Frio e outros contos
9 O porquê nunca é suficiente
Notas iniciais
A discussão era curta. Era para durar pouco. Para não ser questionada por muitas pessoas, afinal, era só uma discussão... Não era para ser marcada. Nem notada.
Mas o que mudava essa discussão, era que ela não era uma discussão... Mas era a milésima... sim. Era a milésima... a única coisa, era que ela não queria ver que a discussão... era muito mais que uma discussão.
‘Nem todas as pessoas são simplistas como você, Amanda.’
Uma vozinha fina apareceu em sua mente, como se seus próprios pensamentos debochassem da menina. O pior é que ele tinha razão.
Thiago a fitava irado como ela nunca tinha visto. Como aquilo chegou àquele nível?! Ela não sabia, ao menos, queria sentir que não sabia. Como se a culpa não tivesse sido dela. Mas era. No fundo, aquela voz fina de deboche ainda estava presente e estaria por muito mais tempo... talvez, para sempre.
Ele saiu do cômodo, se distanciou, e alguns segundos depois, a batida forte da porta da frente de mogno ecoou, agora, na casa vazia. A menina permaneceu fitando o nada, fitando o que deveria ser o garoto em sua frente, mas ele não estava mais lá. E ela, paralisada, era como um novo móvel no apartamento recém-decorado. Uma estátua mal-acabada.
A parede bege, pintada há menos de três meses, uma mancha de água se atarantava. Havia flores no chão, cacos, almofadas jogadas, a cama desarrumada e alguns cacos de algo que ela tinha quase certeza ser um prato usado no café na cama daquele dia.
Como tudo aquilo poderia ter acontecido?
A menina apertou a camisa azul clara que trajava, juntou a mão no rosto e o apertou, tentando impedir o som e a água da tristeza que começavam a cair. Caiam como as lembranças que voltavam em sua mente.
Por que ela tinha feito aquilo?! Por que ficara tão brava?
Passara uns dez minutos agachada, esperava, como se o tempo tivesse parado. Na verdade, ela não queria se mover... queria mesmo que alguém a pegasse no colo como faziam quando era pequena. Mas, Thiago, é... Thiago não estava mais lá.
O tempo para ela estava parado. Ou melhor, estava verdadeiramente acabado. Tinha deixado de existir. Talvez, fosse porque ela tivesse certeza. Seu tempo havia acabado. Mas naõ queria admitir.
‘– Amanda. Para sempre... – Sorria um jovem de óculos, olhos castanhos, cabelos negros. Estava em seus dezoito anos. Alto, mostrava a mão para a garota, tão jovem quanto ele, mas baixa e loira.
– Sim. – Sorria a menina, pegando em sua mão em seguida. Ela tinha certeza que aquilo era real, e duraria sempre... pelo resto de sua vida.’
Amanda pegou um papel, colocando os cacos um acima do outro para jogar fora.
‘– Lembra aquela vez que na montanha-russa, acabou a energia? – Ria-se o garoto, agora em seus 20 anos. – Você ficou tão assustada! – Riu-se. – Foi uma ótima forma de te abraçar... – Ele olhou para a frente, como se lembrasse.
– Pode parar!! – A menina bateu fraco em seu braço de vergonha. – Isso é tão injusto... – Riu-se ela.’
Os cacos agora quase todos em cima do papel. Amassou-o, jogou no lixo, caminhando pelos cômodos do apartamento como uma fantasma. Sentiu um arder no dedo, cortinho em sua mão esquerda.
– Droga! – reclamou, abrindo o armário da cozinha e pegando um curativo. Lá estava uma caneca de um time de futebol.
‘– Vamos, Mandinha! – Gritava Thiago, estranhamente animado.
– Calma! É só um jogo. – A menina subia as escadas o mais rápido que podia. – Você vai adorar... – Ela riu baixinho.
– É sim! Vou mesmo. – Chegaram então em seus lugares, lá, como ela havia pedido tinha canecas de seu time. Ele sorriu, correu para ela lhe puxando para ver, e ela gritou.
– Parabéns!!! – O garoto estatelou o queixo para baixo de surpresa, abraçando a garota. – Espero que goste. – Ela terminou.
– Meus aniversários sempre serão melhores por causa de ti. – Ele Sorriu, sem solta-la.’
A garota de cabelo em um rabo de cavalo sorriu, de leve, passando a mão pela cabeça e voltando ao quarto, desta vez com um pano de chão para secar a parede, a mesma parecia não querer fazê-la. E novamente ela foi levada enquanto fazia a atividade.
‘– Mandinha, você quem sabe... – O jovem já em seus trinta anos dizia, apertando os olhos. – eu já não consigo mais diferenciar uma cor da outra. – o jovem riu acariciando o cabelo da noiva.
– Ok. Qual das que você viu você tem mais lembrava? – ela perguntou.
– Essa. – O homem apontou para uma das paletas que eles tinham visto primeiro.
– Por que não disse antes?! – Ela perguntou.
– Porque era para você escolher. – Riu-se o garoto.
A menina lhe roubou um beijo. – Te amo. – Piscou para ele.
– Para sempre... – Ele frisou.’
A última frase continuou ecoando na cabeça dela por alguns instantes enquanto secava as lágrimas que voltavam a se formar, não com o pano de chão, obviamente.
Mas qual havia sido o motivo besta da discussão? Ela continuava a se questionar.
Agora fora as vezes das rosas. Eram rosas laranjas, sua cor favorita. Eram tão lindas, o tom claro se assemelhava a um amarelo... Ela sorriu colhendo cada uma das rosas, desta vez não se importando, nem com os espinhos, nem com as lágrimas.
Eram doze rosas. Eram doze anos.
Eram milhões de dúzias de brigas.
Eram também, milhões de dúzias de sorrisos, mas esses... eram distantes.
Ela tinha certeza. Aquilo não voltaria.
Uniu as rosas, colocando-as em um vaso, e ajeitando-as na mesa da sala de jantar.
Observou o lugar harmonioso e vazio... incompleto.
Mordeu o lábio. Apagou a luz. Apenas a lus das janelas iluminavam o cômodo que se entendia perante ela, agora organizado. É. A casa estava organizada. Mas e o resto? A garota mordeu o lábio em dúvida. Não importava.
Pegou sua bolsa. Olhou para o relógio, era meio dia e dez. Pegou a chave e se dirigiu à porta.
Havia passado do meio dia. Seu tempo tinha acabado. Abriu a porta, passando por ela e a fechando em seguida.
– O sempre... acabou. Com o badalar do meio dia. – Bateu a porta, trancando o apartamento. – É hora de dizer adeus.
Olhou mais uma vez para a porta. Encarando o número que se estendia perante ela '122'... Ela agora sentia. Tinha acabado.
– Adeus.
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