Fruto Proibido
16 DEZESSEIS

— Ainda acho isso tudo muito arriscado — Heitor disse com preocupação, assim que o Doutor Tavares assegurou que apesar da forte emoção que sofri horas atrás meus batimentos não haviam sido alterados para um estado preocupante. — Não faz nem três semanas que recebeu alta do hospital e já está envolvida em todo esse caos.
— Entendo sua preocupação, Heitor, mas preciso saber a verdade antes que toda essa incerteza me consuma de vez. — Expliquei e ele suspirou concordando, sentando-se ao meu lado no sofá do escritório.
Decidi que seria melhor conversar sobre esse assunto no meu escritório, evitando que curiosos soubessem o porquê de ter chamado os dois homens mais importantes do clã depois de mim.
Tudo que não precisava agora era de um caos generalizado, caso outras pessoas acreditassem no que minha tia havia revelado horas atrás na minha sala de estar.
— Seria muita hipocrisia da minha parte, querer privá-la da verdade quando também vim em busca dela — revelou e o olhei surpresa. — Pedi para ter acesso ao arquivo do seu clã, porque queria saber sobre a minha família materna, já que meu genitor nunca revelou nada sobre ela para meus pais adotivos e muito menos para mim em seu leito de morte.
— E conseguiu achar algo sobre ela? Já que não possuía qualquer informação que o ajudasse nessa busca.
— Verdade, mas fui atrás da única funcionária viva que trabalhou naquela época servindo ao clã Knox, por sorte a velha senhora ainda se lembrava que naquele ano uma empresa de arquitetura chamada O’Connell havia sido contratada para reforçar as fundações da mansão danificada durante o período de chuvas. Segundo ela, os dois começaram um relacionamento durante toda a obra, o que durou em torno de uns dois meses.
— E como sua mãe se chamava? — Perguntei com curiosidade e ele sorriu.
— Angélica...Angélica Durans — revelou sorrindo feliz ao saber o nome da mulher que havia lhe trazido ao mundo. — Graças ao arquivo, consegui descobrir que tenho um irmão mais velho por parte de mãe e outros familiares vivos.
— Isso é maravilhoso, Heitor, estou muito feliz por você — declarei contente por saber que essa parte nebulosa da vida dele havia sido revelada. — E pretende conhecê-los?
— Ainda não sei, porque não tenho ideia de como irão me receber quando souberem de quem sou filho...Principalmente meu irmão mais velho, afinal, ele perdeu a mãe por minha causa.
— Você não teve culpa de nada, Heitor, pelo que soube o trabalho de parto foi muito difícil, por muito pouco não teve o mesmo destino que sua mãe.
— Sei disso, mas não deixo de pensar nessa possibilidade. — Apontou triste e apertei sua mão com carinho, deixando claro que estava ao seu lado.
— Não tenha pressa para conhecer a sua família materna, faça isso quando se sentir pronto.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer — disse com gentileza, antes de uma dúvida me ocorrer. —Porque o antigo alfa do clã Knox não lhe contou a verdade?
— Porque provavelmente o relacionamento não teve importância, o que ele não imaginava é que poderia resultar em uma gravidez indesejada — apontou suave. — Segundo a senhora, quando minha mãe contou que estava grávida os dois acabaram brigando, porque ele desejava que ela acabasse de vez com o problema o que claramente minha mãe não fez.
— Provavelmente ele não quis assumi-lo, por se tratar não só de uma relação sem importância, mas por ser um híbrido.
— Provavelmente. — Concordou perdido em pensamentos.
— Se o antigo alfa do clã Knox, exigiu que sua mãe interrompesse a gravidez no início, porque o entregou aos seus pais adotivos e custeou toda a sua educação, se não o desejava como filho? — Perguntei confusa diante da contradição que estava por trás das ações passadas do genitor de Heitor.
— É algo que me pergunto todos os dias. — Ele disse perdido em pensamentos e me recostei no sofá de forma confortável, tentando entender o que havia por trás dessa decisão tão contraditória e foi quando a explicação surgiu em minha mente.
— Foi por causa do vínculo — declarei como se tivesse achado a solução para um problema extremamente difícil. — Mesmo não o reconhecendo como seu filhote, o sangue que corre nas suas veias é metade Knox, impedindo-o assim de lhe infligir qualquer mal.
— É um ponto a ser considerado. — Heitor concordou perdido em pensamentos, antes de alguém bater na porta e autorizar sua entrada.
— Alfa Lara, o chefe do arquivo do clã e o grão guardião lunar já chegaram, posso autorizar a entrada deles? — April perguntou assim que adentrou a sala.
— Por favor, April. — Autorizei e ela balançou a cabeça concordando, deixando a sala para conduzir os recém-chegados até a minha presença.
— Quer que eu saia, para que possam conversar a sós? — Sugeriu e neguei.
— Não desejo esconder nada de você, afinal, somos parceiros. — Declarei e ele concordou beijando minha testa com carinho, antes de ouvirmos uma batida na porta e autorizar a entrada.
— Por favor, sentem-se — pedi aos dois homens que entraram acompanhados de April indicando os lugares a nossa frente — Aceitam algo para beber? — Perguntei vendo-os se acomodarem e ambos negaram, antes da minha assistente nos deixar a sós.
— Chamei os dois aqui, porque preciso esclarecer uma dúvida que me foi apresentada por minha tia Morgana. — Expliquei e o chefe do arquivo balançou a cabeça, indicando que compreendia minha inquietação.
— Por isso me pediu que trouxesse o atestado de óbito de sua mãe, alfa Lara? — O chefe do arquivo questionou e balancei a cabeça concordando.
— Sim, porque preciso saber de toda a verdade — declarei séria — O senhor conseguiu encontrar tão em cima da hora assim o documento que lhe pedi?
— Sim, minha senhora. — Assegurou e se levantou da cadeira em que estava sentada me entregando um envelope pardo.
Respirei fundo, tentando controlar meus batimentos cardíacos enquanto olhava para aquele envelope que poderia mudar o rumo da minha vida a partir do momento em que o abrisse.
— Estou com você. — Heitor sussurrou carinhoso ao meu lado e balancei a cabeça concordando, abrindo o envelope em minhas mãos lendo seu conteúdo percebendo que minha tia realmente tinha razão.
Não havia a menor possibilidade de que Elizabeth Kingston pudesse ter dado à luz a mim, já que havia morrido um ano antes. Comprovar esse fato, me fez pensar em como meu pai teve coragem de mentir todos esses anos para mim?!
— O senhor sabia disso, chefe do arquivo? — Perguntei desviando os olhos do documento para vê-lo.
— Infelizmente sim — admitiu envergonhado — Seu pai, o antigo alfa, me incumbiu de proteger esse documento escondendo-o de qualquer um, entregando-o apenas a senhora quando solicitasse.
— Como ele pode fazer isso comigo? — Questionei entre lágrimas perdida diante de tantas informações.
— Seu pai, o antigo alfa, só estava tentando protegê-la até que fosse forte o suficiente para se defender e garantir sua permanência a frente do clã Kingston. — Explicou e sorri sem humor diante do que havia acabado de ouvir.
— Não posso ficar à frente de um clã quando não pertenço a ele.
— Claro que pode, o fato de não ser filha da parceira do alfa anterior, não lhe tira seu direito de nascença porque a senhora é a única filha viva do herdeiro do clã Kingston — o grão guardião lunar se pronunciou tirando algo do bolso do casaco que usava — Antes de partir, seu antecessor implorou que guardasse esse envelope comigo e só o entregasse a senhora quando soubesse de toda a verdade. — Explicou entregando o envelope em minhas mãos, enquanto deixava o atestado de óbito da mulher que acreditei durante todos esses anos ser minha mãe, em cima da mesa que nos separava.
Com as mãos tremulas segurei o envelope branco, reconhecendo a caligrafia na qual meu nome estava escrito e o selo que meu pai utilizou durante todo o seu governo, um lobo uivando para a lua.
Rompi o lacre vermelho com cuidado, temendo danificar seu conteúdo, antes de começar a ler a carta.
Minha querida filha, Lara
Se estiver lendo essa carta, finalmente descobriu toda a verdade em torno das suas origens a qual fiz de tudo para esconder visando sua proteção.
Após a morte de seu irmão e de sua mãe, me entreguei a dor e a bebida deixando as responsabilidades do clã nas mãos do conselho dos mais velhos, porque não me importava com mais nada nessa vida. Em meio a um dos meus delírios de dor, segui em direção ao templo da deusa lua porque queria saber o motivo dela ter me tirado toda a felicidade desse mundo, me condenando a ruína total, sem obter uma resposta comecei a destruir tudo que via pela frente profanando o lugar que sempre foi sagrada para o nosso povo.
Diante do meu desespero, implorei a deusa que fizesse o impossível e devolvesse a minha família. Um desejo totalmente insano, mas para o estado em que me encontrava não pensei se poderia ser possível ou não, mas o inesperado aconteceu e a deusa apareceu na minha frente deixando claro que se compadecia do meu sofrimento e assim como eu implorava para tê-los de volta, minha família pedia para que aliviasse minha dor.
Naquele momento acreditei que finalmente os veria, mas fui informado de que antes de sucumbir a terrível enfermidade que levou minha esposa, Elizabeth havia descoberto que estava grávida novamente depois de passarmos anos tentando ter mais filhos.
Saber disso só me encheu de mais dor, pelos céus terem me negado a chance de ter outro filhote com a parceira que amava, mas a deusa lua assegurou que se fosse da minha vontade ela poderia devolver a vida da criança que não teve a oportunidade de nascer, como era desejo de sua mãe.
E sem pensar em nada aceita a oferta da deusa, que me pediu para estender os braços e logo uma poeira cintilante voou em minha direção se acumulando em meus braços, tomando a forma de um lindo recém-nascido com os olhos da cor da minha falecida esposa.
Sim, você é aquela que chamam de Fruto proibido, mas a lenda que nos foi contada durante milênios estava errada.
O Furto Proibido, não é o filho da deusa lua com um mortal, mas sim uma criança que não teve a chance de ver a luz do mundo trazida a vida por intercessão da própria deusa, me dando assim um novo sentindo na vida e um herdeiro para o legado do clã.
Escondi a verdade, plantando lendas falsas no arquivo e na própria população por intermédio dos guardiões lunar para protegê-la, porque muitos não irão entender a verdade se eu contasse como o caso da sua tia Morgana que jamais acreditou em mim, julgando-me como infiel para com a memória da minha esposa.
Por mais fantasiosa que possa ser essa é a verdade, Lara.
Sim, você nasceu um ano depois da morte da sua mãe...E não, você não é fruto de nenhuma aventura casual ou de uma traição. Afinal, como poderia trair a minha companheira de alma mesmo depois da morte?! Sempre foi e sempre será uma ideia inconcebível, filha.
Você foi o presente que recebi da deusa lua, para continuar existindo depois de perder as duas pessoas que mais amava no mundo.
Por mais difícil que possa acreditar, Elizabeth é sua mãe, assim como eu sou seu pai e Christopher é o seu irmão mais velho. Se ainda duvidar, pode fazer um exame de DNA com a sua tia Morgana, porque assim quem sabe finalmente ela acreditará na verdade.
Me desculpe, por não ter tido a coragem de lhe revelar tudo pessoalmente, filha, mas a nossa relação não tem sido das melhores ultimamente e não desejava afastá-la ainda mais de mim.
Espero que tenha encontrado a felicidade, minha querida, e que possa seguir a diante depois de saber toda a verdade.
Com amor do seu amado pai,
Alfa Jacob Kingston.
— Bem, creio que a nossa missão aqui terminou. — O grão guardião lunar informou se levantando do local em que estava sentado assim que terminei de ler a carta do meu pai e fiquei contemplando o nada, tentando compreender tudo que havia lido naquelas folhas.
— Os senhores não podem simplesmente saírem assim e se Lara tiver alguma pergunta? — Heitor questionou para os dois homens que estavam prontos para sair.
— Todas as perguntas da alfa Lara, serão respondidas com a carta do seu antecessor como nos foi informado por ele. — Assegurou o ancião e Heitor abriu a boca para dizer algo, mas o interrompi.
— E foi senhores, mesmo precisando de um tempo para entender tudo o que li nessa carta — disse desviando meus olhos dos papeis em minhas mãos para vê-los — Obrigado por terem guardado esse segredo durante todos esses anos e terem me revelado no momento certo, mas lhes seria eternamente grata se continuassem guardando o que sabem. — Implorei ciente de que se isso se tornasse de conhecimento público ninguém acreditaria na história escrita nessa carta e acabaria sendo tratada como uma aberração, algo que meu pai tentou evitar durante anos.
— Não se preocupe, seu segredo irá conosco para o tumulo. — Asseguraram antes de deixarem meu escritório.
— Você está bem? — Heitor questionou com preocupação e suspirei negando, entregando-lhe a carta que meu pai havia escrito para mim.
Esperei pacientemente que terminasse de ler e processasse tudo que havia lido, porque sabia por experiência própria que era demais para qualquer pessoa acreditar.
— Agora que sabe toda a verdade, ainda deseja ficar comigo? — Questionei e ele desviou os olhos dos papeis em sua mão para me ver, enquanto segurava a respiração esperando por sua resposta.
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