Fumaça
2 4h00min - Fumaça
Notas iniciais
Passado o sobressalto, a primeira coisa que vi foi a fumaça do cigarro. Lentamente , a pessoa encoberta pelas sombras foi ficando visível. Sentou-se na margem do prédio e ficou me olhando. Era um garoto magro, branquíssimo, vestindo camiseta branca e calça preta. E claro , trazia na boca um cigarro.
– Sabe , cair dai não deve ser nada bom. — disse , olhando para a enorme queda que me aguardava. — E tá bem frio.
– Saia daqui ! — disse eu , ainda a beira do prédio. — Você não tem nada a ver com isso!
– Já é péssimo cair , imagina cair contra um chão frio , num dia frio. É como bater o dedinho do pé na quina da mesa. — jogou o cigarro no chão e em seguida, pisou nele para apagar. — Pense agora nisso, multiplicado por mil . Nossa, deve ser terrível.
– Você é surdo? Saia daqui ! — gritei — Não quero saber de nada disso. Não me importo ! E de qualquer forma , vou morrer na hora. Não vai haver dor ... — disse eu , querendo acreditar no que dizia.
– Como pode ter certeza? Quem sabe você acabe caindo em cima de algum daqueles toldos ou em cima de alguém ... Sabe , isso vai doer bastante e pode acabar machucando alguém. E pode ser que nem morra , ou pelo menos , não imediatamente, e fique sofrendo por horas... Essas coisas acontecem — acendeu mais um cigarro e encarrou-me — A dor que você vai sentir não sai da minha cabeça. Deve ser péssimo.
– Pare de dizer que é péssimo, pare de falar de dor ! O que você sabe sobre quedas? — eu já falava em um tom menos agressivo.
– Você tem razão , não sei nada sobre quedas. — novamente jogou fora o cigarro. — Sabe de uma coisa? Vou experimentar com você!
Dizendo isso , levantou-se e veio em minha direção. Por mais que estivesse receosa das reais intenções do desconhecido , permaneci imóvel. Juntou-se a mim à beira do prédio . Ao meu lado, à luz da iluminação dos edifícios vizinhos , pude enxergar seu rosto . A situação em que me encontrava não era exatamente apropriada para divagações sobre a beleza do moço , mas eu não pude deixar de notar . Ele era definitivamente lindo . E o que mais chamou a minha atenção foram seus olhos azuis.
– O que está fazendo? — perguntei . — Saia daqui !
– Aprendendo sobre quedas, ora. — sorriu levemente , olhando para mim.
– Nem pense em pular . Tudo isso só tem a ver comigo. — pus meu braço em frente a seu peito. — Não quero levar na consciência a morte de alguém .
– Que diferença isso faz? — afastou meu braço .
– Isso é loucura ! Não entendo , o que quer com tudo isso? — disse eu. — Você é só um desconhecido .
– Para falar a verdade , não sei. — novamente sorriu para mim . — Quer pular ainda ou mudou de ideia?
– Não vou pular com você aqui ! — agarrei seu braço e o fiz descer comigo da beira do prédio. — O que você quer?
– Nossa, ainda bem que você não pulou! Sabe , eu não estava muito feliz por ter que me estatelar no chão ... — pegou outro cigarro e recomeçou a fumar. — No momento , quero um café . Vem comigo?
– Você é completamente louco . — encarrei-o — Não percebe que isso é algo sério? Como pode ter se intrometido?
– Você me chama de louco, mas era a senhorita que estava quase se jogando de uma altura imensa ! — disse , rindo. — Eai, vamos ? Estou morrendo de frio!
– Nem sei seu nome, nem nada, como posso ter certeza se você não é um assassino?
– Para uma suicida você está muito preocupada com a vida. — disse — A propósito , eu me chamo Taylor . — estendeu a mão.
– Tem razão . O que tenho a perder? — apertei a mão estendida — Eu me chamo Holly .
– Então , Holly , aceita ou não o café? — ainda segurava minha mão.
– Claro , vamos.
Eu não conhecia aquele garoto, mas ele acabara de salvar minha vida.
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