Freeze
6 The Motorcycle
Notas iniciais
Cheguei na casa de Nick junto com Cody, que vinha em sua bicicleta um pouco mais atrás em sua fantasia genérica de pirata. Me parei na frente da porta pegando meu celular que possuía uma mensagem de Keira dizendo que ela já havia chegado, então entrei junto de meu irmão, que logo desapareceu entre algumas outras pessoas que já haviam chegado. Como esperado, Nick e Keira estavam reunidos na cozinha, juntos de Edith, que vestia uma fantasia de Peter Pan.
— Amei tua fantasia de Rainha de Copas, combina com teu cabelo. — Keira disse me dando um abraço, ela estava fantasiada de Bob Ross.
— E eu adorei a tua, me lembra Euphoria.
— Foi pela série que me inspirei. — ela disse rindo. — Tu e a Edith tão de personagens da Disney, combinaram?
Olhei novamente para sua fantasia e parei meu olhar em seu rosto, mas ela parecia querer me ignorar ainda. Não era realmente a reação que esperava dela, já estava preparada para ouvir um discurso de duas horas sobre como ela não sentia o mesmo que eu e que gostaria de continuar apenas como amigas, mas nada. E esse nada me deixava um pouco mais agoniada do que deveria, suas ações eram imprevisíveis para mim naquele ponto.
— Gostei da fantasia. — falei apontando para ela. — A tua também Nick, tá de Willy Wonka?
— Gostou? — ele falou dando uma voltinha para que eu pudesse ver sua fantasia completamente. — Tive que fazer meio às pressas, mas acho que tá bem legal. Ano que vem vai ser melhor. Enfim, vou lá ser um bom anfitrião e ver como todo mundo tá. Quer vir comigo, Eddy?
Os dois saíram da cozinha, deixando eu e Keira sozinhas. A olhei por um segundo e então começamos a rir, fazia tempo que não conseguíamos aproveitar assim juntas e isso deixava as duas em um ótimo humor. Mesmo que ainda estivesse com tantas coisas em minha cabeça, não podia deixar de me divertir naquela noite. Passamos os primeiros minutos juntas fofocando, especialmente de Edith e Nick, que Keira também não suportava mais ver juntos.
— Não conta pra ele, mas a Edith quer dar um fora nele, só não teve coragem ainda. — sussurrei para ela perto de seu ouvido e ela me olhou com os olhos arregalados.
— Sério? — confirmei com a cabeça dando um gole em meu refrigerante. — Longe de mim falar isso pra ele, eu que vou ter que consolar o coitado.
— Já to esperando ele vir falar comigo a qualquer momento. — suspirei alto, lembrando que não havia contado para Keira do incidente no rinque da escola. — Então… Eu falei pra Edith que gosto dela…
— Que? — Keira falou quase berrando, mas logo quebrando em uma gargalhada. — Sério? Mas como isso aconteceu?
— Bem, eu tava lá no rinque treinando fazia horas e ela veio dizendo que ia fazer uma intervenção ou sei lá o que, mas como eu já tava cansada eu fiquei puta da cara com ela insistindo, aí acabei falando tudo.
— E o que ela disse?
— Então, ela não disse, porque eu saí correndo. — sorri amarelo para ela, já esperando que ela não fosse ficar satisfeita com minha resposta. — Eu fiquei com medo tá? Entrei em pânico e vazei de lá.
— Tu com medo? Essa é nova. E vocês se falaram depois disso? — neguei com a cabeça apressadamente. — Mas devia né?!
— Tu que devia falar com o Nick.
— Sai do meu pé. — Keira falou indo em direção a porta. — Vou aproveitar a festa já que posso ficar até mais tarde hoje.
— Não trabalha amanhã? — ela negou com a cabeça. — Boa.
Passeamos pela casa por um tempo, aproveitando para dançar as músicas que tocavam na sala e conversar com alguns de nossos colegas e alguns desconhecidos. Era refrescante falar com pessoas com quem não falava normalmente, ainda mais para tirar pensamentos indesejados da cabeça, por mais que não conseguisse manter Edith longe de minha mente por um longo período, já que de tempos em tempos a via passando por mim.
Quando eu e Keira cansamos de ficar no meio da bagunça que se transformava a sala, decidimos ir para o lado de fora, onde, apesar de haver algumas pessoas, ainda estava mais tranquilo que o lado de dentro. Sentamos perto da borda da piscina, viradas para a casa, assim podíamos ver o movimento pela porta de vidro. Após alguns minutos conversando, Keira disse que iria ao banheiro, e mesmo depois de eu insistir que iria junto, ela me obrigou a ficar. Observei as outras pessoas à minha volta, que por coincidência eram por sua maioria casais, e suspirei alto, tentando me focar na lua que brilhava no céu por entre algumas nuvens teimosas.
Quando voltei minha atenção para o ambiente, vi Edith sair da casa, me encarando diretamente. A olhei por uns segundos enquanto ela vinha até mim, já pensando em como sumir. Cogitei pular na piscina, sair correndo e até pular a cerca que havia atrás de mim, mas quando voltei aos meus pensamentos ele já estava do meu lado.
— A gente pode conversar? — ela falou se agachando ao meu lado sem me olhar.
— Não só pode como deve, acho. — ela sorriu me olhando brevemente, mas mesmo assim continuei séria.
— A gente pode ir pra algum lugar mais reservado? — ela mexia suas mãos nervosamente.
— Claro, me segue.
A ajudei a levantar e fomos para dentro da casa, mais especificamente no segundo andar. Fui para o quarto do irmão mais novo de Nick, Luca, que já sabia que não estava na casa naquele momento e definitivamente não seríamos interrompidas por ninguém estando lá. Fechei a porta atrás de mim enquanto a observava sentar na cama, ainda sem querer me olhar direito.
— Desculpa pelo que eu disse aquele dia, não era bem assim que eu queria falar como me sentia pra ti, mas… Devido às circunstâncias... — ela riu baixinho logo colocando a mão na frente da sua boca para esconder sua risada.
— Eu que me desculpo, te forcei a falar sem saber o que tava acontecendo de verdade. Não sei o que eu esperava de ti, mas não era aquilo. — me sentei na cama também, longe dela.
— Eu ia esperar tu resolver as coisas com o Nick mas parece que até agora tu ainda não resolveu. — ela suspirou alto, dava para ver que ela se sentia culpada. — Só toma cuidado, quanto mais tempo tu demorar, pior vai ser. E eu posso até gostar muito de ti, mas se tu despedaçar o coração do meu melhor amigo eu não vou ser legal.
— Eu sei… Mas é tão difícil, ainda mais que eu sei que ele gosta muito de mim e eu gosto dele também, só não do mesmo jeito. To tendo dificuldades.
— Eu notei, tu não me rejeitou ainda também. — a olhei quando ela me olhou.
— Bom… Eu preciso de mais tempo pra fazer isso com certeza, tem muita coisa acontecendo agora. Ainda to decidindo se quero te rejeitar ou não.
— Que? — falei sentindo meu coração querendo sair para fora de meu peito, como se quisesse quebrar minhas costelas para escapar. — Prefiro que tu me rejeite logo, assim eu posso me focar.
Falei mordendo uma unha de minha mão enquanto meus olhos observavam o chão descontroladamente, procurando algum ponto para parar, enquanto meu cérebro entrava em pane total, pensando no que diabos eu havia ouvido. Botei a mão sobre meu peito me deitando para trás e suspirando. Apesar de não olhar diretamente para Edith, sabia que ela me observava.
— Eu não to brincando, mas eu ainda to muito confusa, já que nunca gostei de uma menina antes. Tu é a primeira. — me sentei novamente, sem saber pra onde olhar. — Eu juro que não é mentira.
— Por que tu não me falou antes?
— Eu achei que tu não gostava de mim, ainda mais que no começo tu parecia que queria me socar.
— Eu queria. — nós duas rimos, mas logo voltei a ficar séria. — De certa forma acho que me senti ressentida. Tu foi embora sem falar nada e eu me senti meio abandonada, aí tu voltou e parecia que queria roubar o Nick só pra ti, acabei ficando com ciúmes dele, tu sabe que eu sou ciumenta com meus amigos.
— Eu não queria ter ido embora... Tudo seria muito diferente se minha mãe não tivesse me arrastado daqui. — concordei com a cabeça, sem saber exatamente do que ela falava. — Mas então, acho que isso passou de uma rejeição pra uma confissão, né?!
Ela riu, mas podia ver suas mãos tremendo e suas orelhas vermelhas, seu peito também subia e descia rapidamente, quase como se ela estivesse à beira de um colapso. E eu achava que estava mal. Me virei para ela sorrindo, queria demonstrar que tudo estava bem e que ela podia confiar em mim, mas também queria de certa forma demonstrar que estava feliz em ouvir aquilo, mesmo que não soubesse o que aconteceria com nós a partir de agora. Quando ela se virou pra mim e sorriu de volta, baixei minha guarda e num segundo, os lábios dela estavam no meu, me segurando pela nuca, e me tirando completamente o fôlego. Após alguns segundos, que pareceram horas, nos separamos e a olhei com os olhos arregalados, com minha mente já se invadindo de pensamentos ruins.
— Edith, eu não quero ser mais um de teus testes. Como tu pode brincar com meus sentimentos assim quando tu acabou de fazer o mesmo com o Nick? Tu acha que só por que eu... — levantei da cama sem terminar minha frase, indo em direção a porta.
— Não era um teste. — ela falou, podia sentir o desespero em sua voz.
Saí do quarto e desci as escadas quase correndo, chamando a atenção de algumas pessoas no caminho, e logo chegando do lado de fora. Sabia que Edith viria atrás de mim, e quando me virei lá estava ela, mais perto do que esperava.
— Cora me escuta, não era um teste, eu… Me desculpa, não queria que parecesse isso. — ela respirava de forma deficiente.
— Eu to indo embora, volta pra dentro. — falei pegando minha bicicleta que estava escondida ao lado da casa.
Subi na bicicleta e pedalei o mais rápido que consegui, a última coisa que queria agora era olhar na cara de Edith, e minha mente repetia a cena em um ciclo doloroso e infinito. Parte de mim estava genuinamente feliz com o beijo, essa parte fazia meu coração acelerar como louco como se fosse realmente ter um ataque cardíaco, mas a outra parte estava realmente duvidando das razões de Edith para me beijar, e essa parte me deixava a ponto de chorar. Não conseguia nem lembrar da última vez que chorara, mas agora era como se aqueles anos acumulados estivessem prontos para se soltarem. Parei a bicicleta em uma rua vazia ainda perto da casa de Nick e soltei um berro assustador, que nem imaginava que pudesse soltar, e seguido dele vieram as lágrimas.
Tentava controlar toda aquela perturbação e confusão que me bombardeava incessantemente, mas as lágrimas não paravam de vir, como se realmente estivesse chorando tudo que havia acumulado em anos. Me sentei na calçada tentando respirar para que pudesse finalmente voltar meu caminho para casa, e depois de o que pareciam horas e mais horas, consegui me sentir bem o suficiente para poder voltar. Então continuei meu caminho, pelo menos até chegar na rua de minha casa e um pensamento me parar completamente, me fazendo frear com força e quase cair da bicicleta.
— Puta merda.
Lembrei que Cody estava comigo e que havia prometido a ele que voltaríamos juntos. Suspirei, sabendo que não teria força nenhuma para voltar pedalando até lá e ainda mais com a terrível possibilidade de encontrar com Edith, que não me animava nem um pouco. Caminhei até a frente de casa, percebendo que o carro de nosso pai estava estacionado lá, sinalizando que ele estava nos esperando. Se estivesse em meu estado natural, eu provavelmente entraria em pânico, mas não conseguia sentir nada depois de minha sessão de choro no meio da rua.
Liguei para Nick, pedindo pra que ele trouxesse Cody em seu carro logo. Ele me questionou do porquê de eu ter ido para casa assim inesperadamente e também o porquê de minha voz estar tão anasalada, mas apenas desviei de suas perguntas dizendo que precisava ser rápido pois meu pai estava em casa. Enquanto esperava os dois, aproveitei para me acalmar e pensar conscientemente no que havia acontecido, mas toda vez que pensava demais, mais lágrimas começavam a sair de meus olhos novamente.
Quando os dois chegaram, agradeci Nick brevemente e corri com Cody para dentro de casa. Só queria me retirar para o meu quarto o mais rápido que pudesse, mas meu irmão parecia notar que algo estava errado.
— Tu tá bem? Teu rosto ta meio inchado. — ela falou pegando uma banana na cozinha.
— Não to afim de falar agora, desculpa. — falei me virando pra escada.
— Qualquer coisa sabe que tu pode contar comigo né?
— Sim, eu sei. — o olhei sorrindo, mesmo que um pouco forçadamente. — Boa noite.
Subi as escadas ouvindo sua resposta já abafada. Entrei no quarto, e mesmo sem vontade nenhuma, tirei minha maquiagem e tomei um banho. Por horas fiquei deitada em minha cama, os olhos pregados e o escuro estimulando meus pensamentos ruins. Era como se conseguisse ver um filme do que havia acontecido em diversos ângulos, analisando cada nuance de nossas palavras e movimentos e cada vez que ele recomeçava, mais diferente do original ele ficava, mesmo que eu achasse que estava tudo nitidamente gravado em minha cabeça. Quando o sono finalmente veio, os sentimentos no meu coração já eram uma bagunça, e eu já não sabia mais o que pensar.
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Me levantei de minha escrivaninha e peguei meu celular na mesa de cabeceira, abrindo nele a mesma aba que mexia até aquele momento no computador. Suspirei e abri a porta do quarto, sabendo que meu pai estava trabalhando na cozinha e que, apesar de não ser um bom momento para interrompê-lo, era um dos poucos momentos que poderia falar com ele. Entrei na cozinha e ele logo olhou para mim, notando que eu gostaria de falar com ele.
— Oi pai, eu tava olhando uns anúncios de motos usadas pra comprar, eu tenho o dinheiro e tudo mais. — falei mostrando a aba aberta em meu celular, mas sem saber como seria sua reação.
— Ok. — ele falou voltando a olhar para os papéis na sua frente.
— Só isso? Não vai me questionar nem nada?
— Eu deveria? Tu parece ter tudo sobre controle, além de que agora tu já tem idade pra dirigir então eu que não vou te impedir. Se quiser, posso te ajudar pesquisando pra não cair em golpe ou coisa do tipo. — ele sorriu, analisando meu rosto para ver se havia terminado de falar.
— Tá bom, brigada pai, vou te deixar aí com a tua papelada então.
— Boa noite filha. — quando ele falou, me aproximei para o abraçar. — Eu confio em ti e acredito que tu tem o potencial de resolver tudo isso sozinha, mas qualquer coisa pode falar comigo. Sei que sou ocupado, mas por vocês eu faço tempo, vocês sabem disso.
— A gente sabe pai. — eu falei rindo enquanto ele depositava um beijo em minha testa. — Boa noite, te amo.
— Também te amo. — ele falou já voltando a rabiscar os papéis em sua frente.
Subi as escadas completamente surpresa com sua reação. Era de se surpreender que meu pai não me daria um pequeno discurso sobre como motocicletas eram não sei quantas vezes mais perigosas do que veículos de quatro rodas e quantas pessoas ele já não havia atendido no hospital que perderam uma mão ou uma perna inteira por conta de um acidente com motos. Entrei em meu quarto sorrindo por conta da notícia de que poderia finalmente tirar minha carteira de motorista agora que havia feito dezesseis anos.
Me sentei em minha cama e antes que pudesse mandar mensagens para meus amigos contando da novidade, me parei, tentando reforçar em minha mente que deveria guardar surpresa para dar mais impacto no final. Me aconcheguei em minha cama com um livro em mãos e após ler algumas páginas, ouvi uma batida na porta.
— Pode entrar. — falei largando o livro na mesa de cabeceira e sentando na minha cama.
— Eu ouvi tu falar com o nosso pai… Tu vai comprar uma moto? — Cody falou se animando, me fazendo soltar uma risada baixinha.
— Vou, tô só analisando os anúncios e mandando mensagens para os vendedores pra ver qual o melhor negócio a se fazer. — ele sentou na ponta de minha cama.
— Tu vai me dar carona pra escola?
— Quando der, claro. — falei sorrindo, me surpreendendo quando Cody avançou para um abraço.
— Que demais! — ele falou, mas logo seu rosto se desanimou. — Posso te perguntar uma coisa?
— Pode… Acho. Que pergunta suspeita, que merda que tu fez? — estreitei meus olhos.
— Não é nada disso. — ele riu fraco, apoiando suas mãos em sua nuca. — Esses dias na festa do Nick… O que rolou? Tu brigou com a Edith?
— Ah, isso… — para ser sincera, fazia alguns dias que não pensava tanto na situação e já conseguia suprimir um pouco mais os sentimentos que me tomavam, então ouvir alguém falar sobre aquilo do nada era como um peteleco no meio da testa. — Não foi nada demais, a gente só se desentendeu.
— E tu e ela tavam chorando por que então? — o olhei um pouco surpresa, não sabia que ela havia chorado naquela noite, mas também não me importava, então só dei de ombros. — Tu não chora por qualquer coisa que eu sei, pensa que eu sou idiota?
— Eu sei que tu é idiota. — ri, mas logo parei quando notei seu olhar repreensivo. — Não quero ter que discutir minhas desavenças com meu irmão mais novo, eu te amo e confio em ti, mas tudo tem um limite.
— Mas eu me importo contigo e não gosto de te ver assim, reclusa. Tu nunca é reclusa, parece até que tem um ET vivendo aqui em casa comigo e com o papai.
Realmente não queria discutir meus sentimentos com Cody, ainda mais logo após ele me expor assim dizendo que sabia que eu estava mal sendo que eu achava que estava escondendo tão bem. Suspirei o olhando, analisando e cogitando.
— Bem, já que já aconteceu de qualquer jeito… Tu só não pode contar pra ninguém. — engoli em seco ainda sem saber se estava tomando a decisão certa, enquanto ele confirmava com a cabeça. — Há um tempo atrás eu me confessei pra Edith...
— Tu gosta dela? Sabia! — ele falou me interrompendo. — Desculpa, pode continuar.
— Ela meio que me forçou a me confessar, mas enfim, na festa de halloween da semana passada ela me puxou pra conversar e disse que tava achando que gostava de mim mas que não tinha certeza por que nunca gostou de uma menina antes desse jeito. Aí ela me beijou.
— E… Isso não é bom? Se a pessoa que eu gosto me beijasse eu ia achar bom pelo menos. — ele disse com a mão em seu queixo.
— Essa não é a questão, Cody. No início do verão o Nick fez uma festa na casa dele e eles se beijaram e no final a Edith disse que ela só beijou ele pra testar e que nem gosta mais dele. — botei as mãos na frente da boca, lembrando que não era para falar sobre isso.
— Ela não gosta dele? Achei que eles tavam tipo… Quase juntos?
— Não fala isso pra ninguém por favor, falei sem pensar. Nick nem sabe disso ainda.
— Tudo bem. — ele falou pensando no que eu havia dito, e eu mexia minhas mãos nervosamente pensando que havia sido um erro contar tudo aquilo para ele. — Tá mas ela disse que gosta de ti, isso quer dizer que ela não fez a mesma coisa contigo. Ao menos é isso que parece pra mim, que ela tava tentando te demonstrar que gosta de ti só que sem palavras já que ela parece não entender muito bem o que sente ainda.
O olhei surpresa, rindo de nervoso. Era difícil acreditar que estava recebendo bons conselhos amorosos de meu irmão mais novo que nunca havia se envolvido com ninguém antes, pelo menos até onde eu sabia.
— É, acho que faz sentido até… Mas agora eu também já to muito afundada nessa situação pra ir e falar com ela.
— Acho que tu devia de ir e falar com ela, é a única forma de arrumar isso. Ou vocês vão ficar sem se falar até o final da escola? — dei de ombros mas logo recebi uma almofadada na cara. — Vai falar com ela sim, não vai ficar aí se fazendo de idiota. De idiota nessa casa já basta eu.
— Tá bom, tá bom… — falei rindo. — Só preciso de um tempo, pra pensar em tudo e tals. Agora sai daqui, tenho um livro pra ler.
— Boa noite maninha. — ele falou me zombando.
Quando ele fechou a porta, eu ainda estava rindo. Me sentia ainda um pouco boba de ter contado sobre tudo para ele, mas no fim me sentia muito melhor de falar sobre isso com alguém que não estivesse de uma forma ou de outra envolvido nessa bagunça que havíamos criado. Quando peguei o livro em mãos não conseguia me concentrar, e ler parecia uma tarefa quase impossível, já que agora muitas coisas rondavam meus pensamentos, me impedindo de continuar a leitura.
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Acordei naquele dia ainda cansada por não ter conseguido dormir direito durante a noite toda, mas também completamente eufórica por conta da animação que sentia. Finalmente havia comprado minha moto e ela me esperava em nossa garagem, ansiosa para ser dirigida de verdade. Havia passado o dia anterior inteiro praticando com ela junto de Cody, que parecia tão animado quanto eu com minha nova aquisição. Levantei da cama já apressada, pegando roupas para usar e indo diretamente para o banho. Por conta da ansiedade de dirigir, me arrumei o mais rápido que pude e comi quase sem mastigar a comida, até meu pai brigar comigo.
— Cody, vamos agora ou a gente vai se atrasar. — berrei nos pés da escada, já com as chaves na mão.
— Falta uma hora ainda pra começar a aula, se acalma um pouco… — ele falou meio desajeitado enquanto colocava seu casaco e segurava sua mochila.
— Vai morrer de frio em cima da moto com esse moletonzinho mixuruco. Tem que comprar uma jaqueta de couro que nem a minha. — falei esticando meus braços para mostrar as mangas da jaqueta.
— Comprou uma moto e já tá se achando A motoqueira de gangue. — ele falou me zombando enquanto eu mostrava o dedo do meio para ele. — Compro ano que vem quando a temporada de neve passar.
Fomos até a garagem juntos e juro que poderia ter começado a chorar ali mesmo quando vi a moto vermelha nos esperando, como se também estivesse animada para ir para a escola. Era um sentimento tão familiar ao da bicicleta mas ao mesmo tempo tão desconhecido e novo. Claro que ainda não estava tão confiante na direção e não podia negar que ainda estava vacilando em alguns pontos, mas sabia que com o tempo isso não seria mais um problema, era só questão de acostumar.
Quando chegamos na escola logo vi meus amigos, que como eu havia pedido, me esperavam na frente da porta da escola, mas eles não pareciam prestar atenção na moto já que não faziam ideia de que era eu, mas quando os chamei, eles logo vieram correndo e comemorando. Eu e Cody descemos da moto e logo Nick, Keira e até Edith estavam lá em volta de nós, fazendo infinitas perguntas. Eu e Edith nos olhamos por alguns segundos, a situação do halloween ainda muito fresca em nossas cabeças.
— Caralho que massa. — Nick falou ainda um pouco sem palavras, parando ao lado da moto, a analisando. — Quando precisar fazer revisão, passa lá na mecânica do meu pai que tu vai ter um tratamento especial e até um descontinho quem sabe.
— Mas é claro, era minha intenção mesmo. — falei rindo.
— Gostei do vermelho. — Edith falou um pouco encabulada como se tentasse se engajar na nossa conversa.
— Eu só comprei essa pela cor sinceramente, havia outros anúncios um pouco mais baratos mas a cor dessa me ganhou. — me parei do seu lado um pouco nervosa, mas tentando ser o mais natural que conseguia.
— Foi tão maneiro vir pra escola de moto, vou me achar pra todos meus colegas e todo mundo vai ter medo da minha irmã motoqueira. — nós rimos de Cody.
— Cora, a gente pode ir pra biblioteca? Ainda temos bastante revisão de matemática pra fazer. — Keira falou me puxando pelo braço. — Ainda mais que logo começa a temporada do hóquei e tu não vai ter tempo pra nada agora que tu foi escalada como lateral.
— Tu não vai mais ficar no banco? — Edith falou animada, mas logo se censurou quando notou que todos a olhávamos.
— Não, agora vou começar a jogar de verdade. — sorri sem a olhar.
— Parabéns.
— Já que elas vão estudar, a gente podia fazer alguma coisa legal enquanto isso Eddy… — Nick disse passando seu braço por cima dos ombros dela enquanto ela confirmava com a cabeça, pouco animada. — Até depois.
— Até. — Keira disse, mas logo suspirando enquanto via os dois se afastarem. — Ela não vai dar um fora nele não?
— Também não sei, achava que sim.
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Peguei o celular determinada no que queria fazer, mas mesmo assim hesitava mais do que gostaria. Queria dizer que tinha certeza do que estava fazendo, mas estava longe de ter certeza de qualquer coisa que acontecia naquele momento da minha vida. Selecionei o número de Edith na lista de contatos e esperei que ela atendesse, mesmo que pouco esperançosa.
— Cora? — sua voz parecia confusa.
— Oi. — suspirei alto, procurando exatamente o que falar. — Desculpa ter ligado, sei que tu não gosta de atender o telefone, mas na minha cabeça era meio urgente.
— Tudo bem… Aconteceu alguma coisa? — conseguia ouvir a apreensão em sua voz, o que não me surpreendia já que nossas últimas interações não haviam sido das melhores.
— Bem, não, mas eu queria te ver. Digo, pra conversar. A gente tem umas coisas pra resolver, acho.
— Sim... Quer me ver agora? Eu tenho um tempo antes do treino.
— Sim, agora. Pode ser no lago?
— Claro, te vejo lá.
Desliguei o telefone sem dizer nada, estava pensativa demais, minha cabeça analisando todos os resultados que essa conversa poderia ter, claramente pendendo para os pensamentos positivos, mesmo que eu tentasse impedir para evitar qualquer frustração futura. Depois de pensar um pouco no que havia acontecido, digerindo as informações, resolvi me apressar para sair, me vestindo mais apropriadamente para o frio e botando meus patins em uma mochila. Desci as escadas às pressas, sabendo que Edith morava mais perto do lago do que eu e não querendo a deixar esperando muito por mim, mas quando cheguei na porta da garagem, ouvi meu pai atrás de mim.
— Vai sair de moto com neve? — ele falou com uma caneca na mão, não parecendo muito contente.
— Não tá nevando. — falei inocentemente, sabendo que havia nevado durante a noite toda e que a neve estava acumulada nas estradas.
— Não te faz. Tu sabe que a gente combinou que tu ia evitar sair de moto quando tivesse gelo na pista.
— Eu sei pai, mas é muito importante, tu sabe que eu vou tomar todo cuidado do mundo. Eu preciso ir. — falei com a expressão mais pidona que conseguia fazer.
— Toma muito cuidado e dirige devagar. — assenti e logo saí pela porta.
Não conseguia mais esperar e me xingava internamente por sorrir, mesmo que não soubesse o que aconteceria, realmente tinha esperanças. Botei o capacete e respirei fundo, soltando uma risada alta antes de ligar a moto, ainda animada com a prospectividade dos acontecimentos que poderiam acontecer. Dirigi o mais devagar que minha ansiedade em chegar no lago deixava, ainda um pouco rápida demais para o gosto de meu pai com certeza, mas tinha pressa, em minha mente não podia perder tempo. Era um pouco assustador me ver em um humor tão bom sem nem ao menos saber se meus planos sucederiam, mas era minha única opção naquele momento.
Quando cheguei, pude ver o carro do tio de Edith, que ela sempre usava, já parado no fim da rua. Estacionei ao lado, e enquanto desmontava da moto já conferi dentro do carro, notando que ela não estava ali e já devia ter descido para o lago. Foi só depois de ter retirado o capacete e o guardado que comecei a notar que a partir daquele momento era de verdade, não sabia se estava realmente pronta para tudo, mesmo que dez minutos antes eu fosse a pessoa mais confiante do mundo, naquele instante parecia ser atingida com a realidade de que talvez nem tudo fosse dar certo, já que não dependia apenas de mim. Respirei fundo enquanto botava a mão sobre meu peito, sentindo meus batimentos cardíacos falhando de forma enlouquecida, como se estivesse a ponto de colapsar ali mesmo, mas botei meu capuz para proteger meu rosto da neve, que agora caía levemente, e comecei a andar com passos assertivos em direção a descida que levava até as margens do lago.
A descida era levemente íngreme e o gelo que havia se formado por debaixo da neve não ajudava nem um pouco, mas logo cheguei no fim do caminho, sem cair nem uma vez, e por entre as árvores podia ver uma figura se movimentando sobre o gelo de forma calma, mas que transpassava um nervosismo intenso, que se demonstrava por seus movimentos descompassados e irregulares. Me sentei em um dos bancos cobertos para poder botar meus patins, e logo estava sobre o gelo. Sentia minhas pernas bambearem como se fosse minha primeira vez patinando ou como se fizesse anos que não fazia aquilo, e mesmo que soubesse o porquê do sentimento, ainda era estranho me portar daquele jeito.
Foi só quando me aproximei de Edith que ela notou minha presença, vindo em direção a mim com um sorriso que não demonstrava alegria.
— Oi. — falei mais animada do que esperava, já mentalmente me censurando. — Bom te ver.
— É, igualmente.
— A gente pode conversar sobre… Tudo que aconteceu? — sabia que Edith não era o tipo de pessoa que tomava iniciativa, então decidi tomar a frente, mesmo que não soubesse exatamente por onde começar.
— Desculpa pelo que eu fiz naquele dia. Pensei tanto sobre isso que agora eu entendo que o que eu fiz foi errado, eu não devia ter te usado daquele jeito, muito menos ter te beijado sem te perguntar se tava tudo bem. — suspirei alto, o que a fez parar.
— Acho que ultimamente a gente só se encontra pra se desculpar. Eu quero que a gente fique bem logo uma com a outra. A gente devia esquecer tudo… Digo, não esquecer, isso seria meio idiota, mas resolver logo essa situação. — olhei em seus olhos, mesmo que ela olhasse para longe, me evitando. — Eu não to brava pelo que tu fez na festa… O beijo. Eu só me sabotei, acho. Não queria ter reagido daquele jeito e ter te deixado na mão assim, confusa. Meio que sei pelo que tu ta passando e vacilei.
— Não te culpo, tu tinha todos os motivos pra achar que eu tava fazendo a mesma coisa contigo. — ela me olhou, mas quando nossos olhos se encontraram ela abaixou o olhar, focando no gelo sob nossos pés.
— Eu sei, mas a gente podia ter conversado normalmente, igual gente, e eu elevei tudo a proporções exageradas. Eu gosto de ti, e quando ouvi tu dizendo aquelas coisas acho que me desestabilizei e fiquei meio sensível, sem saber o que fazer. Pensei até que fosse alguma piada de mal gosto por alguns segundos, mas sabia que não fazia sentido, tu não faria isso comigo. Pelo menos eu acho. — ela negou com a cabeça rapidamente, o que me fez sorrir involuntariamente. — Me sinto uma boba pela forma que te tratei.
— Tá tudo bem, acho que acabei fazendo o mesmo contigo sem perceber. Estamos de bem então? — ela esticou a mão e eu a apertei enquanto as duas começavam a rir. — Podemos finalmente voltar a ser amigas.
— Amigas? — dava para sentir a decepção no meu tom de voz e já podia sentir minhas mãos e pernas começarem a tremer. — Eu não quero ser só tua amiga, e achei que tu sentia o mesmo… A gente se gosta, não?
— Sim! — ela parecia nervosa, a ponto de desmaiar ali mesmo.
— Eu não quero que tu se sinta forçada, se tu precisar ainda pensar em tudo isso, eu te dou tempo e tudo bem.
— Não! — ela falou alto demais, mas logo botando as mãos enluvadas na frente da boca, me fazendo rir. — Eu sei que é minha primeira vez gostando de uma menina… Mas eu já pensei nisso por muito tempo, já me decidi. Foi por causa de ti que eu notei meu interesse por garotas, achava que queria ser tua amiga e estar perto de ti o tempo todo porque tu era minha melhor amiga a alguns anos ou sei lá o que, mas depois de um tempo eu sentia até ciúmes de te ver sozinha com a Keira e eu queria estar perto de ti o tempo todo, involuntariamente te procurando no meio da multidão. Aí aquele dia tu disse que gostava de mim e, sinceramente, aquilo que tu disse era a última coisa que eu esperava que tu fosse falar. Meu coração quase saiu pela boca e eu queria tanto te dizer que também gostava de ti, mas quando voltei pra realidade tu já tinha desaparecido. E daí na festa eu, de novo, queria te dizer o que tava sentindo, mas tava tudo tão nublado dentro da minha cabeça que eu não soube dizer com palavras, aí no impulso do momento eu te beijei. E então...
— Tá, calma. Me dá um espaço pra respirar se não tu vai me matar. — falei escondendo meu rosto em minhas mãos, tentando respirar de forma desesperada, enquanto sentia meu rosto queimar em minhas palmas. — É bastante coisa pra digerir.
— Desculpa, tem um bom tempo que eu queria te falar isso e agora que tive a oportunidade minha cabeça decidiu descarregar tudo de uma vez. — ela falou e só então percebi por sua voz embargada que ela chorava. — Meu Deus eu to chorando, ignora. Meu cérebro sobrecarregou.
Um sentimento tão diferente passava pelo meu corpo como se tivesse sido injetado em minha veia, me fazendo esquecer tudo de ruim que acontecera conosco, como se eu pudesse sair voando a qualquer instante, como se fosse mais leve do que o próprio ar. Era realmente mágico o sentimento de ver que a pessoa que gostava reciprocava meus sentimentos, coisa que não sentia a muito tempo e parecia ter esquecido como era, até por que dessa vez parecia tão diferente, bem mais especial. Podia reviver aquele momento repetidas vezes até o infinito, escutar novamente as palavras de Edith dizendo que gostava de mim, ou até mesmo rever nosso beijo, que de repente já não parecia mais uma memória tão ruim e em minha mente já não tinha um gosto mais amargo, e sim doce.
A abracei sem pensar, quase desequilibrando as duas e fazendo Edith rir, enquanto meu rosto se afundava em seu pescoço, sentindo um quentinho crescer dentro de mim. Seria idiota dizer que era amor, mas não duvidava que fosse. Edith era uma pessoa fácil de se gostar, mesmo que alguns meses antes estivesse negando tanto essa verdade em meu coração, naquele momento, que me entregava de corpo e alma, podia sentir que nunca havia acreditado nas mentiras que minha cabeça contava para esconder a realidade. A realidade de que nunca havia deixado de gostar dela e que nosso reencontro apenas deu um novo significado a todos aqueles sentimentos inocentes e acanhados. Separei o abraço e peguei em suas mãos, que ela logo soltou, tirando suas luvas, e pegando minhas mãos novamente, nos fazendo rir.
— Agora que a gente resolveu tudo… — procurei as palavras, olhando para seu rosto que estava vermelho, não saberia dizer se era pelo frio ou se estava envergonhada.
— A gente namora? — ela falou rindo, nossas mãos dadas tremiam de forma quase combinada.
— Acho que sim. Tô tão nervosa acho que vou desmontar, vai ter que me levar pra casa aos pedaços.
— Não se eu desmontar primeiro. — nós duas rimos, era engraçado perceber o nervosismo na risada das duas. — Eu posso… Te beijar?
Imediatamente parei de rir e a encarei com os olhos arregalados, não esperava que ela fosse me pedir algo assim do nada, ainda mais tão diretamente e sem preparo nenhum, mas logo comecei a rir de novo, inquieta por sua pergunta inesperada. Demorei algum tempo para me recompor enquanto a via se arrepender de ter me perguntado aquilo.
— Pode. — falei desacreditada mordendo meu lábio inferior
Mesmo que aquele não fosse nosso primeiro beijo, meio que sentia que era, talvez sentisse que o primeiro não havia sido justo com nós duas já que ele não me trazia apenas memórias boas afinal. Me aproximei e encostei a testa na dela, novamente nos fazendo rir, agora um riso de felicidade com certeza, e peguei em sua nuca, a fazendo arrepiar com o toque frio de minha mão diretamente em sua pele. Queria prolongar o momento o máximo que desse, nossos corações quase se encostando, como se tentassem se unir em um só, mas Edith parecia não conseguir se segurar e tomou meus lábios da forma mais gentil e terna possível, como se tivesse medo de fazer muita força e tudo se desfazer.
Naquele momento era como se o tempo não passasse e tudo à nossa volta deixasse de existir, pouco a pouco, apenas restando nós duas no meio do lago, ligadas por algo maior. Apenas a neve conseguiu interromper o beijo, que separamos com um sorriso bobo estampando nossos rostos igualmente. Saímos do lago e tiramos nossos patins, a todo momento trocando poucas palavras, mas muitos olhares atentivos e carinhosos, pois naquele momento era mais fácil se expressar sem palavras. Seguimos de mãos dadas até onde tínhamos estacionado.
— Bom, eu tenho que ir, logo o treino deve começar. — ela falou pegando a chave do carro no bolso.
— A gente se vê na escola já que semana que vem as aulas já voltam. — falei segurando suas duas mãos, não querendo me despedir.
— Vamos ver se vou aguentar ficar uma semana toda sem te ver. — ela suspirou alto, como se estivesse aliviada. — É tão bom finalmente poder falar sobre o que eu sinto sem medo.
— Agora tu sabe como eu me sinto. — ela riu enquanto eu a observava sorrindo. — Não quero te atrasar, ainda mais com essa neve.
— Ok. — ela me deu um selinho antes de entrar no carro.
Ainda estava completamente imóvel quando vi seu carro descer a rua, com a cabeça nas nuvens e o coração acelerado. Era tão estranho saber que aquilo era real, e mesmo que quisesse acreditar que não era, o frio não me deixava esquecer, atingindo meu rosto como pequenas lâminas. Botei meu capacete ainda distraída e subi na moto, que agora estava coberta de neve, e fui pra casa com os pensamentos bons ainda frescos em minha cabeça, me esquecendo de meu maior problema naquele momento.
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