Fruto Proibido
4 QUATRO

As palavras do alfa Heitor ainda rondavam minha cabeça quando April, minha assistente pessoal, bateu na porta para informar que o concelho já estava a nossa espera.
Agradeci a informação e solicitei que o líder do clã Knox me acompanhasse até a sala, onde me reunia com o conselho dos anciões formados pelos filhos da lua mais antigos de todas as famílias.
Como assim não existia uma parceira para ele?! Isso era impossível, pensei comigo mesma.
Desde que nasci, aprendi que a deusa lua havia criado seus filhos em pares para que pudessem compartilhar juntos as alegrias e dores de serem seus herdeiros. Mesmo depois que abandonamos a crença de companheiros de alma, continuávamos crendo em parceiros que pudessem estar ao nosso lado, mesmo que não fosse a nossa parte criada pela deusa.
Já ouvi relatos sobre filhos da lua que mesmo com um bando acabaram enlouquecendo, entregando-se a nossa parte irracional pela falta da sua ancora no mundo, seu parceiro, sendo um companheiro de alma ou não.
— Alfa Lara? — April me chamou e pisquei confusa voltando meus pensamentos para o local em que estava, diante dos homens e mulheres mais velhos dos clãs de filhos da lua existentes.
— Sim, me desculpe a distração — pedi envergonhada por minha desatenção. — Sobre o que discutíamos?
— Sobre o fato do falecido alfa do clã Knox, nunca ter nos informado sobre a existência de um herdeiro — destacou o conselheiro do clã Monroe fazendo os demais concordarem. — Quem nos garante que este homem é realmente quem diz ser?
— Além da aparência física característica do clã Knox, fiz questão de verificar o sinal de nascença que todos dessa família possuem, posso assegurar aos senhores que ele é quem diz ser — assegurei provocando burburinhos entre os presentes — Mas tenho que concordar, que também fiquei intrigada para saber o porquê do falecido alfa do clã Knox não ter reconhecido seu sucessor. — Apontei voltando minha atenção para o alfa Heitor esperando por sua explicação.
— Como todos devem saber, talvez até melhor do que eu, meu genitor não era conhecido por ser a melhor das pessoas — apontou com frieza — Ele foi responsável por inúmeras atrocidades, principalmente com seu próprio povo o que resultou na sua queda...Pelo que soube, fui arrancando dos braços da minha mãe com três dias de vida pelo próprio falecido alfa do clã Knox, fui criado por um dos seus homens de confiança em uma propriedade longe da residência oficial com todas as regalias de um herdeiro abastado. Mesmo perguntando sobre minhas origens jamais obtive resposta — Pontuou calmamente. — Até a noite em que meu guardião me ligou pedindo que voltasse para casa, porque todos meus questionamentos seriam respondidos...Foi quando vi o alfa do clã Knox pela primeira e última vez, antes dele me declarar seu herdeiro perante todos.
— E por que um alfa se afastaria do seu filhote?! — A conselheira do clã Larson perguntou confusa, porque era de conhecimento geral o quanto os filhos da lua eram protetores com seus parceiros, especialmente com os frutos dessa união que representavam a nossa continuidade.
— Perguntei isso a ele, tudo que disse foi que nunca desejou ser pai muito menos se comprometer com alguém e não poderia eliminar uma criança que tinha seu sangue nas veias — Disse perdido em pensamentos, como se revivesse aquele momento antes de voltar sua atenção para nós. — Mas as coisas mudaram, quando ele soube que o fim estava próximo e precisava de alguém para dar continuidade ao legado do clã.
— Sempre soubemos da péssima fama que seu pai tinha, por isso o aconselhamos a escolher uma parceira para que pudesse voltar a razão, sendo o líder justo e bondoso que sua avó era, mas ele preferiu viver como um libertino sanguinário. — Revelou desgostoso o conselheiro do clã West ganhando alguns olhares de censura por seu comentário infeliz, mas o alfa Heitor sorriu concordando.
— Está tudo bem, o conselheiro não disse nenhuma mentira, o falecido alfa do clã Knox não era nenhum exemplo de virtude a ser seguido, pretendo deixar os maus exemplos enterrados com ele. Posso ter seu sangue correndo em minhas veias, mas não fui criado por ele e lhes asseguro que jamais segurei seu exemplo. — Assegurou olhando para cada um dos presentes sentados a mesa circular na qual estávamos dispostos.
— Ouvir isso nos deixa muito felizes, alfa Heitor — A conselheira do clã Larson disse sorrindo — Mas como era sua vida, antes de saber que era herdeiro do clã Knox? Por acaso, já possui uma companheira? — Perguntou com curiosidade e revirei os olhos diante do seu interesse disfarçado, porque todos sabiam que a conselheira do clã Larson estava em busca de um marido influente para a neta mais velha.
— Até alguns dias atrás, era médico em uma pequena cidade no subúrbio dos humanos, perto do local em que cresci — revelou deixando todos surpresos com sua residência anterior — E não tenho uma companheira, conselheira do clã Larson, decide me dedicar a minha profissão e estou sendo feliz dessa forma. — Explicou e fiquei surpresa com sua resposta, diferente da que havia me dado quando estávamos a sós.
— E conviveu esse tempo todo ao lado dos humanos sem problemas?! — Questionei abismada com esse fato, porque sabia que assim como os vampiros eles também não nossos admiradores.
— Sim, passei muito tempo vivendo entre humanos em decorrência a minha vida acadêmica e acabei me adaptado ao seu modo de vida.
— Mas como alfa do seu clã, é seu dever produzir descentes que assegurem a existência da sua família, ninguém é exceção à regra — lembrou o conselheiro do clã Monroe — Nossa alfa Lara, a líder do conselho dos clãs de filhos da lua, iria anunciar essa noite o nome do seu companheiro quando o senhor adentrou o salão. — Censurou-o e o alfa Heitor virou envergonhado para me ver.
— Peço perdão por ter interrompido seu anúncio, por favor, peça desculpas em meu nome ao seu noivo também, alfa Lara. — Se desculpou mortificado por ter atrapalhado meu anúncio.
— Não precisa se preocupar, ainda não havia feito uma escolha definitiva. Quem sabe, sua intromissão seja um sinal da deusa lua evitando que cometesse o pior erro da minha vida escolhendo o homem errado. — Disse dando de ombros e vi um discreto sorriso torto surgir em seus lábios, fazendo meu coração errar uma batida.
O que diabos estava acontecendo comigo?!, me perguntei sem desviar a atenção daquele desconhecido que desde que chegou, provocou reações que jamais havia sentido na vida.
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