Minha rotina depois que recebi alta do hospital se resumia a ficar de repouso no quarto esperando pacientemente as horas passarem para tomar os remédios que faziam meu coração bater no ritmo adequado.

Mas tinha que admitir que essa rotina enfadonha tinha suas recompensas, como ser agraciada todas as manhãs com a visão de Heitor dormindo sereno na minha cama, para me monitorar caso sentisse algo no meio da noite, claramente uma desculpa da qual não me opôs.

Em silêncio, contemplei cada detalhe do homem adormecido ao meu lado ciente de que havia mesmo me apaixonado sem qualquer tipo de reservas e estava plenamente satisfeita com isso.

— Bom dia — ouvi ele dizer me trazendo de volta a realidade com um sorriso sonolento nos lábios. — Está acordada a muito tempo?

— Não, só a alguns minutos.

— Como está se sentindo, Lara? — Perguntou com preocupação e fiz uma careta assim que me chamou pelo meu nome — O que foi? Está sentindo alguma coisa? — Questionou com preocupação começando a se levantar da cama e segurei sua mão, atraindo sua atenção para mim.

— Estou bem, Heitor, não precisa se preocupar.

— Tem certeza?

— Tenho — assegurei e ele me olhou desconfiado, como se não acreditasse no que estava dizendo. — Estou falando sério e você está precisando relaxar um pouco, vive tenso ou a espera de que algo ruim aconteça.

— Porque me preocupo com você.

— Eu sei disso, mas preocupações demais também adoecem. — Destaquei fazendo-o rir concordando.

— Você tem razão — admitiu com sinceridade, antes de me olhar com curiosidade — E qual seria sua sugestão, para me deixar menos preocupado? — Questionou e sorri diante da oportunidade que se apresentava, a qual não deixaria passar.

Devagar me aproximei dele sob o seu olhar atento, me inclinando em sua direção apoiando minhas mãos ao lado da sua cabeça ouvindo seu coração acelerar com a minha proximidade.

— Tenho inúmeras sugestões na minha cabeça agora. — Admiti com a voz baixa desviando meus olhos dos seus para contemplar seus lábios, os quais desejava beijava a um bom tempo.

Instintivamente me inclinei em sua direção, ansiando para provar o gosto dos seus lábios e podia ver nos seus olhos que ele queria o mesmo.

— Lara. — Heitor me advertiu e me afastei temendo ter ultrapassado algum limite pessoal dele.

— Desculpe, só achei que você também quisesse me beijar. — Pedi voltando para o meu lugar na cama, envergonhada por ultrapassar o limite.

Sem hesitar Heitor deitou a cabeça no espaço vazio do meu travesseiro, acariciando em seguida minha bochecha com o polegar sem desviar os olhos dos meus.

— Não precisa me pedir desculpas, por algo que também desejo muito — segredou sem desviar os olhos dos meus e pisquei confusa, porque sua declaração não era condizente com o seu comportamento de minutos atrás. — Mas nesse momento, qualquer demonstração de carinho mais intensa da minha parte ou da sua, faria seu coração bater irregular novamente e não farei nada que possa colocar sua vida em risco.

— Isso quer dizer...Que nós nunca...— deixei a frase morrer diante da revelação assombrosa.

— Não é para tanto, meu amor — disse sorrindo com carinho para mim — Só precisamos esperar um pouco até seu coração estar forte o suficiente para o médico liberá-la. Enquanto isso, podemos ir nos conhecendo melhor. O que acha? — Sugeriu gentil e concordei.

E foi o que começamos a fazer.

Heitor sempre fazia algo especial para mim, seja assistir ao meu filme preferido enquanto estamos deitados na cama, preparar minha comida preferida, me levar para tomar um pouco de ar no jardim ou me presentear com um kit de desenho completo.

Desde então, me dedicava horas perdida entre rabiscos e aquarelas, tentando retomar um pouco da Lara que havia abandonado ao assumir o lugar do meu pai.

— Seu desenho está ficando lindo — ele disse amoroso espiando meus rabiscos enquanto me servia uma xicara de chá no jardim. — O que acha de colocarmos esse desenho em um quadro no seu quarto?

— Nosso quarto — o corrigi novamente sem desviar os olhos do traço que estava fazendo, enquanto Heitor se sentava na minha frente. — Além do mais, não está tão bom assim.

— Eu discordo. — Pontuou tomando um gole do seu chá e desviei os olhos da folha de papel em minha frente para vê-lo.

— Do meu desenho não estar tão bom ou de sempre corrigi-lo de que essa casa e tudo que há nela ser seu também?!

— Dos dois.

— Pois eu discordo da sua discordância. — Impliquei deixando meu caderno de desenho e o lápis de lado pegado a xicara de chá que havia deixado perto de mim, vendo-o sorrir diante do meu comentário.

Tomei um gole do chá de camomila que estava na temperatura certa, antes de pousar a xicara novamente em seu pires e olhar para o homem sentado na minha frente lendo distraidamente uma página do seu livro, o mesmo do qual conversamos em outra noite.

Sempre que me dedicava a desenhar, Heitor permanecia ao meu lado me dando a tranquilidade de que estaria ali caso precisasse, mas enquanto estava perdida nos meus traços ele voltava sua atenção para a leitura, me dando a privacidade que tanto desejava quando me dedicava ao meu ofício.

— Como descobriu? — Perguntei suave e ele desviou os olhos do livro em seu colo, voltando sua atenção para mim.

— Tem certeza, que deseja falar sobre esse assunto agora? Só faz uma semana desde que recebeu alta do hospital, a medicação que está tomando começou a fazer efeito a poucos dias...— Listou com preocupação e o interrompi.

— Tenho certeza. — Assegurei sem desviar os olhos dele, vendo-o fechar o livro e balançar a cabeça concordando.

— Não sei explicar direito, mas desde que a vi senti algo diferente — Heitor disse perdido em pensamentos deixando seu livro em cima da mesa — O salão estava cheio de pessoas, mas dentre todas só consegui prestar atenção em você e no seu cheiro que dominou meus pensamentos.

— Também me senti da mesma forma quando vi você — confessei sem desviar os olhos dos seus sorrindo surpresa. — Isso quer dizer, que a nossa ligação é recíproca e não unilateral, como imaginei.

Se companheiros de alma já era um evento raro em nosso meio, uma ligação recíproca era muito mais além de ser extremamente perigosa, porque assim que os envolvidos se unissem perante a deusa lua e os demais membros do clã, se tornariam a fraqueza do outro.

Porque se algo acontecesse a um parceiro, o outro sentiria na mesma intensidade.

— Foi por isso que conseguiu me salvar na noite em que me afoguei na banheira — disse entendendo a ligação por trás da explicação que havia me dado, sobre algo o puxar em direção ao meu quarto naquela noite — Se tivéssemos feito a cerimonia de união, você também teria morrido comigo naquela noite?! — Constatei entre lágrimas e ele balançou a cabeça concordando.

— Um companheiro de alma, não pode existir sem o outro mesmo que não tenham oficializado a união como se deve.

— Não vou fazer isso com você — jurei entre lágrimas só de pensar que nem poderíamos estar tendo essa conversa agora, o que me fez lembrar dos dias em que passei no hospital inconsciente lutando para sobreviver a uma arritmia. — Deus, você também sentiu todas as vezes em que meu coração bateu de forma irregular?!

— Sim, mas de forma branda — explicou e abri a boca em choque diante da sua afirmação. — Meu pai explicou que como não estamos unidos oficialmente, suas dores chegam até mim de forma mais atenuada, só conseguirei sentir com a mesma intensidade depois da união.

— Não vou permitir que passe por isso.

— Não é uma escolha que está em suas mãos, Lara, nos unido ou não ainda continuarei sentindo você.

— Não se eu rejeitá-lo. — Revelei ciente de que era a única opção que tinha, como alfa Heitor sobreviveria a minha recusa, o que não aconteceria com outro que não tinha o sangue puro de filhos da lua nas veias.

— Se você me rejeitar, irá me matar, Lara.

— Claro que não, você é um alfa e um filho da lua puro.

— Não, Lara, minha mãe era humana, por consequência nasci um híbrido, por isso o alfa do clã Knox me rejeitou — segredou e vi nos seus olhos que ele falava a verdade. — O que me torna incapaz de sobreviver a uma rejeição, mas vou respeitar sua escolha se essa for a sua vontade.

— Acha que teria coragem de fazer algo assim sabendo que o mataria?! — Perguntei furiosa sentindo meu coração se apertar ao ponto de me faltar o ar, no mesmo instante que ele ofegava em reação ao que estava sentindo.

— Lara...Você precisa se acalmar — pediu me olhando com preocupação e dor — Se não...Nós dois vamos morrer. — Implorou sem forças e balancei a cabeça concordando, respirando fundo para acalmar o aperto que sentia no peito.

Aos poucos meu coração foi voltando ao seu ritmo normal, ou melhor, ao novo normal dele, permitindo que pudéssemos respirar com tranquilidade novamente. Assim que se recuperou, Heitor se levantou da cadeira em que estava sentado e me abraçou enquanto chorava em seu peito de forma dolorosa.

— Isso não é uma benção, mas uma maldição. — Desabafei apavorada diante da possibilidade de que se algo acontecesse comigo, refletiria no meu parceiro.

— Meu amor, não fala assim tenho certeza que podemos aprender juntos a controlar os sintomas.

— Só que eu sou mais forte que você, Heitor. — Declarei angustiada porque se algo me acontecesse poderia resistir, devido ao meu sangue puro de filha da lua ao contrário do homem que amava.

— Sei disso, Lara, mas eu não mudaria nada em você apenas para me deixar confortável ou seguro. — Assegurou me apertando mais contra seu peito, como se pudesse me proteger de tudo ao redor.

Assim que nos acalmamos Heitor sugeriu que entrássemos, porque precisava descansar de toda a emoção que tive durante nossa conversa e concordei, deixando-o me abraçar de lado conduzindo-me em direção ao interior da nossa casa.

Mas soube que nossos planos seriam interrompidos, quando vi o fantasma do meu passado que não tinha notícias a anos, sentada confortavelmente no meu sofá como se fosse a dona, desfrutando de uma taça de champanhe sob o olhar atento de April.

— Tia Morgana. — Disse com desgosto e ela sorriu oferecendo um brinde a mim.

— Olá, querida sobrinha.