Futuristiku

4 Look into my eyes, it's Where my Demons hide


Notas iniciais
E aí õ/

— Eu vou começar do começo, tudo bem? — Astrid perguntou.

Apenas balanço a cabeça assentindo.

Ela tava demorando pra responder, parecia estar escolhendo um jeito melhor de começar, ou escolhendo as palavras certas, parecia estar tendo um conflito interno, mas seu rosto continuava sereno.

— Primeiro me diz tudo que você sabe sobre alienígenas.

Tudo que eu sei? Porra, eu não sei nada, mano, nem sabia que vocês existiam. Pensei muito em responder isso, mas a voz de Aiden falando pra eu inventar um filtro ao dizer o que vinha da minha cabeça, me impediu de dizer isso. Pensei num jeito melhor de dizer isso e respondi:

— Não sei muita coisa, antes de vocês entrarem em contato, era tudo bem incerto, tinha gente que acreditava, outros que não…

— Você acreditava? — Ela me interrompeu perguntando com a voz cheia de esperança em ouvir um “sim”.

— Sim, por que só a Terra teria que ter vida? Entre tantos planetas, sistemas, galaxias, por que só a Terra, no sistema solar inteiro, na Via-Láctea inteira, que teria que existir vida, né?

— Tem razão. Então, existe, sim outras vidas sem ser na Terra, há diversas raças. Por exemplo, imagine cada país do seu planeta, todos eles tem um líder, um presidente, certo? — concordei com a cabeça e ela continuou: — É assim que funciona nas outras colônias, cada galáxias tem um líder…

— Você vem de qual? —interrompi sem querer. — Desculpa interromper é que se eu não perguntasse agora, esqueceria.

— Tudo bem, vim de dentro da Cosmos Redshift 7. Todos os lideres juntos, eram responsáveis pela Terra, vocês eram um projeto, o irmão caçula de todos eles. Eu não sei muito sobre, só o que nos falavam, e não éramos muito informados sobre vocês, sabíamos que vocês existiam, era só isso, nada demais, mas eu sempre achei interessante as lendas que contavam sobre aqui, sobre seus sentimentos fortes, almas gêmeas, amor verdadeiro. — ela parou de falar quando olhou pra mim assim que franzi o cenho.

— Não entendi essa última parte, você falou de um jeito engraçado.

— O quê? Sobre o quê?

— O que contavam lá sobre aqui? Falavam o que dos nossos sentimentos e amores?

— Ah, sim. Na escola, e em casa, os adultos, professores, contam que num lugar bem, bem distante, querendo dizer da Terra, que existem humanos, e que eles se relacionam pelos seus sentimentos, há muitas histórias sobre paixão, amor e coisas do tipo. Eu não lembro nenhuma agora, porque eu era muito nova quando me contaram, mas são bem famosas por lá.

Era isso mesmo? Ela e eles acham que o amor não existe? Eles não tem amor? Como assim?

— E você acredita? — perguntei exatamente da mesma forma que ela tinha me perguntado se eu acreditava se existia vida fora da Terra, mas diferente dela, eu espero ouvir um “não”.

— Que o amor existe? Não. — ela respondeu rindo mas após perceber que ria sozinha, parou. — O amor existe aqui? Vocês acreditam mesmo? — ela perguntou, mas senti como se ela estivesse zombando de nós e de mim por talvez existir mesmo a possibilidade de existir.

Pensei em tudo que eu vivi, na minha mãe que me criou sozinha até meus 18 anos, se ela não me amasse, nunca teria se submetido a passar por todo sufoco que passou, pensei em mim e em tudo que senti ao vê-la morrer na minha frente naquele supermercado, se eu não a amasse, nunca teria sentido tudo que senti, não sentiria sua falta todos os dias da minha vida, pensei também em Aiden que desde quando me conheço por gente, ele tá do meu lado, nas alegrias, nas tristezas, vitórias, derrotas, não importa o momento, ele tá sempre comigo e eu com ele, e eu o amo, amava e amo a minha mãe, amo Elvis, esse serzinho que todos têm medo mas que é mais bobão que um chihuahua, então, sim, o amor existe aqui, e em todo lugar daqui, sem o amor, nada de bom seria possível, e pra amar, precisa acreditar nele, por isso respondi:

— Sim, é claro que o amor existe aqui, em todo lugar deveria existir e todos deveriam acreditar nele. Eu acredito, mas muitas pessoas não, e são essas pessoas as mais perdidas no mundo, as que mais causam tragédias, guerras, são as mais infelizes. Se não fosse o amor, o mundo seria um lugar horrível. Não existiria nada, se não fosse o amor.
Astrid ficou me fitando por vários segundos, parecia meio incrédula ainda sim.

— Este brilho no seu olhar, esta forma como você disse tudo, confiante, é exatamente do jeito que descrevem os humanos em algumas das histórias que eu ouvia. Vocês são ingênuos demais, deixam as emoções dominarem vocês. Da onde eu vim, é um lugar totalmente pacifico e ninguém se ama, não existe amor, Coral, isso é só uma justificativa para tais necessidades de vocês.

Eu estou me sentindo exatamente como quando ouço alguém falar que irei pro inferno por ser homossexual.

— Eu estou me sentindo exatamente como quando ouço alguém falar que irei pro inferno por ser homossexual. — digo sem perceber.

Astrid dá uma risada e diz:

— Ah, Coral, o inferno também não existe.

Continuo olhando-a assustada.

— Não estou gostando da forma como me olha, você não me olhou assim nem quando soube que eu não era humana.

Tento melhorar minha expressão e balanço a cabeça.

— Desculpa, é que é estranho. Enfim, vamos esquecer isso, fica com o seu racionalismo e eu com meu sentimentalismo, fechou?

Uma expressão totalmente de duvida se formou no rosto de Astrid, ela fez uma careca louca engraçada e perguntou:

— O que fechou?

Soltei completamente a risada que eu tava tentando manter presa, tadinha, parece um gringo que não sabe as gírias, bem, ela não deixa de ser uma, né. Quando eu me acalmo um pouco, respondo:

— Nada fechou, perguntei pra confirmar se, ahn, como vou explicar de uma forma que você possa entender? Como se tivéssemos um acordo, sabe? Você fica com o seu racionalismo e eu com meu sentimentalismo, temos um acordo?

— Ah, sim. Entendi, fechou o acordo então!

Comecei a rir de novo.

— Não, não, só fechou.

— Fechou.

— Isso aí. Agora continua contando, a gente encheu tanto a linguiça que ainda não sei o que você tá fazendo aqui, por que veio, o que quer fazer aqui.

Astrid concordou e falou:

— Eu não entendi a parte que enchemos a linguiça, mas vou continuar.

Me levantei do puf e a interrompi:

— Espera um pouco, tá com sede? Quer água, coca-cola, cerveja? Vocês bebem essas coisas?

Astrid levantou também do chão e assentiu.

— Nós vivemos como vocês, Coral, não exatamente como vocês, mas bebemos, comemos, temos vidas sociais. E aceito uma água, obrigada.

Ando até a cozinha que tá uma completa bagunça de louças, comidas, um caos, e pego dois copos limpos pra gente. Coloco água em um e coca no outro. Astrid apenas me observa fazendo tudo, é meio constrangedor e irritante, mas tento ignorar.

— Que liquido preto é este? — ela pergunta se aproximando de mim.

Dou o copo de água pra ela e levanto o meu pra perguntar:

— Esse? — ela apenas assente antes de beber a sua água. — Coca-cola, eu te ofereci.

— Eu sei, mas não sabia o que era, por isso neguei.

— Nossa, cada vez mais o lugar que você veio parece chato, ainda bem que você tá sendo legalzinha.

Observo Astrid beber a água inteira e responder:

— Legalzinha é algo bom?

Dou uma risada, e digo:

— É sim, fica tranquila. Agora que molhou a garganta, conta tudo.

Voltamos pra sala, sentamos, ela me fez explicar o que era coca-cola, refrigerante, bebidas alcoólicas e seus efeitos, até finalmente começar a falar o que eu queria saber.

— Somente os lideres das colônias tinham total conhecimento sobre a Terra, os humanos e tudo daqui, pouquíssimas coisas, eles passavam para a sua população. Nem mesmo meu tio, que é um dos homens mais próximos do nosso líder, me passava alguma informação, era tudo muito privado, ainda é, porém com o prazo chegando ao fim, as regras ficaram mais flexíveis. No meu aniversário, eu ganhei aquele transportador que caiu no seu quintal, eu ganhei ele para poder passear e conhecer a Terra de perto, mas eu não soube pilotar na gravidade daqui, aquele transportador é diferente, é manual e eu acabei no seu quintal aquela noite. Eu não quero nada, só queria explorar.

— E onde tá o transportador? Como você limpou a área, porque vieram aqui, sabia? Invadiram a minha casa graças a você e a sua burrice de pilotar algo que não sabe — parei de falar quando notei um pouco de raiva na minha voz.

Uma expressão diferente se formou no rosto de Astrid, uma mistura de susto, medo. Aí eu percebi que ela tinha, sim, emoções. Só não dá pra entender como ela acredita cegamente que o amor não existe. Acho que é como as diversas culturas do nosso planeta, uma diferente da outra. A cultura dela é diferente da minha, simples, a única coisa que posso fazer, é aceitar e respeitar. Ela começou a falar, mas eu nem prestei atenção, merda, foquei nela pra ouvir o que dizia mas ela só disse:

— Está tudo sob controle agora, só tenho um problema.

— Qual?

— Quando eu aterrizei, vazou combustível, não tem o suficiente para eu voltar.

— Tá, e agora?

— Você não tem nenhuma ideia?

Eu?

— Por que eu? Eu sou só uma humana. Lembra do nosso acordo? Parte emocional comigo, racional contigo. — reparei em seus olhos e notei um certo pânico, merda, lá vai meu coração amolecer. — Calma, tá? Vamos dar um jeito.

Eu imaginei o pânico dela em estar presa num outro planeta, com humanos desconhecidos e que podem explanar ela por aí, ela não me conhece, então pode achar que farei algum mal a ela, Deus, que bom que ela não caiu no quintal de algum louco que é contra tudo novo que tá vindo com os aliens, esses crentes fascinados com certeza achariam que ela é do demônio e iria fazer atrocidades.

Chega de viajar, preciso ver o que Aiden acha disso tudo, ele é o cérebro e eu o coração, ele vai saber o que fazer direito. E preciso conversar com ele sobre o que aconteceu mais cedo.

Quando volto a minha atenção pra Astrid, vejo ela e Elvis brincando como se ela fosse a dona dele, que cena idiota.

— Astrid, você não se importa de ficar um pouco sozinha, né? Eu preciso ir na casa daquele meu amigo que tava aqui, lembra? O Aiden, você aguenta as pontas aí?

— Se eu vou ficar bem? Vou sim, não me importo, pode ir.

— Sozinha, tá? Vou levar Elvis comigo. — Dou um sorriso meio irônico enquanto abro a porta e já de fora, assovio pra Elvis vir comigo.

Pelo menos ele vem na mesma hora, parece que ainda sabe que sou a dona dele. Astrid começou a me olhar tão assustada que tava me deixando assustada.

— Eu não demoro nada, prometo.

Ela hesitou em responder mas respondeu quando eu fechei a porta:

— Tudo bem.

Olhei pra baixo e vi Elvis me olhando com aquela cara de quem pede alguma coisa e argh, abro a porta e falo rispidamente:

— Vem.

No mesmo segundo Astrid já tá de pé e correndo pra fora da minha casa. Reviro os olhos, tranco a porta e começo a andar até a casa de Aiden com meus dois bichinhos de estimação

Notas finais
E então? Espero que você esteja gostando. Até mais
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.