Freedom

17 Quando os sonhos traem as concepções


Notas iniciais
EEeeeeeaaaiiii CHEGAMOS EM 105 COMENTÁRIOS OMG EU TÔ MUITO FELIZ!!! Estava no meio do especial quando chegamos então não, não é ele agora. Mas até segunda sai hahaha Enquanto ele não chega, fiquem com esse capítulo. MAS ANTES: quero agradecer IMENSAMENTE a querida Wonder que deixou uma recomendação maravilhosa ♥ Somos parceiras de muito tempo (até chegamos a escrever uma Dramione juntas socorro, talvez um dia a gente volte), então fiquei muuuito feliz. Obrigada mesmo, querida ♥ Vamos logo ao capítulo que eu tenho algumas coisas para falar no final. APRECIEM!

Scorpius Malfoy

Rose Weasley não estava mais respondendo meus bilhetes. Bufei quando vi que ela ignorou e amassou o que era meu quinto bilhete da semana. Eu não estava entendendo exatamente o que estava acontecendo. Quero dizer, a reação dela foi um pouco exagerada na festa do Slughorn.

Eu estava conversando com Hugo a respeito de sua semi relação com Lysander, até que me distraí com Rose me olhando de um jeito estranho. Ela não parecia estar prestando atenção no que eu falava. Rose Weasley estava me dissecando, como um animal a ser estudado em uma aula. Foi assim que me senti quando seus olhos — na noite em questão absurdamente verdes, muito pelo reflexo do vestido — percorreram meu rosto, analisando cada micro expressão facial que eu fazia.

Depois ela parou de me olhar daquela forma, mas estava com os olhos desfocados para o chão. Ela estava pensando muito sério a respeito de alguma coisa. Sei disso porque notei que uma ruga se formava em sua testa. A mesma de quando ela lia algum enunciado complicado demais ou ouvia alguma pergunta capciosa. Rose Weasley estava pensando sobre algo realmente difícil. Piscava com uma frequência muito baixa, o que acabou me assustando, na realidade.

— O que ela está fazendo? — Hugo murmurou quando percebeu que minha atenção estava presa em sua irmã, que tomava o líquido de seu copo de uma maneira tranquila, mas assustadoramente calculada.

— Sonhando acordada. — comentei aos risos, notando que ela não estava escutando nada do que estávamos dizendo.

— Acho que ela seria capaz de aceitar qualquer coisa nessa hora. Já fiz ela me emprestar a vassoura sem perceber. Lógico que depois ela me azarou, mas valeu a pena. — ele deu de ombros e eu me encostei na mesa, observando melhor a garota que estava na minha frente. — Você deveria tentar. Chame ela pra dançar, aposto que ela toparia.

— Não toparia nada. — retorqui negando com a cabeça. — Ela provavelmente vai se ligar na hora e rebater que não quer.

— Eu acho que ela aceita. — Hugo deu de ombros, comendo um dos canapés que estavam próximos de nós. Torci o nariz. Era atum.

— Sem chance. Eu tenho certeza que ela não aceita.

— Scorpius, vocês já até se beijaram. Que mal tem uma dança? Ela vai aceitar. — olhei-o com espanto. Todo mundo sabia que tínhamos nos beijado?

— É justamente por isso. Ela deixou bem claro que somos amigos e, atualmente, rivais em uma competição. Ela provavelmente vai só me dar um fora. — lembrei dela falando sobre eu tê-la rejeitado quando o beijo começou a ficar mais… Intenso. Mas não foi exatamente isso. Eu não sei o que foi, na verdade, mas não foi uma rejeição. Definitivamente. Eu tinha certeza que, na primeira oportunidade, Rose me rejeitaria de propósito, para dar o troco daquela noite. Certeza absoluta.

— Aposto cinco galeões que ela aceita. — acrescentou e eu revirei os olhos. Era um pouco idiota apostar por aquilo, mas tinha um fundo de diversão.

— Eu não vou conseguir, então pode ir passando o dinheiro.

— Pergunte primeiro. — ele indicou Rose com a cabeça, que ainda parecia perdida em pensamentos.

— Fechado. Estava querendo comprar uns doces. — sorri de canto. Aproximei-me lentamente, não querendo despertá-la de seus devaneios. Pigarrei e soltei: — Quer dançar comigo? — inquiri, mas sua atenção ainda estava perdida em algum pensamento. Cocei a garganta. — Rose? — falar em alto e bom som seu nome me deu uma sensação diferente. Não era como se eu nunca a tivesse chamado assim, mas não era comum. Ela aparentemente também se surpreendeu. Não resisti e sorri com a cena. Ela não estava entendendo nada. — Te perguntei se você gostaria de dançar.

Rose não respondeu de imediato então supus que ela estivesse pensando em um fora épico. Os minutos que ela ficou em silêncio foram incrivelmente torturantes, porque me senti mais ansioso do que achei que me sentiria. Era óbvio que ela iria negar, mas e se ela não negasse? Mas é óbvio que ela negaria… Não tinha porque ficar ansioso por uma resposta que eu já sabia que viria.

— Não perdi a língua, Malfoy. — meu sorriso vacilou. Seu rosto estava torcido em desgosto, mas logo se aliviou. Viria a bomba, o fora do século. Eu sabia. Mas por que me sentia estranhamente mal com isso? Ter participado dessa aposta havia sido um erro. — Mas eu aceito.

Eu fiquei sem reação. Meu coração deu um salto, provavelmente devido ao susto da resposta totalmente inesperada. Tipo… Que?

Seus olhos pareciam ansiosos, mas suas feições estavam calmas. Rose parecia estar muito no controle das emoções.

— Eu… — tentei articular algumas palavras e procurei o olhar, vitorioso, de Hugo. — Você não estava ouvindo? — me virei para Rose já que o olhar de Hugo não me deu nenhuma resposta. Ela me encarava com atenção. — Era uma brincadeira sobre… — sua expressão foi de surpresa legítima e eu me calei. Ela realmente estava aceitando? Ela não tinha ouvido nada? Ela queria dançar comigo? Não iria se aproveitar da chance para me rejeitar? — Mas se você quiser dançar… — acrescentei rapidamente atropelando as palavras, antes que eu pudesse sequer pensar no que eu estava dizendo. Eu estava disposto a dançar, mas não sabia se ela aceitaria de fato depois disso. Antes eu tivesse ficado calado e apenas puxasse sua mão para a dança. Por que sou tão estúpido?

— Esquece. — ela me cortou sem verdadeiramente me olhar. Parecia ver além de mim, evitando qualquer contato visual fixo. Eu já vi aquela expressão antes no rosto dela, alguns graus mais bêbada, mas muito semelhante. Ela estava achando que eu estava rejeitando-a. Suspirei, preparando um discurso, mas ela saiu de perto de nós dois.

— Scorpius, você tem a sutileza de um cavalo. — Hugo olhava de uma maneira negativa para mim, mas eu não liguei porque eu realmente não tinha sido nada sutil. Estava incomodado e não entendia muito bem o porque.

Ok. Parando para analisar novamente não foi uma reação tão exagerada.

Ainda sobre aquela noite, Rose se sentou a algumas cadeiras de distância, socializando com pessoas que ela nunca socializava no Clube. Não me dirigiu o olhar em nenhum momento exceto quando o professor nos parabenizou a respeito do excelente trabalho, porém seu olhar estava sem emoção alguma.

Nos três dias que se sucederam à festa eu tentei, incansavelmente, enviar bilhetes.

“Al acaba de perder 10 pontos por ter perdido o livro de História da Magia. Só não perde a cabeça porque está grudada, francamente, como vocês dois são primos se ele é tão desligado?”. Arrisquei um semi elogio à sua inteligência, mas Rose, que estava sentada bem à minha frente apenas se virou, indicando com a cabeça o pergaminho em que fazia anotações. Não tinha raiva em seu olhar, mas também não tinha nada a mais.

“Parabéns pela sua redação hoje. Foi muito bem colocada”. Me referi ao seu trabalho lido em sala durante a aula de Estudo dos Trouxas. Era um ensaio sobre Emma, de Jane Austen, e ela havia feito uma excelente crítica misturando a adaptação dessa obra com o filme Clueless que foi ao estilo Rose Weasley: repleta de ironias, mas de muita sinceridade com um ponto de vista único.

Entretanto, novamente, Rose apenas indicou outra atividade que estava fazendo no momento, justificando que não poderia responder.

“Até a McGonagall achou ridícula a proposta do Lysander”. Talvez instigar algum comentário ácido sobre Lysander, que estava claramente agregando muito pouco às discussões a respeito da criação de algumas aulas extracurriculares — para ele era tudo perda de tempo, mas os alunos clamavam por outras alternativas há muito tempo -, fizesse com que ela me respondesse finalmente.

Ao menos me rendeu uma pequena risadinha, seguida de um revirar de olhos quando Lysander passou. Não consegui não sorrir um pouquinho. Tinha conseguido uma pequena vitória.

E foi por essa pequena vitória que no terceiro dia eu resolvi arriscar. Fiz algo que surpreendeu a mim mesmo, mas quando vi as palavras já estavam escritas:

“Vai ter o lançamento do livro do seu tio Charlie em Hogsmeade essa semana. Quer ir?”

Aquilo estava ridículo. Iria parecer que eu estava convidando ela para um encontro — o que não era o objetivo. Eu gostava de dragões e ela também. Achei que seria uma boa oportunidade. Mas era ridículo, pois se era o tio dela que estaria lançando o livro é óbvio que ela já iria. Talvez desse para deixar o convite mais… Natural. “Quer ir e tirar algumas dúvidas sobre o meu futuro cargo na Romênia?”. Complementei. Ok, não era um comentário totalmente legal. Eu não fazia ideia do que estava fazendo, isso era ridículo. Qual era meu problema? Respirei fundo, amassando o papel e querendo jogá-lo no lixo, logo atrás da carteira de Rose, mas ele bateu na cesta e voltou, rolando até adivinhem onde.

Tentei de todas as formas sinalizar que não era para ela ler, no entanto quando foi pegar sua mochila ela viu o papel. Me olhou de uma forma estranha, porque eu nunca amasso os bilhetes em uma bolinha de papel. Dobro perfeitamente e o encanto para enviar. Quando leu algo tomou conta de seu rosto. Eu sabia que aquele era um assunto delicado e que não estávamos em um pé muito bom de amizade. Ela apenas me olhou sem emoção e amassou novamente o papel.

Mas não o jogou fora no lixo como jurei que ela fosse fazer.

E foi isso que me levou a escrever o último bilhete que mencionei no começo, que ela fez questão de amassar. “Rose você está brava comigo ainda? Me desculpe”. Era um pouco covarde da minha parte não ter ido falar com ela, mas eu não tinha certeza se ela queria falar comigo. E ela evaporava depois de cada aula ou reunião. Em minhas rondas recentes não a vi nem pela Biblioteca. Estava difícil sequer vê-la, quanto mais conversar cara a cara.

Vendo ela amassando meu bilhete, nada me preparou para o que veio na sequência.

— Professor, me desculpe, mas eu e Malfoy temos um assunto muito urgente do Grêmio para resolver. — Rose anunciou para o professor Longbottom, que parou de anotar as propriedades do Guelricho no quadro negro. Fiquei estático com a atitude repentina, assim como o professor. Rose tinha simplesmente levantando da carteira e anunciado. Estava em sua pose típica: queixo levemente erguido, olhos atentos e lábios apertando-se em uma linha fina. Al nos olhava de uma maneira estranha, assim como Amanda.

— Senhorita Weasley, faltam somente quinze minutos para a aula acabar. — o professor conferiu o relógio de pulso. — Vocês não poderiam aguardar?

— É muito importante. Não pediria se não fosse. — ela garantiu e o professor assentiu, encarando.

— Bem, se é assim, podem ir. Levem o material, acredito que não voltarão à tempo. — Rose assentiu, agradecendo o professor e começando a juntar suas coisas, porém eu não consegui me mover. Amanda, que estava ao meu lado, chutou minha perna ao mesmo tempo que Al, que estava em minha frente. Gemi de dor, olhando para os dois de maneira atônita. Se eles tivessem combinado não teria dado tão certo. Os dois se entreolharam, mas não falaram nada. Me apressei em guardar tudo, sentindo que a morte talvez estivesse um pouco mais perto de mim naquele momento.

Rose Weasley deveria estar de saco cheio e acabaria com minha raça. Eu tinha certeza. Arfei, nervoso, enquanto me despedia do professor Longbottom e caminhava até o corredor, imaginando qual feitiço Rose usaria para me torturar. Só podia ser por isso que meu coração parecia mais uma escola de samba.

Não a vi em um primeiro momento, então ao buscá-la com o olhar ao redor do corredor, me assustei ao perceber que ela estava encostada na parede, do meu lado direito, muito próxima de mim. Seus olhos pareciam pegar fogo, mas ela somente fez um sinal com a cabeça. Eu a segui, mesmo sem tem certeza do que estava fazendo porque eu certamente morreria.

Estávamos indo em direção aos jardins. Ou melhor. Ao lago negro. Engoli em seco mais vezes naquele percurso do que eu havia feito em minha vida. Ok, talvez fosse um exagero. Na verdade era. Eu não sabia o que iria acontecer. Meu coração palpitava, mas ao mesmo tempo estava curioso.

Ela jogou a mochila perto de uma árvore, se posicionando de uma maneira que quem estivesse saindo do castelo não pudesse ver o que acontecia ali. Eu sabia disso pois sempre precisava esticar o pescoço e conferir se algum casal estava fazendo mais do que deveria por ali, já que era um ponto bem comum para essas coisas devido a largura do tronco da árvore. Quando percebi estava encarando os lábios de Rose, que ainda estavam retraídos em uma linha fina, dando aquele ar de desgosto que ela sempre tinha quando a via de longe.

O barulho do lago era a única coisa que eu ouvia além das vozes e risadas distintas de alguns alunos em horário livre. Ainda não estava quente para ficar por ali, então seria o local perfeito para a Weasley me jogar no lago gelado e me ver sofrer. Não talvez uma morte, mas certamente eu pararia na enfermaria depois disso.

Rose se aproximou agressivamente, parando a poucos centímetros de mim. Segurei a alça da minha mochila com mais força, pois estava com dificuldades de respirar. Eu conseguia notar suas sardas discretas e perceber sua pupila se dilatando, refletindo minha cara de panaca. Era assim que eu me sentia. Um panacão.

— Você quer saber se eu estou brava, Malfoy? Eu estou. E não, não é pela festa do Slug. Foi um pouco, no começo. Mas foi o que eu precisava para perceber que você e eu andávamos próximos demais e isso estava começando a me afetar. Mas já que você quer tanto falar comigo, vá em frente. — ela cruzou os braços, irritada.

Rose Weasley estava tomada por um sentimento que não era muito comum ver nela. No geral Rose era ranzinza e ácida, não irritada ou nervosa. E aquilo estava me deixando esquisito. Eu não sabia lidar com ela brava, mas sabia responder suas ironias. Por que ela estava agindo assim?

— Eu não deveria ter feito a brincadeira sobre a dança. — comecei, suspirando. Ela não fez objeção alguma, como pensei. Apenas me ouviu, me olhando como se eu devesse continuar. — Isso pode ser considerado um pedido de desculpas. Desculpe. — pedi, mas novamente ela não respondeu. Respirei fundo. — Vou bilhete por bilhete.

— Vá em frente. Me lembro de todos. — soltou simplesmente. Senti sua respiração na altura do meu pescoço e engoli em seco. Estávamos frente a frente.

— Sobre Al sendo desligado… Bem, não preciso discorrer sobre isso, mas você é definitivamente a prima inteligente.

— Me diga algo que não sei. — resmungou, mas vislumbrei um sorriso de leve e eu respirei um pouco mais aliviado. Ela estava sendo um pouco mais irônica novamente.

— Não à toa falei sobre a redação. Não assisti Clueless, então não sei dizer, mas você fez um filme sobre uma patricinha de Beverly Hills parecer muito interessante. Isso não é novidade para você. Digo, a inteligência.

— É um clássico, Malfoy, em termos de filmes adolescentes de romance. Você deveria saber apreciar. — ela cruzou os braços, me encarando de uma forma que me deixava confuso. Eu não sabia o que ela estava pensando ou sequer querendo com aquela conversa. Eu só sabia que estava estranhamente feliz por estarmos conversando. Seu tom de voz era agradável aos meus ouvidos e eu gostava de como ela entonava as palavras quando estava sendo irônica ou debochada e até mesmo incisiva a respeito de algum assunto.

— Sobre Lysander. — soltei a alça da mochila, um pouco mais relaxado, e listei o terceiro item, indicando na minha mão. — Sinceramente, a cara que McGonagall fez para o comentário dele foi impagável. — ela apenas se limitou a sorrir de canto, aguardando o que eu diria em seguida.

Era exatamente o que eu estava receoso em abordar. A tentativa frustrada de fazer as pazes por meio de uma sugestão que não seria um encontro, mas estava parecendo um. A verdade é que eu estava me sentindo idiota. E não queria me sentir assim. Não sabia o porquê de estar ansioso com o que estava prestes a se desenrolar.

— E bem… Você acabou pegando um papel que pertencia ao lixo, Rose. — sorri amarelo e ela me olhou com ceticismo. — Não quis dizer que a vaga era a minha. Sei que isso foi rude e você tem todo o direito de ficar brava e-

— Não fiquei brava por isso. — ela garantiu, franzindo o cenho. — Por que começou a me chamar de Rose novamente? — inquiriu e eu fiquei genuinamente surpreso. Não esperava essa pergunta.

— Eu… Não sei. — eu realmente não sabia. Mas seu nome soava bem. Rose. Era muito mais único do que chamá-la de Weasley, considerando que existem pelo menos outros quatro com o mesmo sobrenome e outros três pertencentes à mesma família na escola no momento. Rose era a única com esse nome no sétimo ano, mas o mesmo não poderia ser dito dos primeiros anos.

Teve um boom esquisito quando estávamos mais ou menos no terceiro ano de pessoas com os mesmos nomes que os primos Weasley-Potter. Aparentemente muitos pais quiseram homenagear de alguma forma os grandes heróis da guerra colocando os nomes deles mesmos ou de seus descendentes.

Havia pelo menos três James e quatro Rose’s, sem contar algumas Lily’s. Albus não era um nome tão popular, mas algumas variações como Alfred e Aliphio eram presentes. Harry’s, Hermione’s e Rony’s também existiam. Quando percebemos o padrão, foi inevitável não dar risada. Era engraçado perceber o quão a família Potter-Weasley era realmente conhecida e amada.

Como é de se imaginar, eu era o único Scorpius.

— Você quer ir ao lançamento do livro do meu tio, então. — ela cruzou os braços, me analisando. — Acho que vai ser bom pra você. Ter uma pequena amostra do que um dia será o meu cargo. — ela sorriu de canto e eu ri pelo nariz.

— Por que você ficou brava? — perguntei depois de algum tempo, analisando seus olhos. Ela não me olhava diretamente, parecia entretida com uma lagarta que subia o tronco da árvore. Seu rosto estava virado e eu conseguia observar seu perfil de perto, tirando minha dúvida a respeito de Rose ter ou não uma cicatriz bem próxima da orelha.

Às vezes, quando eu me flagrava olhando em sua direção nas aulas, eu percebia um traço fino, mas não tinha certeza se era a luz ou algum fio de cabelo solto. Agora percebia a linha fina de mais ou menos três centímetros. Passaria imperceptível por qualquer pessoa.

Seu pescoço tinha uma marca de nascença, um pouco abaixo do maxilar, que geralmente ficava escondida por conta da gola do uniforme. Hoje, como ela estava sem gravata e com os primeiros botões abertos, pude observar melhor. Ri ao notar que parecia muito um peixe gorducho — ou até mesmo o contorno da Romênia, se fosse pensar mais a respeito. Era uma verdadeira ironia. Parecia até destino.

— Achei um absurdo você estar mandando bilhetinhos sem nem ao menos ter a coragem de vir falar pessoalmente. — ela entregou por fim, voltando a me encarar. Desviei o olhar de seu pescoço para seus olhos. Ela cruzou os braços, séria novamente. — Sinceramente, Malfoy, para alguém da Grifinória você é bem medroso.

Soltei um riso nervoso. Seu olhar me fazia queimar, então precisei desviar e fitar o chão por alguns instantes.

— Você é difícil de encontrar. — observei, pensando se deveria ou não chamá-la de Rose. Ela estava me chamando de Malfoy, afinal.

— Quem quer dá um jeito, Scorpius. — virei-me rapidamente e pude jurar que ela tinha dado um sorriso divertido — ou até mesmo debochado -, mas ela me olhava de maneira tranquila agora.

— Bem, minha tática de certa forma funcionou. Você está falando comigo. — sorri abertamente e ela revirou os olhos, descruzando os braços.

— Devo estar louca por te incluir no meu círculo de amizades. Ou o que quer que isso seja… — acrescentou me olhando com certa dúvida e eu assenti. Era estranho pensar que de fato éramos amigos agora… Parecia… Estranho.

Ela olhou ao redor e deu um passo para trás e me dei conta do quanto realmente estávamos perto um do outro. Uma pequena rajada de vento balançou seus cabelos e senti o cheiro floral novamente. Não conseguia reconhecer qual flor era, mas certamente não eram rosas.

Rose se sentou um pouco afastada da árvore, em um ponto que tinha um bom feixe de sol. Apesar de não estar quente, o dia estava agradável. O que incomodava era a brisa gelada. Mas ela não parecia se importar.

Apoiou os braços para trás e jogou a cabeça, recebendo o pouco calor que o sol emanava naquela tarde. O reflexo em seus cílios e cabelos era hipnotizante, pois seus fios ficavam em um tom de cobre tão brilhante que poderia facilmente ser confundido com alguns aspectos dourados em algum lugar o outro.

Primeiro reparei nos seus olhos, com as pupilas pequenas e as orbes mais azuis do que eu já tinha visto em qualquer outro dia. Eu gostava dos olhos dela, que um dia puxavam mais para o azul e em outros para o verde. Talvez fossem um verde-azulado ou um azul-esverdeado. Mas eu sabia que eram únicos, pois eu não tinha visto nada parecido.

Suas bochechas levemente coradas foi a segunda coisa que notei, juntamente com seu nariz levemente arrebitado com a ponta também avermelhada. Me perguntei se ela não estava com um pouco de frio.

Um suspiro escapou de seus lábios e a memória da festa do Tony me veio na hora. Agora eles estavam pousados de uma forma natural, sem estarem tensos ou reprimidos demais. O tom rosado deles era natural, aparentemente. Pareciam um pouco ressecados, diferente do que eu me recordava. Quando os senti eram macios, incrivelmente macios.

Percebi que ela engoliu em seco e meus olhos foram para seu pescoço, o alvo de meus olhares há poucos minutos atrás. Seus cabelos batiam mais ou menos naquela altura e lhe caíam verdadeiramente bem.

Ela tinha uma correntinha prata. Fiquei curioso para ver qual era o pingente e desci os olhos, procurando. Engoli em seco pela milésima vez naquela semana e reparei em seus seios. A memória da bebida caindo em seu colo e escorrendo foi como um baque e senti um frio na barriga. Hoje, sóbrio, e sem todas as luzes de festa, pude reparar de uma maneira melhor. Não eram fartos, mas tinham um formato estranhamento convidativos. Será que caberiam totalmente na minha mão?

— Scorpius! — a voz de Fred me assustou verdadeiramente. Engasguei ao tentar respondê-lo e percebi que minha boca estava seca. Lambi os lábios, tentando molhá-los, e pigarreei.

— O-oi. — eu estava constrangido. Estava olhando para Rose Weasley e pensando sobre ela de formas que não havia pensado antes… Por Merlin, o que eu estava fazendo?

Tentei não encarar Fred diretamente nos olhos enquanto eu não me recompunha. Tinha medo de que meu olhar entregasse meus pensamentos.

— Al me disse que você tinha saído com a Rose pra resolver algo do Grêmio, mas passando por ali eu vi você parado aqui com uma puta cara de idiota. — ele se aproximou rindo até que teve uma visão de Rose, que certamente estava escondida do ponto de vista dele. Não demorou pra um sorriso enorme estampar sua cara. — Oh, Rose, você está aqui também. — ele cruzou os braços sorrindo. Arrisquei olhar para ela, mas me arrependi quando notei que ela me encarava. Fiquei subitamente nervoso. Rose iria me matar.

Ela não disse nada, mas havia faísca em seus olhos.

— Já resolvemos o que precisávamos. — ela falou depois de um tempo, levantando-se. — Espero que não caia comigo no duelo na sexta. Vai ser uma pena estragar seu rostinho na véspera de Hogsmeade. — Rose riu, se afastando. Franzi o cenho. Aquilo significava que ela iria comigo no lançamento do livro? Ou que só me veria por lá? E ela me achava… Bonito?

Não evitei sorrir enquanto ela se afastava e Fred apenas me encarava rindo.

— Você é muito ligeiro, cara.

— Ligeiro? — fiz uma careta. Fred estava com mania de ver coisas onde não tinham. Eu posso ter ficado… Um pouco perdido observando Rose, e me arrependia profundamente que ele tivesse percebido, porque me renderia umas duas semanas de zoação. — Nem começa, Fred.

— Vou ter muito tempo pra tirar uma com sua cara, Scorpius. Pode ficar tranquilo.

Naquela noite eu sonhei com Rose Weasley e de uma forma que eu nunca tinha sonhado antes.

Tudo começou normalmente, conosco na Biblioteca, estudando. Mas tinha algo de diferente no ar. Estava quente. E isso era justificável pelo suor evidente em seu rosto e a cor avermelhada em suas bochechas. Vez ou outra respirava pesadamente, atraindo meus olhares. Eu não conseguia de parar de olhá-la, mesmo que tentasse. E ela percebeu, sorrindo de maneira travessa.

No segundo seguinte estávamos em seu quarto. Eu nunca tinha visto o dormitório feminino da Sonserina, mas as cores verde e prata denunciavam. Ela estava em cima de mim e me olhava de maneira profunda, como se estivesse corroendo minha alma aos poucos

Pelas coisas que eu estava sentindo, parecia realmente que eu estava sendo consumido.

Sua mão percorria meu peito e eu respirava pesadamente, sem conseguir desviar os olhos. Eu tentava tocá-la, segurar sua cintura ou mexer em seus cabelos, mas estava inerte. Só conseguia olhá-la.

Percebi que estava suando também.

Ela sorriu e se aproximou, os lábios rosados entre abertos. Senti sua respiração em minha orelha, arrepiando-me.

— Eu vi como me olhou. — sussurrou e eu engoli em seco.

Seus lábios roçaram no lóbulo da minha orelha, percorrendo um caminho entre meu maxilar e minhas bochechas até ficarem a milímetros dos meus lábios. O cheiro de menta que saía de seu hálito misturava-se com o odor floral de seu perfume.

A única coisa que consegui foi entre abrir meus lábios, preparado para recebê-la.

— Levanta ou vai perder o café da manhã. — uma almofada na minha cara e a voz grogue de Fred me despertou.

Levantei assustado, ainda desnorteado pelo o que eu acabara de sonhar. Não tinha sido nada demais, afinal sequer nos beijamos e nada realmente rolou.

Mas eu não conseguia parar de pensar nela em cima de mim.

Rose Weasley

Eu não era de perdoar fácil. E não tinha desculpado pra valer a raiva que Scorpius Malfoy me fizera passar. Ele fez eu me sentir uma idiota, então era justo eu fazer com que ele se sentisse assim também. Para minha surpresa não precisei fazer nada, pois ele já estava se fazendo de idiota.

Estava engraçado vê-lo nervoso, como se eu fosse machucá-lo ou coisa do tipo. E até um pouco adorável. Mas isso não tinha importância alguma. Eu tinha que parar de me importar com essas coisas. Mas não sem antes provocá-lo um pouco.

Cheguei um pouco mais cedo à Hogsmeade, deixando Catherine e Tony nos Três Vassouras, discutindo sobre algo delicado a respeito dos irmãos deles. Senti que precisava intervir, pois Tony estava sendo um pouco injusto com Summer — sendo que era óbvio que Luke estava errado na história -, mas Cat negou. Queria resolver isso com ele sozinha. Então eu dei o espaço que eles precisavam.

Pelo que ela me contara, ou eles discutiam ou estavam se beijando. E apesar de estarem fazendo essa última coisa com mais frequência, Catherine me confidenciou que não estava preparada para transar com ele.

Não que ela nunca tivesse feito isso, mas algo me dizia que ela não queria cruzar essa linha por Tony. Acho que ela não estava pronta pra correr o risco de se apaixonar. Vira e mexe ela e Fred estavam saindo também e apesar de meu primo estar super de boa com tudo e beijando outras bocas por aí, Tony parecia incomodado demais. O que fez com que ele e Cat discutissem com mais frequência. E estava verdadeiramente impossível aguentá-los.

Estava distraída, escolhendo alguns doces da Dedos de Mel quando Tony entrou, abrindo a porta com tudo. Estava visivelmente alterado. Arqueei uma sobrancelha quando ele me viu, questionando silenciosamente o que havia acontecido. Sinceramente, esses dois juntos era a fórmula perfeita pra dar merda.

— Fred chegou se metendo no assunto. Como ele sabe das tretas envolvendo meu irmão e a Summer? Catherine não precisa ficar espalhando por aí.

— Ela não está espalhando por aí. Contou pra quem ela está ficando uma boa parte do tempo.

— Ela não fica grudada com ele o tempo todo pra precisar contar cada detalhe. — ralhou jogando uma bala na boca. O atendente o olhou feio, mas o moreno ignorou.

— E nem com você, mas contou.

— Luke é meu irmão. E a situação é totalmente diferente.

— Diferente por que você está apaixonado? — indaguei rindo pelo nariz e Anthony paralisou, cerrando o maxilar.

— Não estou apaixonado. Somos amigos.

— Você sabe que ela é uma criatura livre. — apontei uma varinha de alcaçuz em sua direção, mas ele afastou-a com a mão, irritado.

— Você anda falando muita besteira, Rose. Preferia quando você não se metia nos meus assuntos.

Estreitei os olhos em direção a ele. Pensei em todas as frases de peso que poderia falar pra deixá-lo mal, porque era o que eu mais queria naquele momento. Mas senti que não valia a pena. Estava ficando farta de todos os dramas e de tentar ajudar e ainda sair como a chata. Eu realmente deveria voltar a calar minha boca.

Não me dei ao trabalho de falar nada e simplesmente me virei em direção ao caixa, não sem antes pegar duas caixas de tortinhas de abóbora.

Saí com rapidez da loja, ignorando o chamado de Tony. Apressei o passo e optei por cortar caminho pelo beco atrás dos Três Vassouras, até que esbarrei com tudo em James, derrubando alguns de meus doces.

— Porra, James. Você não olha por onde anda? — ralhei, me abaixando para pegá-los.

James não abaixou e nem disse nada. Me irritei com sua falta de educação, porque sinceramente meu dia não estava sendo dos melhores e ele não precisava ser um babaca, e ergui o rosto para encará-lo de forma agressiva. Meu sangue gelou e minha mão voou para minha varinha.

Não era James.

Parecia com James em tudo, até as roupas, mas seu olhar entregava. James nunca me olhou daquela forma.

— Bom dia, Rose. — falou casualmente e seu tom de voz me arrepiou até o último fio.

— Deixa de frescura, Rose. — o mesmo tom que ele usou enquanto tentava beijar meu pescoço, segurando meus braços. — Eu sei que você quer.

Balancei a cabeça com a lembrança. Estava vívida demais. Me fez querer vomitar.

— Rose, qual é. — a voz de Anthony se fez presente, com ele se aproximando de maneira cansada. — Não precisa ficar bravinha com o que eu disse. — ele pareceu notar James, mas não percebeu que não era James.— E aí, Potter.

— Como vai. — acenou.

Eu engolia em seco, incapaz de me mover. Ele sorriu, abaixando-se para me ajudar. Dei um grito, sem conseguir controlar. Tony deu um salto e o falso James me olhou atônito.

— Rose, por que você… — Tony não precisou terminar a frase, pois o cara em minha frente começava a se afastar e a compreensão iluminou o rosto do meu amigo. — Volte aqui! — urrou sacando a varinha e correndo atrás dele.

Minha respiração estava descompassada com a cena. Tony lançara um feitiço, acertando uma lata de lixo. Mas o segundo foi certeiro e o cachecol do falso James começou a pegar fogo. Ele o tirou com rapidez, jogando-o em direção a Tony, o que o atrapalhou.

Quando chegou no ponto em que era possível aparatar, meu assediador desapareceu. Anthony bufou, enquanto tentava apagar o fogo do cachecol com o pé. Quando conseguiu ele pegou a peça de roupa chamuscada, analisando-a.

— Filho da puta. — falou um pouco alto.

Arfei, com dificuldades para respirar. Eu olhava atônita para os doces, revivendo suas palavras em minha mente.

Eu sei que você quer.

Não, não, não.

Não queria lembrar.

Não podia lembrar.

Um zunido alto estava apitando em meu ouvido, então eu não era capaz de distinguir nada ao meu redor.

Minha visão periférica indicou que Tony vinha apressado em minha direção, mas quando tentou me tocar eu me afastei. Tentei focalizar seu rosto para compreender o que ele falava, mas não conseguia. Meu peito doía e respirar era atividade difícil.

Não podia lembrar.

Não queria lembrar.

Não iria lembrar.

Notas finais
Muitos sentimentos nesse capítulo então vamos com calma. SCORPIUS AINDA ME MATA COM ESSAS DESCRIÇÕES. Não sei vocês, mas se isso não é paixão, não sei oq é rs Rose está lidando com o orgulho, então temos que dar uma colher de chá. E ainda sobre ela, esse final foi um pouco difícil de escrever. É um tema delicado, então caso alguém se sinta incomodado, por favor, me avise. Muitas vezes não é fácil ler sobre, então estou tentando não deixar nada muito gráfico a ponto de dar gatilho a alguém. No mais, a fic vai entrar em um ritmo um pouco diferenciado agora. Os intervalos das postagens serão um pouco maiores, pois estou com algumas atividades para fazer (e alguns projetos de fic também), mas vou tentar fazer os capítulos em tamanhos que compensem os intervalos. Não vai ser nada muito grande, mas como vim atualizando com uma frequência alta, achei importante indicar. Quero saber de vocês: o que vocês esperam de Scorose? Cat e Tony? Albus? Teorias sobre quem se passa por James? Querem ver alguma outra subtrama se desenvolvendo ou sendo explicada de maneira melhor? Ajudem uma escritora que está um pouco ocupada e quer saber dos leitores algumas coisas, plissss. Novamente, OBRIGADA pelos mais de 100 comentários e pelas recomendações! Vocês me incentivam muito ♥ Beijos e até o especial!