Mesmo desmaiada minha consciência ia e voltava, me permitindo ver fleches de April gritando por ajuda, enquanto um dos meus seguranças me amparava nos braços depois do meu desmaio. Mas a imagem que jamais esqueceria era de Heitor, descendo as escadas com o semblante apavorado gritando meu nome, antes de perder os sentindo completamente.

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Quando voltei novamente, senti algo furando meu braço direito me fazendo reclamar de dor, mas esqueci momentaneamente o incomodo que sentia voltando minha atenção para o meu lado esquerdo, sentindo o cheiro de tangerinas enquanto recebia carinho em meus cabelos.

— Sei que dói, meu amor, mas é necessário para que fique confortável — sussurrou amoroso sem deixar de acariciar meus cabelos — Não se preocupe, porque não irei sair do seu lado. — Prometeu beijando minha testa e mergulhei novamente na inconsciência.

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— O que o médico disse, Heitor? — Ouvi a voz de April soar abafada enquanto lutava para me manter consciente, um fato que estava cada vez mais difícil.

E a única resposta que minha amiga obteve para sua pergunta foi um choro doloroso, fazendo meu coração se apertar, enquanto ela abraçava meu parceiro tentando confortá-lo diante de algo que já estava ciente.

Meu tempo havia acabado justo agora que iniciaria, porque havia encontrado meu companheiro de alma.

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Os cheiros ao meu redor estavam mais nítidos, permitindo que reconhecesse as pessoas pelos aromas, mas havia um em específico que permanecia ao meu lado durante todo o momento, o de tangerinas.

Saber disso me preocupava, porque era o sinal de que Heitor não havia se ausentado em momento algum do meu quarto negligenciando suas próprias necessidades para cuidar de mim.

O som de bip ensurdecedor se infiltrou em meus ouvidos, trazendo à tona uma onda de dor que consumia meu corpo inteiro. Tentei abrir os olhos não obtendo êxito na minha tarefa, mas não iria deixar de tentar até conseguir.

— Lara? — Heitor perguntou baixo e logo senti sua mão segurando a minha, antes de sentir seu calor mais perto de mim — Você consegue me ouvir? — Questionou suave e a apertei sua mão com força, a que possuía no momento, e me forcei a abrir os olhos novamente.

Uma...Duas...Três vezes...Até obter êxito na quarta, encarando o teto branco desconhecido, antes de voltar meu olhar para o homem sentado ao meu lado que sorriu emocionado ao me ver de olhos aberto.

— Oi. — Sussurrei com a voz rouca, provavelmente pelo longo tempo em que fiquei sem utilizá-la.

— Oi. — Ele sussurrou entre lágrimas, beijando o dorso da minha mão direita com carinho como se temesse me machucar.

— Me perdoe. — Pedi e ele me olhou confuso.

— Pelo que está me pedindo perdão, Lara?

— Por tudo — admiti sincera — Por tê-lo preocupado...Por fazê-lo ficar em um hospital...Mas principalmente, por não ter contado toda a verdade.

— Não precisa me pedir perdão por ficar ao seu lado no hospital, porque foi uma opção minha da qual não abriria mão — explicou com gentileza sem desviar os olhos dos meus — Sobre não ter me contado a verdade, acredito que não deve ter sido fácil entender tudo o que estava acontecendo, mas respeito os seus motivos e quando se sentir pronta para conversarmos sobre estarei pronto para ouvi-la.

— Obrigada. — Agradeci e ele beijou o dorso da minha mão novamente.

— Mas antes de conversarmos sobre esse assunto, queria lhe pedir perdão por ter saído daquela forma da mesa e ter lhe acusado daquela maneira — pediu envergonhado ao lembrar da atitude que teve antes do meu mal-estar. — Foi infantil e indelicado da minha parte, mas prometo que jamais agirei dessa forma novamente.

— Não se preocupe, não fiquei chateada com o que disse, porque estava surpresa demais ao perceber que não precisei lhe dizer nada para que já soubesse de tudo. Como descobriu? — Questionei com curiosidade e ele sorriu carinhoso, desviando seus olhos de mim para olhar o monitor ao seu lado ficando sério de repente.

— Sobre isso conversaremos depois, meu amor — pediu com carinho e senti meu coração errar uma batida ao ouvi-lo me chamando daquela forma — Vou avisar seu médico que você acordou, para que ele possa avaliar seu estado. — Explicou apertando um botão no monitor ao meu lado.

— Pensei que você fosse meu médico particular.

— E eu sou, mas nesse momento você precisará de um especialista e não de um clínico geral. — Esclareceu e logo ouvimos uma batida na porta, antes de Heitor autorizar a entrada do médico com uma enfermeira.

Esperei pacientemente o médico me examinar fisicamente, testando meus reflexos antes de fazer perguntas monótonas das quais sabia a resposta, já que eram sobre mim e as pessoas que conhecia.

— Apesar do susto que deu em todos, Alfa Lara, não vejo qualquer complicação no seu estado atual de saúde. — O médico assegurou assim que terminou de fazer meu exame.

— Isso quer dizer que a medicação conseguiu controlar a arritmia no coração dela, doutor Tavares? — Heitor perguntou com preocupação me deixando surpresa com o diagnostico, porque era o mesmo que meu pai obteve anos atrás.

— Por enquanto sim, mas daqui a alguns dias vamos repetir os exames e encaminhá-la para uma nutricionista, para que comece uma dieta adequada enquanto estiver fazendo o tratamento comigo — explicou se dirigindo a Heitor, antes de voltar sua atenção para mim. — Na sua condição, Alfa Lara, evite qualquer coisa que lhe cause estresse, não consuma cafeína, bebidas alcoólicas e a prática de atividades físicas, até ajustarmos a medicação que irá tomar.

— Claro. — Disse nem um pouco satisfeita ao saber que ficaria sem minha dose diária de whisky, mas tudo piorava só de pensar que nem poderia desfrutar do meu direito de parceira depois da conversa que teria com Heitor.

Só posso estar pagando todos os meus pecados de uma só vez, senhor, pensei comigo mesma olhando de cima a baixo o homem que havia sido destinado a mim.

— Não se preocupe, doutor Tavares, cuidarei pessoalmente para que Lara siga à risca suas recomendações. — Assegurou deixando o outro homem contente, antes de nos deixar a sós.

— Agora que estamos a sós, senhor Knox, gostaria de saber quem teve a audácia de passar por cima da minha ordem quando disse que não queria vir para o hospital? — Perguntei séria enquanto ele me servia um copo de água.

— É Collins. — Corrigiu com gentileza me entregando o copo de água e pisquei confusa.

— Como?

— Meu sobrenome é Collins, não Knox.

— Como assim?

— O alfa do clã Knox, não fez nenhuma questão de me registar, mesmo arcando com todas as minhas despesas e não se opôs ao desejo dos meus pais de me darem seu sobrenome — explicou se sentando na cama em que estava deitada sem desviar os olhos dos meus. — Só fui procurá-la exigindo meus direitos de nascença, porque o lugar que chamo de lar... Onde meus pais, familiares e amigos moram, estava sendo repartido como um espolio de guerra transformando a população em escravos.

— Você veio até mim, para salvar o lugar onde mora.

— Sim, jamais tive interesses em usufruir dos bens deixado pelo alfa Knox — assegurou e vi em seus olhos que ele falava a verdade — E a decisão de trazê-la para o hospital foi minha, porque seus batimentos estavam irregulares demais e seria arriscado mantê-la em casa, quando necessitava de cuidados e monitoramento específicos que só obteria aqui. Então, se tiver que ficar com raiva de alguém por contrariar sua vontade, fique de mim. — Ofereceu com gentileza e revirei os olhos, ciente de que jamais conseguiria ficar com raiva dele.

— Foi muito grave, Heitor? — perguntei segurando o copo de água em minhas mãos, tentando entender a gravidade do que havia acontecido — Por favor, não me esconda a verdade.

— Foi...Foram os três dias mais desesperadores que já vivi na vida — confessou perdido em pensamentos — Implorando que você conseguisse reagir como esperado a medicação ou que estivesse forte o suficiente, para aguentar a cirurgia de emergência para colocar um marca passo...Achei que fosse perdê-la...Sem ter dito a chance de pedir perdão, pelo que havia falado antes de você passar mal.

Em silêncio deixei o copo que estava em minhas mãos em cima da cômoda ao lado da cama, antes de envolver sua mão com a minha apertando-a com carinho trazendo-o de volta das suas memórias dolorosas.

— Hei, eu estou bem e aqui com você — declarei fazendo-o olhar para mim — E não vou a lugar algum. — Assegurei sem desviar os olhos dos seus e ele balançou a cabeça concordando me abraçando com cuidado, fechando os olhos aproveitando a sensação maravilhosa que sentia ao estar nos seus braços.

Só obtive alta do hospital uma semana depois que havia dado entrada desmaiada e com batimentos irregulares demais para a minha idade, isso depois de ter tido minha primeira consulta com o doutor Tavares e com a nutricionista que me acompanhariam de perto, avaliando todo o meu caso.

Meu segurança informou que seria mais seguro se saísse pela garagem do hospital, devido a quantidade de pessoas que se acumulavam na porta do local, esperando por notícias minhas desde o momento em que souberam do ocorrido por meio de um vazamento do hospital.

Rapidamente April fez um pronunciamento esclarecendo toda a situação, tranquilizando a todos sem expor muitos detalhes do meu estado de saúde, evitando rumores que poderiam trazer instabilidade para o meu governo.

Mesmo sem poder descer para cumprimentar quem estava nas ruas a espera de noticiais minhas fiz questão de acenar de dentro do carro, assegurando que estava bem na medida do possível em troca as pessoas responderam meu gesto com acenos e flores.

— É tão bom estar novamente na minha casa... Poder deitar na minha cama e comer uma comida descente. — Exclamei sorrindo feliz por entrar na minha casa nos braços de Heitor, assegurando que não faria qualquer tipo de esforço que pudesse piorar o meu estado.

E não podia me queixar, porque estava adorando ficar mais perto dele daquela forma sentindo seu cheiro e calor que aprendi a amar.

— Ótimo, os tabloides de fofoca já começaram a especular quem seria o ruivo bonitão misterioso sentado ao lado da alfa do clã Kingston no carro durante sua aparição depois de semanas no hospital — April disse com desgosto encarando a tela do celular de forma tensa, provavelmente pensando em como poderia resolver essa situação. — Foi uma situação como essa que tentei evitar, quando sugeri que o alfa Heitor fosse em outro carro.

— E eu fui totalmente contra, April, ele estava no lugar que lhe era de direito e isso jamais lhe será tirado. — Assegurei severa deixando claro que ninguém iria ocupar o lugar dele, mesmo que não tivesse declarado a todos o nosso vínculo de parceria.

— Lara. — Heitor advertiu de forma carinhosa subindo as escadas comigo, lembrando que deveria evitar o estresse por causa da arritmia.

— Tudo bem, vou respirar e me manter calma. — Disse entediada me aconchegando mais a ele.

— Deixe-os fazerem suposições April, logo encontraram outra notícia para explorarem — apontou com segurança. — Nosso papel nesse momento, é manter Lara em um ambiente confortável e tranquilo, até seus batimentos cardíacos se regularizarem.

— Você tem razão, a prioridade agora é o bem-estar da alfa Lara. — Minha amiga garantiu nos seguindo.