Futuristiku
3 Tracy Island, Time-Traveling Diamond
Notas iniciais
Eu simplesmente congelei na frente de Astrid, porque, pelo amor de Deus, ela é uma alienígena! Eu nunca tinha visto um alienígena de verdade, minha noção de como um deveria ser não tinha nada a ver com ela, primeiro que ela não era verde, nem careca, seus olhos não são gigantes e ela usa roupas como nós. Se eu não soubesse que ela não é da Terra, nunca desconfiaria dela. Seus cabelos eram loiros quase branco, claríssimos, assim como a sua pele, e seus olhos eram um pouco diferente, quase não dava pra notar, mas eram, eles tinham um brilho diferente, como se tivesse um universo inteiro dentro deles.
— Coral? O que foi? Quem é? — Senti Aiden parando logo atrás de mim e olhando pra ela. — Oi?
Eu me conheço o suficiente pra saber sem ter vivido algo assim que se eu estivesse no lugar dela, teria me diluído de tanta vergonha, como ela ainda consegue ficar parada na nossa frente?
— Olá, sou a Astrid. — Ela repetiu com a voz totalmente neutra e suave.
Ou ela tá achando tudo muito normal, ou tá surtando por dentro com tudo isso mas sabe disfarçar muito bem. Será que ela sente as coisas sentimentais como nós também?
— Você não tá envergonhada? Assim, tá sendo meio constrangedor… — comentei mas parei de falar quando Aiden me interrompeu e me empurrou pra trás.
— Só um instantinho, Astrid, né? Não sai daí — ele terminou de falar e fechou a porta. — É ela?
— Bem, no papelzinho diz Astrid, né? — respondi rapidamente —. Você conhece alguém chamada Astrid ou a conhece?
— E como você pergunta se ela não tem vergonha, garota? Ela poderia queimar a gente vivo só com o olhar. E se ela não gostou do modo como você perguntou e se sentiu ofendida?
— É por isso que perguntei! Queria só saber se ela sente as coisas também, ué. Se ela se sente envergonhada, com medo, insegura. Eu estava pensando isso na hora que perguntei.
— Você deveria improvisar um filtro grosso entre as coisas que você pensar e a sua boca, antes de falar bobagens.
Nisso ele tinha razão, a maioria das vezes eu simplesmente falo, digo o que quer que me venha na cabeça, isso já me deu muitos problemas, mas nunca aprendo a segurar a língua, vou fazer o quê?
Eu estava com a mão na maçaneta quando escutei Aiden perguntando:
— Espera, será que devemos mesmo abrir? E se aqueles caras voltarem?
Tem razão — de novo —, eles poderiam mesmo voltar, e se a vissem aqui e descobrissem que ela veio do espaço, com certeza nós dois iríamos nos dar muito mal, mas, ela se livrou do negócio dela que caiu no meu quintal e disse que limpou a área, ela não colocaria tudo em risco vindo aqui, acho. Antes de responder, olhei pelo vidro embaçado da porta, e ela continuava ali, parada na porta, ela não deve ser perigosa. Suspirei e respondi:
— Bem, no bilhete ela falou que limpou toda a área caso precisasse, ela sabe que podem vir e caso detectem algo, acho que se ela vindo aqui oferecesse algum perigo, ela não viria.
— Será mesmo? Nós nem conhecemos ela.
— Só tem um jeito de conhecer — abri a porta e dei um pequeno sorriso. — Oi de novo, desculpa por isso tudo, vamos começar de novo. Você é Astrid, certo? Me chamo Coral — anunciei estendendo a minha mão pra ela apertar, só que depois me arrependi, e se ela der choque ou algo assim? Mas permaneci com a mão estendida mesmo assim. Ela demorou pra entender que deveria apertar a minha mão, mas logo estendeu a sua também.
— Desculpe eu, eu não estou muito familiarizada com os costumes de vocês. — disse ela rindo de si mesma, o que acabou me fazendo rir também.
— Tudo bem. Ah, esse é o Aiden — indiquei com o polegar ele e abri espaço na porta pra ela entrar. — Quer entrar? Tá meio quente aí fora.
— Oh, obrigada. Está agradável até, mas se é melhor entrar, eu entro.
Nós três entramos em casa, eu me joguei no puf que ficava próximo da porta e falei:
— Pode se sentar a ficar à vontade. Você fala engraçado, é tão formal e usa palavras, tipo, velhas, meus avós falavam como você. — comentei rindo lembrando do jeito que meus avó falavam, ela fala bem como eles.
Aiden me olhou como se quisesse me matar, ele ainda tava de pé, atrás da porta, Astrid se sentou no sofá, ela parecia insegura e desconfortável, eu também estou insegura e desconfortável — e com medo —, porque ela é uma alienígena, pode muito bem nos matar assim que quiser. Será que ela também pensa isso de nós? Meus pensamentos foram interrompidos logo que ela começou a responder:
— Eu não sei muito bem qual é a forma que vocês costumam falar. Minha língua oficial não é a mesma de vocês, então, meu vocabulário é um pouco ilimitado.
— Uma dica: em vez de falar, “estou”, “está”, “estão”, tenta falar “tô”, “tá”, “tão”, assim ninguém vai te achar estranha demais. — olhei pra Aiden, que continuava parado no mesmo lugar, ele ainda me olhava como se eu estivesse perdendo o juízo. — Aiden, dá pra você sentar? Tá me dando nervoso.
— Não, eu vou pra casa, não tô muito bem ainda.
Nossa, a Clarice, ele não me contou o que houve com ele e ela, não parece ter sido nada bom. Olhei direito pra ele e tentei me desculpar sem dizer algo, ele pareceu entender pois deu um pequeno sorriso.
— Depois vou lá, tá?
— Tá, tchau. Tchau, Astrid.
— Tchau.
Silencio, merda, o que eu falo agora? Tem muito o que falar, o que explicar, como, da onde ela veio, o que ela quer, por que caiu do nada no meu quintal e etc.
— Então, você… — parei de falar quando vi Elvis saindo de algum lugar de dentro da casa e subindo no sofá.
Ele começou a lamber a Astrid, seu rabo não parava de balançar, ele tava tão feliz quanto fica feliz quando me vê depois de 10min longe de mim. Fiquei olhando aquilo como se não estivesse acontecendo, Astrid fazia carinho nele, e, ah, para.
— Elvis, para com isso, vem aqui. — ordenei com a voz carregada de ciúme.
— Pode deixá-lo. Os cachorros vêm de onde vim também, sabia? — devo ter feito uma cara bem impressionada pois ela riu e continuou. — Sim, ele vêm. Todos eles, eles são de fora e de dentro Terra ao mesmo tempo, mas a sua força maior vem do nosso lar. Antes de tudo, nós os enviamos para cá, para guiar vocês e estarem ao lado de vocês quando tudo parecer perdido.
Quando ela disse isso, me lembrei de todas às vezes que meu mundo tava desabando e tudo parecia perdido, o único além de Aiden que tava comigo, era Elvis. Cachorros até então eram como anjos pra mim, sempre lá do seu lado pro que der e vier, não importa se você é gordo, magro, alto, baixo, negro, amarelo, branco, rico ou pobre, eles sempre vão te amar incondicionalmente se você der carinho e amor a eles. E por isso ele tá todo feliz por ter encontrado ela aqui, tá agindo como se eles se conhecessem, porque de fato se conhecem.
Depois que Elvis se acalmou, e quietou no sofá do lado de Astrid, falei:
— Elvis, sua dona sou eu, tá? Você ainda lembra disso? Que bom. Enfim, Astrid, falando nisso tudo, por que você tá aqui?
Eu tava me corroendo por dentro pra saber de tudo, então, chega de enrolar, quero saber de tudo. Astrid passou a mão na cabeça de Elvis e se arrastou pelo sofá até sentar no chão, assim ficamos mais próximas, nossos olhares estavam quase no mesmo nível. Sorri por ela ter feito isso e ela começou:
— Então…
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