Notas iniciais
Olá, preparem os lencinhos muahahaha (risada maligna) Deem play nas músicas: Its Flurke - Tiago Iorc, Asleep - The Smiths e Moments - One Direction Enfim, gente, não vou falar muito, apenas agradecer a todos os comentários, são tão lindos! Obrigada mesmo :3 Boa leitura e até embaixo

(Moments), (Its Flurke), (Asleep)

— Me lembro de quando eu soube que Oliver morreu — Jenn abraçava os cobertores, com um copo de chá na mão. — Inverno de 2011, frio pra cacete. Eu estava sentada no parapeito da minha janela, quando meu pai entrou no meu quarto e me abraçou, disse que sentia muito. Eu soube na hora. Foi estranho. Quero dizer, não tínhamos nem chegado a trocar mais do que um ou dois beijos. Mas eu gostava dele. Eu estava saindo do hospital, estava melhor e ele só piorava, parecia sentir tanta, tanta dor — ela deu uma risada dolorosa, triste. — Agora eu sei a dor que ele sentiu antes de descansar em paz. Daí um belo dia no meio do verão ele foi embora pra França e no inverno eu soube que ele nunca mais voltaria. Foi péssimo.

Eu estava sentado na cama, de pernas cruzadas, apenas de cueca, processando as palavras, de cabeça baixa. Segurava o copo com força, o cheiro doce do chocolate quente invadindo meu nariz. Atrás de mim, o fogo crepitava na lareira, o que era mais um objeto de decoração, considerando o aquecedor.

— Ele costumava dizer que quando partisse iria entrar num mundo em que Mangás seria o prêmio de consolação dele por ter morrido virgem — ela riu. — É incrível que mesmo com o pé na cova as pessoas não deixam de serem idiotas.

— É, mangá é legal. Hentai, sabe. Punhetas eternas — crispei o lábio, brincando.

Ela riu, revirou os olhos, depois voltou a fitar o lençol, sem mais sorrir.

— Eu não sou do tipo que… é fria. Que não liga de perder as pessoas. Só que… eu vi tanta gente ir embora, morrer, ou simplesmente me deixar porque, você sabe como é, as pessoas são assim. Mas eu acostumei, não dói tanto como antes e eu acho que meio que já sabia que Oliver iria, eu sabia que ele ia partir. — Deu um gole no chá e devolveu o copo para a mesa de cabeceira. — Sabia que não havia esperanças e já havia visto outras pessoas morrerem também, com a nossa doença. Quando você vê o que eu vi, o quanto essas pessoas sofrem, o quanto a gente sofre, você simplesmente sabe que esse descanso é melhor. Não dói tanto quando você pensa dessa maneira. Compreende, Logan?

Eu pisquei.

— Parece lógico — respondi. Dei um meio sorriso, deprimido. — Eu queria estar acostumado.

Jenn sorriu. Dei um gole no meu chocolate quente, senti a ponta da minha língua arder e passei-a pelo céu da boca. Enquanto isso, Jenn havia esquecido os olhos dela nos meus, e eu confesso, adorava isso.

— Sua vez — falou de repente.

— Minha… minha vez… o quê? — franzi o cenho.

— Merda, Logan, me diga que já superou o suficiente para falar sobre isso — a voz de Jenn estava rouca e baixa, cansada. — Christin.

— Ah — fitei o lençol entre minhas pernas. É, ela era passado, muito mais do que isso, pré-histórica. — Sim.

Jenn ergueu levemente o queixo, curiosa.

— Manda — sussurrou.

Ri. nostálgico.

— No dia que iam definir os pares para a aula de química, ela ainda não havia chegado. Acabei ficando sozinho, daí ela chegou. Parecia cansada, maquiagem borrada, cabelo despenteado, selvagem. Acabou ficando como meu par. Ela disse que havia ficado até tarde em uma boate, acabou bebendo muito. Começamos a conversar mais, na quarta aula juntos de química que tivemos, a segunda semana, fomos nos pegar no banheiro e rolou. Algumas semanas depois ela descobriu que estava grávida e começamos a namorar — dei um gole no chocolate quente, observando uma Jenn surpresa. Levantei a sobrancelha. — Provavelmente nem era meu. Me lembro de me prevenir. Só que apenas depois eu fui saber que ela já havia feito aquilo com um monte. Eu só… era um idiota e ela se aproveitou disso, como uma boa esperta. Christin perdeu no terceiro mês e é isso aí, ela terminou comigo e agora é uma piranha de todos não mais grávida.

— Uou — Jenn fez. — Ela não falou exatamente isso quando éramos amigas.

— Falou…?

— Que você não fazia o tipo dela. Que o seu minilogan era mesmo mini. E que você era um idiota — riu. — Mas ela fala isso de todos, relaxa.

Descobri que eu realmente não me importava. Não ligava nada. Era como se eu fosse outra pessoa. Era como se Jenn tivesse me transformado em outra pessoa. Alguém bem melhor.

Comecei a engatinhar na cama. Coloquei meu copo na mesa de cabeceira, me deitei ao lado de Jenn, e me cobri com o edredom até os braços.

— Não estou exatamente surpreso — admiti. — Uma vez piranha, sempre piranha.

Jenn riu, com grande esforço aproximando nossos corpos. Ela arquejou baixinho, com o esforço. No fim, ela ofegava, mas com um sorriso e o rosto junto ao meu.

— Amor, não fale assim — murmurou, fitando meus lábios. — Ela apenas tem a ideia dela de diversão.

— Hm, ela não merece ser defendida — beijei a boca de Jenn fervorosamente que abraçava meu corpo, eu segurando em seus cabelos. Beijei sua bochecha, puxei as cobertas mais para cima trouxe a cabeça de Jenn mais para perto de meu peito, em um gesto protetor. — Vem, vamos dormir.

Jenn suspirou, com a cabeça colada no meu peito.

–- Dormir. Certo -- suspirou. Ela acariciava meu peito, fazendo círculos imaginários com o dedo. -- Seu peito bate, seu coração.

Apaguei o abajur e o quarto caiu num negrume, restando só o laranja avermelhado do fogo. Acariciei o rosto de Jenn.

–- O seu também, sabe -- sussurrei. -- Ritmado.

Ela ficou em silêncio durante vários minutos, fazendo carícias no meu peito, no meu coração.

–- Gosto do som que faz. Esse do coração por estar vivo -- murmurou, a voz doce dela parecia vir distante, de tão baixa, como se de outra dimensão, de um mundo paralelo.

–- Não, por estar vivo não, por você -- sussurrei. Era verdade, porque sem ela, eu não via sentido algum, em ter o meu coração, aquele órgão bombeador de sangue, batendo, apenas por viver.

Não houve resposta. Senti algo escorrer molhado por meu peito e senti algo escorrer molhado dos meus olhos. As lágrimas vinham sem explicação. Sem precisar falar mais nada, apenas estávamos juntos, mas em silêncio, porque parecia que ele conseguia entender. Não havia porque falar nada. Eu vivia por ela, meu coração pulsava por ela. E ela estando ali ou não, acabaria continuando batendo. Minha garganta estava fechada, minha boca seca, e somente continuei soltando aquela água toda, sem fazer nenhum som, com aquele sufoco se formado em meu peito. Desejei pela milésima vez que eu acordasse no outro dia e presenciasse um milagre.

–- Eu te amo, Logan -- segundos, minutos ou horas depois Jenn murmurou, fungando. -- Boa noite.

–- Eu também, Jenn, eu amo você mais do que tudo -- sussurrei e depositei um beijo em sua boca. -- Boa noite.

Ela dormiu. Eu dormi. Como um bebê, para acordar no meio da madrugada.

O esperado acontecendo inesperadamente.

~~~ // ~~~

Passando a mão no espaço ao meu lado, eu sentia que estava frio e vazio, como se há vários minutos estivesse abandonado. Um barulho de água caindo se fazia ouvir não muito distante dali.

–- Jenn? -- chamei baixinho. Silêncio. A escuridão me parecia tenebrosa, solitária. Sentei-me na cama, estiquei o braço e acendi o abajur. A claridade fez meus olhos arderem. Pisquei rapidamente durante poucos segundos, os poucos segundos em que fiquei atordoado, até que joguei o cobertor para o lado, pulei da cama, em pânico, correndo para o banheiro.

Não... Não... agora não!

–- JENN! JENN! JENN! ABRA A PORTA, POR FAVOR! ABRA! -- berrei.

O meu coração estourava dentro de mim. Bati na porta sem parar, chutei, soquei e me joguei contra ela, mas o único som que saía era a água caindo, se chocando contra o chão. A voz de Jenn soava em meus ouvidos, de muito, muito distante "Eu te amo Logan. Boa noite, boa noite, boa noite, boa noite..."

Eu sentia as lágrimas escorrerem dos meus olhos, meu corpo tremer, um desespero nauseante.

Não, não, não... não estava certo!

Procurei algo que me ajudasse abrir a porta e achei uma faca em cima de uma cômoda, com os restos de uma torta. Comecei a bater com ela na porta, enquanto gritava o nome de Jenn, implorava para ela abrir. Em um futuro distante, eu iria pensar a respeito e me lembrar que isso estava fora de seu alcance, iria olhar sua foto e agradecê-la pela milésima vez por cada segundo. Mas naquele instante, eu somente sentia o desespero, o medo, o amor e a vontade de tê-la para sempre comigo, o de abrir a porta e salva-la.

Continuei gritando, até que uma voz atrás de mim me deu uma ponta de esperança. Por favor, me ajude...

–- O que aconteceu?! -- a enfermeira havia irrompido no quarto, apenas de pijama, pequenos olhos sonolentos.

–- A Jenn.. ela... ela... -- eu não conseguia falar, o sufoco era tão grande que eu sentia que desabaria se fizesse qualquer esforço que não fosse arrombar aquela porta.

–- Meu Deus -- a enfermeira me empurrou pro lado, agachou na altura da fechadura e arrancou um grampo dos cabelos. Em poucos segundos, a porta estava aberta.

Com pressa, entrei no banheiro e imediatamente senti a água molhar meus pés, fria. Porém, o que eu mais senti foi o choque.

Jenn estava largada no lado direito da pia, a cabeça encostada na parede,os fios ruivos caindo na testa. A água a molhava, sua camisola estava ensopada. Mas não foi isso que chamou mais minha atenção. Seus olhos estavam fechados, a palidez dela era como cera, o sangue em seu rosto era intenso, assustador.

Me joguei no chão, de joelhos. As lágrimas me cegavam, a água me molhava e o meu corpo tremia, desesperado.

–- Ei, ei, ei Jenn, não vá. Fica comigo, por favor... -- implorei, tirando um fio que colava em sua testa. Olhei a enfermeira. -- Me ajude, por favor..

–- Logan, deixe-me sentir a pulsação dela. Talvez... talvez... ela ainda tenha alguns minutos.

Me encostei na parede ao lado de Jenn e deixei a cabeça dela encostar em meu ombro. Acariciei seus cabelos... seus cabelos ruivos que eu tanto amava... sentindo seu cheiro doce que me inebriava... rezando baixinho, rezando para que as coisas não terminassem ali, daquela maneira.

A enfermeira pegou o pulso dela. Deu um suspiro.

–- O médico já deve estar chegando -- sentenciou. -- Liguei assim que ouvi seus gritos. Vamos, me ajude-a a leva-la para a cama.

Fiz que sim com a cabeça. Peguei-a em meu colo, delicadamente. A enfermeira não ajudou, até porque não era necessário, ela era tão leve, tão pequena. A água ainda jorrava da torneira, como um soco no estômago, cheguei a conclusão que ela tinha se trancado ali para lavar o rosto no meio da crise. A enfermeira então desligou, a água cessou, sobrando apenas os barulho de nossos passos, minha respiração saindo em descompasso.

Coloquei Jenn na cama, tomando todo o cuidado para que sua cabeça estivesse confortável em cima do travesseiro. Peguei uma toalha, limpei seu rosto, saquei um pijama de abotoar na gaveta e despi Jenn, secando-a e colocando a nova roupa, tudo isso com o meu corpo tremendo, a respiração alterada. Tudo, eu fiz automaticamente, porque era meu dever cuidar dela.

Eu a amava tanto, tanto, tanto. Seu sorriso na primeira vez que a vi apareceu para mim. Puxa, como era bonito. Sua espontaneidade era uma graça. Sua voz me lembrava poesia. Eu não estava pronto para perdê-la e nem estaria cem anos depois.

Fiquei ali, olhando-a, enquanto cada momento que havíamos passado juntos dançavam na minha frente como em um filme. A sala de aula, carry on my wayward son, a janela, o refeitório na escola, os ensaios da peça, a peça e seus lábios tão perto, tão quentes... A cena da peça parecia tão real agora, com a vida real acontecendo ali, embaixo do meu nariz.

A campainha tocou. Alguns segundos depois, o médico já estava dentro. Subimos até o quarto. Contei o acontecido, ele começou a examina-la, e eu a voltar a limpar o rosto dela, distraído fazendo um esforço de decorar cada detalhe de seu rosto, fazendo qualquer coisa para ajudar, porque eu a amava e ainda existia chances, estava na cara, ficaria tudo bem. O médico havia chegado. Tudo se re...

–- Logan, me deixe sozinho com ela, por favor.

Balancei a cabeça, de repente ainda mais desesperado.

–- Não, por favor, não... Ela pediu, eu ouvi, ouvi, disse que queria segurar minha mão, por favor...

–- Logan, é necessário.

–- Não, não, por favor... -- implorei.

–- Logan, vá -- mandou.

E tudo passou como um flash. Me lembro que beijei a bochecha de Jenn, entrelacei nossos dedos, apertando-os durante alguns segundos, porque eu realmente esperava que tudo ficasse bem... então de repente eu estava no corredor, separados por uma porta idiota de madeira maciça.

Me joguei no chão e chorei, chorei, chorei como nunca antes. Chorei alto, chorei baixinho, chorei deixando escapar soluços, chorei porque diziam que chorar alivia, mas não sei bem, não funcionou comigo. Acho que não funcionou porque não era o choro que iria trazer minha esposa de volta e nem seriam as lágrimas que iriam dizer "pare de chorar, Logan, agora está tudo bem", esse era o trabalho do médico e no momento ele estava trancado no quarto, no quarto da minha lua-de-mel, trabalhando para finalmente poder dizer isso, e eu esperei, esperançoso mas chorando. Chorar não adiantou, tudo doía em mim, tudo. Mas também era tudo o que eu conseguia fazer, então chorei, chorei tanto e tanto que eu me deitei ali, encolhido. Chorei tanto que eu tinha dificuldades de encontrar ar. Chorei tanto que minha cabeça lateja, doía, me fazia me sentir pequeno... e chorei mais quando o médico abriu a porta, tirando umas luvas brancas das mãos, a cabeça baixa, olhos perdidos que evitavam os meus na penumbra como se...

–- Sinto muito -- murmurou.

Cessou. As lágrimas. Talvez eu só estivesse entorpecido demais, porque nada que eu já tinha ouvido antes me machucaram tanto quanto aquelas duas pequenas palavras. Nada.

Notas finais
Tô totalmente sem palavras, mas é que nem tudo na vida são flores :c Reviews, please