Demorou quase dois meses para que finalmente tudo estivesse pronto. Gilberto e Eduardo passaram todo esse tempo tentando procurar um local apropriado para conseguirem construir a fábrica da equipe que eles criaram, mas naquela cidade litoral de Brasília, não haviam encontrado um único lugar.

Eduardo aproveitou esse tempo para encontrar pilotos bons para a equipe. Certa manhã, não conseguia dormir devido à ansiedade pela resposta de Gilberto sobre conseguir uma fábrica da equipe, então decidiu que iria acompanhar a corrida de Fórmula 2 que aconteceria naquele fim de semana, algumas horas antes da corrida de Fórmula 1.

Enquanto assistia, percebeu um piloto: um jovem que acabara de completar 20 anos e corria pela DAMS, uma das mais respeitadas e competitivas equipes da categoria que sempre acertava na escolha de pilotos, nunca errando a escolha de pilotos para os seus carros.

E o piloto em questão era Gustavo Pereira Martins, um novato que estava em seu primeiro ano de Fórmula 2 e que havia ganhado a Fórmula 3 no anterior de forma impecável. Quando a largada começou, naquela corrida, Eduardo se encantou ao vê-lo partir de último e ganhar a corrida. Mesmo sendo uma performance em condições normais, o ritmo dele era o que importava e ele realmente chamou a atenção do empresário.

-Ele precisa guiar o carro — sussurrou para si mesmo, logo pegando seu telefone.

Dois meses antes...

Do outro lado, enquanto Gilberto procurava alguns lugares perfeitos para construir a fábrica, ele acabou encontrando o anúncio de um evento promocional na cidade. Não era corrida, era apenas um evento de carros esportivos, onde um circuito improvisado com barreiras seria montado em um local específico e vários pilotos lendários correriam em carros lendários.

Movido pela curiosidade e o amor pelas corridas, Gilberto aproveitou que o evento era gratuito e estacionou seu carro para dar uma olhada. Assim que ele desceu, caminhou em direção à multidão e percebe que em certo ponto, uma aglomeração se instalava. Ao se aproximar, viu o motivo: Rafael Tavares, um ex- ator que largou a carreira para se dedicar ao automobilismo e passou anos tentando se adaptar ao mundo dos carros de GT na Porshe Cup, GT3 Brasil e etc... finalmente estava virando fenômeno e agora era respeitado e idolatrado pelos fãs do automobilismo, principalmente os novatos.

Rafael, com seu jeito sorridente e brincalhão de sempre, aproveitou o tempo que ainda tinha para tirar fotos com os fãs enlouquecidos, que não paravam de chegar. Gilberto, que também queria poder conversar com ele, era impedido pois eram muitas pessoas. No fim, ele não conseguiu tirar foto nem entrar em contato com Rafael imediatamente, pois o rapaz teve que se aprontar para pilotar um dos carros mais históricos do mundo: o icônico Ferrari F2004, um dos carros mais dominantes da história da F1 e que dominou aquele ano.

Ao ouvir Rafael acelerar aquele V10 aspirado da Ferrari, Gilberto não pôde deixar de conter umas tímidas lágrimas de emoção, a saudade que ele tinha da época em que os carros tinham aqueles motores era imensa e o sentimento de nostalgia pura o atingiu com força, dando origem à emoção dele.

Por vários minutos, Rafael e a Ferrari apenas ficaram acelerando e dando zerinho, fazendo fumaça no asfalto e o motor gritar tão alto que era capaz de estourar os tímpanos de todos, mas ninguém se importava, muito menos Gilberto, que só aproveitava aquele momento e gravava tudo, tirava fotos, porque um momento especial daquele era para ser registrado.

Passou-se cerca de uma hora até que Rafael, com seus cabelos curtos e lisos molhados de suor assim como o macacão aberto até a cintura, bebia uma garrafa de água dentro de um pequeno "paddock" que ajudava os pilotos a se prepararem. Paciente, Gilberto esperou até o final do evento, quando o sol já se punha no horizonte, deixando o céu alaranjado e finalmente seguiu Rafael após a saída dele.

-Rafael Tavares, que prazer te ver — começou ele, se aproximando devagar devido aos seguranças ao lado dele.

-Olá senhor, deseja tirar uma foto? — perguntou Rafael, sorrindo e fazendo sinal para os seguranças se acalmarem.

-Sim, claro. Sou muito seu fã.

Após tirarem a foto, Gilberto guardou o celular e Rafael sorriu, estendendo a mão.

-Foi um prazer, senhor... — disse Rafael.

-Gilberto — sorriu ele — E o prazer foi meu. Inclusive, gostaria de te entregar isso.

Gilberto tirou o cartão de visitas do bolso do casaco e entregou para o piloto, que encarou surpreso:

-Ah, muito obrigado senhor, mas já tenho um empresário — sorriu Rafael.

-Eu sei, é que estou planejando, junto com um velho amigo, montar uma equipe de Fórmula 1 brasileira para daqui uns dois anos, no máximo. Então, acho que você seria a escolha perfeita para pilotar um dos nossos carros — disse ele, esperançoso.

-É mesmo? Mas o senhor sabe que isso é caro, não sabe?

-Sim, claro que sei. Mas também sei que com os contatos que tenho, isso não será problema.

Rafael ficou um pouco desconfiado, não esperava ouvir aquela resposta de um homem que parecia tão simpático à primeira vista, mas Gilberto suavizou a expressão e sorriu.

-Pense o tempo que precisar. Entregue esse cartão para o seu empresário e me procure quando decidir.

Sorrindo, Gilberto apertou o ombro de Rafael e se virou, caminhando em direção ao seu carro.

Dias atuais...

Após mais um frustrante dia em que não obtivera respostas de Gilberto, Eduardo decidiu ir ver seu amigo pessoalmente no escritório dele.

Eduardo foi muito bem recebido pelo amigo novamente, como sempre. E, após algumas xícaras de café, finalmente sentiu que era hora de tocar no assunto:

-Como está indo o projeto da fábrica? — perguntou, temendo a resposta.

-Horrível. Já fui em vários terrenos da cidade e até agora nenhum dono quer me vender. Só consegui sondar alguns, mas o espaço é pequeno demais — bufou Gilberto.

-Como assim?

Gilberto abriu uma imagem no computador e virou a tela na direção de Eduardo.

-Todos esses terrenos aqui são bons o suficiente. São grandes, têm um solo muito bom, mas os donos não querem abrir mão deles. Isso tá me deixando sem esperança, porque sem fábrica não conseguiremos — explicou ele.

Eduardo olhou fixamente para a tela do computador de Gilberto, vendo-o passar todos os slides. Ao terminar de ver o último, bufou.

-Poxa Gilberto, se não consegue comprar esses terrenos, por quê não compra uma instalação já pronta? — perguntou ele.

Gilberto ficou confuso.

-Como assim "instalação pronta?" — perguntou ele.

-Sim, tem vários depósitos por aí que estão abandonados porque as empresas fecharam e não puderam mais operar. Podemos comprar algum desses por aí e montamos o carro por lá.

Os olhos de Gilberto se iluminaram.

-Sério? Mas esses depósitos costumam ser caros, não é?

-Sim, mas eu negocio com o dono. É só a gente procurar e escolher. Quando o depósito for escolhido, o resto deixa comigo.

Gilberto pensou por alguns segundos, quase um minuto, antes de responder.

-Fechado, vamos nessa — sorriu ele, arrancando um baita sorriso de Eduardo.

E assim, no dia seguinte, ambos encontraram um galpão abandonado nos arredores da cidade. Ele estava com cheiro de mofo e poeira por dentro, com mato crescendo, janelas quebradas, algumas vigas e até pilares de sustentação mostrando sinais de fraqueza, mas eles não desistiriam. O segundo, mais acabado ainda: não tinha telhado e até ninhos de vespas, ratos e baratas por dentro. O terceiro e o quarto passaram longe de estarem em boas condições, talvez tão precários quanto os dois primeiros. Após um almoço em um restaurante bem movimentado da cidade, eles voltaram e partiram para o quinto galpão, que seria a última tentativa daquele dia.

O quinto galpão, no entanto, era bem melhor. Apesar da poeira e das paredes gastas, não havia sido vandalizado e nem guardava nenhum sinal de insegurança para eles. O local não tinha mais as luzes funcionando, mas ao menos, tinha espaço suficiente para colocar os equipamentos necessários.

-Acho que ainda podemos explorar outros, não é? — perguntou Eduardo.

-Sim, podemos. Mas temos que fazer isso rápido, porque não podemos correr o risco de outro alguém vir aqui e comprar esse depósito antes — respondeu Gilberto.

Eduardo concordou, então ambos saíram e voltaram ao carro. Enquanto dirigia, Gilberto lembrou de algo:

-Estamos correndo atrás de um depósito para construirmos a fábrica. Acho que já podemos pensar em quais pilotos colocaremos nos carros.

Eduardo sorriu.

-Ah, eu sei quem eu vou colocar em um deles — disse ele.

Gilberto ficou surpreso e não escondeu.

-Já tem seu piloto? Quem?

-Gustavo Pereira Martins.

-Aquele piloto da Fórmula 2 e atual campeão da Fórmula 3?

-Esse mesmo. Venho acompanhando a temporada dele e sinto que ele é o piloto certo.

Gilberto, no entanto, não estava tão convencido.

-Tem certeza disso? Eu lembro que pesquisei a temporada dele na Fórmula 3 e vi que ele pode ter dominado a categoria, mas as outras que ele correu na base, não foi tão bem, conseguiu emplacar só no final. E na F2 agora, não está tão bem, é somente o quarto colocado muito longe do top três — respondeu ele.

-Sim, mas eu acho que o Gustavo não tem só velocidade e talento. Ele tem garra. O garoto correu de kart até os oito anos, quando um acidente na última corrida o fez atropelar o bandeirinha quando chacoalhava a bandeira branca. O bandeirinha não morreu, mas Gustavo ficou muito abalado e ficou quase dez anos sem competir e voltou recentemente. Ou seja, ele realmente é o símbolo do Brasil: não desiste nunca.

Impressionado, Gilberto sorriu.

-Bela história de superação. Eu ainda estou correndo atrás de alguns, mas ainda não decidi — disse ele, escondendo a verdade sobre Rafael Tavares.

-E a equipe? Como se chamará? — perguntou Eduardo.

Gilberto pensou por uns instantes, logo abrindo um largo sorriso.

-Vortex Grand Prix.