Freeze
5 The Kiss
Notas iniciais
Cheguei na casa de Nick por volta das cinco, e apesar de já ser fim de tarde, o sol ainda raiava lá no alto como se não tivesse intenção alguma de descer o céu por um bom tempo ainda, o que não deixava de ser verdade durante o verão. Já sabia que podia entrar sem bater, e sem hesitar girei a maçaneta e entrei no hall da frente de sua casa, dando de cara com o pai de Nick, que se preparava para sair. O cumprimentei e brevemente ele saiu pela porta, deixando a casa sem nem um adulto. Não parecia nem um pouco responsável, mas não tinha nada que eu pudesse fazer além de relaxar e aproveitar a noite.
Fui até a cozinha onde pude ouvir uma conversa alta, reconhecendo algumas vozes no caminho. Quando entrei pela porta, dei oi para todos, me parando ao lado de Edith. Não conhecia seus amigos da patinação tão bem para conversar com nenhum deles, então decidi ficar perto de quem mais conhecia, mesmo que ela estivesse engajada em uma conversa calorosa com todos. Nick então entrou pela porta da cozinha se surpreendendo com minha presença.
— Chegou cedo. — ele disse me abraçando e se parando entre eu e Edith.
— Eu tenho direito de chegar cedo, sou tua melhor amiga. — falei pegando o copo que ele carregava em sua mão e bebendo um gole.
— Edith já mostrou onde tem comes e bebes e tals? — ele falou passando o braço por sobre os ombros dela.
— Eu conheço essa casa melhor que tu, pateta. — falei mostrando a língua para ele, o que fez com que os dois rissem.
— Enfim, meus amigos chamaram umas pessoas de outras escolas então acho que vai ter bastante gente hoje. Tô com medo que quebrem alguma coisa. — ele falou suspirando, visivelmente nervoso.
— Teu pai é tão de boa que se quebrarem algo capaz dele nem notar. Lembra daquela vez que eu derrubei refrigerante no DVD de vocês? — eu falei lembrando, causando um ataque de risos em Edith.
— Eu lembro. — ela disse animada ainda entre seus risos. — Apesar disso, aquele dia foi incrível. Senti tanta falta de nós três juntos.
— Também senti tua falta, Eddy. —Nick disse descaradamente, pegando as duas desprevenidas, e fazendo Edith me lançar um olhar chocado muito discretamente.
— Enfim, vou lá pra fora pegar um pouco do sol e dar uma respirada. — falei me virando e saindo do cômodo.
Não podia negar que aquilo me causava um desconforto incompreensível. Não que ele estivesse errado em dar em cima dela ou nada do tipo, mas meu sentimentos eram, naquele momento, grandes demais para aguentar qualquer reciprocidade que Edith pudesse demonstrar, mesmo que não soubesse se havia qualquer sentimento por parte dela. Abri a porta de correr que levava para fora e quando ia fechar, notei que ela me seguia. Nos sentamos lado a lado na borda da piscina, molhando nossos pés, nos aproveitando do calor excessivo que fazia naquele dia.
Passamos um bom tempo sentadas ali, trocando menos palavras do que eu pessoalmente esperava, mas que já era satisfatório, mesmo que dentro de mim crescesse uma vontade enorme de falar com ela por horas e horas sem parar. Mas quanto mais tempo passava, mais calada eu ficava, ficando cada vez mais retraída e pensativa. Nunca havia sido uma pessoa com medo de rejeição e dificilmente segurava meus sentimentos para mim mesma por muito tempo, mas a situação que me encontrava no momento tornava toda essa facilidade, que eu normalmente possuía, em poeira. Sentia tanta vontade de compartilhar com ela tudo o que se passava em minha cabeça, mas por algum motivo me segurava. Talvez porque esperava que ela não fosse ter nenhum interesse em mim.
— Tem um pessoal chegando, a gente devia entrar. — ela falou levantando e me dando a mão para me ajudar a levantar. — A Keira vem?
— Ela deve chegar logo, ela tem trabalhado mais agora durante as férias, então tem menos tempo. Por isso ela não vai ficar muito, e Keira não gosta de andar na rua muito tarde da noite então... — ela confirmou com a cabeça enquanto entrávamos.
— Lá tá ela. — Edith apontou para uma Keira um pouco perdida no meio de algumas pessoas desconhecidas. — Vou procurar alguma companhia pra mim, até mais.
Ela disse e saiu antes que eu pudesse falar alguma coisa, então me juntei a Keira. Mas, não muito tempo depois de nos juntarmos, Nick me chamou pois queria conversar comigo em particular. Tinha uma certa noção do que ele queria falar comigo que Keira não pudesse ouvir, então fui, mesmo que relutantemente, junto dele até o andar de cima, em seu quarto. Saberia descrever aquele quarto até de olhos fechados, cada detalhe e cada lembrança que enfeitava as estantes em suas paredes pareciam gravados a ferro em minha mente, mas minha cabeça estava nublada demais no momento para ligar para qualquer minúcia do cômodo. Me sentei em sua cama sem cerimônias e ele logo se juntou a mim.
— Tu falou com a Edith sobre aquilo? — ele me olhou apreensivo.
— Puts, esqueci, me desculpa Nick. — era incrível o quão naturalmente eu conseguia mentir às vezes, era claro que não havia esquecido, mas desejaria esquecer.
— Essa era a oportunidade perfeita, tu tava sentada com ela lá fora sozinha... — a última coisa que havia pensado quando estava sozinha com ela era em Nick para ser honesta. — E se tu falar agora? Talvez ainda dê tempo de rolar algo entre a gente essa noite.
— Uh... — tentava controlar o pânico que incendiava meus pensamentos, só de pensar que Nick queria que algo acontecesse naquela noite mesmo e que não teria tempo para fazer nada por minha parte me deixava em puro estado de caos, mesmo que por fora ainda estivesse com a mesma expressão. — Tu não ta indo meio rápido não? Ela nem sabe que tu gosta dela, pelo menos tu não disse pra ela ainda.
— Ah mas sei lá, pode rolar. Nunca se sabe. — ele falou olhando para o chão com um sorriso fraco em seu rosto, como se tentasse o esconder. — Bom, tenta falar com ela.
— Claro. — eu disse e ele logo se levantou, a conversa havia acabado.
Desci as escadas com o coração enlouquecido, procurando Keira em desespero. Quando finalmente a achei sentada no sofá conversando com algumas pessoas da escola, me acalmei magicamente. Não sabia se era pela presença dela ou se meu cérebro se recusava a entrar em pânico por causa de Edith na frente de Keira, especialmente no meio de uma festa. Me juntei a conversa e ficamos assim até a hora que ela decidiu ir embora, já que o sol finalmente começava a descer em direção ao horizonte. Não queria que ela fosse porque queria uma companhia que conhecesse bem, mesmo que definitivamente não teria problema em me inserir em qualquer panelinha daquela festa, ainda preferia conversar com minha amiga do que com alguns desconhecidos. Depois de me despedir de Keira na rua, entrei e fui até a cozinha, inconscientemente procurando por Edith. Mas quando passei da entrada da casa e cheguei na porta da sala, ouvi a comoção que me chamou a atenção.
E sem que nada me preparasse, vi Nick e Edith grudados um no outro, se separando de um beijo.
Olhei para a cena por alguns segundos completamente alheia a tudo que acontecia, só conseguia ver os dois desajeitados rindo com vergonha do que haviam feito. Me sentia um pouco idiota por sentir ciúmes daquilo e quase culpava a mim mesma por não ter conversado com Edith mais cedo, mas apenas senti os efeitos verdadeiramente negativos quando ela parou seus olhos nos meus. E sem pensar duas vezes sorri para ela e engolindo em seco. Ela me chamou com a mão para que me aproximasse deles, mas apenas levantei a mão, apontando para a porta de saída, indo em direção a ela com pressa.
Quando passei para o lado de fora e fiquei envolvida pelo ar quente e pesado do começo do verão, senti minha garganta fechar e meu coração apertar de leve, como se tentasse me lembrar do que havia acabado de acontecer. Como se eu fosse esquecer aquilo tão rapidamente. Me sentei no meio fio na esperança de recuperar minha sanidade que então parecia lisa como sabão. Atrás de mim ouvi passos e Edith me chamar, mas estava concentrada em estabilizar minha respiração primeiro, sem me preocupar em a responder.
— Ei, tá tudo bem? — ouvi ela sentar em meu lado colocando sua mão nas minhas costas, mas evitava a todo custo olhá-la.
— Tá, só tava meio apertado lá dentro, precisei tomar um ar. — disse baixinho, me concentrando no asfalto debaixo dos meus pés. — Pode voltar pra dentro, eu já vou.
— Tá começando a escurecer, não quero te deixar sozinha aqui.
— Eu vou ficar bem, só preciso de alguns minutinhos. —falei respirando fundo.
— Eu fiz algo? — ela falou depois de um período de silêncio, tentando entrar em meu campo de visão.
— Edith eu só preciso... — falei tentando a olhar, mas fechando os olhos no caminho e pensando, deixando a frase interminada.
— Eu vou entrar então, desculpa. — ela falou depois de uma pausa.
Quando vi que ela havia me deixado, suspirei e ergui minha cabeça, olhando diretamente para cima, onde o roxo se misturava com o azul profundo que começava a dominar o céu, escurecendo tudo que podia ver. Mesmo que fosse quase nove da noite, o sol recém se punha e os postes começavam a se acender. Em momento assim sentia falta do inverno, com suas noites precoces que naquele momento combinariam muito mais com o que sentia do que um pôr do sol bonito e colorido, era injusto que me sentisse do jeito que me sentia com um céu tão lindo me cobrindo.
Me levantei sem olhar para a casa, decepcionada demais comigo mesma por sentir que tinha direito de me chatear com o que havia presenciado, como se tivesse algum direito sobre a vida de qualquer um dos dois, ou como se aqueles sentimentos tivessem qualquer coisa que ver com eles. No fundo sabia que não tinham, eram meus sentimentos e eles afetavam apenas a mim. E como afetavam.
Caminhei pela rua sem saber decidir se queria chegar rápido em casa para me esconder em meu quarto pelo resto das férias ou se queria caminhar devagar, aproveitando a solidão que me cercava. Por alguns longos minutos lutei para que nem uma lágrima descesse de meus olhos, a última coisa que queria era sentir pena de mim mesma, e também não seria por isso que choraria. Ainda segurando as lágrimas, entrei em casa, sem precisar evitar ninguém já que meu pai estava trabalhando, e Cody em seu quarto trancado. Me escondi debaixo das cobertas e tentei fazer com que minha mente se controlasse, mas os pensamentos ruins ainda eram incessantes.
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Acordei mais tarde que o normal com a campainha que tocava ininterruptamente, como se a pessoa por trás do botãozinho não fosse desistir de receber uma resposta, mesmo que ninguém estivesse lá para recebê-la. Levantei vagarosamente, abrindo a porta de meu quarto, percebendo que estava sozinha em casa.
— Puta que pariu. — disse baixinho descendo os degraus da escada com cuidado, com medo de tropeçar por conta do sono.
Cheguei na porta e olhei pela janela, vendo Edith me olhar com raiva. Revirei os olhos antes de destrancar a porta e abrir, mirando sua pose, com as mãos na cintura e o pé batendo sem parar. Ela passou por mim, entrando em minha casa sem ser convidada, mas sabia que não adiantava protestar vendo o estado que ela se encontrava e o meu sono.
— Vai responder minhas mensagens ou não? — ela falou irritada.
— Que? — perguntei em meio a um bocejo, esfregando meus olhos com as costas da mão.
— Cora, tu mal responde minhas mensagens desde o fim das aulas. Eu fiz alguma coisa pra ti naquela festa? — sua frase me acordou como um balde de água fria, me deixando com os olhos arregalados de surpresa. — Eu falei alguma coisa quando a gente tava na piscina, né?
— Que? Não, claro que não. Nada aconteceu, eu só tô um pouco pra baixo, sei lá. — ela estreitou os olhos, desconfiando do que eu falava.
— Tu não sabe mentir.
— Sei sim. — falei sem pensar. — Não que eu esteja mentindo.
Apesar de tudo, não havia mentido pra ela, apenas omitido algumas partes. Claro que nesse caso eram partes bem importantes, mas ela não sabia de nada que se passava em minha cabeça e nem precisaria saber, então não fazia questão de me explicar. A este ponto já não queria que ela soubesse o que pensava de qualquer forma, apenas esperava que meus sentimentos desaparecessem e eu pudesse voltar a ser um ser humano normal. Ainda mais com o perigo iminente dela e Nick começarem um relacionamento amoroso.
— Pelo amor de Deus. Tu é tão difícil às vezes, como que tu se aguenta?
— O que eu fiz? — falei confusa.
— Não sei também, tu não me conta. Achei que a gente já tinha se aproximado e éramos amigas a esse ponto.
— Só porque não respondi tuas mensagens? Tu devia ver a Keira, ela nunca checa o cel... — ela me interrompeu.
— Isso não tem a ver com ela. Ai, enfim. Cansei de brigar. — ela falou entrando na cozinha e se sentando em um dos bancos, apoiando os cotovelos no balcão. — Tem sorvete?
— Acho que sim. — andei até a geladeira sem entender exatamente o que estava acontecendo, pegando os potes de sorvete. — Baunilha ou chocolate?
— Os dois. — servi o sorvete para ela e ela logo começou a comê-lo. — Tenho fofoca pra te contar e tu me ignorando o verão todo... Mereço.
Me sentei ao seu lado enquanto ela encarava o pote na sua frente.
— Que fofoca? — perguntei cautelosa, tinha medo do que vinha por aí.
—Tu viu que... — ela parou de comer o sorvete, parecia encabulada. — Bom, eu beijei o Nick naquela festa de início de verão.
— Sim, vi. — encarei o mármore das bancadas.
— Então, ele me disse que gostava de mim uns minutos antes, e bem, eu queria testar uma coisa. — ela falava voltando a comer o sorvete rapidamente. — Queria saber se gostava mesmo dele. Já que a gente namorou a um tempo atrás né, mas acho que me enganei no final, só que agora ele não sai do meu pé e eu não sei o que fazer.
Ela me olhou com as sobrancelhas franzidas, como se pedisse socorro.
— É... O que eu posso te dizer? Não devia ter feito isso, foi precipitado. — levantei meus ombros, incerta do que havia falado.
— Eu sei, não precisa esfregar na minha cara. — ela choramingou alcançando minha mão. — Me ajuda a dar um fora nele.
— Eu não, tu que se meteu nessa. Coragem. — ela me olhou nos olhos por uns segundos e então suspirou alto, jogando sua cabeça para trás.
— Às vezes tu é tão sincera que dói. Mas é bom, acho. Tu é um ótimo incentivo, brigada por ser minha amiga. — ela falou botando a última colherada de sorvete na boca enquanto eu sorria para ela um pouco forçadamente. — Enfim, era só isso que eu precisava falar. Vou te deixar voltar a dormir.
Ela levantou do banco indo em direção a porta, calçando os chinelos que ela havia tirado rapidamente antes de entrar.
— E vê se me responde, se não eu venho todo dia na tua casa te encher o saco.
Ela saiu enquanto eu a olhava apoiada na batente da porta, a observando enquanto ela caminhava para longe, parando apenas para olhar para trás e acenar para mim. Por alguns segundos meu cérebro cogitou que eu não respondesse nenhuma de suas mensagens apenas para poder receber suas visitas surpresa durante a manhã, mas logo ri da ideia estúpida. Bocejei, mesmo que já não houvesse mais nem um pingo de sono em meu corpo e a última coisa que conseguiria fazer naquela hora era dormir.
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Me sentei no banco do carona do carro de Nick enquanto Cody se ajeitava no banco de trás. Era o primeiro dia de aula de Cody no primeiro ano do ensino médio, assim como era o primeiro dia no terceiro ano para mim e Nick. Era tão estranho pensar que éramos oficialmente considerados veteranos, junto com nossos veteranos do quarto ano, e não seríamos mais tratados como crianças na maioria das atividades da escola, incluindo o hóquei que seria bem mais sério do que havia sido até aquele momento, mesmo que a treinadora já treinasse a gente como veteranas desde o fim da temporada em fevereiro. Tremia só com a possibilidade de entrar no rinque, mesmo que não fosse uma das piores do time.
Nick logo me tirou de meus devaneios colocando uma música que conhecia no rádio.
— Esse é o melhor começo de aulas possível. — Nick disse descendo a rua.
— Alguém tá de bom humor... — Cody disse rindo.
— Bom humor é pouco meu querido, eu tô nas nuvens. — estranhei sua reação, lembrando da conversa que havia tido com Edith alguns dias atrás.
— Tá feliz por quê? — franzi o cenho, o encarando enquanto ele prestava atenção no trânsito.
— Não posso ficar feliz? — ele riu e me olhou de lado rapidamente. — Não sei se tu viu, mas eu beijei a Eddy na minha festa.
— Caraca, boa cara. — Cody falou dando uns tapinhas no ombro de Nick, que então parecia triunfante de sua conquista, e era difícil observar a cena sabendo exatamente o que Edith sentia sobre o que acontecera entre os dois.
— Se tu não tivesse falado com ela na festa, não sei o que teria sido do resto da noite.
— Que? — falei alto demais, fazendo com que ele me olhasse confuso por um segundo. — De que porra tu tá falando? Eu não falei com ela sobre nada do que a gente discutiu, tá doido?
— Achei que tu tinha... — ele falou parando numa sinaleira. — Bom, deu certo de qualquer jeito, então valeu.
— Só vai com calma por favor, não espanta ela.
— Acho que ela gosta de mim.
— Ela disse isso? — perguntei com uma sobrancelha erguida.
— Não exatamente, mas eu sinto dentro de mim, sabe? — ele falou sorrindo enquanto virava na rua da escola. — Acho que vou chamar ela pra um encontro.
Minha cabeça doía mais e mais a cada palavra que Nick proferia, era como se cada uma delas fosse afiada como uma agulha. Me sentia culpada por saber a verdade, mas não cabia a mim contar para ele o que Edith havia me contado naquele dia, mesmo que a culpa parecesse me consumir apenas por deixá-lo ser feliz com coisas que eram mentiras no final. Suspirei alto, apertando minha mochila no meu colo enquanto Nick procurava um espaço para estacionar. Quando ele finalmente estacionou, saltei do carro o mais depressa que consegui e tinha total intenção de correr para dentro, mas mais a frente, perto da entrada da escola, Edith me olhava diretamente nos olhos. Retribuí seu olhar até que Nick a notou e foi até ela, cortando nosso contato visual.
— O que eu tenho que fazer? — Cody se parou ao meu lado com um papel em mãos, interrompendo meus pensamentos.
— Eu vou contigo até a secretaria pra tu resolver tudo, não vou te abandonar. — falei bagunçando seu cabelo enquanto ele tentava se desvencilhar de mim. — Vem.
Caminhamos até a entrada da escola quietos enquanto eu olhava para o chão, tentando focar para onde ia sem querer dar nem um pingo de atenção para Edith e Nick, que conversavam calorosamente. Quando passei pelos dois, ainda sem os olhar, Eddy me chamou e por um segundo eu a olhei, mas sinalizei que estava entrando na escola com Cody, deixando os dois para trás. Não estava afim de estar presente com Nick e Edith ao mesmo tempo, ainda mais que queria a dar oportunidades para que ela pudesse dar um fora nele, como ela havia planejado a princípio. Sabia que quando esse momento chegasse teria que consolar Nick, e por mais que não quisesse, estava levemente animada para que isso acontecesse logo.
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Limpei o suor de minha testa parando perto do gol, quase não aguentava mais a iluminação do rinque refletindo no gelo e matando meus olhos pouco a pouco, mas conforme a temporada de hóquei se aproximava mais e mais a responsabilidade de ser uma veterana pesava em minhas costas sem piedade nenhuma, me fazendo treinar por horas a fio todo dia que não tivéssemos treinos coletivos programados. Já cansada de passar tanto tempo sozinha, patinei para a saída do rinque já tirando meu capacete, mas quando estava prestes a sair, Edith apareceu do nada em minha frente, me assustando o suficiente para me fazer cair de bunda no gelo.
— Tá doida? Vai me matar assim. — falei me levantando enquanto ela tentava não rir.
— Me desculpa, eu só não podia deixar tu escapar pros vestiários como tu já fez. — ela falou bloqueando a passagem. — Isso é uma intervenção.
— Como assim?
— Ah, vai se fingir de sonsa agora... Tu tá super esquisita comigo faz dias já, não adianta negar. — a olhei desnorteada, sabia que estava sendo estranha mas não podia admitir. — E aí, não vai falar nada?
— Não tenho nada pra falar. — falei séria, tentando passar por ela, botando minha mão em seu ombro para tentar tirá-la do caminho, mas ele não se moveu. — Com licença Edith, treinei por mais de duas horas, tô morta.
— Primeiro tu vai me falar porque tu tá assim, foi alguma coisa que eu fiz com certeza. Tu só me evita. — ela ficou mais séria também, não gostava da direção que isso estava tomando.
— Não tem nada que ver contigo, agora sai da frente. — levantei um pouco minha voz, visivelmente irritada.
— Eu tô falando sério, não vou sair enquanto tu não falar.
— Eu não quero e não vou te machucar, então por favor... — suspirei botando minha mão em minha testa a massageando.
Ela me olhou nos olhos como se me desafiasse, com suas sobrancelhas o mais arcadas que conseguia e os olhos quase arregalados encarando o fundo da minha alma. Estava tão cansada e sem força que não queria nem discutir direito, mas claramente ela não estava ali para ter uma conversa calma, e se era isso que ela queria, quem seria eu para negar. Suspirei alto chegando perto dela mais uma vez tentando a incentivar ao máximo a sair da frente para que eu pudesse finalmente tirar aqueles malditos patins de meus pés.
— Vamo Cora, fala comigo.
— Então tá. Eu gosto de ti. É isso que tu queria ouvir? Conseguiu. E eu não aguento mais olhar pra tua cara direito, ainda mais que tu beijou meu melhor amigo e ele não para de falar disso. E eu sei que não é culpa de nenhum dos dois, mas eu não posso evitar de me sentir assim, acho que talvez seja ciúmes não sei, mas é insuportável. E meu Deus, eu sei que tu não tá me dando nenhum sinal, mas o jeito que tu persistentemente tenta ser minha amiga e ficar próxima a mim me deixa num estado que eu não sei me comportar direito, e sinto que vou fazer merda a qualquer instante, logo eu que sou tão controlada. — suspirei, a vendo se afastar da entrada com uma expressão chocada estampando seu rosto. — Então é isso, falei, e sinceramente me sinto até melhor, mas por favor para de me perguntar porque eu tô estranha porque eu já tô no meu limite.
Sai do rinque, me sentando no banquinho logo na saída para finalmente tirar os patins dos pés. Não olhei para ela enquanto estava sentada ali, queria ser rápida e desaparecer de uma vez, então os tirei os mais rápido que pude e fui quase correndo para os vestiários. A última coisa que queria era que minhas ações tivessem consequência, ainda mais essas consequências. Era estranho me ver em um estado assim, sempre fora muito amiga da rejeição e não me importava de receber um não em minha cara, mas aquela situação era tão estrangeira para mim que não seria nem natural me portar do jeito que normalmente me portava. Me olhei nos espelhos do vestiário enquanto tirava a proteção do pescoço, tentando me reconhecer.
Fiquei por longos minutos me trocando o mais devagar que conseguia, mesmo sabendo que já estava quase no horário da escola fechar, mas, conhecendo Edith, tinha medo de ela ainda estar do lado de fora me esperando para ter uma conversa séria. Não tinha cabeça para aquilo, nem naquele momento nem nunca. Depois de tirar todo equipamento e tomar uma ducha rápida, me troquei e fui em direção a saída, espiando por uma fresta para conferir se ela ainda estava lá. Podia admitir para mim mesma que um pequenininho pedaço de mim estava decepcionado que ela não estava ali, para acabar com meu sofrimento dramático e desnecessário, mas a outra grande parte estava muito satisfeita que não teria que ficar emburrada por uma semana inteira, ainda mais vendo o motivo de tudo isso todo santo dia.
A volta para casa foi tranquila, mesmo que ainda ficasse sem ar toda vez que pensava que realmente havia dito tudo aquilo para ela, mas por sorte conseguia continuar pedalando sem parar. Quando cheguei na frente de casa respirei fundo, podendo sentir levemente o cheiro do outono chegando, e com isso, o frio, que começava a colorir as folhas. Apesar de tudo que acontecia em minha vida, não podia deixar de apreciar que finalmente o frio estava voltando e eu logo poderia aproveitar minha estação favorita do ano, mesmo que ainda tivesse o outono inteiro pela frente.
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