Fuckin' Perfect

25 Acho que essa garota no desenho amou muito


Notas iniciais
Oláá, pra quem não acreditou no último capítulo, esse é a confirmação u.u E esse não é último capítulo, então não se esqueçam os lencinhos heuheuheu Enfimm, deem play nas músicas Don't go away - Oasis e 21 guns - Green Day, pra dar um climinha de revolta. Boa leitura e até embaixo!

(Don't go away — Oasis)

(21 guns — Green Day)

As pessoas me abraçavam. Diziam “pêsames, lamento”. Choravam em meu ombro. Falavam que eu devia seguir em frente, que tudo continuaria. Mas eu não queria, não queria que chorassem em meu ombro, não queria seguir em frente e nem que as coisas continuassem.

O que eu gostaria de dizer? Que o “sinto muito” ali apenas significou que ele sentia muita, muita felicidade por ter feito um milagre e salvado Jennifer Grey e que depois disso eu e Jenn prosseguimos com nossa lua-de-mel e que vivemos juntos, felizes para sempre. Mas não foi o que aconteceu e eu não vou contar mentiras.

— ELA MORREU! ESTÁ MORTA! NÃO ME IMPORTO DE SABER QUE TENHO UMA VAGA NA LANGSTON! NÃO ME IMPORTO, O.K? — soltei, fitando minha mãe na porta do quarto. Respirei fundo. — Apenas… apenas… me deixe só.

Mamãe mordeu o lábio inferior. Seus cabelos escuros estavam presos em um rabo de cavalo que definia mais seu rosto anguloso. Ela cruzou os braços, alisando-os, como sempre fazia quando estava nervosa ou triste, ou os dois.

— Logan, eu sei como é difícil! Mas por favor, você tem que pensar em seu futuro. Hoje vamos prestar homenagens e depois… Logan, eu amo você… eu me importo com você — minha mãe colocou as mãos em frente ao rosto, soluçando, chorando culposamente. — Dói tanto, tanto quando eu penso nela, tanto! Era uma das melhores pessoas que eu conheci e você me orgulha tanto por ter amado alguém de ouro como ela! Mas eu não suporto, querido, eu não suporto! Vê-lo sem chão, matando aula, se drogando o dia inteiro, só fazem dois dias! Eu… você tem que buscar uma saída para esse abismo agora, querido, agora, se não ele pode desabar se demorar demais e… eu não quero perder você.

Eu sentia meus músculos retesados, meu coração batendo forte de raiva e uma dor profunda no meu âmago. Mas em vez de continuar gritando, abri meus braços, esperando mamãe se aconchegar ali. Ela juntou seu corpo no meu, nós dois ouvindo o coração um do outro batendo, em um abraço conflitante, mas confortável.

— Me desculpe, me desculpe, mamãe… Eu… — Suspirei. — Só… me deixe só. Preciso trocar de roupa para ir.

Minha mãe se afastou de mim e me analisou com os olhos marejados. Assentiu com a cabeça, soltou um soluço e saiu do quarto.

Fiquei esperando o som dos passos dela silenciarem e só então me virei. Encarei meu quarto. Meu antigo quarto que agora era novamente meu quarto atual.

Estava um lixão. Daisy — cama — estava do mesmo jeito que eu havia me levantado naquela manha. O computador desligado. O armário com as portas entreabertas, com peças caindo para fora. Meus tênis espalhados. Livros de Jenn me rodeavam. Revistas velhas largadas no chão. CDs e DVDs todos espalhados na mesa do computador. A janela fechada, com cortinas impedindo a entrada de qualquer luz solar, até mesmo a de frestinhas. Algo parecia errado, parecia um sonho ruim. Era como se eu tivesse levantado da cama, sonhado com uma garota incrível que havia mudado minha vida e depois partido. Eu me levantei e meu quarto estava bagunçado como sempre. Mas não, não tinha sido um pesadelo. Os livros dela no chão, seu recado atrás da cabeceira da minha cama (Sonha comigo e acorda todo duro) escrito em letra de forma com batom… Não haviam deixado de existir. Não tinha sido um pesadelo, que a princípio tinha sido um sonho. As evidências que tudo tinha sido real nunca deixariam de existir.

Eu sequer segurei a mão dela. Sequer seu último pedido se realizou.

Me espreguicei, esticando os braços, e desse jeito caminhei até o meu guarda-roupa. Me vesti rapidamente, mal prestando atenção no que eu colocava, em seguida peguei um pente e passei em meus cabelos.

Joguei-me no chão e peguei meus tênis de debaixo do armário. Coloquei-os e tudo pronto.

Abri a porta do meu quarto e desci as escadas devagar. Mamãe, papai e Clary me esperavam na sala. Eles levantaram os olhos quando eu apareci e se ergueram automaticamente. Papai e Clary foram na frente, cruzando os braços quando o frio do lado de fora os pegaram.

Mamãe se aproximou de mim e passou a mão no meu cabelo, com um sorriso triste.

— Você está bonito, Logan Stanford.

— Obrigado, mãe — sussurrei fitando os pés.

Eu queria agradecer melhor minha mãe, por estar sempre do meu lado, me apoiando até quando eu eu queria afasta-la mas eu não conseguia, não conseguia porque se eu tentasse ter um diálogo com mais de 20 palavras com qualquer pessoa, eu choraria e eu não queria mesmo me permitir voltar a chorar.

— Vem, vamos — mamãe colocou as mãos nas minhas costas, me guiando até a porta. Entramos no carro e partimos em direção ao salão.

~~~ // ~~~

O caixão estava disposto no centro. As pessoas paravam e deixavam algo dentro, algo de valor sentimental, algo que Jenn gostaria de ganhar e que a deixasse feliz na onde quer que a ela estivesse. Clary se aproximou e deixou sua correntinha de ouro que havia ganhado de mamãe anos atrás. Não entendi por que motivo.

O pai de Jenn deixou a pulseira com o botão vermelho no centro que Jenn sempre usará, mas que não estava com ela no fim. No final, aquela pulseira era o presente que davam no Hospital do Texas para todos os pacientes, como simbolo da luta. Ele ficou alguns segundos fitando Jenn, não em lágrimas, mas com uma grande tristeza nos olhos. Eu entendia aquela expressão.

Outras pessoas se aproximaram, deixaram coisas. Lá estava lotado, muita gente do colégio, gente que eu nunca tinha visto antes, acho que até mesmo pessoas do Texas, talvez antigos amigos.

Caminhei até o caixão, com calma, mas com um grande bolo na garganta, uma dor no estômago que eu imaginava ser semelhante a um tiro. Eu tinha a sensação que nunca mais voltaria a ser feliz, meu mundo para sempre seria preto e branco.

Olhando-a no caixão, seus cabelos ruivos caiam em volta do pescoço, sua mão no coração estava pálida, aliás, ela toda estava. Não gostei da imagem de minha Jenn ali, morta. Simplesmente não era mais ela, aquilo estava vazio, oco. Era só o que tinha sobrado dela para ficar perto, digo, a seis palmos debaixo da terra. Esse pensamento me fez mal, minha cabeça girava, senti um amargo subir na boca.

Eu a amava tanto, tanto. Eu a amo tanto.

O que eu tinha para oferecer? Para colocar no caixão?

Nada, ou nada material.

Pensando um pouco, eu levantei o queixo, os olhos, fitando o teto. Não havia nada no caixão. Então olhei para cima.

"Ela sorriu e se aproximou do meu rosto.

— A aposta é a seguinte: eu aposto que consigo te fazer sorrir e rir muito, em pelo menos uma semana”.

Sorri, pensando que ela gostava de quando eu sorria. E eu gostava de sorrir por ela, pra ela e desejei que aonde quer que ela estivesse que tivesse visto aquele sorriso e gostado dele.

Voltei a fitar o corpo. Tão sincera, bonita que lamentei naquele momento a falta de naturalidade. A maquiagem, os conservantes… tudo parecia falso. Porém, pensando bem, mais falso para mim parecia aquele momento. Não podia ser verdade que tudo tinha acabado.

Acabou, algo sussurrava dentro de mim. E eu sussurrava de volta: eu sei, mas ainda está vivo…

O quê? Só depois fui descobrir. O sentimento.

Me afastei do caixão e sentei-me. Aos poucos, mais pessoas foram se sentando também e logo não havia ninguém de pé. O pastor da igreja de Jenn se aproximou do altar e começou a falar. Falou durante cerca de meia hora. Nada entrou no meu ouvido, era como se eu não fizesse parte dali. Apenas fitei meus pés, achando meus tênis mais interessantes, até que ele passou a palavra para o sr. Winters e eu me obriguei a focar.

— Jennifer foi um anjo em minha vida e meu único consolo é que ela continua sendo um anjo, que voltou para o paraíso, que deixou seu rastro no mundo, que marcou ao seu redor. Quando você perde uma filha, você perde uma parte sua também. Temo nunca mais encontrar essa parte. Eu a amei demais e espero que ela esteja bem no céu — ele alisou a ponte do nariz, deu um suspiro e saiu do altar.

E depois foi minha vez, mas eu não sabia o que falar. Não havia treinado nada, pensado em nada e muito menos estava preocupado. Puta merda, eu sequer sabia o que fazia lá.

Pisei nos degraus, eram três. Então, eu encarava todos de frente. As pessoas me olhavam em lágrimas, olhos tristes, alguns eram vazios. Apertei minha mão na outra, com o coração batendo alto. Parecia que depois que eu falasse… algo terminaria, realmente. Aos poucos, o sentimento foi se transformando em palavras, como se só estivesse esperando o momento ideal para serem despejadas. Umedeci os lábios.

— Bom… acho que… desde pequeno eu gostei de livros, contos, fábulas, crônicas, narrativas, poesias. Eu gosto de histórias. Jennifer também. — Fitei pessoa por pessoa, depois o caixão no centro. — Mas essa não é a história de uma garota especial que morreu. E sim de uma garota louca que viveu, aproveitou, fez um número enorme de pessoas felizes… É a história de uma garota que aproveitou o quanto pôde em 17 anos, muito mais do que gente que já está com 70 anos. É a história de uma garota que teve suas batalhas, venceu muitas, mas que perdeu o conflito final. É a história de uma garota que uma vez me disse que a vida é uma só e que não devemos gastar tempo com pessoas estúpidas. O problema é que algumas vidas duram mais do que outras, algumas menos. O problema é que pessoas estúpidas como eu também se apaixonam igual eu me apaixonei por ela e no fim ela gastou seu tempo comigo e realmente fez parecer que não foi uma perca de tempo… Faz sentido? — ri pelo nariz, sentindo finalmente o sufoco diminuir, como se a pessoa que estava apertando o travesseiro contra meu rosto estivesse vacilando. — É a história de uma garota que sorria porque gostava e não para agradar a sociedade. É a história de uma garota e enquanto essa garota vivia, a história dela se cruzou com a minha. Foi então que a minha história ganhou intensidade e no fim… penso que essa é a história de Jennifer Grey, que se cruzou com a de Logan Stanford Grey, juntas, elas se uniram. É como se fossem únicas, sabe? Então. Essa não é a história de Jennifer, uma garota que partiu. Essa é a história de Jennifer, a garota que uniu a história dela com a minha, e tudo só vai acabar quando meu sentimento desaparecer, ou quando eu não estiver aqui para manter nossas histórias unidas. Até lá, o para sempre vai durar, porque algo em mim estará mantendo-as… E eu tenho certeza: como o para sempre, nossa história não tem desfecho.

~~~ // ~~~

O sr. Winters abasteceu o carro duas vezes durante nosso trajeto até o Hospital Psiquiátrico no Texas. Nas duas vezes ele se enfiou dentro do banheiro e ficou longos minutos lá dentro. Eu entendia sua tristeza, seu medo, seu desespero, mas minha única forma de apoio foi o silêncio pois eu sabia que ele também sabia que eu estava acabadão.

O envelope pesava no meu bolso e me causava uma sensação estranha.

Cerca de quinze minutos depois que estávamos estacionados ali, no posto, o sr. Winters saiu do banheiro, se jogou no banco do motorista e ligou a ignição.

Prosseguimos a viagem em silêncio. Paramos em vários semáforos. Cochilei muitas vezes, entretanto, quando eu estava prestes a me desligar completamente, pares de olhos verdes sorriam para mim, me fazendo acordar com vontade de me encolher em um canto, mas não o fiz nenhuma vez.

Enfim, o carro estacionou em uma das vagas do Hospital. Eu e o sr. Winters arrancamos os cintos e descemos.

Com a permissão dele, rapidamente cheguei ao 5° andar, e rapidamente a porta de Ellen foi aberta. O quarto estava exatamente como a primeira vez que fui lá. O céu estrelado, as janelas abertas com grandes cortinas tocando o chão, a mesa encostada na parede e a mulher ali, desenhando a colando novos desenhos embaixo da mesa.

— Oi — falei.

Ela se virou e sorriu.

— Ei.

Retribui o sorriso e não pude deixar de notar a enorme semelhança entre ela e Jenn. Meu Deus… tão iguais.

Ela se virou e continuou a desenhar. Fui me aproximando, hesitante, até estar ao seu lado.

— São legais — quebrei o silêncio.

— Obrigada, Harry — respondeu.

— Logan. Me chame de Logan — corrigi. — Logs seria uma boa ideia.

— Logs. Certo — então ela voltou a desenhar.

O silêncio invadiu o quarto, em que eu me sentei na cama e tirei o envelope do meu colete.

— Bem… — pigarreei e estendi o envelope — Isso é pra você.

Ela me olhou nos olhos, depois pegou o envelope, parecendo surpresa.

— Oh… deixe eu ver — murmurou. Rasgou um pedaço e tirou um papel sulfite dobrado caprichosamente de lá de dentro. — É seu?

— Não — respondi. — Acho que não importa de quem é, só que é pra você e de que veio de alguém muito especial para mim.

Ela sorriu, assentiu com a cabeça desdobrando a folha. Levantou-o na altura dos olhos, analisando-o.

— Que bonitinho. Acho que esse é você e aquela sua amiga, Alana — comentou. — E essa… acho que sou eu… e esse é… Louis?

— P-posso ver? — gaguejei.

Ela me estendeu a folha.

Desenhado com simplicidade, na folha estava escrito “Família” e abaixo eu, Jennifer, o sr. Winters e Ellen desenhados. Por Jenn. Fiquei vários segundos olhando, interpretando, me perguntando o por quê. Até que cheguei a conclusão óbvia: não havia mistérios, incógnitas. Era exatamente o que estava ali. Para Jenn, não importando o que tivesse acontecido, Ellen era parte da família também. Jenn não guardava rancor.

— Quer que eu pendure para você?

— Tudo bem — respondeu.

Peguei uma fita, coloquei no papel e prendi na parede.

Ficamos olhando o resultado, apenas olhando.

— Acho que essa garota no desenho amou muito — comentou Ellen. — Alana, né?

— É.

~~~ // ~~~

Voltando para o carro, fechei a porta e me recostei. O sr. Winters deu partida.

— Por quê? — perguntei.

Ele não respondeu imediatamente, com os olhos focados a frente.

— Depressão, esquizofrenia. Eu a amei tanto quanto você amou Jennifer, mas foi diferente. Eu achava que não tinha dor pior do que perder a mulher que eu amava mas que ainda estava por perto. Só que me enganei. Perder Jenn foi pior, e deve ter doído mais pra você do que quando eu perdi Ellen — ele crispou os lábios. — Sabe, a vida é uma droga, Logan. Você, nasce, sofre e morre. E na maioria das vezes, mesmo antes de morrer as pessoas cavucam sua própria cova e ficam esperando sentadas pelo coveiro. Sério, esqueça sua revolta e vá fazer alguma coisa que preste. Isso não vai significar que você não a ama mais, isso vai significar que você não é um desses coitados cavucando e esperando. Caso contrário, não posso fazer nada além de continuar cavucando e esperando a minha, que nem está tão longe assim.

Notas finais
Pai da Jenn só disse verdade ali :c gente, fui ver a culpa é das estrelas,e cadê as lágrimas? Fiz é rir, acho que sei lá, ou vocês são muito moles ou eu muito fria. Próximo capítulo já é o último, e tipo, parece que foi ontem que comecei isso aqui :c vou sentir saudades reviews :3