Fumaça

1 3h00mim - O fim?


Notas iniciais
Olá. Espero que gostem da história e a acompanhem. Caso tenham curtido este capitulo, se manifeste nos comentário. Se eu tiver alguma resposta terei o enorme prazer de continua-la.

Tenho outras fics , então entrem no meu perfil e deem uma olhada.

Obrigada e boa leitura

O vento frio acaricia minha pele e desalinha meus cabelos. Daqui de cima, tudo parece tão pequeno e insignificante. Apenas ínfimos pontos de luz na escuridão gélida da noite. Carros, pessoas, casas, tudo reduzido ao tamanho de formigas. Exatamente do jeito que me fizeram sentir a vida inteira. Esses ilustres estranhos caminham como bois para o abate, tão indiferentes, tão apáticos. Seus dias, sucedendo dias num ciclo monótono e sem brilho. Saem desse transe apenas para destruir. Nada como uma pessoa indefesa para quebrar a rotina. E nessa roda, pessoas como eu são sempre o alvo. Pessoas sozinhas e frágeis, produto do ódio alheio. Nunca pensei que chegaria a esse ponto e tampouco pensei que seria aqui. O que é extremamente compreensível, não é comum planejar a própria morte. Normalmente esperamos morrer bem velhinhos ao lado da pessoa que se ama. Bem, esse era meu primeiro plano, mas não deu muito certo. Há coisas que fazemos porque queremos ou precisamos e há outras que fazemos por estarmos completamente desesperados e sem saída. Elas podem envolver mães levantando carros de toneladas para salvar seus filhos, um homem salvar desconhecidos de um incêndio, enfim. E inerente a todas elas, o quesito morte esta geralmente presente. Estou numa situação dessas, menos nobre, é verdade, mas igualmente desesperadora. Provavelmente vou para o inferno (se é que isso realmente existe), ou coisa parecida. Suicidas não são muito bem vistos. E em parte concordo com a má reputação. Somos covardes, mas não nos deixaram outra saída. Minha mãe sempre disse que devemos enxergar o lado bom dos momentos. Nesse exato momento, em cima de um prédio e prestes a me jogar, a única coisa que posso tirar de bom é a paisagem. Daqui tudo parece calmo e sereno. O céu noturno sempre me fascinou. Quando eu era bem pequena, eu e meu pai fomos ao Observatório Monte Wilson. Provavelmente foi o melhor dia da minha vida. A noite estava clara e o céu limpo, perfeito para observação das estrelas. Mesmo como o crescimento de Los Angeles, ainda era possível desfrutar da experiência de se sentir mais próximo do “infinito”. Mais do que isso, eu estava com meu pai. Apenas eu e ele, aproveitando o momento juntos. Lembro como se fosse hoje, quando ele me mostrou a estrela mais brilhante do céu e disse:

- Holly , este é seu presente de aniversário. Mesmo que fiquemos longe um do outro algum dia, você poderá olhar para ela e saber que estou pensando em você.

Mesmo depois da morte dele, essa noite nunca saiu da minha cabeça. E foi em grande parte por ela que consegui seguir em frente mesmo com a perda. Parecia que de alguma forma ele sabia o que ia acontecer. Ele foi assassinado em um assalto. A pessoa mais importante da minha vida foi levada de mim por causa de um carro. Tiro na cabeça, sangue, tristeza, lágrimas, tudo isso demorou muito até descer rasgando pela minha garganta. Não aceitei, nem me recuperei, apenas continuei. Sou filha única e precisava consolar a minha mãe. Ela se chamava Zoe e era belíssima. Alta, esbelta e elegante. Tinha longos cabelos negros e a pele branca como mármore. Possuía uma pinta que lembrava vagamente um coração, meu pai amava isso. Herdei essa marca. Na escola adorava mostrar para todo mundo. Meu pai, George, ao contrario, trazia uma pele caramelo e parecia aveludada. Também lindo, possuía o sorriso mais contagiante da terra. Era o casal perfeito. Enfim, depois do assassinato minha mãe começou a definhar. Não comia nem dormia e passou a beber constantemente. Até que não aguentou mais e num dia ensolarado, encontrei-a no seu quarto aparentemente dormindo, mas ao seu lado estava um frasco de remédios vazio. Suicidara-se. Então levei mais esse soco da vida. Pouco menos de um mês da morte do meu pai, minha mãe também se vai. Simplesmente surtei. Fui contida e medicada. Fiquei assim, parecendo uma múmia, por longos meses. Novamente, não aceitei nem me recuperei, apenas continuei. Eu ainda era menor de idade, então fiquei com minha tia materna, Ruth. Foram anos bem difíceis. Ela também estava devastada, eu perdera minha mãe e ela a única irmã. Diferente de quando eu ia passar as férias na casa dela, tudo estava sombrio e triste. Tia Ruth fazia o máximo para tentar me animar, mas ela mesma estava destruída. Como eu disse suicidas não são muito bem vistos. Sendo assim, fiquei tachada como a filha da “maluca suicida”, da mãe “relapsa que não aguentou cuidar de sua filha sozinha”. Pessoas são cruéis e isso é fato. Eles não tinham a noção do amor descomunal que minha mãe sentia por meu pai. Na verdade, ela já estava morta. O suicídio só deixou mais claro. Sentada aqui, na beira do edifício mais alto que encontrei, percebo que nunca a odiei ou coisa parecida. Eu sabia que aquilo tinha sido demais para ela. Cresci, sai da casa de Tia Ruth e me mudei para NY. Pensei que saindo de Los Angeles meus fantasmas passados poderiam me dar algum tipo de alivio. Momentaneamente até deu certo, mudar de ares ajuda bastante. Todavia, essa cidade movimentada e barulhenta, esta “selva de pedras” me fez perceber o quanto eu estava sozinha. Sem um amigo, um companheiro... Sem amor. Nunca tive muitos amigos, é verdade, mas agora eu estava completamente sozinha. Ia da biblioteca, aonde trabalhava, para casa. Nada mais. Ficava horas vendo rostos juvenis e alegres em grandes grupos atrás de livros para pesquisa me fazendo lembrar a adolescência “alegre” que nunca tive. Fora isso, ainda tinha a vaca da Stacy , outra menina que trabalhava comigo, que era a pessoa mais detestável que eu conhecera nos meus poucos 25 anos de vida. Implicava com meu jeito quieto , fazendo piadinhas sem graça que só faziam sentido naquela cabeça oxigenada dela. Eu poderia ferrar com a Stacy. Ela não tinha ideia que eu sabia das escapadinhas dela para o banheiro. Ia toda à tarde para lá encontrar seu namoradinho Trevis para transar. Sujeito terrível e machista. Perdi as contas de quantas vezes tentará me beijar enquanto esperava Stacy chegar. Eles se mereciam. Eu a odiava, mas não tinha as forças necessárias para denuncia-la. Ela que trepe com esse mação nojento, pelo menos enquanto faz isso não fica no meu caminho enchendo a paciência. Enfim, minha vida é uma merda. Perdi meus pais, tenho um lixo de emprego, estou rodeado de pessoas podres e não vejo mais sentido para continuar. Há pessoas que vivem e há pessoas, como eu, que apenas existem. São um peso morto na face da terra. E está na hora de dar um fim nisso tudo.

Levanto e encaro a queda que me espera. Novamente a fria brisa balança meus cabelos.Um frio percorre minha espinha, mas nada tem haver com o vento. Abro os braços, fecho os olhos e inspiro fundo. Nesse exato, poucos segundo antes de pular de encontro à morte, alguém, por entre as sombras diz:

- Se eu fosse você não faria isso. – uma voz masculina, vinda da escuridão.

Notas finais
Hey, gostaram? Digam ai nos comentário !

Até o próximo capitulo o