pronto.

Era um carro de Fórmula 1 moderno, com o formato das asas dianteiras e traseiras, pneus slicks, halo e com linhas elegantes.

-Espero que goste, usei todos os meus conhecimentos de eficiência aerodinâmica para desenhar esse carro com base nos carros atuais.

Por alguns segundos, Eduardo não falou nada, mas quando encarou os olhos de seu velho amigo, seu sorriso não cabia no rosto.

-Gilberto, você merece um beijo! — disse ele, levantando-se.

-Ei ei ei, não se empolga! — disse Gilberto, levantando-se da cadeira também tentando parecer assustado, mas rindo.

-Eu estou brincando, claro. É que, ver um carro desses, desenhado nesse papel, vendo um sonho tomando forma, é incrivelmente... indescritível.

-Tá, mas ainda falta as outras partes né? Como faremos para ele sair do papel e virar realidade? — perguntou Gilberto, agora sério.

-Essa parte eu te ajudo. Minha empresa trabalha com sistemas de fibra de carbono e somos muito ligados à indústria automotiva desde o início. Se usarmos isso e formarmos uma parceria com empresas do exterior, podemos construir uma fábrica do zero e aí o carro sairá do papel — explicou ele.

-Sua empresa é de quê? Não tenho notícias suas desde que passou a trabalhar como engenheiro mecânico da aviação — perguntou Gilberto, curioso.

-Eu sei, por isso nunca mais nos vimos. Fiquei lá por anos e juntei dinheiro o bastante para ter minha própria empresa. Hoje sou empresário aeroespacial e tenho uma empresa de componentes de alta precisão para aviação, satélites, sistemas de fibra de carbono, indústria automotiva. Não fiquei bilionário com ela, mas ela é uma empresa respeitada — explicou ele.

Impressionado, Gilberto aplaudiu:

-Parabéns, foi longe. Não que eu achasse que você não chegaria, mas você construiu um grande legado. Eu era um engenheiro aeronáutico brasileiro. Trabalhei durante anos na Embraer.

-Empresa boa hein?

-Muito boa.

Sorrindo, ambos apenas se encararam por alguns segundos até Eduardo lembrar da conversa.

-Então... Se eu construir a fábrica… você constrói o carro? — perguntou.

Miguel respondeu:

-Constrói a fábrica primeiro.

-Fechado.

E assim, com um sorriso no rosto e um aperto de mão, o acordo entre os velhos amigos estava formado.