— Como assim não foi você, April?! — questionei confusa, porque a única pessoa que tinha autorização para entrar nos meus aposentos além de mim era ela. — Como o alfa Heitor, teve acesso ao meu quarto sem a minha autorização? — Perguntei intrigada com esse fato e minha amiga suspirou cansada.

— Me desculpe pela minha falha, minha senhora, sei que é meu dever zelar por sua privacidade, mas nem me passou pela cabeça de questionar como o alfa Heitor teve acesso aos seus aposentos, diante de todo o caos que presenciei ao vê-lo tentando trazê-la de volta a vida... — April se desculpou com o olhar perdido, provavelmente lembrando do que havia acontecido minutos atrás.

— Você não teve culpa de nada — assegurei séria — Não se preocupe, porque irei descobrir como ele teve acesso ao meu quarto sem minha autorização. — Declarei fazendo menção de me levantar da cama e minha amiga me impediu.

— É melhor a senhora permanecer na cama por algumas horas. — Pediu e revirei os olhos concordando, antes dela me deixar e seguir para o meu closet procurando algo para que pudesse vestir.

Assim que retornou April me ajudou a trocar de roupa, tirando o roupão substituindo-o por uma longa camisola de seda preta com detalhes de renda no busto e na barra, antes de pentear meus cabelos com cuidado deixando as ondas macias caírem por minhas costas com delicadeza.

— Obrigada, April — agradeci assim que se afastou de mim com a escova de cabelos nas mãos e logo ouvimos uma batida na porta — Pode entrar. — Autorizei me acomodando melhor na cama, antes da porta ser aberta por Heitor.

— Como está se sentindo? — Perguntou caminhando em minha direção com um livro nas mãos, usando camisa de algodão e calça de moletom.

— Bem, por isso precisarei dos seus serviços médicos, alfa Heitor.

— Pois eu insisto, alfa Lara — declarou voltando sua atenção para April. — Ela ingeriu alguma coisa na minha ausência?

— Não. — April assegurou e ele balançou a cabeça concordando deixando seu livro em cima da mesa de cabeceira que havia ali, pegando a jarra de água em cima do móvel e servindo-se oferecendo o copo para mim, antes de retirar uma cartela de remédios do bolso da calça que usa.

— April, por favor, providencie algo leve para a alfa Lara comer. — Solicitou a minha amiga enquanto destacava um comprimido da cartela, oferecendo-o a mim que olhou seu gesto com desconfiança.

— Claro, irei providenciar, com licença. — April disse saindo do quarto nos deixando a sós.

— Pare de me olhar como se estivesse tentando envenená-la. — Heitor apontou ainda com a mão esticada oferecendo o comprido para mim.

— Quem me garante que não esteja?

— Se a quisesse morta, não a teria tirado da banheira e muito menos passado minutos tentando reanimá-la, não acha? — Sugeriu e fiquei balançada com a sua lógica, mas não iria admitir isso — Não precisa se preocupar, é apenas um comprimido para dor porque tenho certeza de que deve estar sentindo seu corpo dolorido, resultado da força que fiz para reanimá-la. — Explicou com gentileza enquanto olhava para o comprimido em suas mãos e o peguei sem dizer uma palavra, colocando-o na boca e tomando um pouco do copo de água que estava na minha mão.

Em silêncio ele esticou sua mão direita em minha direção e entreguei meu copo, colocando-o em cima da mesa de cabeceira.

— Como veio parar no meu quarto sem minha autorização? — Perguntei e suas bochechas adquiriram uma coloração adorável de vermelho, combinado com a barba por fazer que ele ostentava em seu rosto.

— Você vai achar que sou maluco.

— Não se preocupe, porque já estou achando. — Segredei indicando que se sentasse na beirada da minha cama e assim o fez.

— Em primeiro lugar, quero que saiba que jamais quis invadir a sua privacidade e peço perdão por isso — pediu envergonhado por sua falha — Estava no meu quarto deitado na cama lendo, acho que estava mais dormindo do que lendo... — segredou pensativo fazendo uma ruga surgir na sua testa — Quando senti algo me puxando para fora...Tentei ignorar o impulso, mas sempre que fazia isso ele se tornava mais urgente e angustiante então só em deixei levar. — Explicou perdido em pensamentos como se revivesse aquele momento e meu coração se apertou diante da sua angústia.

— Quando parei em frente a essa porta, não tinha ideia de que era o seu quarto, nem tinha a intenção de entrar só fiz isso porque ouvi a zoada de algo caindo, bati na porta chamando e ninguém respondeu por isso entrei...Assim que a reconheci no fundo da banheira não pensei direito, simplesmente agi por impulso. — Revelou e notei que suas mãos tremiam ao reviver aquele momento.

O relato de Heitor me fez perceber que nosso laço de companheirismo, desconhecido por ele, o trouxe até mim para que pudesse me ajudar e impedir que algo pior acontecesse.

Se algo tivesse acontecido, ele sofreria sem ao menos saber que estava destinado a mim sendo condenado a viver uma vida de dor pela separação, sem nunca poder encontrar outra parceira. Porque a sua havia partido, sem reclamá-lo para si.

— Me desculpe. — Sussurrei entre lágrimas me sentindo culpada pelo susto que havia lhe dado, mas também por saber que não conseguiria renegar meu lugar de alfa para ficar com ele.

— Não precisa me pedir desculpas, alfa Lara, o errado nessa história toda fui eu que entrei no seu quarto sem permissão.

— Você não foi errado, alfa Heitor, se não tivesse seguido seus instintos não estaríamos tendo essa conversa agora, por isso muito obrigada por ter salvado a minha vida.

— De nada — disse gentil, antes de me olhar com cuidado — Mas o que aconteceu quando estava na banheira? Você se sentiu mal e desmaiou?

— Sim, ultimamente tenho me sentindo estranha.

— Estranha como? — Perguntou com preocupação e o olhei desconfiada — Não precisa ficar preocupada, seu segredo está seguro comigo por causa do sigilo médico paciente. — Prometeu e respirei fundo, pensando em tudo que vinha sentindo ultimamente.

— Me sinto estranha, porque de uns meses para cá tenho sintomas frequentes como tonturas, dores de cabeça... Fome exagerada...Irritabilidade... — Listei enquanto ele me ouvia atentamente — É como, se estivesse a ponto de perder o controle a qualquer momento. — Confessei algo que não tinha dito nem para April.

— Sua menstruação está em dia? — Perguntou e sorri surpresa diante do que havia acabado de ouvir.

— Que tipo de pergunta é essa?!

— Uma pergunta simples, para fechar um possível diagnostico, já que seus sintomas podem ser associados a uma possível gestação. — Explicou educado, mas havia algo nos seus olhos que demonstravam descontentamento diante dessa possibilidade.

Não acredito que ele estava com ciúme de mim, só de imaginar que poderia estar comprometida com outro ao ponto de esperar um filho?!, pensei surpresa diante da demonstração clara dos seus sentimentos.

Permaneci alguns minutos em silêncio, apreciando a sensação de ver que não era a única ali inconscientemente comprometida com o laço que nos unia. Mesmo sem querer, Heitor sentia os efeitos do compromisso para qual havíamos sidos destinados, me fazendo perceber que se a deusa lua devia ter algum plano para unir dois alfas com o voto mais sagrado do nosso povo.

— Devo interpretar seu silêncio como um... — Apontou deixando a frase morrer no ar enquanto voltava minha atenção para ele, vendo a angústia no fundo dos seus olhos por trás da expressão calma que seu rosto transparência.

— Meu silêncio quer dizer um não — assegurei vendo-o respirar aliviado me fazendo rir com a sua reação. — Acredito, que você deveria ser mais descrito diante da minha negativa, não acha?

— Se fizesse isso estaria mentindo — segredou sorrindo fazendo seus olhos azuis brilharem como safiras — Marta e Matias, sempre disseram que sou um péssimo mentiroso, os dois me aconselharam a nunca tentar porque falharei vergonhosamente. — Apontou sorrindo e fiquei curiosa diante do nome que ele havia falado com tanto carinho.

— Quem é Marta? — Questionei tentando soar causal e não ciumenta.

— Ela é a única figura materna que conheci, fui entregue aos seus cuidados quando era um bebê e Marta, era uma mãe cujo filho havia nascido sem vida — explicou perdido em pensamentos e apertei sua mão com carinho tentando lhe passar algum tipo de conforto. — Acho que sou uma pessoa totalmente diferente do meu genitor por causa dela, por ter me dado todo o amor e carinho que seria destinado ao seu filho. Ela e Matias, salvaram a minha vida e serei sempre grato aos dois.

— Matias?! O mesmo Matias, chefe da sua segurança? — Perguntei lembrando da forma como ele era zelo e cuidadoso com Heitor, indo muito além de um mero profissional.

— Sim, ele é a única figura paterna que conheci e não o trocaria por nada nesse mundo, mesmo sendo mal-humorado e desconfiado ao extremo — segredou e sorrimos. — E você? Se dava bem com seu pai?

— Nos dávamos bem, as coisas só ficaram difíceis quando decidi sair do clã para cursar artes na Itália.

— Sério?! Você não tem cara de que cursou artes — apontou surpreso sem desviar seus olhos de mim. — Chegou a concluir o curso?

— Sim, atuei como pintora por dois anos mais tive que largar tudo e voltar para casa quando meu pai ficou doente.

— Voltou para assumir o legado da família. — Concluiu e balancei a cabeça concordando. — Não sente falta de pintar?

E sua pergunta me pegou de surpresa, porque desde que assumi o lugar do meu pai não havia mais pensando em pintar deixando essa parte da minha vida no passado, me dedicando a administrar o clã como era esperando para a única herdeira viva dos Kingston.

— Sim — respondi com sinceridade porque seria incapaz de mentir para ele. — Mas essa parte da minha vida ficou no passado, preciso olhar para a frente e pensar no bem do clã.

— Entendo, mas não adianta pensar no bem do clã, se você não está feliz. Não acha? — Perguntou e abri a boca para dizer algo, mas ouvimos alguém bater na porta e autorizei a sua entrada vendo April adentrar o ambiente com uma bandeja nas mãos.