Frio e outros contos

10 Lobisomens não uivam


Notas iniciais
Olá pessoas! Como foram de feriado? O meu foi bem produtivo... estudei nada do que deveria... mas escrevi bastante... (história ainda não postadas!) Espero que gostem~~

Fazia frio, mas ela não ligava. A sua frente, uma estante, uma lareira, uma mesa posta com uma taça de vinho e uma cerveja. Sobre seu corpo, uma manta. Ao seu lado, um homem.

— Amor? — Perguntou a voz aveludada, masculina. Já muito conhecida por seus ouvidos.

— Hum? — Ela perguntou distraída com o trepidar da madeira.

— Eu preciso te contar uma coisa. — Ele assentiu, parecendo em dúvida se continuava, ou não...

— Espera. — Ela levantou a mão. — Eu estava lendo uma coisa esses dias. — O jovem a sua frente ficou quieto, esperando que ela continuasse. Ela mordeu o lábio. — Não vá rir de mim! — Ela sorriu de leve, mostrando o primeiro pré-molar torto que deixava seu sorriso único.

O homem, cabelos castanhos, barba por fazer, alto, nem velho, nem jovem, em seus trinta e muito anos, concordou com a cabeça, sério. Ele com certeza não riria dela. Ele tinha um medo muito maior do que ela faria com ele depois do que tinha de falar.

— Eu estava lendo um livro esses dias, de contos de fada. Sabe? — Ela riu, ele também, um tanto transtornado. — E lá tinha lobisomens e essas coisas... — A menina continuou. — Acha que eles realmente uivariam se existissem? — Ela perguntou, curiosa, mas, não acreditava em nada daquilo. Era uma pessoa cética.

Bem diferente dele. Provavelmente porque, ele sabia que todas essas histórias eram sim reais. Ele era uma dessas coisas. Mas, como dizer isso para ela?

Ele riu. — Não. Lobisomens não devem uivar há mais de centenas de anos. Se não, ouviríamos, né? — Ele riu. Meio que falando de brincadeira. Apesar de que, na verdade, era verdade. Não se uivava mais fazia séculos...

— Como você sabe? — Ela o encarou pensativa. Mas logo depois desatou a rir, como que brincando.

—Amor, impossível te levar a sério... — Ele sorriu, ainda em dúvida se contava ou não.

— Você também! — Ela tocou com o indicador em sua testa. E ele observou seu dedo, mínimo em comparação aos seus... Como ele queria que ela o ouvisse com seriedade.

Ela concordou, se aconchegando uma vez mais na manta que a esquentava naquele dia tão frio. Mordeu o lábio pegando a taça de vinho e bebericando novamente.

— O que você queria perguntar? — O observou com os olhos grandes.

Ele pensou algumas vezes, decidindo se deveria acatar a manobra e conta-la toda verdade... ou não. Respirou fundo. A mulher de repente afinou o sorriso, cerrando-o logo em seguida. Devolvendo sua boca ao formato de risco que detinha.

Ele respirou fundo uma segunda vez. Analisou sua beleza diferente uma última vez. Ela tinha cabelos negros, sardinhas, os olhos eram verdes, com manchas amarronzadas... mas o que mais surpreendia era a boca vermelha e riscada, e lógico, o nariz pequeno e batatinha. Era uma graça. Uma verdadeira boneca.

Ele respirou mais uma vez, o que a deixou surpresa. — Querido? — Ela perguntou de novo, pensando se ele iria ou não responder.

— Ah. Sinto. — Ele afirmou. — Eu te amo... — Disse. — Querida, — Ele hesitou novamente. — eu sou um lobisomem...

Ela desatou a rir. Não havia como encarar aquilo de forma diferente. — O quê?! — Ela riu mais alto. — Você é o máximo... isso sim! — Afirmou.

Ele começou a menear com a cabeça. — Não... — Ele afirmou. Fitando-a. — É verdade...

Ela o fitou, vendo sua seriedade. — O quê? — Ela se levantou em desespero. — O que quer dizer com 'sério'!? — Ela berrou de novo.

Ele se pôs de pé, fitando-a. Segurou-a pelos braços. — Querida. Me ouça! — Ele pediu.

— Não. Eu quero ver. VER. — Ela meneou, falando bronqueada e alto.

Ele respirou fundo. — Não... Eu não faço isso... Quase nunca.

— Agora. — Ela pediu, batendo em seu peito.

Ele negou. Fitando-a fervorosamente. — Ainda sou eu... Ok? — Ele implorou. — Ainda sou eu. — Disse uma segunda vez.

Olhou para o teto da casa. Respirou fundo, coisa que ele parecia fazer muito naquele dia. Sentiu o sangue queimando em todas os mínimos de seu corpo. Seus olhos logo ficaram com a íris vermelha-sangue, seus dentes cresceram e o maxilar moveu-se. Se cobriu com pelos, e logo não se via mais a face de um homem, mas algo lobo meio homem... um animal.

A mulher o observou. Os olhos tremendo e lágrimas caindo por eles, maiores que o normal. Mal se via mais sua tonalidade esverdeada pela dilatação da pupíla. Ela o fitava, com a mão nos lábios, que também tremiam, mas não parecia vê-lo. Ela via... Apenas o animal... Para ela, não era mais ele.

Os olhos vermelhos imploraram para que ela percebesse, mas, de nada adiantou. Ela se soltou dele, lutando, e antes dele se transformar, a porta havia sido escancarada, e ela havia saído pela mesma, correndo em prantos.

Os pensamentos não mais tão sãos passaram por sua mente. Ele correu, não atrás dela, mas para o outro lado, se sentindo o monstro que na verdade não era.

O frio não o incomodava. Pelo contrário, o fazia bem... O aliviava da dor que ardia dentro dele, de seu coração quebrado.

Parou no meio de uma floresta, com a certeza de que estava longe de tudo e com ele, só restava seu peito, mais dilacerado do que ele jamais poderia imaginar fazer à uma presa.

O homem, que no fundo, era mesmo um homem, sentiu-se animal uma vez mais, talvez a maior das vezes. E então, ele uivou para a lua. Naquele dia... ele chorou por ela.

Ele...

finalmente...

uivou.

Notas finais
O que acharam? Adoro comentário de vocês!! ^^ Minha escrita mudou muito nos últimos tempos? Beijos...