Passei a manhã toda trancada na minha sala mergulhada em livros antigos buscando respostas sobre o tal Fruto proibido, mas tudo que consegui foram mais relatos descrevendo-o como o ser sobrenatural mais forte de todos, concebido pela própria deusa lua com a ajuda de um mortal por quem se apaixonou.

Um fruto que jamais deveria existir, fadado a ser temido pelos demais e vagar sozinho pela eternidade sem alguém que pudesse completá-lo, como qualquer outro ser existente.

Ótimo, até o ser mais poderoso do mundo tem problemas para arranjar uma parceira, talvez a solução para evitar o caos seja arranjar uma companheira para ele, pensei brincando comigo mesma estremecendo em seguida, ao imaginar que talvez fosse isso que a criatura desejasse para deixar o mundo em paz.

Pensar na possibilidade de um inocente sendo obrigado a se unir com um ser, que não tínhamos ideia da sua aparência ou temperamento com a finalidade de satisfazer suas vontades em troca da segurança do mundo, fez meu estômago revirar de repulsa.

Iria evitar a todo custo que isso viesse a acontecer, tentando cumprir o pedido que a deusa havia me feito em sonho, mas também descobriria uma forma de aniquilar seu filho se ele se tornasse um problema para nós.

Só sai da minha sala no meio da manhã, frustrada por não conseguir nenhuma resposta nos documentos que havia no meu escritório obrigando-me a ir ao registro geral em posse do clã, o que me fez lembrar do pedido do alfa Heitor.

Com seu pedido em mente, perguntei a um dos guardas que fazia a ronda diária no interior da casa se haviam visto o alfa Heitor e ele assegurou que não, mas tinha informações de que o clã Knox ainda permanecia na ala em que April havia lhes destinado ontem à noite.

Agradeci a informação e caminhei em direção ao local, pensando o quanto era estranho eles ainda estarem dormindo àquela hora, mas lembrei que aquele comportamento atípico devia ser resultado de uma longa viagem, como a que fizeram em direção ao meu clã.

— Alfa Lara. — Os homens que acompanharam o líder do clã Knox me cumprimentaram, assim que apareci no corredor que dava acesso aos quartos que ocupavam.

—Boa tarde, senhores — cumprimentei com um sorriso educado, conferindo se todos estavam fazendo guarda do lado de fora e percebi que só faltava o alfa — Gostaria de falar com o alfa Heitor, por favor. — Solicitei e ambos voltaram seu olhar para o mesmo homem que ficou desconfortável quando convidei seu alfa para o meu escritório.

— Infelizmente isso será impossível, alfa Lara, nosso líder ainda está em seus aposentos descansado da longa viagem que fez até aqui — explicou sem dar margem a dúvidas e balancei a cabeça concordando. — Mas se desejar, posso transmitir seu recado assim que, meu senhor, acordar.

— Obrigada pela gentileza, Matias, certo? — Chequei e ele balançou a cabeça concordando — Diga ao alfa Heitor que irei ao final da tarde ao registro geral, se ele ainda desejar obter as informações que procura estarei a sua espera às 17 horas em ponto, nem um minuto a mais ou a menos...Ah, diga a ele para usar uma roupa casual, para não chamarmos atenção desnecessária. — Destaquei e ele balançou a cabeça sinalizando que havia entendido.

— Não se preocupe, darei seu recado, alfa Lara.

— Ótimo, obrigada pela gentileza. — Agradeci me despedindo dos homens do clã Knox caminhando em direção aos meus próprios aposentos, podendo assim tomar um bom banho e fazer uma refeição apropriada, já que pulei o café da manhã para prosseguir nas minhas buscas.

— Pode entrar — autorizei fechando o livro que estava lendo colocando-o no meu colo, antes de ver April abrir a porta enquanto estreitava os olhos diante do seu gesto — Desde quando, você bate na porta para entrar nos meus aposentos? — Perguntei com curiosidade e ela deu de ombros, caminhando na minha direção segurando uma pasta de couro nas mãos.

— É o comportamento esperado de uma assessora pessoal — destacou fria parando na minha frente esticando a pasta em minha direção. — Aqui está o relatório do faturamento mensal das empresas do clã, precisarei da sua assinatura na última página do documento dando ciência de que está de acordo com o faturamento.

— Claro, vou ler e amanhã devolvo. — Disse pegando a pasta de suas mãos derrubando-a no chão, como se tivesse perdido a força dos membros superiores fazendo April estreitar os olhos enquanto minhas mãos tremiam diante de mim.

— Lara? — Chamou com preocupação e acomodei minhas mãos tremulas em meu colo, serrando os punhos evitando que minha amiga visse minha fraqueza momentânea.

— Estou bem, é apenas cansaço. — Assegurei dando um sorriso forçado a ela que suspirou, sentando-se no sofá em frente a cadeira em que estava sentada.

— Sei o quanto deve ter sido difícil desistir da sua carreira de pintora, para assumir o lugar do seu pai quando finalmente estava fazendo algo por si.

— Era necessário, April, não podia simplesmente fechar os olhos e esquecer meu legado para viver meu sonho de ser uma pintora anônima na Itália.

— Sim, mas você podia pensar um pouco mais em si e dizer não — assegurou gentil — Seu pai jamais desejaria a você a vida que está levando desde que partiu, parece que seu brilhou se esvaiu, Lara — apontou com preocupação. — Estou preocupada com você e não vamos fingir que não vi suas mãos tremerem minutos atrás.

— Posso interpretar a sua preocupação, como um sinal de que não estamos mais brigadas? — Questionei tentando mudar de assunto e April suspirou resignada.

— Sei que as vezes sou inconveniente.

— Você quer dizer invasiva...Espaçosa...Sem limites...— Comecei a listar e minha me deu língua como se ainda tivéssemos sete anos, o que me fez rir do seu comportamento bobo.

— Só quero que seja feliz, Lara, que encontre tranquilidade e aconchego no final do dia depois de ter que resolver tantos problemas do clã.

— Da mesma forma que encontrou com Caleb? — Questionei citando o nome do seu parceiro e ela negou, me deixando surpresa.

— Antes de encontrar esses sentimentos no meu marido, precisei encontrá-los em mim mesma. Não existe felicidade a dois se ambos não forem felizes sozinhos, uma pessoa infeliz jamais será capaz de fazer o outro feliz — atestou sem desviar os olhos de mim, como se estivesse em busca de algo — Bem, vou deixá-la descansar um pouco. Quer que eu peça seu jantar no seu restaurante preferido? — Questionou se levantando do sofá alisando a saia lápis que usava, tentando eliminar as pregas invisíveis do tecido.

— Não precisa, April, qualquer coisa posso fazer um lanche na cozinha ou jantar fora. Lembre-se de assegurar a refeição dos nossos convidados — solicitei e ela balançou a cabeça concordando — Se desejar, pode ir embora mais cedo, porque não precisarei mais dos seus serviços por hoje. — Expliquei e ela me olhou surpresa.

— Tudo bem, mas ao que devo a honra da minha dispensa mais cedo?

— Vou ao arquivo do clã com o alfa Heitor.

— E você dizendo que não está rolando nada.

— E não está — assegurei enquanto minha amiga me olhava de braços cruzados com um sorriso zombeteiro, deixando claro que não acreditava no que estava falando. — Não posso negar que o cheiro dele me deixa atraída e confusa, mas me envolver com ele seria um erro, April.

— Por quê?

— Pelo simples fato de ambos sermos alfas, em algum momento esse relacionamento daria errado porque não iriamos nos submeter ao outro, está em nosso sangue liderar e não ser comandado.

— A não ser que um dos dois renuncie ao lugar de alfa. — Sugeriu com simplicidade, como se estivesse elogiando minha roupa e neguei com a cabeça.

— Eu seria incapaz de pedir isso a ele ou de renegar meu lugar de direito, para viver um relacionamento que pode muito bem nem dá certo — pontuei séria. — E outra, duvido muito que ele aceite, porque eu não aceitaria tal proposta.

— Você só saberá perguntando. — Destacou se despedindo de mim deixando meus aposentos, enquanto pensava sobre o que havíamos conversado.


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Quando o relógio de corda da sala soou pela terceira vez indicando que eram 17 horas em ponto, fiz menção de levantar do sofá em que estava sentada e ir para o arquivo sozinha quando ouvi passos descendo as escadas e o cheiro de tangerinas frescas dominou o ambiente, fazendo meu coração bater acelerado como uma adolescente de colegial diante da sua primeira paixonite.

Eu sei, algo realmente vergonhoso para uma mulher adulta e experiente como eu, mas eram reações que não conseguia controlar e não passavam despercebidas por April, que me olhava de forma maliciosa e a censurei com o olhar tentando evitar um constrangimento maior na presença dos nossos visitantes.

Alfa Heitor desceu as escadas na companhia de Matias, usando óculos escuros vestindo uma camisa azul escura de botões, permitindo o vislumbre da camisa branca que usava por baixo, com as mangas enroladas até o cotovelo, calças jeans e tênis, ostentando seu cabelo acobreado bagunçado que lhe conferia um charme a mais.

— Está três minutos atrasado, alfa Heitor. — Destaquei séria me levantando do sofá assim que seus pés tocaram o chão da sala, ganhando um olhar de repreensão de Matias que parecia estar prestes a pular no meu pescoço por recriminar seu líder.

— Me desculpe pelo atraso, mas não sou a pessoa mais matinal do mundo — desculpou-se envergonhado por seu atraso e dei de ombros — Matias, pare de ficar olhando para a alfa Lara como se fosse pular no pescoço dela, somos visitantes no clã Kingston e devemos ser gentis durante toda a nossa estadia. — Lembrou sem desviar os olhos de mim e Matias revirou os olhos diante da observação do seu alfa.

— Está tudo bem, se fosse me assustar com olhares de ameaça não estaria no comando do clã mais influente dos filhos da lua.

— Isso é verdade, todos sem exceção respeitam a alfa Lara, por sua liderança justa e integra. Minha senhora, trouxe estabilidade e prosperidade para o nosso clã depois da partida do alfa anterior. — April disse com orgulho para os nossos visitantes.

— Então, acho que tenho muito o que aprender com a alfa do clã Kingston. — Pontuou sorrindo sem desviar seus olhos dos meus, fazendo April sorrir maliciosa enquanto Matias nos encarava com curiosidade.

— Acho melhor irmos, os funcionários do arquivo já estão a nossa espera. — Informei levantando da minha cadeira caminhando em direção a porta de saída, ouvindo passos atrás de mim enquanto seguia em direção ao carro estacionando na entrada.