A noite estava estrelada e linda, uma rajada de vento me fez sentir um frio congelante, aquele moletom já não dava mais jeito de me aquecer. A parada de táxi fica na esquina da rua da minha casa, porém o que mais me surpreendeu foi um carro que estava na frente da minha casa buzinou três vezes assim que dei os primeiros passos, como se fosse alguém que eu conhecesse. O vidro baixou e a silhueta me deu a resposta.

– Estou sabendo que você vai dar... Hum... Uma voltinha.

– Quem mandou você aqui?

– Ninguém ora. Será que eu não posso descobrir as coisas e pronto! – disse ele arqueando uma das sobrancelhas.

– Eu agradeço a sua “gentileza”. Mas eu tenho mais confiança num taxista estranho do que em você. Com licença.

– Por favor, deixe de ser rude comigo. – ele desceu do carro e me segurou por um dos braços – Eu não quero que as coisas comecem do pior jeito entre nós. Eu levo você como se fosse um taxista, prometo não ter segundas intenções.

– Ok.

Ele abriu a porta para eu entrar, o banco de couro era liso e confortável pra eu me sentir sentando numa almofada bem fofa, o carro era um Porsche modelo 2012. Ele entrou, girou a chave e partirmos. Fomos sem pronunciar uma palavra e isso deixava o clima tenso, eu não queria ser malvada com ele, o problema era que mesmo querendo conhecer a ele e as suas verdadeiras intenções.

– Você veio de onde? – ele argumentou tentando tirar o silêncio do ar.

– Vim do Brasil com meus pais para morar aqui.

– Hum. E por que aqui?

– Isso eu acho que só minha mãe vai ti responder direito.

– Você sempre foi assim com os garotos?

– Assim como?

– Meio braba, um pouco irritada, sem contar a violência. – disse acariciando a bochecha aonde eu dei o tapa – pode não parecer, mas ainda dói.

– Desculpa, mas acho que você foi especial. – ri de modo assustador e triste como se não quisesse ter falado aquilo – foi um momento de raiva e você conseguiu me fazer chegar ao limite do meu estresse.

Ele abriu um sorriso malicioso como se acabasse de saber que conquistou um prêmio. Não foi muito difícil conseguir uma vaga no estacionamento do shopping mesmo parecendo estar lotado, nosso lugar era privilegiado e dava de frente para a porta do elevador do subsolo. Ele me entregou um pequeno papel com seu número.

– Se precisar dos meus serviços estarei sempre disponível. – disse piscando um olho e dando um sorrisinho de canto.

– Vou pensar bem antes de contratar qualquer um como meu motorista.

Abri a porta e uma mensagem chegou fazendo um leve barulho no meu bolso.

“Amiga já compramos as entradas quinze minutos pra abrirem as portas. Vem logo! — Mary”

– Não vai nem agradecer pela viagem? – ele me olhou com cara de garoto pidão. E ele realmente não sabia fazer isso.

– Muito obrigada pela viagem maravilhosa, — disse revirando os olhos num sinal de que minha encenação estava perfeita – agora preciso ir, pois estou atrasada.

Ele bufou meio que entendendo minhas palavras reconfortantes.

– Até.

E o carro partiu.

Entrei no elevador e disse à moça que queria ir para o último andar onde normalmente fica cinema e praça de alimentação, uma conjunção perfeita e estratégica para as empresas ganharem dinheiro enlouquecidamente. Saí com mais de mil atrás das meninas olhando de um lado para outro como se fosse uma pessoa que tivesse atravessando a rua.

Não foi difícil acha-las. Maah tava com uma camisa que era mais chamativa do que aquelas fantasias de carnaval, e Mary acenou assim que me viu de longe.

– Desculpe a demora, mas sabe como é o trânsito, principalmente ele gosta de ser seu inimigo quando você sai de casa fora do horário?

– Amiga não esquenta, nós já estamos há muito tempo batendo perna nesse shopping então não se cobre. – disse Mary me confortando.

– Veio de carro? – July se pronunciou.

– Bem que eu queria, mas quem me trouxe foi o Brad – revirei os olhos como se aquilo fosse realmente irrelevante pra mim.

As três colocaram a mão na boca num sinal de estarem indignadas e assustadas com meu feito. Até algumas horas atrás eu tinha esbofeteado ele de jeito na universidade e agora tinha pego uma “carona” com ele até o shopping.

– Mas não foi você que disse que queria distância dele? – Maah me indagou com um olhar de um investigador de séries de TV.

– Sim, mas eu não tinha outra opção. – na verdade eu tinha, mas não quis admitir- então aceitei a carona com a condição de que eu iria no banco de trás.

– Há... Até parece que isso dá jeito em alguma coisa! – July falou com um tom irônico e balançou a cabeça fazendo nós três olhá-la. Parecia até que ela já era mais do que profissional na área das desculpas esfarrapadas para dar uns pegas em alguém.

– Ok né. – disse Mary levantando as mãos para cima como se não quisesse nem se meter na conversa.

O tiozinho do cinema tirou a fita que fechava a entrada para o corredor das salas do cinema e então fomos entrando. Conseguimos encontrar o lugar perfeito para assistir o filme. A poltrona parecia confortável, mas ainda sim a desvantagem se ser baixinha era que ela ti deixava como uma criança sentando na cadeira de um adulto.

O filme começou e ficamos atentas para cada cena, e quando ele chegou ao fim estávamos com os olhos marejados, a história é com certeza emocionante e nos comoveu muito.

– Eu nunca chorei tanto assim. – Maah foi a primeira a se pronunciar.

– Gente que horas são. – perguntei. Eu sou mestre em esquecer relógio em casa.

– Dez e meia. – Mary disse olhando ao relógio.

– Nossa! Necessito chegar em casa. Minha prima vai desembarcar mais tarde no aeroporto e preciso ir com a mamãe pra lá.

– Mas poxa amiga, agora que íamos para a festa do pijama das velinhas em casa. – Maah disse com os olhos vidrados no chão.

– Bem que eu queria, mas sabe como é ordem de mãe né.

– Não se preocupa amiga. – Mary disse tocando em meu ombro – Ti deixamos em casa e ti encontramos amanhã na universidade. Vamos.