Fuckin' Perfect
23 Morfina
Notas iniciais
Ela estava linda. Mais linda que o comum. Os cabelos ruivos exibiam pequenas ondas nas pontas. O vestido era branco e comprido, todo coberto por rendas. Os braços e o decote tinham rendas graciosas, que davam um ar romântico. Uma coroa de flores enfeitava sua cabeça. O véu caia para trás, o vento fazendo-o esvoaçar. Sua pele apresentavam pouca maquiagem, mas o suficiente para aliviar as olheiras e os hematomas roxos.
Jennifer estava maravilhosa.
Ela vinha de braço dado ao pai, com um sorriso no rosto, um brilho no olhar iluminador. Eu via a cena acontecendo em câmera lenta, tendo certeza que dali 50 anos eu iria ver a cena novamente, exatamente como estava acontecendo naquele instante, aí eu ia sorrir, pensando que eu não podia ter feito uma melhor escolha em minha vida.
Troquei o peso de um pé para o outro, ansioso. Seus olhos verdes estavam presos nos meus azuis, fixados um no outro, porque eu sabia, sabia que nos pertencíamos. Seu sorriso era o mais lindo já visto. O momento era infinito. Cada vez mais e mais ela estava perto. A música A Thousand Years da Christina Perri tocava, o que não ajudava muito com meus sentimentos.
Jenn chegou. O pai segurou as mãos dela, tinha os olhos marejados. Me fitou rapidamente, então voltou a olha-la, assentiu com a cabeça, com uma lágrima escorrendo. Beijou a testa dela e me entregou sua querida, seu anjo, sua filha.
Sorri para ela, Jenn sorriu para mim.
O pastor começou a falar do verdadeiro amor, o amor entre o homem e a mulher, o amor para Deus, o amor que nos unia, o amor para sempre. Eu sentia meu coração batendo apertado no peito, sentia uma felicidade unica, arrebatadora. Mal sentia o chão aos meus pés, de tão focado no cheiro doce de Jenn ao meu lado, de tão focado nas palavras bonitas que o pastor falava. Era um instante único, curto, que duraria segundos, minutos, mas que para sempre existiria nas minhas lembranças. Eu era o cara mais sortudo e dava valor a isso.
O pastor passou a palavra para mim. Eu respirei fundo. Jenn me olhava com interesse.
–- Eu acredito que na vida de todo mundo há algumas janelas por aí. Quando Jennifer Hollys Winters decidiu entrar na minha, ela acabou entrando em meu coração também e eu posso garantir que não fiz coisa melhor do que abri-lo para ela. Em dois meses, aprendi com Jennifer a viver, a ser feliz, a não se importar com os limites. Aprendi que onde há amor, há os melhores momentos. E eu sou muito grato a você por isso. -- Peguei as mãos dela. -- Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.
Jenn riu, com as lágrimas caindo, rolando por sua face.
–- Quando vi Logan Grey pela primeira vez, eu soube que de alguma forma a alma dele estava cruzada com a minha. Quando vi o primeiro sorriso que soltou, eu tive certeza: era ele. Era ele que eu queria comigo, era ele quem eu teria que dividir meus momentos, dividir loucuras. Seu sorriso era bonito e eu tinha que vê-lo e fazê-lo liberta-los todos os dias de minha vida, porque eu estava apaixonada. Porque, Logan Grey, eu sempre quis me casar com você -- ela riu, apertando mais sua mão na minha, quente, macia. -- Prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida.
O pastor juntou as mãos.
–- Confirme o Senhor, benignamente, o consentimento que manifestastes perante a sua Igreja, e Se digne enriquecer-vos com a sua bênção. Não separe o homem o que Deus uniu.
Peguei a mão de Jenn, seu dedo anelar esquerdo com extrema delicadeza, carinho. Fui encaixando a aliança, nos unindo, nos unificando de uma outra maneira.
–- Recebe esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Jenn pegou minha mão, meu dedo anelar e encaixou a aliança ali.
–- Recebe esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo -- arqueou a sobrancelha, sorrindo.
–- E eu os declaro marido e mulher -- falou o pastor.
Um uivo de alegria se fez ouvir atrás da gente. Flashes de câmeras batiam em nós. Agarrei Jenn, apertando sua cintura, envolvendo nossas bocas, beijando-a ardentemente. Ela passou os braços em volta do meu pescoço, apertando nossos corpos. Eu nunca antes tinha estado tão feliz assim antes.
On Top Of The World começou a tocar, enquanto corríamos juntos na passarela rodeada de pessoas. Todos jogavam flores em nós, batendo palmas, assobiando. Um vento forte batia ali, porque literalmente estávamos no topo do mundo. Os convidados começaram a se levantar, abraçaram nós, nos desejaram felicidades.
A vista era simplesmente maravilhosa. O sol começava a se pôr, jogando em nós sua luz alaranjada, tornando tudo mais perfeito, mais fascinante. Eu não podia imaginar momento melhor para o fim da cerimônia.
Em retrospecto, eu viveria para sempre naquele instante.
A festa se passou calmamente. Jenn e eu ficamos sentados em nossa mesa, enquanto as outras eram servidas, o Buffet era distribuído. Eu dava comida na boca de Jenn, que fazia birra para não comer, que me mordia na bochecha depois de cada engolida.
–- Eu sabia, marido -- falou, de repente.
–- Sabia o quê, esposa?
Ela sorriu, revirando a comida no prato com a colher.
–- Que eu ia me casar com você.
–- Desde quando? -- sussurrei em seu ouvido.
–- Desde que te vi, simplesmente sabia.
~~~ // ~~~
Um chalé em Ophelia. Uma lareira com o fogo estralando. Uma cama quentinha. O vento batendo na janela. Nossas mãos entrelaçadas. Nossos pés se tocando. A Pillow Of Winds tocando no Toca Discos ao lado da cama.
–– And deep beneath the ground
The early morning sounds
And I go down–- cantarolou.
–- Sleepy time, and I lie
With my love by my side
And she's breathing low–- acompanhei
–- And I rise, like a bird
In the haze, when the first rays
Touch the sky
–- And the night wings die -- finalizei. Beijei a face de Jenn, me demorando um pouquinho.
–- Estou com tanto sono -- falou.
–- Sei disso. Você está há horas acordada. Bateu o recorde dos últimos dias.
–- Sinto muito.
–- Por?
–- Por ter te feito me amar. Por estar morrendo. Por apenas dormir e não ter tempo. Por te machucar.
Um nó se formou em minha garganta.
–- Não está me machucando, você me faz feliz. Você se casou comigo. Eu te amo.
–- Estou te machucando sim e fico mal por isso. Eu quero que quando eu partir, você conheça outra pessoa, quero que você seja feliz, quero que viva.
–- Não pode me pedir isso.
–- Por favor.
Senti uma lágrima escorrer quente. Os olhos de Jenn flagravam, pequenos, cansados, reflexivos. Olhando neles, eu conseguia ler sua alma. A dor, a sinceridade, o amor.
–- Estou tentando ser forte, mas se você cair, eu desabo. Se você chorar, eu... fico pior. Não faça isso comigo -- continuou. Ela fechou os olhos, apertando-os com força. Voltou a abri-los.
–- Eu sorri 1.500 vezes antes de perder a conta, Jenn -- segurei a ponta do queixo dela. -- Porque eu te amo.
Ela riu e soltou um soluço, o rosto sendo invadido pelas lágrimas.
–- Eu amo você também -- respondeu baixinho. -- Eu só não quero te ver infeliz. Você é meu marido até a morte nos separar. Depois você tem que seguir em frente.
–- Não me diga o que fazer depois -- rebati..
–- Me prometa que vai ficar bem -- sussurrou.
–- Não, não posso.
–- Prometa.
–- Jenn...
–- Prometa!
A odiei naquele momento, a odiei tanto que a amava.
–- Prometo -- respondi culposamente.
Ela sorriu.
–- Você é um amor, Grey -- bocejou. -- Dá para acreditar que agora eu sou a Sra. Grey?!
E dormiu.
~~~ // ~~~
No segundo dia de nossa estadia no chalé, uma enfermeira apareceu. Não posso dizer que estava surpreso. O prazo de Jenn se resumia a uma semana e eu sabia que o médico dela havia avisado que mandaria uma enfermeira.
A enfermeira era uma mulher de uns 30 anos, cabelos curtos, castanhos, olhos da mesma cor, baixa.
Jenn estava sempre dormindo. Eu sei que quando se pensa em alguém dormindo, pensa nela calma, relaxada, tranquila, bonita. Mas não era assim que Jenn ficava/estava. Com certeza bonita, porque ela era de qualquer jeito, mas nunca tranquila. Sua pele estava tão pálida e de tão pálida, arroxeada. Havia hematomas. Sua barriga estava inchada. Olheiras em seus olhos. Seu cabelo havia perdido o brilho. Ela sentia um frio descomunal e toda vez que estava dormindo, parecia estar definhando ao mesmo tempo. Aquilo acabava comigo. Não parecia justo uma garota de 17 estar passando por aquilo, não parecia justo eu perder a pessoa que eu mais amava e não parecia justo uma vida durar tão pouco.
Por Jenn dormir quase o dia todo, a enfermeira ficou o tempo todo ali. O que era bem estranho. Geralmente eu ficava deitado junto com Jenn, lia um livro, ouvia músicas, gastava o tempo desenhando mangás ou assistindo filmes. Eu gostava do tédio, era acolhedor. Mas não mais era quando Jenn estava ali, acordada, no tédio comigo.
Quando Jenn acordou, as duas começaram a conversar, mas eu não fui chamado. Eu sabia que era uma conversa sobre O Depois, sabia que seria difícil. Sabia. Em vez disso, só me encostei na porta, sentindo a madeira fria tocar em mim, o assoalho acariciar meus pés. Fiquei ouvindo os sussurros, sentindo uma dor no peito, uma tristeza desgraçada.
–- Jennifer, agora que você acordou, o médico está a caminho. Vai trazer alguns aparelhos, por favor, não se assuste. E dependendo, vai aumentar sua dosagem de morfina. Tudo que queremos é que A Sua Passagem seja a mais tranquila, possível, tudo bem? Você aguentou bem, teve tantas forças, até duas semanas atrás estava de pé, um mês atrás estava vivendo tranquilamente. É que é meio irônico, parece que se descobrir é pior. Enfim, vou ficar aqui a partir de agora, o médico vai vir imediatamente sempre que necessário e esperamos e vamos fazer o possível para que você sinta algum alívio em tudo isso.
Então era aquilo. O fim estava decretado. Estavam preparando Jenn. Preparando-a para morrer. Aumentando os anestésicos, ligando-a a maquinas. Tudo para morrer sofrendo menos. Tudo para que não sentisse tanta dor.
As lágrimas caíam dos meus olhos, pingavam no chão. Eu sentia meu nariz entupir. A garganta se fechar. Meu corpo todo tremer.
Era aquela a lua de mel dela. Se preparar para morrer.
Solucei baixinho.
–- O.k. Quero que Logan esteja segurando minha mão na hora. Quero que a última coisa que eu sinta seja a minha mão na dele -- respondeu com a voz falha, cansada, dolorosa.
–- Tudo bem, querida -- assentiu a enfermeira.
Alguns minutos depois, o médico chegou. Abri a porta para ele e o acompanhei até o quarto.
–- Olá, Jenny -- falou, abrindo a maleta. -- Vamos tirar um pouco de sangue?
Jenn não respondeu, de braços cruzados na cama.
O médico retirou sangue. Escutou os batimentos. Perguntou de 10 a 0, o quanto de dor ela andava sentindo. Injetou uma dose maior de morfina. Ligou-a a máquinas. Anotou coisas no prontuário de Jenn e terminou devolvendo as coisas a maleta.
–- Perguntar se houve alguma melhora seria uma pergunta idiota -- murmurou ela.
O médico soltou o ar suavemente, talvez procurando as palavras certas.
–- Não, não, você tem direito de ter esperanças, mas eu seria um mentiroso se te desse alguma -- respondeu. -- E eu não quero te decepcionar.
Cruzei meus braços, alisando-os. Eu queria parecer forte, parecer estar assimilando bem, mas era tão difícil. Eu nunca tinha sido bom em perder coisas que eu amava.
Me lembro quando eu tinha 6 anos, meu cachorro entrou em frente a um carro. A pancada havia sido tão forte, que ele ficou dois dias no veterinário, só morrendo à noite. Durante o período em que ele ainda estava lá, vivo, eu simplesmente havia acampado do lado de fora do consultório, esperando por notícias. Quando ele morreu, chorei semanas inteiras, enterrei ele no quintal, fiz memorial. Acho que foi a primeira vez que eu tinha perdido algo e a primeira vez que eu me senti tão triste, percebendo que nem tudo era eterno, o que só me serviu para me deixar mais revoltado. Eu queria que as coisas durassem para sempre. Se eu as amava, elas não tinham que acabar.
Fiquei fitando os pés, com lágrimas nos olhos. Ao erguê-los, Jenn me olhava. Ela me deu um sorriso fraco, como se voltasse a se desculpar, e eu apenas a olhei, pensando no quanto a amava e no quanto o nosso infinito estava prestes a se acabar. Mas aí eu me lembrei que nosso para sempre podia durar enquanto eu vivesse também e aí onde ela quer que ela estivesse, eu esperava que ela visse que o nosso para sempre, era para sempre, era eterno, literalmente, porque eu a amava infinitamente, pelo menos enquanto eu estivesse vivo. Faz sentindo? Pra mim faz.
Acompanhei o médico até a porta. Fechei-a. Voltei para o quarto e a enfermeira ainda estava lá, falando coisas baixinho. Ela ergueu a cabeça quando me viu e saiu do quarto.
–- Oi, amor -- sorri.
–- Ei -- sussurrou.
Fiquei olhando-a, capaz de fazer aquilo para sempre.
Soltei o ar com força, pensativo.
–- Vou contar uma piada: O que o abacaxi falou pra berinjela?
Jenn abriu um sorriso de canto.
–- Eu sou amarelo e tenho uma coroa natural?
Mordi o lábio inferior, caminhando até a cama.
–- Nada, abacaxi não fala -- soltei uma risada da minha própria idiotice e me sentei na ponta da cama.
Ela riu, fraca.
–- Você é idiota -- afirmou.
Sorri.
–- Sei disso. Seu idiota -- ergui a mão, apontando para a aliança. -- Para sempre.
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