— Deseja mais, alfa Lara? — April questionou assim que terminei o lanche leve que havia levado para mim.

— Não, April, estou satisfeita, obrigada. — Agradeci e ela sorriu carinhosa retirando a bandeja do meu colo.

— De nada — disse com gentileza voltando sua atenção para Heitor que agora ocupava a poltrona perto da minha cama. — Gostaria de algo, alfa Heitor?

— Não, April, estou bem, obrigado.

— De nada, boa noite aos dois. — Desejou nos deixando a sós no quarto e tentei me acomodar da melhor forma possível para dormir, enquanto Heitor abria o livro que havia trazido começando a lê-lo me fazendo suspirar entendida e ele desviou os olhos para me ver.

— Está sentindo alguma coisa, Alfa Lara?

— Lara — corrigi e ele me olhou confuso — Me chame de Lara, por favor. — Pedi e Heitor fechou seu livro para me dedicar a sua atenção.

— Creio que não seja adequado, me dirigir a alfa do clã Kingston utilizando seu primeiro nome.

— Não vejo nada inadequado. — Pontuei e ele respirou fundo, como se estivesse organizando seus pensamentos.

— Tratá-la por seu nome de batismo sem utilizar seu título, poderia causar certo mal-estar com seu futuro companheiro. — Explicou educadamente e tive que me controlar para não rir irônica, diante da situação na qual estávamos que era exclusivamente culpa minha por não contar a verdade.

— Não se preocupe, você não causará nenhum mal-estar com meu futuro companheiro se me chamar por meu nome — assegurei e ele me olhou com receio me fazendo respirar fundo, pensando em outra estratégia para convencê-lo — Pelo que sei, amigos se tratam pelo nome, certo? — Questionei esperançosa e ele sorriu concordando.

— Sim — confirmou sorrindo — Isso quer dizer, que somos amigos? — Perguntou com curiosidade.

— Sim — confirmei tentando controlar meu entusiasmo — Isso se desejar...É o que deseja? — Perguntei esperançosa e ele sorriu docemente.

— Seria uma honra ser seu amigo.

— Para mim também. — Pelo menos por enquanto até conseguir uma solução para a nossa situação, pensei comigo mesma porque se a deusa lua havia nos juntado com certeza era para ficarmos juntos e não separados.

— Sobre o que está lendo? — Perguntei tentando manter o assunto e ele desviou os olhos para a capa do livro em seu colo, voltando sua atenção para mim iniciando uma breve explicação da história que tinha como plano de fundo um naufrago, que enfrentava inúmeros desafios para regressar aos braços da sua amada.

Logo estávamos em uma conversa envolvente sobre livros, filmes, músicas e viagens memoráveis, notando o quanto tínhamos em comum além do título de nascença que carregávamos.

Era fácil conversar com Heitor, porque só precisava ser eu mesma sem qualquer defesa ou medo de dar um passo em falso e ser julgada. Pela primeira vez na vida, tive a sensação de que havia finalmente encontrado meu porto seguro, um lugar para o qual poderia me refugiar quando necessário.

Só esperava que pudesse ser o mesmo para ele, quando chegasse a hora.

No dia seguinte, Heitor explicou novamente a importância de acompanhá-lo até o hospital para fazer alguns exames, mas era ciente de que assim que colocasse os pés no local levantaria suspeitas sobre meu estado de saúde. Um fato que alegraria meus opositores, especialmente minha tia materna Morgana, que sempre deixou claro seu descontentamento em saber que herdaria o lugar do meu falecido irmão.

Depois da morte do meu pai, ela até tentou me desafiar e assumir a posição que me era de direito, mas não obteve apoio da maioria e optou por sair do clã, desde então não faz questão de obter contato conosco.

— Alguns exames podem ser coletados na sua casa, mas outros só podem ser feitos em um ambiente hospitalar. — Heitor explicou baixo, enquanto tomávamos café no jardim sob o olhar atento de April e Matias, os únicos que autorizei a permanecerem no local.

— Pois então, só farei aqueles que podem ser coletados aqui — destaquei séria tomando um gole do meu suco de morango, ganhando um olhar sério do homem sentado a minha frente — Não me olhe assim, simplesmente não posso dar a entender que tem algo errado comigo. Se isso acontecer, estarei em uma posição difícil. — Expliquei tentando fazê-lo ver o meu lado e ele se inclinou sobre a mesa aproximando-se de mim, como se fosse me contar um segredo.

— Só os exames de sangue, não irão apontar se você estiver com algo mais grave para isso precisa fazer os de imagem, e só poderei ajudá-la se fizer todos sem exceção. — Pontuou usando um tom profissional, provavelmente o mesmo que usava para convencer seus pacientes a seguirem o tratamento que indicava.

Ver seus olhos suplicantes, implorando que aceitasse seu pedido me deixou tentada a concordar com o que quisesse, mas meu instinto de liderança gritou mais alto, deixando claro que precisava defender meu território mesmo que para isso tivesse que negar um pedido do meu companheiro de alma.

— Não posso fazer isso, Heitor. — Sussurrei com dor por negar um pedido seu e ele piscou surpreso, como se não tivesse entendido o que havia acabado de dizer.

— Como?

— Não posso dar margem a dúvidas sobre meu estado de saúde, três dias antes da festa que anunciarei meu parceiro.

— Como acha que seu parceiro irá se sentir, quando souber que está ciente de que pode estar morrendo e não fez nada para evitar isso?! — perguntou furioso e engoli em seco sem saber o que dizer — Julgo isso, como um dos atos mais cruéis de traição, porque estaria me roubando a chance de ter uma vida ao seu lado, antes mesmo de nos apaixonarmos. — Destacou furioso levantando da mesa me deixando sozinha, sendo seguido por Matias e tudo ficou claro diante de mim.

Ele sabia.

Com essa certeza em mente me levantei da mesa caminhando em sua direção, sem saber ao certo o que faria quando tivesse sua atenção, mas precisava fazer algo para contornar a situação antes que piorasse de vez.

Caminhei apressada sentindo meu coração bater acelerado, enquanto o som dos meus saltos ecoavam pelos corredores da minha casa, apurei meus sentindo em busca do meu parceiro, mas não precisei de muito para encontrá-lo em pé na sala de braços cruzados ostentando uma postura descontente diante da visita inesperada que se encontrava ali.

— Querida. — Darius disse sorrindo ostentando um buque de rosas nas mãos, flores que sempre odiei, ignorando Heitor e caminhando em minha direção sem desviar seus olhos dos meus.

— Darius, o que faz aqui? — Questionei surpresa e ele sorriu de forma galanteadora, um gesto que me deixaria tentada, mas agora só era irritante assim como a sua presença.

— Vou deixá-los a sós, para que possam conversar melhor. — Heitor disse sério e Darius o encarou com raiva.

— Seria ótimo, afinal, você não passa de um mero visitante que já está prologando sua permanência além do desejado. — Darius destacou com desagrado se comportando como meu parceiro, enquanto estreitava os olhos e sentia meu sangue ferver diante da sua ousadia em ser grosseiro com o verdadeiro dono do título.

Antes que minhas mãos pudessem alcançar o pescoço de Darius, Matias deu um passo em sua direção deixando claro que tinha a mesma ideia, mas foi impedido por Heitor que segurou seu braço atraindo sua atenção para si.

— Pai, não vale a pena — pediu suave para o homem ao seu lado que revirou os olhos, voltando a posição original atrás de Heitor, sem deixar de olhar com raiva para Darius enquanto seu alfa voltava sua atenção para meu convidado indesejado — Não se preocupe com a minha presença, partirei hoje mesmo já que terminei os assuntos que tinha no clã Kingston. — Assegurou frio fazendo Darius sorrir triunfante diante da sua resposta, enquanto meu coração se apertava com aquela notícia.

Sem desviar os olhos de Darius, Heitor caminhou em sua direção antes de parar deixando um espaço razoável entre eles, enquanto seus olhos azuis claros assumiam um tom lilás, característico dos alfas quando estavam em comunhão plena com nosso outro lado, mesmo não havendo transformação.

— A sua sorte é que não estamos no meu clã, porque nem estaríamos tendo essa conversa agora — pontuou usando seu tom de alfa fazendo Darius recuar um passo, reconhecendo instintivamente a superioridade que emanava do outro, mesmo que não fizesse parte do seu clã — E só para constar, também não gosto nenhum pouco de você. — Destacou frio afastando-se caminhando em direção as escadas, sem se importar se poderia ser atacado por seu adversário.

— Heitor — chamei indo atrás dele, mas fui bloqueada por Matias — Saia da minha frente agora. — Sibilei furiosa e ele negou com a cabeça, fazendo meu outro lado se encher de fúria.

— Sei que posso estar sendo insolente, alfa Lara, mas conheço meu filho, por isso é melhor deixá-lo se acalmar antes de conversarem — pediu com gentileza e olhou sério por cima do meu ombro — Vou lhe dar um conselho, mesmo que não tenha me pedido, alfa Lara — informou suave ainda parado na minha frente me impedindo de ir atrás de Heitor — Meu filho é naturalmente gentil, jamais levanta a voz para alguém ou perde a calma, mas ele ainda tem o sangue dos filhos da lua correndo em suas veias e uma coisa que nenhum de nós admite é saber que nosso parceiro está nos traindo, não importa de que forma seja. — Pontuou com gentileza e dei um passo para trás ciente do que Matias estava falando.

Sem dizer mais nada ele deixou a sala, subindo as escadas na mesma direção que seu alfa havia ido.

Ele achava que eu o estava traindo?!

Por isso me confrontou daquela forma durante o café da manhã?! Por isso seu desconforto, quando achou que podia estar esperando um filho de outro homem devido ao meu mal-estar...Desde quando Heitor sabia que era o meu companheiro de alma?!

Pensar nisso deixou minhas pernas fracas, por isso me apoiei no braço do sofá me sentando em seguida tentando organizar o caos que estava a minha cabeça.

— Você precisa mandar esse homem embora o mais rápido possível, querida, ou logo começarão a pensar que está me traindo com ele — ouvi Darius dizer furando a barreira de caos na qual estava mergulhada — Como se isso algum dia fosse possível, é só olhar para ele para saber que não faz seu tipo. — Assegurou confiante e sorri sem humor, deixando-o confuso com a minha reação.

Calmamente levantei do sofá em que estava, usando todo o meu alto controle para manter uma postura altiva e poderosa, enquanto meu interior estava uma bagunça total.

— Quem lhe deu o direito de vier até minha casa sem convite, trazer flores que odeio e dar ordens, como se fosse meu parceiro?! — Questionei furiosa caminhando em sua direção como uma predadora diante da sua caça.

— Só pensei que poderíamos...— Começou a dizer nervoso e sorri sem humor.

— Não pense, porque nunca foi seu forte, Darius — apontei furiosa olhando-o com desdém — Jamais escolheria um homem cruel, sorrateiro e infiel como você, para dividir o laço mais sagrado e importante do nosso povo — rosnei furiosa fazendo-o derrubar o buquê no chão. — Suma da minha casa e leve essas flores com você, agora.

Sem dizer uma palavra, Darius pegou o buquê do chão e correu porta a fora, logo senti uma dor lancinante na minha cabeça que me fez perder os sentidos.