Freeze
3 This is Halloween
Notas iniciais
Naquele dia trinta e um de outubro acordei já pensando em minha fantasia. Era a primeira vez que as garotas do hóquei me convidavam para sua famosa festa de halloween que acontecia todos os anos naquela época. Estava mais animada do que deveria, mas não podia deixar de transparecer que estava extasiada para minha primeira festa de halloween do ensino médio.
Com minha inquietação, o dia parecia passar lentamente, como se quisesse me fazer sofrer um pouco. Mas conforme as horas passaram e o sol se aproximou do horizonte, eu comecei a me arrumar com a roupa que havia preparado. Como era minha primeira festa e não sabia exatamente o que a maioria das garotas vestiria, decidi não arriscar e escolhi um clássico. Vampira. Ainda mais que achava que ficaria legal com meu cabelo recém retocado de vermelho, combinando com os toques de vermelho que havia em minhas roupas pretas.
Já que sabia que a festa era algo um pouco mais fechado, acabei por não convidar Keira por medo de a negarem entrada. Mesmo que me desse muito bem com a maioria das garotas, ainda não me sentia completamente à vontade em pedir coisas para minhas veteranas, que eram quem organizavam a festa.
Peguei carona com uma de minhas colegas que morava por perto, já que a festa seria no rinque de patinação no centro da cidade, e ele ficava longe demais para ir de bicicleta, ainda mais fantasiada. Quando chegamos, pude ver a maioria de minhas colegas com fantasias variadas, mas todas práticas para que pudéssemos patinar no rinque mais tarde. Cumprimentei as garotas que eram mais próximas a mim enquanto ia em direção à mesa de comidas e bebidas, com a intenção de me encher já que não havia conseguido comer muito mais cedo por conta da ansiedade pelo evento. Peguei um copo de refrigerante mas logo encontrei alguém que definitivamente não esperava. Ela virou pra mim surpresa com a boca cheia de comida.
— Cora... — ela falou mas logo parou, percebendo que não conseguiria falar com a boca tão cheia, sinalizando para que eu esperasse. — A gente pode conversar, por favor?
— Edith, não esperava te ver aqui. — falei analisando sua fantasia de noiva do Frankenstein.
— Eu conheço algumas garotas do time, e minha equipe de patinação treina nesse rinque né. — ela soltou uma risadinha, mas logo ficando séria. — Vem cá.
Ela me puxou pela mão até a arquibancada onde ninguém estava, ficando também mais longe do som alto e facilitando nossa conversa.
— Me desculpa pelo que eu disse aquele dia, me senti tão má. Me arrependi logo que tu virou as costas pra mim.
— Tudo bem, eu também não fui muito legal contigo. — mordi a borda de meu copo.
— Mas não se compara ao que eu falei pra ti. — ela suspirou alto. — Eu só senti um pouco de ciúmes acho, porque por mais que eu tente que nós duas nos aproximemos, eu sinto que eu não me encaixo com vocês mais, enquanto Nick me acolheu tão rápido...
— Sim, ele gosta de ti né. — eu disse rindo de nervoso.
— Gosta? — ela falou confusa, mas logo deu de ombros. — Mas enfim, tu não quer passar a festa comigo? Não conheço tanta gente quanto tu, tô me sentindo meio deslocada.
— Tudo bem.
Estava mais nervosa do que deixava transparecer, fazia tempo que não conversava de verdade com Edith, ainda mais depois de nossa briga. Até aquele momento nós duas havíamos nos evitado como a praga, ainda mais que de forma alguma esperava uma desculpa vinda dela. Sabia que tinha sido uma babaca com ela e não merecia desculpas, mas no final, foi muito bom ouvir aquilo vindo dela, e também foi bom ter minha oportunidade para me desculpar.
Enquanto o rinque não era aberto para que pudéssemos usar, curtimos a música e a comida juntas. Mesmo que nossa relação ainda parecesse estranha ao meu ver, Edith parecia se soltar com facilidade, como se nunca tivéssemos parado de ser amigas. De vez em quando ela me passava alguma fofoca de alguma de suas amigas do time, o que me fazia rir, e às vezes ela apenas me olhava sorrindo, que fazia meu coração errar as batidas. Me recusava a acreditar que estava sentindo algo por ela e a noite toda fiquei botando a culpa no som que estava alto demais e fazia meu interior tremer.
— Estão abrindo o rinque, vamos lá.
Ela novamente me puxou pela mão até os bancos ao lado da entrada, onde podíamos calçar nossos patins de gelo. Decidi por levar meu par de patinação artística, e não o que usava para o hóquei, por ter mais facilidade em executar movimentos mais complexos, coisa que o patins do hóquei não me permitia fazer.
Patinar no gelo com Edith era uma experiência incrível e que me trazia tantas memórias ao mesmo tempo que quase me fazia perder o ar. Vê-la naquele exato rinque tentando ensinar os movimentos mais básicos da patinação artística para as meninas do hóquei me trazia tanta nostalgia que mal conseguia acompanhar. Ela fazia os mesmo movimentos que fazíamos em nossas apresentações de quando éramos crianças, e que mesmo tendo tanto tempo que eu não praticava, ainda conseguia realizar com graça, o que fazia Edith vibrar, vendo que pelo menos alguém conseguia imitar seus movimentos.
— Não vale, Cora fez patinação por anos antes de entrar para o hóquei. — uma de minhas veteranas reclamou logo após cair no chão rindo.
— E demorei um bom tempo para me acostumar com os patins do hóquei, então essa é minha pequena vingança. — falei a ajudando a se levantar.
— Cora era muito melhor que eu quando ainda patinávamos juntas, mas deixei ela pra trás.
— Claro, a última vez que tentei executar qualquer uma dessas manobras foi a quase uma ano atrás.
— No lago? — Edith perguntou quase como num sussurro quando me aproximei dela, e eu apenas concordei com a cabeça. — Que saudade de patinar contigo e com o Nick por lá.
— A gente pode ir durante as férias de inverno. — disse num impulso, logo me arrependendo levemente.
— Claro. — ela falou se animando.
A última vez que havia ido ao lago havia sido com Nick e Keira, para podermos ensiná-la a patinar. Desde pequenos era nosso lugar especial para patinar já que por algum motivo o gelo que se formava naquele lago escondido pelas montanhas perto da casa de Nick era o melhor de todos. Melhor até do que dos rinques profissionais. Além do ambiente mágico que nos transportava para nosso pequeno paraíso congelado particular. Mesmo que Keira fosse uma ótima companhia, até mesmo no gelo, sentia falta de patinar com Nick e Edith.
Mais para o final da festa, eu e Edith nos sentamos sozinhas novamente, aproveitando para descansar agora que a pista estava fechada. Também aproveitamos esse tempo para experimentar as coisas da mesa de comida que não havíamos tido a oportunidade de provar. Desta vez, eu e Edith realmente parecíamos amigas de verdade que nunca haviam parado de se falar por alguns anos, e me sentia ótima de tê-la de volta ao meu lado.
No final, Edith me deu carona até em casa.
— E esse carro? — disse quando entramos em minha rua.
— É do meu tio, eu uso pra praticar por enquanto.
— Que inveja. — logo que falei, Edith fez um olhar espantado pra mim, parando o carro bruscamente na frente da minha casa.
— Meu Deus, teu aniversário é daqui a cinco dias. — eu ri com sua reação. — A gente devia celebrar, mesmo que de última hora.
— Eu vou viajar pra visitar uns parentes, não vou estar na cidade nesse dia. Mas a gente devia fazer algo. — falei pegando minha bolsa com os patins.
— Daqui uns dias começa a temporada da patinação e creio que a do hóquei também. Eu podia ir num jogo teu ou tu podia vir numa das minhas competições.
— Ou os dois. — eu ri enquanto ela bateu palmas de excitação.
— Ok, tá marcado então. — ela sorriu. — Até mais.
Me despedi e fui diretamente para meu quarto, tirando minha maquiagem e tomando um banho rápido antes de me deitar. Estava feliz com a reviravolta da situação, mesmo que até pouco tempo não entendia o por que de Nick ter se reaproximado tão rápido de Edith. Agora podia me lembrar, ela era realmente uma pessoa cativante.
.。.:*☆❅☆*:.。.
Cheguei cedo no rinque que Edith e Nick se apresentariam, queria os ver antes do momento e desejar boa sorte. Por conta disso, acabei me encontrando com a mãe de Edith, que não via a muito tempo, e o pai de Nick, junto de seu irmão mais novo. Era muito raro ver a mãe dele em qualquer apresentação que fosse, já que nunca havia sido fã da decisão do pai de o botar em um esporte tão "feminino". Conversei com todos, e até mesmo com o treinador, que após anos, ainda era o mesmo que havia me dado aulas. Quando Keira chegou, os deixei para me juntar a ela na arquibancada.
— E qual a diferença entre os dois? — ela perguntou confusa, subindo as escadas.
— São bem diferentes, a patinação artística tem uma tensão muito maior, o hóquei é rápido demais para construir a tensão, ele fica muito mais com a adrenalina, com as infinitas substituições e o ritmo frenético dos jogadores. A patinação tem muito da expectativa de o quão natural tu consegue ser executando uma performance que tu tem ensaiado pelos últimos meses, enquanto o hóquei vem todo do calor do momento. Muito mais inesperado e exige um pensamento mais rápido. — falei animada me sentando na arquibancada junto de Keira, que me olhava sorrindo. — O que foi? Eu gosto dos dois esportes.
— Eu consigo ver só pelo teu jeito de falar. Qual tu gosta mais?
— Essa é uma pergunta que não tem resposta pra mim. O hóquei me anima muito mais hoje em dia, mas a patinação artística tá marcada na minha alma de uma forma que o hóquei ainda não marcou.
— Ainda.
— Exato. — falei pegando um punhado de pipocas do pacote na mão de Keira.
Estava animada para ver a primeira apresentação de Nick da temporada — que eu nunca havia perdido desde que nos conhecêramos — e também para ver a primeira performance de Edith em anos. Esperava até mais dela, já que todos sabíamos que os patinadores das cidades grandes normalmente eram muito melhores do que nós do interior por conta da competitividade excessiva do ambiente.
Enquanto outras pessoas desconhecidas se apresentavam, eu e Keira conversamos sobre algumas coisas.
— Então ela se desculpou contigo no halloween... Por isso ela tava no primeiro jogo do time de hóquei então! — as informações pareciam se encaixar aos poucos na cabeça de Keira.
— Sim, eu acabei convidando ela meio que por impulso.
— E se arrependeu?
— Na verdade, ainda não. — eu ri coçando minha bochecha. — A gente se divertiu muito na festa, e a gente tem conversado bastante até. Espero que tu consiga ser amiga dela também.
— Talvez eventualmente. Todos os acontecimentos até agora não me deixam muito feliz pra ser sincera, mas não posso culpar ela completamente. Se ele gosta dela, não tem o que eu possa fazer.
— A gente nem sabe se ele gosta dela...
— Ele não precisa falar com palavras se as ações dele já dizem tudo. — ela deu de ombros.
Durante a apresentação de cada um, nós duas assistimos tudo encantadas. Mesmo que já tivesse assistido Nick performar um milhão de vezes, seus movimentos graciosos ainda me impressionavam absurdamente. E Eddy, mal conseguia começar a explicar o que havia sentido durante sua apresentação, a elegância que seus movimentos possuíam me deixavam maravilhada, e a leveza com que se movia por sobre o gelo quase parecia os movimentos de um pássaro planando pelo ar, como se não pesasse nada.
— Ele realmente age como um pavão nos rinques. — Keira disse me fazendo gargalhar.
No final, a equipe deles ficou em segundo lugar, o que para uma competição estadual era ótimo, apesar de que se quisessem passar para frente, precisariam melhorar muito ainda. Apesar disso, podia ver que o nível de Edith havia melhorado muito visto que ela havia treinado na cidade grande por um tempo, e agora podia dizer que ela era a melhor da equipe deles, melhor até que Nick.
Quando os dois foram liberados pelo treinador, eles rapidamente se juntaram a nós.
— Vocês são incríveis, eu não tinha ideia. — Keira falou empolgada alcançando uma garrafa de água para Nick.
— Eu sabia que Nick ainda mandava bem, mas Edith, eu não tava esperando por isso. — eu disse um pouco envergonhada lhe alcançando a garrafa de água.
— Que bom que vocês duas gostaram! Lincença um segundo, preciso ir ao banheiro. — Edith disse.
— Eu vou também. — Keira falou indo junto de Edith.
— A mãe da Eddy tava dizendo que a apresentação dela foi horrível logo que ela saiu do gelo, acredita nisso? — Nick disse indignado.
— Não esperava menos da Senhora Fuller. Sempre sendo a maior crítica da Edith, mesmo ela tendo sido praticamente perfeita.
— Sim, ela não caiu nenhuma vez... — Nick parecia realmente incomodado com a situação. — Mas enfim, a gente mandou muito bem, é isso que importa. Positividade.
— Vocês foram incríveis, como sempre. Já pensaram em voltar a ser uma dupla?
— Comentei com Edith e ela disse que a gente pode tentar treinar juntos assim que essa temporada de competições passar. Ver se dá certo e tals.
— Espero que dê, vocês eram uma dupla muito boa. — eu disse vendo as duas voltarem do banheiro. — Vamos?
— Vamos.
.。.:*☆❅☆*:.。.
Acordei tarde naquele dia, sabia que os preparativos do natal estariam a cargo de meus dois irmãos e meu pai. Ele e Cody haviam decidido que já que eu fazia tantas coisas por eles, nos feriados, poderia ter um pouco de paz. O que era ótimo já que não teria que lidar tanto com Connor. Quando finalmente tive forças para levantar, desci para comer algo de café da manhã. Na cozinha, os três já, visivelmente, passavam perrengue com todos os preparativos para a grande ceia que meu pai insistia em fazer todo ano, mas que claro tinha seu toque asiático.
A cozinha tradicional japonesa era a favorita do meu pai e ele adorava nos mostrar que sabia o que estava fazendo, até mesmo como forma de nos ligarmos às nossas origens. Ele não havia crescido no Japão e às vezes se sentia meio desconexo com sua própria cultura, o que o incomodava. Nossos avós por parte de pai moravam no Canadá quando ainda éramos pequenos, mas haviam voltado para o Japão a muito tempo.
Fui para o lado de fora, onde uma grossa camada de neve cobria nosso gramado da frente, deixando livre apenas a calçada até a rua livres, onde Cody provavelmente havia limpado antes de ir ajudar na cozinha. Fui até a caixa de correio em passos rápidos mas cuidadosos, e voltei para a porta com três envelopes. Dois de contas e um dela. Aquele envelope que não esperávamos todo natal. Entrei na cozinha o abanando no ar.
— Chegou o envelope. — eu disse alto fazendo com que todos os três parassem para me olhar.
— Deixa eu ver. — Connor, por algum motivo, era o único que realmente ficava animado com os cartões de natal de nossa mãe. — Olha que fofos os filhos dela.
— Fofos? Fala sério, a gente é muito melhor. — Cody disse zombando. — Me mostra.
Os dois se reuniram em volta do cartão com a foto de minha mãe, seu atual marido e seus dois filhos, um ainda um bebê. Não podia acreditar que os dois ainda se animavam com esses cartões estúpidos que ela insistia em mandar todo santo ano, mesmo que eu e meu pai já tivéssemos pedido para que ela parasse. Suspirei alto, fazendo com que Connor me olhasse com seu olhar de peixe morto, já prevendo que eu falaria algo.
— Me surpreende que ela ainda não largou o marido atual dela por outro cara pra começar mais uma família do zero. — Cody me olhou com os olhos arregalados enquanto nosso pai gargalhou alto, ficava feliz de ele levar o assunto na boa.
Connor, no entanto, me olhava nos olhos ainda sério, sabia que algo viria dele, mas como ele era muito imprevisível, não sabia o que esperar.
— Não diga isso Cora, ela é nossa mãe. — Cody falou vendo que nosso irmão não reagira ainda.
— Mas ela foi embora e não liga mais pra gente Cody, a gente não precisa respeitar ela. Ainda mais que ela manda esses cartões pra gente todo ano, parece que quer esfregar na nossa cara que não tá nem aí.
— Já pensou que talvez ela mande esses cartões pra dizer que não se esqueceu de nós e que ainda estamos nos pensamentos dela? — Connor disse com um tom um pouco mais alto do que o nosso.
Por alguns segundos nos encaramos nos olhos sem falar nada, como um concurso de encaradas, que claramente nenhum dos dois tinha vontade de perder.
— Já pensou que se ela ligasse pra gente ela viria aqui e falaria com a gente pessoalmente, ou pelo menos nos ligaria?
— Ela liga pra mim e pro Cody, se ela não liga pra ti não é culpa nossa. — eu e meu pai o encaramos boquiabertos, chocados com a notícia que Connor acabara de jogar em nós.
— Vocês falam com ela? — meu pai perguntou sem nem um resquício da gargalhada que soltara a poucos segundos.
— Eu vou dar o fora daqui. — Connor disse imediatamente indo em direção à porta da garagem, logo dando para ouvir seu carro partindo.
Cody parecia se sentir culpado com o fato de falar com nossa mãe, mesmo que não fosse sua culpa. Não ligava que os dois conversassem com ela, mas manter isso em segredo me deixava com um sentimentos extremamente amargo na boca do estômago. Sabia que algumas vezes ela tentara me contatar, mas realmente não queria falar com ela, toda a situação e a falta de explicações quando ela nos deixou acabou por aterrorizar os três filhos dela. Era estranho para mim que ela quisesse contato após tantos anos de negligência.
— Tá bom, chega. Não quero vocês discutindo sobre isso, se quiserem falar desse assunto falem a sós comigo, ou se não estiverem confortáveis eu pago um terapeuta pra vocês. — meu pai disse tentando entender o que havia acontecido.
— Desculpa pai, não sabia que ele ia se irritar tanto.
— Tá tudo bem Cora, ele fica assim com esse assunto mesmo. — ele puxou Cody para um abraço, como se tentasse o fazer voltar de seus pensamentos. — Vocês podem me ajudar aqui já que ele me deu o cano?
Aquele seria um natal claramente incrível.
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No ano novo, quando meu irmão mais velho já havia ido embora, chamei meus amigos para que pudéssemos passar a virada do ano juntos. Já que meu pai teria um turno durante a noite no último dia do ano, ele permitiu que convidássemos alguns amigos para que não ficássemos sozinhos em casa. E assim, eu convidei Nick, Keira e Edith, enquanto Cody convidou um de seus amigos que havia ficado na cidade para a virada do ano.
— Arrumou teu quarto? — meu pai perguntou para Cody, já na porta da garagem.
— Vou arrumar agora. — ele disse indo em direção a escada.
— Pode ir pai, eu cuido de tudo. — eu disse acenando para ele, que acenou para mim logo antes de fechar a porta.
Subi as escadas e me parei na frente de meu quarto, que eu havia arrumado no dia anterior e que ainda estava organizado e limpo. Na porta da frente, podia ouvir a bagunça que Cody fazia mesmo com a porta fechada. Sabia que seu quarto era sempre uma zona e que ele demoraria para o arrumar, então juntei toda minha boa vontade e toquei em sua porta.
— Quer ajuda aí? Logo meus amigos chegam e eu não quero tu revirando teu quarto. — falei abrindo uma pequena fresta da porta.
— Pode ser, só toma cuidado. — eu abri a porta e vi os jogos de seu videogame espalhados por todo chão.
— Quer que eu organize os jogos? — perguntei enquanto ele colocava uma pilha enorme de roupas em seu cesto de roupas sujas.
— Pode ser.
Para mim, organizar coisas em ordens era um trabalho extremamente terapêutico, mesmo que naquele momento estivéssemos com pressa e eu não pudesse exatamente botar cada jogo em ordem de nome ou de cores. Passamos um tempo organizando suas coisas, até que decidi puxar assunto com ele, ainda mais que a briga do natal ainda estava em minha cabeça.
— Desculpa pelo que eu disse no natal sobre nossa mãe, tu sabe que eu não falo isso pra te machucar né? — eu falei me aproximando dele e botando a mão no seu ombro.
— Eu não tinha ideia que vocês não sabiam que a gente falava com ela. — ele me olhou com um olhar culpado.
— Connor mentiu pra ti?
— E a mamãe também. Ela disse que falava contigo.
— Ei, não precisa se sentir culpado por isso, não é culpa tua se eles omitiram a verdade de ti. — ele concordou com a cabeça no momento que meu celular vibrou em meu bolso. — Agora vamos terminar isso logo, ok? Meus amigos devem chegar logo.
Quando estávamos terminando de arrumar sua cama, ouvi a campainha, que Cody correu para atender mesmo que eu tivesse berrado para ele para que me deixasse atender. Quando cheguei ao andar de baixo, meus amigos já entravam na casa e deixavam suas roupas de frio no cabideiro ao lado da porta e Cody os cumprimentava como se fossem seus amigos.
— Vaza Cody. — falei enquanto os cumprimentava.
— Vou montar o videogame na sala. — ele disse correndo para cima antes que eu pudesse falar algo.
— Ano que vem ele começa o ensino médio também, né? — Edith disse tirando seus sapatos.
— Nem me lembra. — disse chacoalhando a cabeça, os fazendo rir.
Ficamos um tempo conversando sobre fofocas da escola na sala de estar. Keira falou do que havia acontecido no seu trabalho durante a semana, Nick e Edith sobre a equipe de patinação e eu sobre o time de hóquei. Mesmo que não fossem coisas relevantes, era bom passar um tempo assim com as pessoas que eu gostava. Até Edith que ultimamente estava super próxima de mim, o que me chocava um pouco, já que até pouco tempo, achava que nunca voltaríamos a nos falar.
— Como era em Vancouver? — Keira perguntou para Edith, sabia que ela gostaria de se mudar para a cidade grande quando fosse para faculdade, então sua pergunta fazia sentido.
— Era legal, a escola era mais fácil, mas os treinos de patinação eram um milhão de vezes mais difíceis. Quase comecei a odiar ir para o rinque, mas por sorte conheci muita gente legal por lá. — ela disse sorrindo timidamente. — Era engraçado porque a maioria dos garotos me adorava.
— Claro né... — Keira disse levantando as sobrancelhas, me fazendo rir.
— O que tu quer dizer? — Edith parecia genuinamente confusa.
— Tu é linda Eddy, é óbvio que eles vão te adorar. — ela me encarou nos olhos por alguns segundos, fazendo meu coração errar algumas batidas.
— Eu não sou resumida a minha beleza.
— Bom, diz isso pra eles. — Nick falou com uma pontada de raiva na voz.
Fiquei em silêncio enquanto eles voltavam a falar. Não conseguia acreditar no que estava sentindo no momento, não podia simplesmente voltar a gostar de Edith assim, depois de a ter superado e ter resolvido meus sentimentos. Respirei fundo e me levantei, os avisando que iria para a cozinha para fazer algumas pizzas congeladas para nós. Ninguém me questionou e eu pude ir sozinha para o outro cômodo, parando para me olhar no reflexo do micro-ondas. Quando voltei ao normal, pude finalmente começar a arrumar as pizzas no forno, e logo algumas já estavam prontas, então todos nos reunimos na cozinha, comendo de pé enquanto conversávamos.
Depois de terminarmos de comer e arrumarmos os pratos sujos na lava-louças, subimos para o meu quarto. Depois de um tempo conversando, Edith decidiu que deveríamos brincar de jogo da garrafa.
— Não parece uma ideia boa.
— É só verdade ou desafio Cora... — Edith disse botando a garrafa vazia do refrigerante que havíamos tomado antes.
— Mas isso sempre acaba em beijo. Conheço bem o jogo.
— E daí? — ela disse como se me desafiasse.
— Eu não quero ter que beijar Nick, ele é um garoto. E muito menos Keira, ela é minha melhor amiga. Vamos fazer outra coisa.
— Ih, quer beijar a Edith então? — Nick disse, sendo o único a não saber que eu já havia gostado de Edith.
— Eu... — instantaneamente meu rosto ficou vermelho, e não sabia o que falar.
— Não daria tempo de jogar de qualquer jeito, já é quase meia noite. — Keira me interrompeu, evitando que eu falasse algo idiota. — A gente devia ir lá pra fora.
Então foi isso que fizemos. Keira se aproximou e me puxou pelo ombro com um de seus braços, tentando fazer com que eu parasse de pensar no que havia acabado de falar. Não conseguia olhar para cima, mesmo que ainda estivesse conversando com todo mundo, parte pois não queria que todos vissem minha estúpida cara vermelha, e parte por não querer saber o que Edith pensava daquilo.
Quando bateu a meia noite, pudemos ver alguns fogos de artifício do meu quintal da frente, e quando estes pararam, voltamos para dentro. Não muito tempo depois, eles foram embora. Edith disse que estava começando a ficar com sono e não gostava de dirigir com sono, ainda mais enquanto nevava. Me despedi dos três na porta da frente e os vi ir embora, ainda com a cabeça nas nuvens. Depois, fui para o meu quarto e me tranquei, sem me incomodar com Cody, já que seu amigo dormiria lá. Por longos minutos não consegui dormir, pensando no quão idiota eu havia conseguido ser com apenas uma frase.
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