Friendship Project
8 Stray Cat's Cry 1.0
Notas iniciais
"Isso foi há três anos"
Era madrugada, por volta das duas horas da manhã. O céu estava limpo e os prédios apagados, a única luz que brilhava era a dos postes. Estava frio; Podia-se ver o nevoeiro fraco às luzes da rua, e, sob uma delas, uma pessoa. Do outro lado da rua, um jovem, encasacado e com sacolas nas mãos, caminhando: Usava óculos, tinha os cabelos castanhos, era alto. E, sentada sobre o meio fio, do outro lado, ela: Cabelos curtos, uniforme escolar, agarrada em seus joelhos e com a cabeça baixa.
"Ela está chorando?" – Ele pensou.
Ele parou, olhou, esperou para que ela ao menos erguesse o rosto; Ela, não o fez. Ele atravessou a rua e aproximou-se dela. Ela provavelmente o viu, provavelmente o ignorou. Ele, que estava a olhá-la de cima, abaixou-se e estendeu a mão em direção a ela. Ela reagiu:
— O que você quer? – Não levantou a cabeça. Sua voz era rouca, mas agressiva.
Ele não respondeu, permaneceu imóvel até que a menina se manifestasse de novo; E ela, raivosa, o fez:
— Você é surdo?! Perguntei o que você quer. – Desta vez, ela ergueu o rosto. Parecia realmente irritada, como quem estava prestes a bater em alguém, mas seu rosto o desmentira: Estava inchado e vermelho, ousaria-se dizer que até úmido estava. E o jovem notou isso.
— Por que está chorando? – Ele recolheu a própria mão.
— Não é da sua conta, é? Aliás, eu não estou chorando. – Ela esfregou as costas das mãos sobre os olhos. — Nem nunca estive. Você é um incômodo, vá embora.
— O que faz aqui à essa hora? – Ele ignorou a investida.
— Não te interessa, interessa?! Por que você simplesmente não vai embora? Não está vendo que simplesmente ninguém te quer aqui?! – Ela falara alto, quase gritando. Ele, pôs as sacolas no chão e sentou-se ao lado dela, olhando para a rua.
— Eu quero estar aqui, não preciso de nenhum outro motivo. – Ele a fitou os olhos. — E você? Por que quer estar aqui? Não deverias estar em casa? – Ele disse, ela não o respondeu. Só desviou o olhar, murmurando:
"Isso não é da sua conta"
— Tem certeza que não é? ... – Ele pensou, concluiu, e arregalou os olhos por um momento. — Não me diga que você, por acaso, está perdida..?
— É claro que não estou perdida. Por que você ainda está aqui? Você é algum tipo de tarado?
— Se eu fosse um tarado, acha que eu me preocuparia em perguntar sobre a sua casa? Provavelmente meu interesse maior seria a cor da sua calcinha. – Ela arregalou os olhos e afastou-se:
— Eu sabia!
— E... Espera! Eu não quis dizer isso, eu..
"Droga, eu disse algo estranho de novo!" – Ele pensou.
Ele ficou vermelho e, constrangido, levantou-se. Ele iria embora. A outra, sentiu-se vitoriosa, queria ficar sozinha. Foi quando um peso surgiu sobre suas costas: Era um casaco.
— O que está fazendo?
— Talvez você queira ficar sozinha, mas eu não acho que você queira ficar doente.
— Por que está fazendo isso? Eu não preciso da sua gentileza. – Ela pôs a mão no casaco para puxá-lo; Ele, o segurou.
— Não. Você precisa de um casaco. – Ele pegou as sacolas ergueu-se mais uma vez. — Volte para casa, é perigoso ficar aqui à essa hora.
"Eu não quero voltar." – Murmurou.
— Há alguém lá que você não quer encontrar?
Ela não o respondeu em palavras, mas assentiu com a cabeça. Ele, sentou-se de novo ao seu lado.
— Sabe, você pode estar braba com a sua família, mas você deve perdoá-los, porquê... Sabe, eles podem sumir de uma hora para a outra.
— Eles já sumiram há anos. O que está naquela casa não é nada a não ser meu carrasco. – Ela abraçou fortemente os joelhos. Ele, confuso, tentou emendar o assunto.
— Sabe... Quando eu era pequeno, meu pai nunca estava em casa. Então a minha mãe dizia que eu tinha que proteger ela e o meu irmãozinho, eu era o "homem da casa", isso me deixava muito feliz. – Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e fitou o meio-fio. — Um dia, quando saí para a escola, ela beijou minha testa e disse que à tarde me faria uma surpresa. Aquela foi a última vez que eu os vi de olhos abertos.
— O que aconteceu com eles?
— Ela levou meu irmão para fazer compras. Eles foram abordados por assaltantes... Acho que você já imagina o resto da história. – Ele cerrou os pulsos. — As pessoas viram. Elas estavam lá, elas podiam ter feito alguma coisa. Mas... É só o que elas sabem ser: Espectadores. Ninguém ajudou, ninguém nem sequer tentou ajudar. – Ele apertou ainda mais os pulsos, sua voz ficara trêmula.
— Por que está me contando isso?
— Não sei, talvez eu tenha pensado que se eu falasse sobre mim, você me falaria sobre você. Idiota, não? – Ele sorriu timidamente, coçando a cabeça.
— Sim, é bem idiota. – Ela suspirou, fez uma pausa, e continuou — Eu os vi queimar.
— Queimar? Você quer dizer quê...
— Você leu sobre o incêndio de dois anos atrás, não leu? Saiu em alguns jornais. – Ele assentiu com a cabeça.
— Quando os bombeiros chegaram, minha mãe me pegou no colo e me entregou para eles pela janela e voltou para buscar meu irmão. Nessa hora, o teto...
— Cedeu, não foi? Foi o que eu li. – Ele olhou para a rua novamente. — Não imaginaria que você era a garota daquele incidente. Devo-lhe desculpas.
— Pelo quê? Só se for por me importunar com sua presença.
— E com quem você vive agora?
Ela cerrou os pulsos, calou-se por um momento. Em seguida, respondeu: — Meu tio.
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