Freeze
1 Her
Notas iniciais
Cheguei na escola e fui logo para o lado de dentro, tentando não escorregar em toda a neve que começava a derreter na calçada. O clima frio de janeiro não me ajudava, já que sempre havia sido mais sensível ao frio do que o normal, mas nunca havia me incomodado já que gostava demais de ver os lagos congelados, perfeitos para patinar. Logo cheguei ao meu armário e deixei todos meus livros, com exceção ao de matemática, que seria minha primeira aula do dia.
— Bom dia Cora. — Nick se apoiou no armário ao lado do meu enquanto eu o fechava. — Como foram tuas férias de inverno?
— A gente se viu quase todo dia, para de se fazer. — eu ri para ele enquanto ele me mostrava a língua. — Bom dia Keira.
— Ah, bom dia. — ela disse surpresa por ser inserida na conversa. — Tem matemática agora né?
— Sim, eu já estava indo pra sala quando esse palhaço me parou. — eu disse mostrando o livro em minhas mãos. — Vamos juntas.
— Claro. — ela sorriu e nós começamos a caminhar juntas.
— Não é justo, eu quero ter aula com vocês agora. — ele disse falando baixo logo atrás de nós.
— Eu e tu temos ciência juntos depois, e nós três temos educação física juntos também. — eu disse o olhando enquanto caminhava de costas.
— E nós temos história juntos antes do almoço. — Keira disse enquanto cuidava para eu não esbarrar em ninguém.
— Viu? Aproveitem e guardem uma mesa para nós, a sala de história é mais perto do refeitório. — falei me virando para frente novamente. — A gente te leva agora na tua sala pra tu não ter que ir sozinho.
Seguimos para sua sala e logo fomos para a nossa. Keira não era minha amiga a tanto tempo quanto Nick, mas nossa amizade havia crescido absurdamente desde que nos conhecêramos seis meses antes. Keira não parecia o tipo de pessoa que interagia muito, então fui falar com ela mostrando interesse em formar um grupo de estudos já que ela parecia ter dificuldades na matéria e eu, modéstia parte, era muito boa. Então foi assim que nossa amizade começou. No início nossos encontros eram puramente acadêmicos, mas logo evoluíram para uma amizade que fazia muito sentido. Até Nick se deu bem com ela logo de início, mesmo com sua dificuldade em fazer amizades.
As aulas passavam voando já que era o primeiro dia depois das férias e os professores sempre começavam falando de como haviam sido suas férias e perguntando para os alunos que mais gostavam como haviam sido as suas. Alguns até perguntaram para mim mas na realidade eu não havia feito nada durante as férias que não fosse patinar com meus amigos e treinar hóquei.
Eu e Nick havíamos conseguido ensinar Keira a patinar durante as férias já que nós dois patinávamos desde pequenos e fazia parte de nossas vidas no presente, comigo participando da equipe de hóquei da escola e ele do time de patinação artística. Era impossível separar Nick e patinação na minha vida, era assim que havíamos nos conhecido quando tínhamos cinco anos e continuava sendo algo muito importante para os dois.
Na aula de ciência Nick chegou um pouco atrasado e se sentou perto de mim. Parecia um pouco sem fôlego e completamente animado, com um sorriso estampado em seu rosto. Ele chamou minha atenção algumas vezes e sussurrou que precisava falar comigo, mas o professor de ciências não gostou e o mandou ficar em silêncio se não o mandaria pra detenção, o que funcionou direitinho.
Depois de minha aula de trigonometria fui até o refeitório onde vi Keira e Nick sentados juntos. Dava para ver que ele estava falando sobre algo de forma empolgada com ela, que não entendia nada. Quando me viram, apontei para a fila do almoço demonstrando que iria pegar minha comida e já iria para lá.
A fila do almoço era um ótimo lugar para obter fofocas e rumores. Não que eu fosse muito fã de rumores, mas gostava de me manter a par do que acontecia na escola. Foi assim que descobri no início do ano que Charlotte Berry havia dado um soco nos países baixos de Aidan Cooper logo após ele tentar beijá-la em uma festa ou que Samantha King havia largado a escola em seu último ano por causa de uma gravidez. E foi aí que ouvi também sobre ela pela primeira vez.
— Tu viu que a Edith se transferiu pra cá? — duas garotas conversavam atrás de mim, mas não sabia ainda de quem estavam falando.
— Nossa, eu achei que ela tinha se mudado por conta da situação com aquela perda feia dela na patinação.
— Ouvi que a mãe dela berrou com o treinador e ele expulsou ela do time.
Andei na fila tentando não prestar atenção no que ouvia. Nem sempre ficar ali e ouvir as fofocas era proveitoso, já que muitas das vezes as fofocas surgiam de rumores falsos. Paguei o almoço e fui em direção aos dois que se sentavam perto das janelas. Nick estava tão inquieto que quase não o reconhecia de longe, se não o conhecesse diria que era uma pessoa muito extrovertida. Cheguei na mesa e ele logo se dispôs a falar.
— Tu não vai acreditar. Quando eu entrei na sala de inglês uma pessoa falou comigo, e de cara eu não reconheci, mas quando ela me disse o nome eu dei um pulo na minha cadeira. — ele dizia quase sem pausa. — Eddy está de volta.
— Quem diabos é Eddy? — eu disse enfiando comida na boca.
— Nossa amiga?! — eu o olhei ainda confusa. — Minha antiga parceira de patinação e ex- namorada.
Engasguei com minha comida enquanto Keira dava batidinhas em minhas costas e olhava também confusa para um Nick que agora ria baixinho. Ele sabia que eu ter engasgado significava que eu havia lembrado e que estava chocada com a notícia. Da última vez que havia a visto ela estava chorando aos prantos enquanto sua mãe berrava com o treinador. Depois disso fiquei sabendo por Nick que ela havia se mudado.
Na época nós três éramos inseparáveis e por meses depois de sua partida eu ainda pensava nela e em nossa amizade. Pensar que ela estava de volta era até um pouco assustador já que minha amizade com Nick nunca havia se desfeito, enquanto ela era uma completa estranha para nós.
— Ela conversou comigo e disse que a gente tinha que se encontrar uma hora dessas pra tomar um café. Eu falei sobre ti também, espero que não se importe.
— Por que me importaria? — dei de ombros.
Sem pensar, olhei em volta na multidão pensando se a reconheceria se a visse, mas logo meus pensamentos voltaram para o assunto da conversa e o dia continuou. Era difícil evitar pensar nela já que fazia tempo que não nos víamos e uma parte de mim estava ansiosa para vê-la, e outra parte muito obscura sentia medo do que viria por aí.
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No dia seguinte já odiava a mim e meus pensamentos que não deixavam de voltar para Edith toda vez que eu piscava. Era insuportável o quanto eu pensava nela, e sabia exatamente o porquê. Não gostava de admitir isso, mas Eddy havia sido a primeira menina que eu havia gostado de verdade. Claro que na época ninguém ficou sabendo, ainda mais que Nick a namorou por um tempo. Mas em minha memória ela tinha apenas a descrição de “ex melhor amiga e primeiro crush gay”. Não era bem meu tipo demorar para superar alguém que gostava já que estava acostumada com rejeição, mas ela era muito diferente. Ela era a primeira.
Cheguei na escola naquela terça-feira mais cedo do que o normal pois eu e Keira havíamos combinado de ver as matérias de matemática antes das aulas para facilitar as explicações. Estava em meu armário quando ouvi meu nome ser chamado no fim do corredor, me fazendo olhar. Era Eddy. Agora que sabia que ela estava por lá era fácil demais a reconhecer.
— Cora, quanto tempo. — ela chegou perto de mim sorrindo de orelha a orelha. — Adorei o cabelo vermelho.
— Oi Edith, valeu. — eu disse voltando minha atenção para meu armário.
— Ué, aconteceu alguma coisa? — ela disse procurando meu olhar.
— Como assim?
— Faz séculos que a gente não se vê, não quer saber o que aconteceu na minha vida nesse tempo?
— Bom, tecnicamente a gente não se conhece mais, então eu só me sinto desconfortável de ser tão amigável com uma pessoa estranha. — ela fez uma careta após eu terminar de falar, não parecia satisfeita com minha opinião.
— É por isso que eu queria que a gente se reunisse para conversar. Eu, tu e o Nick. — ela sorriu convidativa.
— Talvez outra hora… — eu disse fechando meu armário.
— Claro, agora não dá né?! — ela disse rindo. — Enfim, depois a gente se fala, tenho algumas coisas pra resolver ainda.
Ela saiu acenando. Depois de falar com ela era difícil a ver como a garota que eu gostava a alguns anos, o que era claro já que as pessoas mudam. Eu sabia disso, mas ainda assim uma parte de mim queria que ela ainda fosse a mesma garota que eu tanto gostava e que me fazia companhia nos rinques.
Chacoalhei minha cabeça, trazendo minha atenção de volta para o que estava fazendo. Fui até a biblioteca e no tempo antes da aula ajudei Keira com a matéria, mesmo que minha cabeça parecesse não querer focar em matemática no momento. Estava de fato tão absorta em outras coisas que quando o primeiro sinal tocou eu nem notei, só quando Keira cutucou meu ombro.
— Tá distraída? — ela riu baixinho.
— Um pouco. — eu ri enquanto juntava meus livros e levantava da cadeira. — Toda essa história de Eddy ter voltado… Digo, Edith.
— Vocês se conhecem, né? — saímos pela porta da biblioteca.
— A gente se conhecia a uns anos atrás. Éramos melhores amigas por conta da escola e da patinação.
— Ah, é da época que tu fazia patinação artística ainda?
— Sim. Eu gostava dela nessa época mas nunca acabei falando pra ela… Pra ninguém pra ser sincera. Não queria que Nick soubesse disso enquanto eles ainda namoravam, mesmo que fosse o relacionamento mais quinta série que existiu. — eu disse rindo enquanto Keira analisava minha expressão.
— Tu não gosta mais dela?
— De jeito nenhum, nem a conheço mais. Falei com ela mais cedo no corredor e ela me passou uma aura tão fútil. Não sei se ela sempre foi assim e eu que não notei porque gostava dela ou se ela realmente mudou muito. Mas enfim, para de tentar me analisar, sabe que eu odeio isso. — eu disse parando na frente da sala de matemática. — Quer sair mais tarde?
— Eu trabalho hoje. — ela disse entrando na sala quando o segundo sinal tocou.
Sentei em minha carteira já pensando no que faria já que o treino de hóquei seria só de noite e não queria ir para casa para voltar depois. Pensei em mandar mensagem para Nick mas logo o professor entrou em sala e começou a passar matéria. Me concentrei nas aulas o máximo que consegui e quando notei já era o horário de almoço.
Entrei no refeitório já procurando meus amigos, e quando os encontrei me surpreendi ao ver Edith sentada com eles. Suspirei indo em direção à fila do almoço. Sabia o que me incomodava naquilo, mas não queria admitir a mim mesma que estava frustrada comigo mesma por conta dos meus sentimentos por Eddy que havia enterrado a muito tempo. Eram sentimentos claramente mal resolvidos, ainda mais que eram por ninguém mais ninguém menos do que a garota que me fez perceber que eu talvez sentisse algo por garotas.
Andei até a mesa com meu almoço encarando Nick, que parecia completamente distraído com o que Edith falava, mesmo que não parecesse ser nada interessante. Me sentei ao lado de Keira sem fazer cerimônia como se estivesse acostumada a ver Edith sentada ali na nossa mesa. Ela terminou de contar para Nick sua história enquanto ele ria, então ela se virou para mim.
— Cora, eu e Nick vamos a um café hoje de tarde para botar o papo em dia já que os treinos de patinação artística só começam amanhã, quer ir? — ela se apoiou em suas mãos e me olhou com olhos pidões.
— Logo depois da escola? — os dois acenaram positivamente. — Pode ser, os treinos de hóquei só começam de noite.
— Tu saiu da patinação? — ela me olhou chocada.
—Faz um tempo. Aí agora no ensino médio decidi que queria voltar a patinar, mas não da mesma forma. Aí optei por hóquei.
— Começou esse ano? — Edith demonstrava interesse no que eu falava.
— Sim, ainda to aprendendo tudo, mas não é tão difícil por eu já patinar tão bem. — mordi minha maçã. — Enfim, Keira, amanhã vamos ter outra sessão de estudos?
— Amanhã eu não consigo chegar tão cedo na escola, então não. A gente faz outro dia. — ela disse pensativa enquanto pegava sua agenda para anotar algo.
— Enfim, como termina a história que tu tava contando Edith? — Nick disse voltando a atenção dela para ele.
Os dois continuaram a conversar enquanto Keira e eu comíamos em silêncio, o que claramente nos fazia desconfortável já que Keira nem conhecia Eddy e eu ainda não estava acostumada com sua presença. O resto do almoço passou desse mesmo jeito, Nick babava por sua antiga namorada e nós observávamos em um silêncio desconfortável.
O resto do dia foi assim, Nick parecia completamente distante e aos poucos isso ia me irritando. Não que eu tinha direito de me sentir incomodada com meu amigo estar animado com sua antiga namorada que estava de volta, mas mesmo assim me sentia incomodada com a situação, mesmo que apenas levemente. Conseguia notar que estava mais distraída do que o normal, mas tentava lutar o máximo contra isso. Estava sendo um começo de semestre tão tumultuado que sentia como se o tempo passasse em câmera lenta.
No final do dia, encontrei com Nick em seu armário enquanto ele já conversava com Edith. Não demorou muito para sairmos da escola no carro dele e irmos para algum café que aparentemente os dois já haviam decidido qual seria. Chegamos lá e nos sentamos na mesa. Não podia negar que me sentia uma extra na situação, como se não pertencesse a aquele encontro de conversa.
No começo os dois trocavam muitas palavras e raramente eu falava qualquer coisa, estava muito mais interessada em meu café, que por um acaso estava uma delícia. Podia ver que Nick estava empolgado com essa interação e como ele não estava acostumado a se soltar tanto procurei não interromper nem nada, apenas os observava enquanto a conversa progredia e eu absorvia as informações que Edith falava. Ela contou que em sua última competição aqui ela havia deslocado seu ombro; contou que sua mãe ficou brava com ela por vários dias por conta disso, o que ela contou rindo mas que com certeza não era motivo para risadas; e contou também que enquanto morava em Vancouver, ela nunca havia conseguido ficar em primeiro em nenhuma competição por conta do alto nível.
— Vou ao banheiro rapidinho. — Nick levantou enquanto eu o encarei um pouco preocupada de ser deixada sozinha com Edith.
— Ok. — ela disse sorrindo esperando ele desaparecer de vista. — Ei, eu ouvi umas amigas falando sobre uns rumores acho e queria que tu soubesse que isso tá circulando… Ouvi te chamarem de lésbica.
— Que bom, é assim que me identifico. — eu ri com seu comentário preocupado e inocente.
— Ah, não sabia.
— Sim, a gente não se vê a alguns anos, muita coisa mudou e é claro que tu não vai saber por que não tava aqui. — eu disse de forma honesta o que pareceu a machucar.
— Desculpa… — ela fez um olhar arrependido.
— Não te culpo, é só impossível tu saber por que não tava aqui, literalmente. — dei de ombros tomando o último gole de meu café. — A gente pode se falar outra hora?
— A gente pode se falar agora. — ela riu fraco.
— Eu digo, sozinhas. — eu disse enquanto via Nick vir em direção à mesa.
— Claro, outra hora então.
Depois de mais um tempo jogando conversa fora, avisei para Nick que meu treino começaria logo e eu precisava voltar para a escola, então nós três voltamos para o carro e eles me levaram até lá. Não demorou muito para o treino começar, e logo minha cabeça não pensava em mais nada que não fosse hóquei.
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Cheguei em casa tarde já que o último treino da temporada era mais longo por conta de uma festa que as veteranas faziam para comemorar sua última temporada na escola. Adorava passar tempo com minhas colegas de time e não perderia nosso último encontro da temporada por nada. Todas sabíamos que logo os treinos voltariam já que a treinadora era muito exigente e não deixava muito tempo para descanso entre as temporadas, mesmo que elas durassem apenas de novembro até o final de fevereiro.
Meu irmão estava sentado na cozinha comendo quando entrei pela porta, os dois mostraram a língua um para o outro.
— Tem comida na geladeira. — ele disse com a boca cheia.
— Já comi, teve festa no treino.
— Quem?
— O time de hóquei. — respondi largando meu equipamento no armário ao lado da porta.
— Quem te perguntou? — ele riu enquanto eu mostrava o dedo do meio pra ele.
— Vou subir. — disse já subindo.
Entrei no quarto e fui direto para o banheiro para tomar uma ducha já que não aguentava ficar suada durante o inverno. Quando saí do banho peguei meu celular e vi uma mensagem de Edith, o que não era comum já que não havíamos conversado direito em mais de um mês. Ela estava me convidando para conversar já que o último treino da patinação artística também havia sido naquele dia mais cedo e ela não tinha nada para fazer.
Como ela disse que me buscaria de carro, eu aceitei, e logo fui me trocar para sair. Me agasalhei um pouco — pois apesar de o clima começar a esquentar aos poucos, ainda sentia muito frio — e fui para o andar de baixo pegar uma garrafa de água para levar junto já que o clima seco do inverno ferrava com minha garganta, principalmente durante a noite. Assisti um pouco do programa que meu irmão olhava na televisão enquanto Eddy não chegava.
— Esse programa não é classificação mais de dezoito?
— E daí?
— Cody, tu é muito novo pra tá vendo isso.
— E tu é só dois anos mais velha que eu, Cora, então tu também não pode.
— Mas não fui eu que botei no canal. — falei ouvindo o som de mensagem de meu celular. — Tô indo. Vou falar pro nosso pai que tu tava olhando coisa pornográfica.
— Sua nojenta. — ele disse berrando enquanto eu saía pela porta rindo.
Entrei no carro de Edith e rapidamente decidimos ir para algum parque e ficar em seu carro. De primeira achei que ela queria dar uma volta como nos velhos tempos ou algo do tipo e acabei aceitando no calor do momento, mas quando paramos em nosso destino ela pareceu hesitar e dançava em volta do assunto.
— Tu me chamou por causa daquele dia no café que eu disse que queria falar contigo sozinhas? — perguntei a surpreendendo.
— Bom… Sim, acho. Fiquei curiosa faz dias já.
— Quero que tu entenda que é um assunto bem pessoal e eu só queria tirar isso do meu peito porque sempre procuro ser uma pessoa bem resolvida com meus sentimentos. — ela levantou uma das sobrancelhas. — Antes de tu ir embora da cidade eu gostava de ti. Tu foi a primeira menina que eu gostei de verdade inclusive.
Ela ficou em silêncio por um tempo enquanto eu a olhei levemente apreensiva. Ela parecia pensar no que falar e até mesmo abriu a boca algumas vezes pra falar mas desistiu em pelo menos três dessas vezes.
— Por que não me falou que gostava de mim?
— Ué, não tinha nada a ver contigo.
— Claro que tinha, tu gostava de mim. — ela falou indignada.
— Eddy… Digo, Edith. Na época eu nem sabia que gostava de mulher, quem dirá só de mulher. Foi um choque pra mim, claro que não ia sair contando pra todo mundo.
— Mas a gente era melhor amiga.
— E tu era namorada do meu amigo. É óbvio que eu não ia falar.
— Não é justo…
— Justo? Não é sobre justiça Edith, eram meus sentimentos da época.
— E tu já superou?
— Eu supero rápido, me acostumei a levar fora. — disse soltando uma risadinha mas sendo repreendida por um olhar sério de Edith.
Ela ficou mais um tempo sem falar pensando na informação que havia jogado nela e claramente pensava em tudo, analisando nossa relação da época. Era incrível como mesmo após anos longe ainda era muito fácil ler as expressões dela. Depois de um tempo ela decidiu que me levaria em casa já que já havia falado o que tinha para falar. Quando chegamos na frente de minha casa ela ainda parecia procurar o que falar, então esperei um pouco.
— Desculpa, eu sei que tu queria sair pra se distrair um pouco e eu acabei jogando uma bomba em ti. — disse tentando ajudar sua confusão mental.
— Tá tudo bem, mas a gente fala mais isso outra hora.
— Não sei se a gente precisa falar mais, é um negócio meu, eu já falei o que tinha pra falar. Eu só queria essa paz dentro de mim falando pra ti o que eu pensava na época.
— Queria paz e me botou no caos.
— Nada mudou Edith, é coisa do passado, faz quatro anos quase. Não esquenta com isso, pelo amor de Deus. — eu a olhei nos olhos tentando mostrar a ela que podia confiar em mim.
Ela confirmou com a cabeça e eu saí do carro, sem nos despedirmos nem nada, não senti que o clima era propenso a despedidas calorosas ou coisa do tipo. Entrei em casa sem olhar para trás. Na sala, meu irmão dormia enquanto na televisão passava algum tipo de jornal esportivo, coisa que sabia que não fazia o tipo dele, o que me dizia que ele já estava dormindo a um bom tempo. Antes de entrar havia notado que o carro de nosso pai não estava estacionado na frente de casa então ele com certeza teria um turno noturno no hospital.
Antes de subir para meu quarto preparei um sanduíche para meu pai, limpei a cozinha que Cody havia deixado uma bagunça e o acordei, mandando ele dormir em sua cama e não no sofá com a televisão ligada. Ele reclamou, mas subimos juntos e cada um se trancou no próprio quarto. Não demorei pra dormir já que o treino de hóquei havia sido cansativo o suficiente para não me deixar acordada pensando na reação de Edith para minha confissão.
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Sentei na mesa do refeitório silenciosamente encarando Keira, que olhava mais para seu livro do que para seu almoço como sempre. Percebia que o olhar dela parecia incomodado com algo e o motivo era bem óbvio. Nick não estava sentado ali com ela, e sim com Edith em uma mesa mais distante, perto das janelas. Por alguns minutos não falei nada, apenas concentrada em minha comida, mas aos poucos podia perceber os pensamentos de Keira transbordarem de sua cabeça. Podia ver que queria falar algo mas não sabia como desenvolver.
— E o Nick, cadê ele? — perguntei tentando a incentivar.
— Não sei o que ele tá pensando sinceramente, por que ele foi com a Edith?
Mesmo que Keira nunca tivesse falado para mim diretamente que ela gostava de Nick, era fácil de notar por suas ações, mas ele era denso demais para perceber qualquer sinal mínimo que ela desse. Ela logo voltou sua atenção para seu livro, percebendo que podia ter dito demais, mas não demorou para fechar seu livro e me olhar por uns segundos antes de falar novamente.
— Nada contra ela claro, ele que é um idiota afinal de contas.
— Bom, pra ser justa, eles namoraram quando eram mais novos, então não me surpreende que ele esteja animado com a volta dela. — tentei raciocinar.
— Faz quase dois meses que ela voltou Cora, ela não é mais a garota nova na escola.
—Eu sei, eu sei. — disse botando minhas mãos em minha frente como para me defender. — Ele tá até agindo como ele age nos rinques.
— Como? — Keira nunca havia visto Nick em uma competição, já que não nos conhecíamos a tanto tempo.
— Como um pavão, um pavão extrovertido. — nós duas rimos alto. — Mas falando sério, logo ele esquece ela e volta a ser como a gente sempre foi, juntos aqui nessa mesa.
Claro que eu não poderia saber o que aconteceria e era até difícil de me imaginar tão positiva assim, mas queria acalmar o coraçãozinho claramente perturbado de Keira, e ser realista em um momento assim não se encaixaria tão bem. Podia ver que Keira tinha mais para falar, mas as palavras pareciam ainda não querer sair de sua boca. E assim foi pelo resto do dia.
Quando estava em meu armário arrumando minhas coisas para ir embora, Keira se aproximou de mim com uma expressão que diz “tenho algo pra falar, mas não aqui”, então fomos para o lado de fora perto de minha bicicleta. Com o clima esquentando na metade da primavera já era possível que viesse com ela para a escola já que não passaria frio na rua e nem deslizaria no gelo das calçadas. Ela me olhou alguns segundos antes de começar a falar.
— Eu sei que eu nunca falo disso, mas eu gosto muito de vocês, tu e o Nick. Não é muito fácil fazer amigos pra mim, mas com vocês é muito fácil. — ela disse abraçando seus livros mais forte contra seu peito. — E eu não quero perder isso, por isso fiquei tão estranha hoje o dia todo.
— Tu não vai perder a gente, fica tranquila. — falei botando meu capacete.
— É difícil vendo aquele idiota nos abandonando assim tão fácil.
— Eu já disse, eles têm um histórico juntos.
— Mas tu e ela eram melhores amigas e mesmo assim tu não tá lá com ela.
— Mas a gente não namorou. — tirei meu casaco enquanto falava já que começava a sentir calor com o sol.
— As vezes eu só queria ser como tu.
— Como eu? — disse levantando uma sobrancelha um pouco irritada já sabendo do que ela falava.
— Não gostar de homem.
— Ei, eu não escolhi ser assim, e se eu pudesse escolher também não escolheria. Não é fácil chegar a conclusão de que tu é gay num mundo onde tu cresce com uma sexualidade já escolhida por ti. — eu falei com um tom levemente amargurado na voz o que fez Keira parar e pensar por um tempo.
— Desculpa, não tinha pensado nisso. — ela disse olhando para baixo.
— Tá tudo bem.
Ficamos paradas observando o movimento dos alunos andando pelo estacionamento enquanto um silêncio constrangedor pairava sobre nós. Uma brisa ligeiramente quente batia e nos incomodava.
— Vai fazer o que hoje? — ela disse limpando uma gota de suor que descia de sua têmpora.
— Acho que pintar o cabelo, tá mais pra rosa do que vermelho agora, e também retocar as raízes.
— É, a raiz ta bem grande… Quer ajuda? Não trabalho hoje. Eu pedalo e tu vai na garupa. — ela disse já botando seus livros na cestinha na frente da bicicleta.
— Pode ser. — eu disse me animando.
— Então vamos.
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Juntei minha mochila do chão e botei meus óculos de sol antes de sair do quarto, indo direto para a cozinha no andar de baixo. Peguei uma garrafa de água e coloquei em minha mochila já me preparando para pedalar até a casa de Nick. Cody me olhava enquanto eu me arrumava para sair.
— Vai pra onde? — ele disse se parando em minha frente.
— Casa do Nick. — empurrei ele para o lado para poder passar.
— Piscina? — ele disse se animando.
— E tu não tá convidado.
— Deixa eu ir por favor. — ele disse juntando as mãos e implorando. — O Nick me conhece mesmo.
— Os pais dele não tão em casa e eu não quero ter que ficar cuidando de ti.
— Cuidar de mim? Eu nado melhor do que tu, Cora.
— Tu acha que só se afoga quem não sabe nadar? — eu o encarei.
— Eu lavo a roupa o verão todo por ti. — eu o olhei esperando que adicionasse mais favores, o fazendo revirar os olhos. — Eu… Lavo a louça o verão todo depois da janta.
— Ok, vou avisar ele que tu vai enquanto tu vai e se troca.
— Tá brincando, já to pronto. — o encarei confusa. — É verão, eu fico o dia todo esperando me convidarem pra ir pra piscina.
Fomos para a garagem e cada um pegou sua bicicleta. A casa de Nick não era muito longe de bicicleta, mas era um bom caminho no sol, então escolhi uma rota que sabia que teria muito mais sombra. Apesar de eu e Cody zoarmos muito um com a cara um do outro, nossa relação ainda era muito boa, mas também era assim com meu irmão mais velho quando éramos pequenos e hoje em dia já não nos falávamos direito, ainda mais por ele estar tão longe. Às vezes o medo de que Cody se tornaria como Connor me deixava dominava. Já era a única mulher da casa, se fosse inimiga de meus dois irmãos seria pior ainda.
Chegamos na frente da casa de Nick e pude ver Keira vindo a pé da direção contrária a que nós havíamos vindo, ela acenava pra mim que retribuí com um sorriso e um aceno. Sabia que Nick já estaria na piscina quando chegássemos e que éramos para entrar pelo portão ao lado da casa que levava até o quintal, então assim fizemos. Abri o portão e dei espaço para os dois passarem. Keira parou logo que pisou no gramado, o que logo fez sentido para mim. Nick e Edith estavam juntos na piscina brincando com uma bola de praia.
— Por que ela tá aqui? — Keira falou baixo para mim enquanto nós duas observávamos os dois que agora nos recebiam com acenos e sorrisos.
— Não faço ideia, não sabia que ela viria.
Fazia tempo que não falava com Edith por conta de minha confissão que havia deixado o clima completamente estranho entre nós. De um lado tinha Edith, magoada comigo por eu não ter falado com ela naquela época e do outro, e do outro tinha eu, brava com ela por achar que eu a devia aquilo mesmo que nem eu mesma entendesse o que sentia. Suspirei alto caminhando em direção às mesas, deixando minha mochila em uma cadeira e tirando minha toalha de dentro da mesma. Nick apareceu molhado atrás de nós e Keira o empurrou não querendo se molhar.
— Veio pra piscina e não quer se molhar? — ele disse rindo e chacoalhando seu cabelo na direção dela para molhá-la.
— Dominic, eu vou te matar. — Keira disse séria fazendo Nick parar.
— Não me chama assim, tu sabe que eu não gosto. — ele falou também sério agora, a fazendo rir. — Vou te jogar na piscina.
— Eu não sei nadar, nem te atreve. — eu ria do que eles falavam enquanto tirava minha roupa, revelando meu maiô preto por baixo.
— O que eu to perdendo? — Edith apareceu ao nosso lado, fazendo com que o silêncio se instalasse por alguns segundos.
— Tava só enchendo o saco da Kia. — ele disse novamente chacoalhando seu cabelo.
— Kia como a marca de carros? — ela riu com Nick. — Gostei do apelido.
— Só eu posso usar, é exclusivamente meu. — Nick disse de forma ingênua mas causando pânico entre nós duas que nos encaramos com os olhos arregalados, Keira estava completamente corada.
— Ah. — Edith parecia desanimada.
Era doloroso ver Edith tentar interagir e se enturmar com nós duas enquanto nós resistíamos tão fortemente às suas investidas amigáveis demais. Por mais que eu não quisesse que tudo ficasse muito estranho entre nós, ainda parecia tudo muito forçado. Não era como se Nick tivesse perguntado a nós se Edith poderia entrar no nosso grupo de amigos, não era bem um consenso entre nós então era difícil aceitar. Não me importava que ele passasse tempo com ela — mesmo que soubesse que Keira se importava — mas não achava que ela se encaixava bem em nossa amizade atual. Tínhamos muito caminho pela frente enquanto Nick tentava pegar um atalho.
Passamos o dia todo na água e no final até que Cody não foi uma má adição à nossa reuniãozinha de início de férias de verão, já que ele não sabia de todo o rolo com os quatro. Mais para o final do dia, Nick e Edith estavam conversando muito mais entre si e eu conseguia perceber o desconforto de Keira com a situação, que estava apenas do meu lado quieta.
— O que aqueles dois têm? — Cody disse nadando para perto de nós duas.
— Acho que ele gosta dela. — Keira disse molhando seu cabelo para que ele saísse de seu rosto.
— Eles namoravam, né?
— Quando tinham nove anos… Acho que nem chegaram a dar selinho. — ri baixinho enquanto nós três encarávamos os dois sentados na borda do outro lado da piscina.
— E ela gosta dele também? — todos desviamos o olhar quando Nick olhou para nós.
— O que vocês tão fazendo? — ele falou do outro lado da piscina, se levantando.
Eu e Cody nos olhamos e começamos a rir enquanto Keira se virava pra escada para sair da piscina. Sabia que ela não estava gostando de nossa conversa e percebia que ela começava a ficar estressada com a situação, e não a culpava. Nick e Edith nos olhavam confusos por nossa reação.
Depois de mais um tempo aproveitando a piscina, decidi sair, ainda mais que o dia começava a ficar tarde. Me sentei com Keira, que agora lia um de seus livros de ficção. Mesmo que ela estivesse quieta e concentrada em seu livro, eu de vez em quando via seu olhar levantar para observar os dois que ainda conversavam animadamente na borda da piscina. Depois de Nick de repente abraçar Edith, Keira arregalou os olhos e fechou seu livro, mas logo se recompondo quando percebeu que eu a observava.
— Acho que tá na hora de ir pra casa, tá começando a escurecer e eu não gosto de pegar ônibus de noite. — ela disse recolhendo suas coisas e guardando em sua mochila.
— Já vai? — Nick abraçou de Keira de lado, que logo o afastou sem dizer nada.
— Acho que eu e Cody já vamos também. — eu disse me levantando também.
— Mas já? — Cody berrou da piscina.
— Como “já”? Tá doido? Já é quase oito da noite.
— Tá claro ainda. — ele sorriu e eu mostrei o dedo do meio pra ele.
— Acho que vou também. — Edith disse chegando na mesa.
— Certeza? — Nick perguntou e ela confirmou com a cabeça. — Vão todos me abandonar.
— Eu fico. — Cody disse se animando.
— Fica nada, nosso pai vai me matar se eu te deixasse sozinho em qualquer lugar. Vamos logo.
Em pouco tempo nós todos já estávamos prontos para ir embora. Nick não queríamos que fossemos ainda porque não gostava de ficar sozinho em casa, mas já estava muito tarde e todos precisávamos ir. Me despedi de Edith brevemente e de Keira com um abraço e um beijo em sua testa. Observei as duas enquanto caminhavam para longe, já em cima de minha bicicleta. Quando as duas viraram a esquina eu me virei para Nick e Cody que conversavam.
— Cody, me espera no final da rua, eu já vou. — ele confirmou e seguiu a pé segurando sua bicicleta.
— Que foi? — ele disse levantando uma sobrancelha.
— Tu não avisou que ia chamar a Edith.
— Eu acabei comentando com ela na escola que a gente ia se reunir na piscina e ela pediu pra aparecer.
— Mas podia ter avisado.
— Ué, por que? Qual o problema? Ela não é nossa amiga?
— Ela é tua amiga né. — dei ênfase no “tua”.
— E eu não posso chamar minha amiga pra minha casa? — ele disse levemente indignado.
— Tu é muito tapado. — eu disse negando com a cabeça e começando a pedalar para longe dele.
— Que? — ele disse falando alto e tentando ir atrás de mim.
— Tchau, até outro dia. — acenei para ele e desci a ladeira de sua rua, me afastando mais rapidamente e logo, o deixando para trás.
Me encontrei com Cody na esquina da rua e nós fomos juntos para casa pelo mesmo caminho que havíamos usado para chegar lá. Quando chegamos em casa nosso pai estava na cozinha fazendo o jantar. Não muito tempo depois, jantamos. Quando fui para meu quarto tomei um banho e logo capotei em minha cama. Queria apenas não pensar em nada.
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