Freedom
12 Quando se é pego de supetão
Notas iniciais
Scorpius Malfoy
Receber a visita de Catherine, Summer, Luke e Anthony, no encontro anual de meu pai com seus antigos amigos de escola, me ajudou a espairecer um pouco. Eu havia tentado entrar em contato com Amanda, mas ela respondera em um curto bilhete que precisava de um tempo, pois James havia lhe contado tudo o que tinha acontecido. Nem sequer na Inglaterra ela estava. Imagino que ela estava brava comigo, ou decepcionada, e isso estava me matando. A magoei, exatamente como não queria fazer. Se não fosse pela ideia estúpida da Rose em deixar tudo quieto, provavelmente as coisas não teriam chegado nesse ponto.
Eu estava mandando minha terceira carta — que provavelmente também viria sem resposta — quando Catherine se aproximou. Pude ouvir o barulho de seus saltos lentos ecoando pela biblioteca.
— Acho que nem tudo correu bem, no fim das contas. — ela deu um sorrisinho de lado, como uma forma de consolo, quando se posicionou ao meu lado. Assenti, enviando a coruja. — Dê um tempo pra ela. A Lore consegue ser… Bastante intensa quando quer. — Catherine arregalou os olhos e eu ri pelo nariz. Sim, Amanda era exatamente assim. Mais oitenta do que oito em 100% das ocasiões. E era isso que me preocupava. Não queria que ela me cortasse da sua vida. Mas não me admiraria se ela realmente fizesse isso.
— O que vocês andam conversando por aí? — Summer, a irmã mais velha de Catherine, veio em nossa direção. Ela sorriu para mim, divertida, e eu sorri de volta. Summer era dois anos mais velha do que nós e estava trabalhando como auror. Na época, seus cabelos eram longos e bem pretos. Pode-se dizer que ela talvez tenha sido a primeira paixão de muitos caras e talvez eu também fosse considerado culpado. Ela sempre esteve presente em minha casa, assim como Tony, Cat e Luke, mas por sermos de casas diferentes não tínhamos muito contato. Mas que garoto nunca teve uma paixão por uma menina mais velha bem resolvida?
Agora ela estava com um corte mais curto que o meu e seus cabelos eram roxos. E claro, a enorme cicatriz em sua bochecha também era algo novo e isso só a deixava mais badass ainda.
— Seu namoradinho está lá exibindo o álbum pessoal dele. — ela bateu no ombro da irmã, que revirou os olhos ao se afastar.
— Ele não é meu namorado. Não me enche, Summer. Por que você não vai falar você com o seu namoradinho. Olha só, falando no diabo.
Luke estava na porta, com as mãos no bolso. O mais velho dos Zabinis também um auror e tinha algumas cicatrizes, sendo que uma delas, a da sobrancelha, se deu quando ele, um Sonserino três anos mais velho, resolveu namorar Dominique Weasley. Os Weasleys não brincavam quando o assunto era família. Não pude deixar de sentir meu estômago embrulhar ao pensar o que Ronald Weasley faria comigo se soubesse do acontecimento no banheiro…
Bem, a questão principal era que Summer e Luke, apesar de não serem do mesmo ano, sempre foram muito unidos. Um dos fatores que me fez desencanar dela quando eu era mais jovem foi quando percebi que ela claramente gostava dele e que eu era somente um garotinho mais novo, filho do amigo do pai dela. Luke nunca correspondeu e, o que sei, é que brigaram por algo que Summer falou a respeito do relacionamento dele com Dominique. Desde então a presença dos dois nos encontros anuais já não era frequente e, quando acontecia, eles nunca ficavam muito tempo próximos um do outro.
Catherine não esperou Luke falar nada e saiu, trombando e propósito. Deixei uma risadinha escapar e Summer olhou cúmplice para mim, sorrindo levemente. Tentei lançar um olhar para ela que dissesse “Vai ficar tudo bem”, mas acho que ela não precisaria disso, pois emanava uma força muito poderosa. Apressei-me em acompanhar Catherine. Tentei sorrir minimamente para Luke, mas seus olhos estavam vidrados em Summer.
— Está acontecendo algo que não sei? — perguntei assim que consegui alcançar Catherine. Ela parou e se virou, suspirando.
— Luke é um babaca. Eu sei que ele foi traído pelo projeto de veela oxigenada da Weasley e tudo o mais, só que ele não tem o direito de reaparecer na vida da tonta da minha irmã como se nada tivesse acontecido. Ficar sem falar com ela por anos por conta de um alerta que de fato se concretizou é ridículo. Ainda mais agora que ela está bem, mora com a namorada e finalmente está sendo feliz. Até a merda de um feitiço ela levou na cara pra proteger aquele idiota em uma missão e ele sequer foi grato na época. E ela ainda que dar trela para falar com ele? — a verborragia dela me deixou atordoado. Franzi o cenho tentando processar o amontoado de informação que Catherine havia despejado. Ela gesticulava muito e estava ficando ligeiramente vermelha. Seus cabelos aparentemente recém cortados, pois na última festa ela não estava assim, estavam desgrenhados pelo fato dela ficar puxando-os enquanto falava, claramente estressada. E depois Amanda que era intensa. Segurei os ombros dela com firmeza. Seus olhos azuis voaram em minha direção, surtando.
— Respira. — pedi, inspirando o ar profundamente e soltando. Ela fez uma careta e bateu na minha mão.
— Eu estou respirando involuntariamente já, obrigada por tentar me ensinar o básico da sobrevivência humana. — como explicar Catherine Nott? Bem, não precisa explicar, pois ela faz questão de fazer isso sozinha. Doce como limão, suave como um coice.
— Aparentemente você esqueceu. — retruquei, mas ela somente bufou. — Ok, tá, desculpe. Mas sério agora. — me encostei na parede, tentando manter o tom de voz baixo. — Sua irmã tem aquela cicatriz por conta dele? Ele foi procurar ela ontem? E ela namora? — eu estava realmente chocado com tudo isso e curioso para saber mais detalhes, mas Catherine soltou uma risadinha e me cutucou.
— Pra que quer saber se ela está de fato namorando ou não? Ela e Cassandra estão super felizes. E pelo que sei, você também não deveria estar perguntando por aí… — ela se virou dando os ombros, indo em direção as escadas. Eu joguei a cabeça para trás, indignado, mas também a segui. Ótimo. Catherine era simplesmente a pessoa mais cruel para se contar algo, pois ela adorava tripudiar em cima das coisas. Para falar a verdade, Albus seria a pior a pessoa. Eu não estava tão fodido assim.
Passamos pelos filhos mais novos de Crabbe, que certamente estavam aprontando algo. Antes que eu pudesse abrir a boca, Catherine havia pegado os dois pelo colarinho de uma maneira um pouco passiva-agressiva, pois não estava fazendo isso de maneira rude. Ela se agachou para ficar na altura dos dois meninos. Aproximei-me com a carranca mais séria que eu poderia fazer, mas a cara de desespero deles estava ótima.
— Escutem aqui, seus pestinhas, se vocês pensam que eu esqueci o que fizeram comigo no ano passado vocês estão muito enganados. Tudo o que fizerem aqui hoje eu vou fazer tudo em dobro para vocês. E é melhor não ficarem zanzando por aí. Scorpius estava me contando agorinha que tem alguém andando pela mansão que não está muito contente hoje e adoraria um belo ensopado de… — antes que ela pudesse terminar de falar os dois já haviam saído correndo, aos berros.
— Catherine, tenho que admitir seu talento com crianças. — falei aos risos. Ela levantou-se, arrumando a saia, e sorria triunfante. — Acho que eles não vão mais deixar você com furúnculos de novo.
— Scorpius! — minha mãe surgiu, com um olhar apavorado. — O que aconteceu com Justus e Edward?
— Nada, senhora Malfoy. — Catherine sorriu, mas minha mãe estava desconfiada. — Apenas disse para eles não exagerarem demais no ensopado, para não passarem mal como eu no ano passado. — apesar de estar negando com a cabeça, minha mãe reprimia um sorriso. O fato é que todos os anos aqueles dois enchiam a paciência. Não eram parentes, mas poderiam ser.
— Venham logo, Tony está mostrando o álbum de vocês. — minha mãe pegou nossas mãos e nos puxos. Catherine deu um muxoxo, mas foi junto.
Meu pai olhava as fotos de maneira serena, ao passo que minha mãe praticamente voltou correndo para o sofá. Tony parecia extremamente satisfeito com a animação de minha mãe e garantiu que não havia passado a foto. Catherine lançou um olhar para mim, fazendo um sinal de vômito e eu soltei uma risada involuntária. Minha mãe me olhou feio, ajeitou-se no sofá e virou algumas páginas.
— Uau, que garota bonita é essa na foto? — não precisei nem olhar para saber a quem ela se referia. Catherine riu com gosto, sentando-se.
— Rose Weasley, nossa melhor amiga. Há quem diga que ela rouba corações.
— Quem diz isso? — Tony perguntou, sem entender. Revirei os olhos, mas me sentando ao lado de minha mãe. Era isso mesmo? Eu não teria mais paz? E ela sequer sabia que havia rolado algo, só suspeitava. — Rose é a maior encalhada da escola. Ganha até de você, Cathy. Se bem que… — ele não pôde terminar, pois Catherine desceu um pescotapa certeiro nele. Minha mãe e meu pai ficaram um pouco assustados, ao passo que os pais dela a repreenderam com o olhar e uma tossida que mais pareceu um grunhido. Não foi necessário muito mais do que isso para que ela se ajeitasse no sofá, desconfortavelmente. Suspirei. Não era tão simples ficar na companhia dos pais depois de ser livre o ano todo em Hogwarts.
Eu poderia me considerar muito sortudo por conta de minha criação. Sei que os Nott eram bem severos e não me surpreendi em ver a mudança radical de Summer logo que saiu de casa. Claro que já haviam boatos de que Summer fosse bissexual, mas ela nunca deu prova nenhuma para que pudessem importunar seus pais com o assunto. Sempre fora discreta. Até mesmo Catherine era discreta. Eu conhecia a personalidade das duas por ter convivido, em alguns momentos, entre amigos. Mas na frente dos nossos pais as coisas eram outras.
Tony parecia desconfortável e até mesmo culpado com a situação, então virou a página e falou alto:
— E esse é o filho de Harry Potter, senhoras e senhores, perdendo feio em um duelo contra Rose Weasley! — não pude deixar de sorrir ao observar Albus de cabelos verdes enquanto Rose e Catherine o seguravam, sorrindo pela vitória. Os olhos de Rose naquela foto estavam mais para o tom de azul do que verde e acabei me inclinando para tentar decifrar qual seria o tom usual de seus olhos. Eu me lembrava deles verdes. Não conhecia esse outro tom. Seus cabelos ruivos estavam mais curtos e cheios e suas sardas bem visíveis. Sardas que antes eu não havia notado. Como demorei tanto para de fato notar Rose Weasley? Me joguei para trás quase que de supetão, encostando as costas no sofá e me afundando um pouco. Tony continuava a mostrar as fotos mais recentes e os misteriosos olhos azuis-esverdeados pareciam impressos na minha retina. Bom, sempre fui curioso, de qualquer forma. Não significava nada. Nada.
…
Amanda não respondeu a nenhuma das três cartas que eu havia enviado no dia do jantar de meu pai e nem as outras três que eu havia mandado hoje, na véspera de ano novo. Suspirei, batendo os dedos na escrivaninha. Queria respeitar seu silêncio, mas a ansiedade estava me consumindo. Se ao menos eu soubesse onde ela estava… Não queria ser um amigo ruim e estava me matando ela considerar que eu fosse um.
Mas eu precisava dar tempo à ela. E eu sabia. Só estava difícil esperar. Ultimamente esperar não vinha sendo meu forte. Por algum motivo Lily havia me mandado uma mensagem, dizendo que precisava falar comigo na festa de ano novo. Quer pior coisa do que alguém informar que precisa conversar, mas não falar o porquê? Eu estava morrendo lentamente e a culpa era da minha ansiedade. Anos de exercício de controle estavam indo por água a baixo e minha mãe pareceu preocupada quando eu pedi a receita que meu último médico havia dado para quando eu precisasse relaxar.
— Estou esperando uma coisa. — respondi simplesmente, não querendo estender o assunto. Quando eu abria a caixinha nada me fazia parar e eu não precisava disso na noite de ano novo. Eu precisava parar de sentir ânsia de vômito e angústia a cada hora que passava sem ter um retorno da última pessoa que eu queria magoar no mundo.
— Se precisar conversar…
— Não preciso. — respondi já me arrependendo ao ver o olhar de minha mãe. — Desculpe. — emendei e ela apenas colocou a mão em meu braço, saindo para pegar o que eu havia pedido. Ótimo, Scorpius. Magoou mais uma pessoa. Ri irônico comigo mesmo. Não gostava quando eu começava a agir desse jeito, pois sempre acabava afetando quem não precisava e isso era uma merda.
Quando minha mãe voltou com o vidrinho do remédio eu voltei para meu quarto, engolindo um dos últimos comprimidos a seco. O gosto era levemente amargo. Ainda faltavam cinco intermináveis horas para a festa de ano novo e com certeza Albus não ligaria se eu me atrasasse um pouco. Talvez Lily, mas nossa conversa poderia esperar. Já estava me arrependendo de ter confirmado minha presença.
…
Rose Weasley
Um dos poucos prazeres que tive nos últimos dias foi assistir à Brooklyn 99 com Albus no sofá dos Potter naquela TV gigante que Tio Harry e Tia Gina haviam ganhado com uma rifa. Eu sentia falta dos seriados trouxas em Hogwarts, mas a tecnologia ainda não funcionava lá, o que era um porre. Por isso, eu e Al sempre aproveitávamos o recesso para nos atualizar um pouco de coisas que gostávamos e eu adorava séries de comédia. Meu espírito animal com certeza era uma mistura de Rosa Diáz com Amy Santiago.
Mas como tudo o que é bom dura pouco, Roxanne e Lily estavam mais insuportáveis que o normal, ouvindo uma música horrível alto enquanto se arrumavam para a festa. Revirei os olhos. Elas conseguiram tirar meu único conforto do dia.
— Bastou Dominique ser descoberta pra elas começarem o veneninho. — sibilei quando o episódio acabou e Albus deu de ombros, ainda se recuperando da onda de risos com o final.
— Elas são mais falsas que nota de três, se Roxanne for descoberta, Lily também vai abandonar dela. — ele fez uma careta, desligando a TV. — Minha irmã é tão ardilosa que me assusto. Não sei para onde aquela garotinha inocente foi. — não tive tempo de responder, para concordar totalmente com Al — afinal Lily era realmente uma vaca ardilosa -, pois uma coruja entrou pela sala, largando um pequeno bilhete antes de bater contra a pilastra.
Al ajeitou os óculos que usava quando assistia televisão — pois nosso avô jurava que assistir demais era prejudicial aos olhos, então nos enviou alguns óculos de descanso, que até eu usava, inclusive — e pegou a carta, revirando os olhos.
— Lysander sabe que podemos usar nosso celulares aqui, por que insiste em enviar essa coruja maluca? — questionou enquanto abria o envelope.
Me ajeitei no sofá, curiosa. Lysander não viria por conta de meu irmão, será? Óbvio que ele não falaria, mas dar uma desculpa esfarrapada qualquer por bilhete… Suspeito.
Al pigarreou, ficando um pouco sem graça. Ele me olhou e eu franzi o cenho. Al ficava esquisito quando tinha que me contar algo que sabia que poderia me chatear. Suspirei, sabendo o que provavelmente seria.
— Ele disse que não vai vir porque… Os pais querem comemorar adequadamente ele ter sido nomeado monitor-chefe…
Mesmo que eu não fosse monitora a quase um ano, Al ainda evitava falar no assunto comigo. Sequer havia sentido eu ficar chateada com a promoção de Lysander, pois realmente fazia muito tempo. É óbvio que ninguém gosta de perder o distintivo por uma denúncia descabida de abuso de uso de magia. A cara que meus pais fizeram quando souberam não foi nada agradável. Até hoje não sei de onde partiu a denúncia, só sei que pouco tempo depois que fui nomeada monitora, já não era mais. E é claro que não lidei bem. Isso havia manchado meu currículo, então ir para a Romênia por meio do Grêmio era uma das minhas melhores chances, pois entre eu e um Scorpius Malfoy, ninguém iria querer uma aluna com histórico de agressão e abuso de força, ou o que quer que tenha sido a maldita denúncia.
— Bom, acho que Hugo vai ficar triste. — comentei enquanto me levantava e arrumava meu vestido prata indo até a cozinha. Não era tão elegante e justo como o outro, mas não era de todo mal. Além do mais, eu não estava muito animada para festa e o esforço não era tão válido.
Al não foi capaz de responder, pois logo a campainha começou a tocar e, com um sorriso no rosto, ele acenou com a varinha e as luzes convencionais deram lugar a um ambiente em tom prateado e dourado, ao som de uma música infinitamente melhor do que a que Lily e Roxanne nos faziam ouvir há poucos instantes.
— É hora de Hogwarts ver como é que se dá uma festa ao estilo Potter.
...
Tentei relaxar e curtir. Afinal, poderia parecer clichê, mas ano novo requer uma vida nova. E eu estava precisando me livrar da Rose Weasley Ranzinza. Por isso não neguei um shot quando Cat chegou, maravilhosa em seu vestido vermelho, e nem outro, e outro e outro conforme mais conhecidos iam chegando.
— Hey, ruiva! — Fred chegou, pronto para dar um high five. Sem nem pensar duas vezes cumprimentei-o, oferecendo um copo. Ele riu e pegou de minha mão. Nem dez segundo depois eu sentia o álcool cortando minha garganta como fogo. Ele gritou em comemoração e eu, sem ter controle algum, gritei também.
— Quem é você e o que fez com Rose Weasley? — Cat perguntava aos risos. Joguei os braços para o alto, curtindo a música. Nós três dançávamos junto ao ritmo frenético da batida eletrônica. Eu estava entorpecida e com um puta calor. As luzes me deixavam ainda mais bêbada, se é que isso era possível. Quando nossa música oficial de festas, com direito a dancinha e tudo, começou a tocar eu olhei cúmplice para Cat, que sorriu. Fred nos encarava surpreso, mas divertido, e não tinha como não rir de seus passos de dança exagerados e suas expressões de animação. Eu podia entender porque Cat estava tão rendida e ao mesmo tempo tão em dúvida entre ele e Tony.
Ao final dança abracei-a, depositando um pequeno selinho em seus lábios, como costumávamos fazer quando o nível de álcool estava alto. Cathy jogou a cabeça para trás, rindo.
— Entendi o recado. Chega de álcool para a Weasley aqui.
— Estou precisando beijar. — confessei começando a olhar em volta. Obviamente eu não beijaria Cathy. Éramos melhores amigas e essa era uma linha que não tinha sentido cruzar porque as coisas sempre se complicam quando você ultrapassa os limites. Mas também não significava que eu não beijasse outras meninas. Soltei Cat, sem antes passar a mão em seus cabelos curtos. Só ela para surtar e mesmo assim acertar o corte perfeitamente.
Eu estava muito tentada a procurar Alice Longbottom, que fora, de longe, uma das pegações mais intensas que eu já havia tido com alguém, quando Charlie brotou na minha frente. Não pude deixar de soltar um muxoxo e ele claramente percebeu.
— Não era quem você estava esperando? — ele fez aquele gesto de mexer no cabelo que eu achava forçadíssimo. Joguei meu peso em uma das pernas e bebi meu firewhiskey calmamente. Como eu poderia lhe dar um fora de uma maneira que fosse… Educada? Afinal, não havia sido tão ruim. Em comparação com Malfoy… Bem, em comparação com o Malfoy nada. Eu não deveria estar comparando.
Senti um alívio quando vi Alice. Seus cabelos negros cacheados estavam estonteantes e seus brincos de argola refletiam as luzes do ambiente em meu rosto, mesmo estando a uma distância considerável. Ela usava uma saia cintura alta perigosamente apertada e tinha os ombros expostos, apesar das mangas cumpridas esconderem o restante de seus braços. Convidativa. Quando me viu sorriu e eu não pude evitar retribuir.
— Na verdade não. — respondi terminando meu copo e entregando a ele de um jeito meio agressivo. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa eu já estava de frente para Alice, que dançava distraidamente. Porra tudo o que eu estava precisando agora era ter um pouco que fosse de contato físico com alguém e esquecer esse ano medíocre.
— Hey, ruivosa. — ela me cumprimentou falando alto e pude sentir um pouco de seu hálito de menta. Sorri com a menção ao apelido que ela havia me dado.
A primeira vez que nós ficamos foi em um lugar totalmente impensado. Catherine estava implorando para que fôssemos em uma boate trouxa para assistir ao show de alguém que eu realmente não me lembrava. Depois de muita insistência fui.
Meu primeiro beijo com uma garota foi algo totalmente de momento. Tínhamos nos reunido comum grupo de trouxas e, ao som da música, fui me levando e só percebi o que estava acontecendo quando o choque dos lábios se juntaram. E naquela noite aproveitei. Beijei garotas, beijei garotos. E, para minha surpresa, lá estava Alice, totalmente diferente da aparência de Lufana certinha que ela apresentava em Hogwarts. E ela me contou depois que se surpreendeu comigo “tão leve”, em suas próprias palavras. Bom, foi exatamente nesse momento que aconteceu.
Não me preocupei em falar nada, meu olhar já entregava tudo. Eu só queria me perder por alguns minutos, que fossem. Da mesma forma que quis me perder alguns dias atrás. Eu estava procurando desesperadamente formas de me perder fazia tempos. Balancei a cabeça, pegando o copo de Alice e dando um gole. Ela me observava com um olhar curioso. Alice não era boba. Não trocávamos nada além do que “oi” quando tínhamos aula uma com a outra, o que era raro, pois ela era um ano mais nova. Por ser filha do professor Longbottom ela de dedicava bastante, então conseguia assistir uma aula ou outra com o ano seguinte. De qualquer forma ela sabia que eu não estava ali para ser amiga dela. E tudo bem.
Não precisei fazer nada, pois assim que terminei de beber seu copo ela me puxou pelo pescoço, juntando nosso lábios. Menta e… Chocolate, talvez. Mas álcool. Definitivamente muito álcool. Levei minha mão para seus cabelos e me perdi. Nos deixamos levar pela música enquanto beijávamos, o que deixava tudo mais louco e frenético. Eu queria me perder e estava conseguindo.
Mas como eu disse… Felicidade não dura muito.
Senti um empurrão forte e no outro minuto eu estava no chão sem entender absolutamente nada. Minha cabeça doía e quando levei a mão a testa senti algo quente. Sangue. Mas que porra.
Lily berrava caída perto de mim, com a mão no tornozelo. Minha cabeça girava e estava difícil focalizar. Lily se aproximou de mim, para que ninguém mais escutasse, sendo ardilosa como sempre foi.
— O que você falou para Dominique? Você que envenenou o Scorpius sobre essa situação? E o que falou sobre James? Você quer acabar com a minha família, sua desgraçada.
— Também é minha família. — falei tentando manter o foco, mas estava difícil. Catherine correu até mim, empurrando Lily, antes que eu pudesse terminar de falar tudo o que estava entalado na minha garganta.
— Você é louca? Ela está sangrando! — Cat sacou a varinha e senti o sangue parar de escorrer. — Vai precisar de um bom curativo. — ela me levantou com ajuda de Tony e se eu não estivesse tão mole voaria para cima de Lily. Fred tentava ajudar ela a se levantar, mas a encenação do tornozelo torcido estava boa demais. Meu sangue ferveu e me soltei em um momento de distração de Cat e Tony, mas Alice interveio, me segurando.
— Porra, Rose! — Catherine voltara a me segurar, dessa vez com mais força. Nem um segundo depois Tony estava fazendo o mesmo.
— Não vale a pena. — Alice sussurrou, me soltando. Grunhi com ódio e fui praticamente arrastada dali enquanto Lily dizia que tudo havia sido um acidente. Por Merlin, por que essa garota me odiava tanto?
— Me solte. — pedi entre dentes, com os olhos marejados de tanto nervoso que eu estava sentindo naquele momento. Cat negou. — Catherine, eu só quero beber. Me solta, porra. Foda-se essa merda. — eu praticamente implorava, mas eles me ignoraram até chegarmos na copa. Tony pegou o kit de primeiros socorros e começou a cuidar de meu machucado. Se ardia eu não podia saber, pois estava anestesiada pelo álcool. Cat segurou meus ombros e me olhou com seus olhos azuis enormes.
— Você quer fazer o que, Rose?
— Bebeeeer. — falei alongando a palavra. — Estou com o saco cheio dessa maluca. Ela quase cortou minha vibe. Mas ela não vai fazer isso. É ano novo. É minha vida. E a hora dela vai chegar. Me passa essa garrafa. — pedi estendendo a mão para uma garrafa de vodka. Cat sorriu cúmplice para Tony e girou a garrafa na mão, tomando um grande gole.
— Uh! — ela exclamou depois de fazer uma careta. Tony fez o mesmo e chacoalhou a cabeça.
— Caralho, essa desceu queimando. — ele me passou a garrafa tossindo. Peguei com gosto e garrafa e dei um belo de um gole. Foda-se Lily, James, Dominique, Luke, Amanda, Scorpius… Foda-se. Eu era Rose Weasley e estava cansada de me sentir como um lixo. Eu iria renascer naquela noite.
…
Scorpius Malfoy
Tinha perdido a noção de quantas horas fiquei no salão de jogos dos Potter jogando beer pong. Assim que pisei na festa Albus me arrastou para lá e, por conta de meu atraso, eu só poderia sair de lá quando ele estivesse satisfeito.
— Não se chega com duas horas de atraso na minha festa. Ia chegar quando? Ano que vem? — Albus estava cheio de fazer essas piadinhas sobre final de ano. Segundo ele, sua meta da noite era começar a beber faltando uns 10 segundos para a virada do ano e continuar na virada só para dizer que estava bebendo desde o ano passado. Ou beijar alguém. “O que vier primeiro”, ele dizia.
Não era exatamente uma boa ideia misturar remédios e álcool, então permaneci no suco e me permiti aproveitar os jogos de bêbado para me entreter. Nem sinal de James ou Dominique. E nem de Lily, que havia basicamente me intimado a conversar.
Quando uma lâmpada na sala foi quebrada, Al ficou sério. Sacou a varinha e de imediato a consertou.
— Estou tentando consertar tudo para não deixar pra depois e esquecer. Minha mãe jurou que se algo saísse do controle eu ficaria de castigo até completar 21. — ele engoliu em seco enquanto eu ria de alguém que acabara de vomitar no vaso. — Bem, ela disse que estender até os 24 não seria um problema.
— Ela sabe que todos esses adolescentes estão bêbados na casa dela? — questionei desviando de um balaço. Albus entrou em pânico.
— A coleção do papai! — e saiu correndo. Saquei minha varinha e recolhi o balaço, mas o estrago já tinha sido feito e a jukebox de estimação de Harry Potter estava destruída.
Bem, eu tenho vários quartos caso Albus um dia precise. A festa estava claramente saindo do controle.
— Preciso enxotar algumas pessoas daqui. — ele comentou, frustrado, ao selar com feitiço o escritório do pai.
— Albus, como você se esqueceu de proteger a casa com feitiços antes de dar uma festa? — questionei. Albus não era exatamente brilhante, mas isso era o mínimo. Al apenas resmungou.
— Rose disse para eu fazer isso, mas resolvemos assistir Brooklyn 99 e eu acabei deixando pra lá. — sorri com a menção a um de meus seriados favoritos. Talvez tivéssemos mais em comum do que eu havia pensado.
— Não sabia que assistiam.
— Tá brincando? De onde você acha que alguns dos meus brilhantes comentários vem? Inclusive, permita-me colocar um hino para tocar. — menos de um segundo depois que Al acenou com a varinha, I Want It That Way começou a tocar. Preciso dizer que começamos a performar a música com emoção?
Eu não poderia estar mais entusiasmado, pois uma rodinha havia se formado com a agitação de Albus e cada um entregava o melhor de si em cada solo. Eu simplesmente amava esse clima. Quando o meu momento chegou dei o meu melhor mesmo que fosse o único sóbrio dali, mas ninguém percebeu que eu estava normal demais.
De repente Lily surgiu, apoiando-se em Fred. Apesar disso, os dois estavam cantando também. Fui até ela para ajudá-la. Fred sorriu e se afastou, no mesmo momento Lily se agarrou firme em meus braços. Franzi o cenho para seu tornozelo aparentemente machucado.
— Tropecei no lixo. — ela respondeu alto, dando de ombros. Não tive tempo de responder, pois ela logo acrescentou. — Escute, tem algo que quero dizer. Aliás, que se dane. Vou fazer. — e sem mais nem menos grudou seus lábios no meu.
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