Freedom
20 Quando a mente e o coração estão confusos
Notas iniciais
Rose Weasley
Estar de volta era estranho, mas Cat, Albus, Scorpius e Tony — que apareceu um pouco mais tarde com uma sacola de doces da Dedos de Mel para mim à pedido de Cat — não me deixaram sozinha naquele sábado. Como o castelo estava praticamente vazio, Scorpius sugeriu que fôssemos para a Sala Comunal dos Monitores. Uma nostalgia e um amargor tomaram conta de mim ao lembrar de quando eu tinha acesso liberado àquela sala. Ter que devolver meu distintivo à Minerva por uma acusação que eu não tinha como me defender, mas que não fazia ideia de onde havia surgido, tinha sido a coisa mais difícil que eu já havia feito.
Mas isso era antes. Antes de todo o pesadelo envolvendo o assédio voltar à tona. Algo que eu tinha feito questão de enterrar no submundo da minha memória e que tive que revisitar inúmeras vezes, fosse ao ver a versão falsa de James na minha frente, ao dar minhas memórias para Minerva e o Conselho analisarem em busca de pistas, ao contar tudo para meus pais e também nas sessões com a Dra. Giasantti. Haviam sido somente duas — e em alguns dias durante as próximas semanas ela viria até o castelo para que fizéssemos mais algumas — mas eu já havia percebido que não seriam fáceis, até porque ela estava desenterrando muita coisa extra.
Só que agora toda e qualquer lembrança ruim que eu tivesse não chegavam perto do inferno que eu estava vivendo. No entanto, mais do que trauma e medo, o que eu sentia era raiva. Raiva por quem quer se fosse ter feito com que eu me sentisse violada, como se eu não fosse ninguém. Como se eu fosse apenas um objeto. E me irritava profundamente a ousadia dele continuar solto por aí e ter perturbado Dominique e até mesmo a Lore.
A ideia das pulseiras havia sido ótima e, por mais que eu quisesse a posse do Mapa por minha conta, fazia mais sentido Scorpius tê-lo em mãos.
— Eu não vou sair do seu lado, Rose. — Cat garantiu, sorrindo para mim. Agradeci com um sorriso, mas nós não tínhamos todas as aulas juntas. E eu queria ter o Mapa em mãos para caçar aquele e qualquer outro desgraçado que estivesse perambulando por onde não deve no Castelo atrás de garotas sozinhas. Não tinha medo dele me encontrar. Queria que ele me encontrasse. Pois dessa vez eu não paralisaria. Eu lutaria.
— Também vou ficar. — Al acrescentou, ao passo que Scorpius também assentiu com a cabeça, indicando que também ficaria. Revirei os olhos, rindo.
— Olha, já tenho uma babá, não preciso de outras duas.
— Assim você nos ofende. — Tony fingiu indignação, colocando a mão no peito de um jeito dramático. Meus amigos estavam todos loucos, isso sim.
— Eu estou bem. Nada de agirem estranho comigo. E você. — eu olhei incisivamente para Scorpius, que estava me olhando com cara de tapado desde que me viu. Ele pareceu se surpreender com meu olhar, mas não hesitei. — Não fique me olhando com cara de dó.
— Não é dó. — ele se defendeu, ajeitando-se na poltrona à minha frente. — Fiquei preocupado.
Não tive nem tempo de tentar processar o que ele havia falado, pois Albus adicionou:
— Claro que ficou! Todos ficamos
— Albus você é tão inconveniente. — agradeci internamente que Catherine tenha dito aquilo. Não evitei sorrir quando vi que o loiro também sorria da situação, com Albus indignado, sem entender nada. Não havia muito para entender, mas eu gostava de sentir que ele se importava.
— Mas sério, Rose. Você não deveria ter ficado mais tempo fora? — foi Al quem perguntou, com os olhos verdes evidentemente aflitos. Respirei fundo, me ajeitando.
— Eu vou fazer acompanhamento psicológico, o que já é suficiente. Foi só um choque aquele dia. E bem, é o ano dos NIEMs e com o Grêmio… — dei um longo suspiro. — Já é um ano corrido demais pra ficar perdendo tempo.
— Podemos te ajudar com o conteúdo perdido. — a sugestão de Scorpius me pegou um pouco de surpresa, ainda mais porque nós éramos concorrentes diretos e ficar me passando matéria só o atrasaria.
— Tem todo nosso apoio, Rose.
— Albus, suas anotações são horríveis. Você só manda bem em Herbologia e seu conhecimento é totalmente empírico. Prefiro estudar sozinha a tentar entender seu garrancho, vai ser muito mais rápido.
— A velha Rose Weasley está de volta, senhoras e senhores. — o comentário de Tony arrancou algumas risadas, menos de Al que assumira uma carranca que evidentemente não durou muito, pois ele sabia que era uma negação na maioria das matérias. — Se a Rose quiser saber sobre Herbologia é óbvio que ela vai recorrer à Catherine. Ela é brilhante. — o comentário de Tony não passou despercebido por mim. Sorri abertamente ao notar que Catherine ficou levemente constrangida.
— Você elogiando a Cathy? Que milagre! Meu Merlin, o mundo tá do avesso.
— Você longe de encrenca com lufanas? Que milagre!
— Cale a boca, Zabini.
— Vai Al, admite que você só não foi pra Hogsmead porque tava enrolado com metade do sexto ano e do quinto ano. — Scorpius entrou na provocação, deixando Al ainda mais irritado.
— O que acontece com as do sétimo ano, Al? Elas se acham maduras demais pra você?
— Rose, como você é má. — Catherine me repreendeu, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que ela não estava falando sério. — Não é questão de maturidade, é de inteligência mesmo. Qualquer garota com QI aceitável não sai com o Albus.
— Ha, ha, ha, vocês são super engraçadinhos, nossa. — ele bateu palmas ironicamente enquanto ríamos da cara dele.
— Albus, qualquer um sabe que dá merda se envolver com várias amigas ao mesmo tempo, ainda mais sendo mais novas.
— Tentando consertar a insinuação um pouco equivocada do Tony, que não está tão errada assim, você provavelmente é a primeira paixão de muitas delas, então brincar com isso é muito perigoso. — Caty apontou e eu assenti.
— Não estou com nenhuma delas no momento estou? — se defendeu, irritado. — Parem de cuidar da minha vida.
— Depois não venha pedir conselhos. — alertei, mas ele somente bufou.
Al tinha um problema em ser confrontado e nós tirávamos proveito disso, pois geralmente era engraçado, mas isso o levava a cometer erros muitas vezes. No fundo eu sabia que esse comportamento estava se dando pelo fato dele ter corrido atrás da Lore, sem sucesso, por anos e por nunca ter tido alguma chance de verdade com as garotas. Mas isso não tornava a situação menos perigosa.
— Bem, a questão que verdadeiramente importa aqui é falar sobre o falso James.
Eles me explicaram sobre) como a situação estava correndo. O cachecol queimado ainda estava na posse de Minerva e ela não havia falado nada sobre o plano de fazer uma armadilha pública.
— Mas é óbvio que devemos fazer isso. — falei atônita, me indignando que eles sequer cogitassem que eu não aceitaria.
— Eu sei, Rose, mas você entende que ele pode…
— Sim, Scorpius, eu sei. — olhei profundamente em seus olhos. Ele não desviou em momento algum. — Mas não quero ficar fugindo a vida toda ou esperando alguém fazer alguma coisa.
— Bom, eu apoio o que a Rose decidir. — Tony ergueu a mão, olhando para o restante. Al não hesitou, mas Scorpius e Cat ainda me olhavam com dúvidas.
— Rose, a preocupação do Scorpius é provavelmente a minha também. A forma como ficou… E se acontecer de novo. E se acontecer pior…
— Estaremos preparados, não é? — ergui meu braço com a recém pulseira vermelha colocada. — E eu sei me defender. Fui pega no susto, porque não estava esperando, mas agora estou preparada.
— Rose, a situação nunca é a mesma que imaginamos quando ela acontece.
— Você acha que eu não sei, Malfoy? — me irritei, subindo uma oitava. Scorpius passou a mão nos cabelos, engolindo em seco, mas sem desviar o olhar. Eu queria poder ler o que ele estava pensando.
Eu sabia que ele estava basicamente dizendo que eu deveria ficar protegida, mas sempre tinha a sensação de que ele escondia mais do que realmente falava. Talvez eu quisesse ouvir alguma coisa em particular. Talvez eu quisesse que ele tivesse mais confiança em mim, ao invés de ficar tentando me proteger a todo custo.
— Mas não sou a única que tá à mercê desse cara. E sinceramente, me incomoda você não supor que eu saiba me defender ou que eu precise de proteção constante. Não precisa bancar o salvador da pátria comigo, pra cumprir seu papel como monitorzinho.
— Você não está entendendo…
— Quem não está entendendo é você. — me levantei, sentindo meu sangue começar a ferver. — Você não entende que eu quero pegá-lo, que eu preciso pegá-lo? E que ficar me escondendo, me protegendo, só me deixa mais transtornada? Eu não preciso me esconder dele. Ele é que precisa sumir do mapa logo e pagar por tudo que fez. Eu mereço viver livremente e não com o medo constante de um babaca idiota. Eu não sou fraca. Eu não vou ser fraca.
Esperei que ele falasse alguma coisa. Estava exaltada, com a respiração entrecortada e as bochechas quentes de raiva. Eu queria gritar. Queria socar alguma coisa. Queria dizer muito mais. Queria dizer que o mundo está todo errado e que é horrível sentir o que estou sentindo agora. Sem pistas, com memórias relapsas sobre momentos duvidosos que envolveram mais do que tentativas de beijos e passadas de mãos em locais que só de lembrar me dão calafrio e medo. Um medo que corria minha espinha. Por ser alguém desconhecido. Por ser alguém que está tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe.
Mas Scorpius não falou nada. Ninguém ali falou. Senti o nó na minha garganta se intensificar. Ainda não tinha acabado.
— Ninguém aqui sabe. E ninguém aqui vai saber como me sinto. Não preciso que me olhem com pena ou como alguém que precisa de cuidados constantes. Não suporto isso. E não suporto que duvidem de mim.
Saí da sala sem me despedir, mas fiquei aliviada ao notar que Catherine havia vindo comigo também, apesar de todo meu discurso para eles, eu sabia que ela era a pessoa mais próxima de realmente me compreender. Ela havia visto minhas memórias também. Ela entendeu que as coisas eram mais profundas do que pareciam. Catherine estava ao meu lado, mas respeitava minha força.
Por algum motivo eu sentia que ela diferente da preocupação de Malfoy. Para mim, mais parecia como se ele estivesse querendo cumprir um dever. E que, para isso, eu deveria me afastar e deixá-lo resolver tudo. Não parecia… Genuinamente pessoal. E aquilo me irritava mais do que eu gostaria.
Catherine me analisava enquanto voltávamos para as Masmorras, mas não falava nada. Mesmo quando já estávamos no quarto, ela continuou da mesma forma. Eu a conhecia. Sabia que ela estava respeitando meu espaço, mas que claramente não concordava.
Assim que terminei de desfazer minha pequena mala da semana que fiquei fora, eu a larguei na mesinha, irritada.
— Vai, Catherine. Pode me julgar. Anda.
— Rose, Scorpius tem razão em estar preocupado.
— Catherine, pelo amor de Merlin, ele só está tentando resolver a situação agora que sabe que a amiguinha dele está envolvida. Ele duvida da minha capacidade pra me concentrar em resolver isso. Justo eu, a mais interessada no assunto!
— Rose, para pra pensar. — ela se aproximou de mim, colocando as mãos nos meus ombros. Seus olhos azuis, que já eram grandes, estavam maiores ainda, querendo expressar a seriedade do assunto. — Você não percebeu que ele não tá preocupado só em pegar o James, mas sim preocupado com a sua segurança?
— É o dever dele, Cat.
— Puta que pariu, Rose, você se faz de burra quando quer.
Me ofendi de verdade com o que ela disse. Isso não fazia sentido algum!
— Catherine, mas que merda!
— Vocês são amigos. É óbvio que ele tá preocupado com você de verdade. Não é que ele não confia no seu potencial. Ele não quer que você se machuque e não há mal nisso.
— Até parece.
— Rose, ele passou a semana toda completamente esquisito, fazendo planos mirabolantes. Quando soube que você estava na enfermaria veio correndo, mesmo que aquilo tenha custado a ele uns pontinhos com a avaliadora do Ministério da Romênia. — ela arqueoou as sobrancelhas e eu pisquei, estática. Ele havia feito o quê?
— Você está brincando. — não era bem uma afirmação, era meio que uma pergunta, carregada de incredulidade.
— Fred me contou. — ela largou meus ombros para cruzar os braços. — E sinceramente, o que te fez questionar tudo isso nele? Por Merlin!
— Eu… — não queria dar o braço a torcer. — Não tem nenhum motivo específico.
Era uma mentira deslavada. Eu havia passado a semana inteira pensando no assunto Malfoy nos momentos em que estava melhor. Tudo porque, das vezes que eu ficava sozinha, sem a presença de meus pais, meus avós ou minha tia Fleur e minha prima Victoire para me distraírem dos pensamentos negativos — até mesmo longe da Dra. Giasantti — que fora a responsável por me fazer pensar mais no idiota do Malfoy ao me inquirir sobre ele quando eu o citei como uma incógnita — meus pensamentos recorriam aos meus amigos. E ele estava no meio.
Mas não me sentia como quando pensava em Anthony ou Albus. Tentei me convencer de que era porque era uma relação nova. E também por já ter trocado um beijo. Odiava sentir falta de ler os bilhetes. Me repreendia por rir ao lembrar dele me olhando próximo ao lago negro. E me detestava mais ainda por ter ficado decepcionada quando ele brincou a respeito de me tirar para dançar ou quando encerrou nosso beijo bêbado.
Eu sentia que estava em um terreno perigoso. Mais que isso. Era como um verdadeiro penhasco. Malfoy até poderia estar sendo gentil comigo, mas pra mim não passava daquilo, mesmo que os sinais gritassem que não era só aquilo. Era só minha mente tentando me convencer de que ele estava sentindo a mesma coisa que eu. Eu tinha certeza. E por isso não queria pensar na possibilidade dele ter se preocupado verdadeiramente comigo. Não queria alimentar esse sentimento novo, que ainda não era muita coisa, mas já era alguma coisa, pois estava me tirando o sono.
Não queria bancar a idiota só por um puro deslumbramento baseado em meus sentimentos desequilibrados. Era somente isso: sentimentos desequilibrados. E uma hora iria passar. Mas se eu ficasse lembrando das gentilezas dele, não iria passar nunca! Scorpius já havia dado indícios o suficiente de que não estava disposto. Não quis continuar me beijando, não quis dançar comigo. Então pra que fantasiar?
Não gostava desse sentimento novo. Parecia muito irreal. E se eu o externalizasse para Catherine, corria o risco de se tornar real e não teria mais volta.
— Acho que tenho que desconfiar de todos os caras, agora. — complementei, me virando para não encará-la. Não era inteiramente mentira.
— Eu… Ah, me desculpe, Rose. — seu tom parecia verdadeiro. — Não estou tentando te cobrar de nada, eu sei que não deve ter sido fácil. Só… Acho que você não deveria canalizar sua raiva em quem não merece.
— Me inquirir sobre isso parece um jeito bem equivocado de não me cobrar nada. — soltei, irritada. Ouvi minha amiga suspirar, mas ela não disse mais nada sobre o assunto.
— Pelo visto você está precisando ficar sozinha. Fred ficou de me trazer uns livros de Herbologia de Hogsmeade. — não tive como responder, pois no segundo seguinte ela já estava fora do quarto.
Na manhã seguinte me senti um alien com todos me olhando de um jeito esquisito. Apesar de não ser popular, o fato de eu ter ficado fora só aumentou o falatório sobre eu ter sido a vítima do abusador misterioso. Excelente, era tudo o que eu precisava.
— Oi, Rose. — a voz de Dominique soou assim que me sentei à mesa, próxima de Albus. — Fico feliz que esteja de volta. E… — ela se aproximou, sentando de frente para Albus, que quase engasgou com a torrada. — Estou com vocês. — ela indicou discretamente a pulseira.
— Que bom. — não sabia ao certo o que dizer. Bem, eu não odiava Dominique e acreditava que ela também não odiava, mas exceto as poucas vezes que conversamos, não éramos próximas. Isso até ela começar a se corresponder com a irmã para saber mais do meu estado de saúde. Até uma cópia de uma atividade em dupla para a aula de História de Magia ela me enviou, dizendo que faria comigo. — Obrigada. — acrescentei, me lembrando de que, por mais que a situação fosse atípica, ela se mostrara uma companhia surpreendente.
— Eu estava para responder a carta da minha irmã ontem, mas você apareceu. — ela sorriu minimamente, pegando uma torrada também. Albus parecia que ia ter uma síncope. — Bem, a única coisa que eu tinha a dizer para você é que o Scorpius fez um pedido engraçado. Pra eu colocar na carta, no caso.
— O que ele pediu? — Al parecia mais curioso que eu.
— Que eu dissesse que você estava devendo uma ida à Hogsmeade. — ela fez aspas com a mão ao falar ida e eu franzi o cenho.
— Por que as aspas?
— Porque foi óbvio que ele queria dizer encontro. Ai sabe, o Scorpius é um bobo. E não sou a única que acha isso.
— O que você quer dizer?
— Albus, você é meio lerdinho. — ela negou com a cabeça, rindo. — Bom, se você quiser pode perguntar ao Fred, Rose. Bom, eu disse pro Scorpius que passaria o recado por cartas, mas já que você está aqui…
— Dominique, você quer é saber alguma coisa. — Al deduziu tardiamente. Revirei os olhos, enchendo meu copo.
— Que mal tem nisso? Até parece que você também não está curioso.
— Curioso com o quê?
— Por Morgana, Albus! — Dominique balançou a cabeça. — Não dá pra conversar com você. Sinceramente, como consegue arrastar um caminhão de garotas atrás de você com esse cérebro de ervilha?
— Ei! — ele se levantou, irritado. — Tá fazendo o que ainda, Dominique? Não tem nada mais interessante na mesa da Grifinória?
— Ai, que chatinho. Eu só estava brincando. Bom, de qualquer forma, até mais, Rose. — ela deu um sorriso e eu acenei com a cabeça, sorrindo minimamente também. Al ainda estava de pé, encarando a prima, furioso.
— Anda, senta logo, Albus.
— Eu tô cansado disso. De todo mundo duvidando que as garotas possam realmente se interessar por mim. E pior, ficarem me chamando de burro toda hora. Vocês são meus amigos e falam isso pra me zoar, mas a Dominique nem fala direito comigo. Que merda. — ele se virou para mim, alterado. — Por acaso é isso que todo mundo fala por aí? Como ela sabe dessas coisas?
— Não pergunte pra mim, eu fiquei fora uma semana. — falei sem emoção, enquanto observava minha prima se juntar a Roxanne e Fred. Mas eu não iria falar com ele. Seria ridículo. Seria alimentar minhas fantasias. Claramente o que Malfoy falou foi puramente para me provocar, já que dei o bolo nele naquele dia — por motivos de força maior, claro.
— Já tá se envolvendo em problema, Al? — Catherine caçoou, se sentando ao meu lado. Tony se juntou a nós em sequência e notei que as roupas dos dois estavam um pouco amarrotadas. Encarei Catherine com uma sobrancelha erguida, mas ela me ignorou, conventrando-se em passar geléia de abóbora na torrada lentamente.
— Perdi a fome. — Al resmungou, jogando o guardanapo no prato e saindo apressadamente.
— O que foi que eu falei?
— Nada. — respondi observando meu primo sair do salão trombando em alunos do terceiro ano. — Dominique veio aqui e disse o que aparentemente todo mundo tá falando dele.
— Que ele é burro? — Tony comentou rindo, mas parou quando eu não ri. — Nossa, é sério? Não achei que estivessem falando disso por aí.
— Pelo visto, estão.
— Acho que Al se magooa muito fácil. — o moreno rebateu, mas Catherine revirou os olhos. Ótimo, ia começar mais uma discussão.
— Como se você fosse gostar que pessoas que não são suas amigas falassem essas coisas por aí.
— Catherine, olha pra gente. Somos Zabini e Nott, somos da Sonserina. As pessoas já possuem um puta preconceito contra a gente. Eles vivem falando da gente. Ficar se doendo por isso é ridículo.
— Acontece, Zabini, que Al não é como a gente.
— Grande coisa. Só por ter sobrenome Potter ele é melhor que a gente? Você realmente está insinuando isso, Nott?
— Não falei nada disso. — ela bateu a faca na mesa com força. — Mas se você é um ser humano com o emocional de uma colher de chá, não posso fazer nada.
— Ah. — Tony elevou a voz, rindo. Passei a mão na testa, desejando não estar no meio dos dois naquele momento. Ou em qualquer momento, sinceramente. — Então eu sou insensível.
— Se a carapuça serve.
— Sabe, Nott. Eu sabia que você era muitas coisas, mas não hipócrita.
— Que merda você tá falando?
— Se vocês forem discutir, vão fazer isso em outro lugar. — resmunguei, mas eles me ignoraram completamente.
— Ah, Catherine, sinceramente. Já que eu sou uma pessoa tão horrível, por que você ainda está transando comigo?
Os olhos de Catherine pareciam que iam saltar das orbes. Anthony não se importou em diminuir o tom de voz, o que fez um número considerável de pessoas. Meu olhar voou para cima dela. Ela não havia me falado nada sobre estar transando com ele. Desde quando isso tinha acontecido? Até eu ir embora, eles só estavam nos beijos.
— Não precisa nem me responder. Aliás, não sei porque o espanto, já que você mesma acabou de dizer o quão raso emocionalmente eu sou. Se você é um poço de sensibilidade, deveria ir ver como o Albus estar. Mas eu sei que você é tão rasa quanto eu. Porque se você realmente fosse tão melhor que eu, perceberia a merda que está fazendo comigo com esse joguinho todo que envolve o filho da puta do Weasley que, sinceramente, por mais que a gente bata cartão na enfermaria toda semana, também não merece isso.
— Cale a boca, Zabini. — Fred falou a uma distância considerável, com a varinha em mãos. Tony começou a gargalhar assim que percebeu o que ele queria fazer.
— Tem razão. Eu me enganei. Vocês dois se merecem.
— Fred. — a voz de Scorpius soou alta e firme. Olhei imediatamente em sua direção, mas ele tinha os olhares fixos no amigo. — Não faça nenhuma besteira. Nem você, Tony.
— O desequilibrado que acerta o inimigo pelas costas não sou eu. — ele defendeu-se, ao passo que Fred ameaçou voar para cima dele, sendo impedido por Scorpius, que o segurou. Tony também fez menção de ir para cima, mas Catherine o segurou pela mão. Aquele gesto não surpreendeu só a mim, como também a Tony, que a olhou sem entender.
A expressão de minha amiga era séria. Ela se levantou, encarando-o com intensidade.
— Eu não vou me dar nem ao trabalho de responder você. Não vou colaborar com esse circo. — ela olhou de Tony para Fred. Parecia chateada, mas era orgulhosa demais para demonstrar. Não pensei duas vezes em segui-la quando fez menção de sair praticamente correndo do Salão.
— Catherine. — chamei um pouco alto quando já estávamos afastadas. Ela se virou e notei que as lágrimas tomavam conta de seus olhos. Quando a alcancei, abracei-a imediatamente.
— Eu não acredito que estou chorando por isso.
— Eu não acredito que vocês está chorando pelo Tony.
— Argh, não me lembra disso, pelo amor de Merlin.
— Vamos pra..
— Qualquer lugar longe do Salão Comunal da Sonserina ou da Grifinória.
— Torre de Astronomia?
— Claro. — ela limpou as lágrimas, sorrindo.
Vi Catherine chorar pouquíssimas vezes na vida, assim como ela também me viu chorar raramente. Mas além desse ser um hábito que não costumamos praticarmos e ser curiosamente algo em comum, também tínhamos outra coisa em comum: só chorávamos na frente uma da outra.
— Eu sei o que você está pensando. — ela falou depois de um tempo, já sem chorar muito, mas ainda fungando. — Sobre o Tony.
— Eu estou é pensando como isso foi acontecer.
— Muita coisa aconteceu. — seu tom parecia quase misterioso. — Desde que você ficou fora eu… Fiquei muito abalada. E me afastei um pouco do Fred, porque sei lá… Tony sempre foi meu melhor amigo, sabe. E bem… Eu recebi uma carta do meu pai comentando que jantou com um amigo que pode me arranjar um cargo no Ministério quando eu sair de Hogwarts.
— Ai, não me diga que é o que estou pensando que é.
— Cuidar de papelada, Rose. Resolver casos de transgressões no tribunal. — ela gemeu de desgosto. Coloquei a mão em seu ombro, tentando consolá-la.
— E os livros que Fred trouxe pra você?
— Bem, eu acho que se eu conseguir me aprofundar mais no assunto, talvez seja possível… Que o professor Longbottom me queira como auxiliar ao final do sétimo ano.
— Cathy… Você sabe que seu pai vai…
— Me deserdar? — ela riu pelo nariz. — Bom, eu sei. Mas de qualquer forma vai ser somente uma tentativa. Fred me procurou na sexta e… Bem, me convidou para ir à Hogsmeade, mas eu sabia que teria que receber você. Foi uma forma de não dispensá-lo totalmente depois de ignorá-lo a semana inteira.
— E por isso você ficou mais perto do Tony…
— Sim. Mas foi idiotice. — ela se levantou, encostando-se em uma pilastra. Conseguia perceber claramente toda a confusão que ela estava sentindo. — Ele conhece meu pai, então conversar com ele sobre é… Fácil. Ele tem a mesma pressão por parte dos pais também. E com você fora… Albus estava mais quieto que o normal, então passamos muito mais tempo juntos. E… Rolou.
Ela mordeu os lábios, cruzando os braços. Suspirei pesadamente. Não tinha o que fazer: Catherine e Tony haviam cruzado todos os limites possíveis dentro da amizade. E, conhecendo os dois como eu conhecia, as coisas não ficariam mais fáceis.
— Mas isso não é o pior.
Meu Merlin… O que poderia ser pior do que estar transando com o Tony e destruindo com o restinho de amizade que havia sobrado?
— Conta tudo logo. — implorei, ficando agoniada com o olhar sofrido ela.
— Estava rolando com o Fred também. Só parou porque eu comecei a transar com o Tony e comecei a me sentir culpada. Fugi do Fred a semana inteira.
— Catherine…
— Eu fiquei tão confusa que… Procurei a Mary.
— A Mary Abott? — eu estava definitivamente chocada. — Catherine, essa garota ficou fissurada por você quando começaram a ficar juntas! Que merda você estava pensando?!
— Não rolou nada demais. — ela se calou por um minuto, me olhando com incerteza. — Rose eu senti muito a sua falta. Na verdade eu e ela só conversamos e foi um alívio poder contar tudo que eu tava sentindo pra alguém.
— Catherine, eu fico uma semana ausente e você consegue complicar sua vida amorosa em níveis estratosféricos. A Abott claramente não quer só conversar.
— Rose, você julga demais as pessoas. — reclamou revirando os olhos, mas eu sei o inferno na terra que foi ter que aguentar a Abott mandando bilhetinhos com as letras de girl in red pra Cat.
— Ela mesma fez um escândalo quando soube que você não era lésbica e sim bi. Não sei se você lembra, mas ela deu um show de bifobia.
— Ela parece ter amadurecido. — começou a roer as unhas, entregando que talvez não tivesse tanta certeza assim. — De qualquer forma, ela me ajudou a entender que eu posso só ficar amiga deles. Coisa que o idiota do Zabini tá dificultando. Ainda mais quando lembro… — ela se calou, suspirando. Gemi fracamente, de nojo, sabendo do que ela estava se lembrando.
— Catherine, você precisa esquecer os dois, ou vai acabar se enroscando nessa história mais ainda.
— Rose eles são tão diferentes um do outro. — Catherine se sentou ao meu lado novamente, com os olhos brilhantes. — Se você pudesse chutar como eles são na cama, o que falaria?
— Catherine, que nojo! Você tá falando do meu primo e do meu melhor amigo.
— Pare de ser tão careta, Rose. — Cat revirou os olhos, me irritando. Eu não era careta, só não gostava de imaginar essas cenas horrendas de meus amigos se envolvendo sexualmente.
— Como você é irritante. Mas tá. — suspirei, pensando por um instante. — Fred seria mais gentil… — quase vomitei, mas relevei. — e Tony mais agressivo. Quase que… Como num pornô. — a gargalhada que Catherine deu acabou me contagiando. Era estranho, mas não deixava de ser cômico.
— Rose, é tipo completamente o oposto.
— Quê? — ok, agora eu estava genuinamente surpresa. E curiosa.
— Primeiro eu tive o lance com o Fred que foi rapidamente pros finalmentes. Rose, você não sabe como seu primo é quente.
— E pretendia não continuar sabendo.
— Sério, a coisa toda é uma loucura! — continuou, me ignorando completamente. Às vezes Catherine tinha disso, então não me importava realmente. — Eu hesitei muito em ceder com o Tony porque você sabe.
— É o Tony. — comentei revirando os olhos e ela assentiu.
— Mas ao mesmo tempo ele me apoiou tanto… — seus olhos caíram para suas mãos, um pouco tristes. — Não sei se foi um sentimento de cuidado devido à situação… Mas ele foi tão… Intenso. Delicado. Eu me senti… Única. Não que com Fred não tenha sido único, mas… Era muito mais carnal do que emocional, e eu realmente não esperava. Nenhum dos dois.
— É muita informação pra processar.
— Eu sei. Mas imagine eu. — ela voltou a me olhar, suspirando. — Você ouviu o que o Tony acabou de falar. E se… Eu realmente sou a insensível da situação? Sabe, transando com dois caras incríveis por aí e nem parando para pensar que… — ela não terminou de falar. Acho que o peso da constatação era maior do que ela esperava. Era algo que eu havia notado também, na fala de Tony.
Já vinha notando, inclusive, nos indícios de ciúmes que ele dava em relação à Catherine com Fred — ou com qualquer outra pessoa em Hogwarts. Estava implícito em cada implicância deles, durante todos esses anos. E mesmo que eu tivesse dúvidas a respeito do que ela sentia em relação a ele, Catherine parecia ainda mais confusa naquele momento.
— Que você possa estar magoando duas pessoas que gostam de você?
— Não consigo imaginar o Tony ou o Fred gostando de mim. Talvez eu devesse realmente parar. — ela ficou séria por uns minutos, me fitando com seus olhos azuis. Eu sabia que algo estava por vir. — Ou talvez sugerir um poliamor.
— Não esquece de incluir a Abott na conta. — comentei rindo, mas um pouco horroziada com a situação. Não consigo imaginar o inferno que a vida dá Catherine se tornaria ao se relacionar com as três pessoas mais improváveis do mundo.
— Eu poderia chutar os três e ficar sozinha. — nos encaramos por alguns segundos, mas não contive os a risada. Catherine nunca ficava realmente sozinha. Sempre tinha um casino aqui ou ali pra ocupar o tempo livre.
— Mas sério, agora. — comecei quando paramos de rir. — Espero que você consiga dar um chute no seu pai, em primeiro lugar, e ser feliz mexendo com terra ou qualquer coisa do tipo. Aliás. Você vai conseguir, porque é a sonserina mais determinada e inteligente que eu conheço.
— Quem é você e o que fez com Rose Wesley? — mesmo que quisesse parecer ofendida com a colocação, não consegui conter um sorriso.
— Ainda em choque pelas revelações dos desempenhos sexuais dos amigos próximos.
— Vai dizer que você não estava curiosa?
— Vou ignorar sua pergunta para dizer que eu também senti sua falta. — busquei suas mãos, apertando-as fortemente. — Nós compartilhamos as lembranças daquele dia e só sei ser grata por você ter aparecido logo. Mas não quero falar sobre isso agora, então engole o choro. — foi absolutamente inútil dizer isso, pois tanto eu como ela tínhamos lágrimas nos olhos. — E que sinceramente se algum dos dois, ou três, se quiser mesmo dar corda pra Mary, te encher o saco, é só chuta-los porque, maravilhosa como você é, outros dez vão surgir.
— Rose, você é facilmente a melhor pessoa que eu conheço. Não estou nem nos reconhecendo, falando todas essas coisas. — ela riu, limpando as lágrimas.
— Acho que a distância é as situações chatas fazem isso com o emocional. — dei de ombros, rindo. Eu não poderia ser mais grata por tê-la.
— Seria abusar muito pedir pra você me falar sobre o Scorpius? — seu tom de voz ainda era divertido, apesar de ter fechado o rosto para passar seriedade. Revirei os olhos, retirando minhas mãos das suas para colocá-las na minha cintura, indignada.
— Eu dou a mão e você quer o braço todo?
— Rose eu conheço você. — Catherine cruzou os braços, me olhando daquele jeito que eu odiava, pois me faziam abrir a boca toda vez. — Tem algo de estranho. Você está querendo afastar ele ou coisa do tipo.
— Você está vendo coisas demais. E eu realmente não quero falar disso. Pra que perder meu tempo falando no Malfoy? — me levantei, tentando não encarar minha amiga nos olhos, mas eu sabia que ela estava desconfiada.
— Eu sei que uma hora você vai querer me falar. E eu vou estar pronta pra te ouvir.
— Vai sonhando. — resmunguei, recebendo uma revirada de olhos dela.
Durante o resto do dia fiquei incomodada. A cada dez minutos eu podia jurar que a pulseira estava esquentando ou até mesmo vibrando, mas quando ia conferir estava intacta. No dia anterior estava cansada demais pra sentir qualquer coisa, mas hoje tudo em mim gritava. Eu era um poço ambulante de ansiedade. Eu sabia que precisava sentir que estava fazendo algo a mais do que somente esperar, então não pensei duas vezes em sacar minha varinha e me esgueirar pelos corredores.
Eu tinha ideia de que provavelmente encontraria o Filch ou qualquer um dos Monitores muito antes de dar de cara com o falso James. E obviamente eu nem saberia se cruzasse com ele. Mas eu reconheceria a forma como fui olhada em qualquer lugar. Então andar pelo castelo me parecia muito coerente, ainda mais porque dessa vez eu tinha a vantagem. Se não fizesse isso, se não soubesse que ao menos fiz minha parte, eu não dormiria em paz.
Albus sempre deixava a capa no mesmo lugar, no fundo do baú, então não foi muito difícil achá-la. Complicado mesmo foi não fazer barulho e entrar e sair sem ser percebida. Eu sentia a adrenalina em cada veia enquanto percorria apressadamente os corredores, não deixando passar nenhum canto do castelo.
Às vezes avistava um grupinho ou outro de alunos, não querendo acabar o domingo, e até mesmo alguns casais aqui e ali. Prendi a respiração quando vi Roxanne discutindo com Anthony, lembrando que não o tinha visto no dormitório. Não me dei o trabalho e ficar e ouvir, mas ela parecia muito irritada.
Algo me dizia que eu tinha que ir perto da Torre da Grifinória. Eu bem sabia que lá existiam alguns pontos pouco visitados do castelo, então poderia dar de cara com o verme. Minha cabeça repetia a cena daquele dia várias e várias vezes. Não podia me dar o luxo de esquecer aquele olhar e não conseguir reconhecê-lo quando o visse novamente. Não podia deixar ele escapar.
Ouvi passos altos no corredor e a luz de uma varinha iluminava o ambiente. Parei, prendendo a respiração. Era uma passagem um pouco apertada, então não queria arriscar trombar com quem estivesse vindo.
Quando a pessoa virou o corredor, percebi que se tratava de Malfoy. Que merda ele estava fazendo aqui? Não sabia que ele fazia ronda aos domingos. Ele parou por um instante, olhando um pouco confuso, como se procurasse alguma coisa. Ele andou lentamente, ainda observando com cuidado o ambiente.
— A menos que esse mapa esteja quebrado, eu sei que você está aí, Rose. — percebi o pergaminho em sua mão e revirei os olhos, irritada. — E pelo visto, Albus não andou tomando cuidado com a capa dele.
Scorpius estava mais perto de mim agora, guiando-se pelo mapa. Ao invés do que eu esperava, ele não arrancou a capa para me ver. Apenas ficou parado no que ele imaginava que fosse eu, tentando acertar mais ou menos minha altura para me encarar nos olhos. Ele quase acertou, mas estava olhando em direção à minha boca. Se eu não estivesse com a capa talvez o fato dele estar olhando diretamente para essa região me deixasse sem ar. Mas pensar que ele tinha acertado justamente ali também me deixava desconfortável. Que droga, não era momento pra ficar pensando essas coisas.
— Preciso começar meu discurso ou você vai me deixar te acompanhar até as masmorras? — minha falta de resposta ou aparição deixou ele irritado, por mais que era notável sua tentativa de ter paciência. — Rose, o que você estava pensando?
Tirei a capa, ficando irritada. Não iria deixá-lo me acusar de nada. Ele subiu os olhos da minha boca para meus olhos, ficando um pouco desconcertado, mas se recompondo em seguida.
— Você sabe que não devo satisfações pra você.
— Eu sou monitor, Rose. E antes de tudo seu… Amigo. — o desconforto daquela palavra era tão palpável que não resisti a revirar os olhos.
— Eu sei que você não faz rondas aos domingos.
— E não faço. — acrescentou rapidamente, dando um passo para frente. Notei que seus cabelos loiros estavam mais desgrenhados que o normal. — Estava de olho no mapa, como faço todas as noites, fazendo minha lista de suspeitos que saem por aí depois do horário de recolher, até que vi seu nome e mal pude acreditar.
— Não estou fazendo nada demais.
— Nada demais? Que ideia você tem na cabeça de sair por aí sozinha no meio da noite enquanto sabe que tem um doido por aí?
— Eu sei me defender. — rebati amarga, erguendo meu queixo para encará-lo olho no olho. Seus lábios estavam reprimidos em uma linha fina, mostrando seu descontentamento comigo. Mas eu não devia absolutamente nada pra ele. Nada.
— Eu não tenho dúvidas disso. Sei que é uma bruxa incrível. — seus olhos vibravam e estava ficando demasiadamente difícil encará-los. Mais difícil ainda era ignorar a britadeira que era meu coração. Péssimo momento que fui alimentar pensamentos idiotas. — Mas você não pode sair por aí desse jeito. Com capa ou sem capa. Ou não percebeu que estava sendo seguida desde que saiu do Salão Comunal da Sonserina?
— O quê? — olhei no impulso para trás, atônita.
— Catherine deve ter percebido seus movimentos, porque ficou um bom tempo te seguindo. Pelo que vi aqui ela se perdeu em algum momento, provavelmente quando deu de cara com o Tony e a Roxanne naquele armário de vassouras.
— Que merda ela tinha que fazer atrás de mim.
— Se quiser evitar um segundo sermão, acho melhor botar a capa e voltarmos logo pra lá. Ela e o Tony estão vindo pra cá. — comentou observando o mapa.
Eu queria muito socá-lo, pra ele deixar de ter aquele olhar que me deixava sem graça na cara. Mas não queria ter que ouvir nada de Catherine, muito menos se ela estava realmente acompanhada de Tony — o que já deixaria o humor dela infinitamente pior. Joguei a capa sobre nós rapidamente, antes que me arrependesse do que estava fazendo. Os passos a mais que ele precisou dar por causa disso, fazendo com que eu pudesse sentir sua respiração no meu rosto e sentir seu corpo a milímetros do meu, me fizeram esquecer das coisas ao redor por alguns instantes. Eu estava tão confusa… E ficar perto dele só dificultava ainda mais as coisas.
No minuto seguinte os dois passaram pelo corredor apressadamente, mas em silêncio. Acho que estavam bravos um com o outro ainda, mas estavam juntos para me procurar. Quase me senti mal. Quase.
— Posso voltar sozinha. — falei aos sussurros quando Cat e Tony saíram do corredor. Scorpius me olhou profundamente, ainda com os lábios reprimidos.
— Não vou deixar você voltar sozinha.
— Por Merlin, por que você é tão chato?
— Por que você caga tanto pra nossa preocupação?
Soltei uma risada debochada, mas Malfoy manteve o olhar firme em cima de mim.
— Não estou…
— Está sim. — rebateu antes que eu pudesse terminar de falar. Grosso. — E sinceramente não sei porque. Você tá tentando me afastar, é isso? Pois se está, lamento informar que, se você estiver em perigo, eu vou ser chato sim e vou tentar te proteger, queira você ou não. — Malfoy estava genuinamente irritado, o que me deixava sem saber o que dizer. Eu não tinha muitos argumentos. A verdade é que eu não gostava de ser a donzela em perigo, ou qualquer coisa assim. — Você pode me afastar à vontade, desde que esteja segura. — ele baixou o tom, amenizando também a pressão nos lábios e o olhar. Respirar estava ridiculamente difícil, mas eu não queria me afastar.
— Não quero. — queria me bater por estar falando coisas sem sentido.
— Não quer ficar segura? — ele franziu as sobrancelhas, confuso e eu quis xingá-lo. Mesmo.
— Se pensa que vai me fazer explicar, pode desistir. — rebati irritada. Ele pareceu compreender, pois um meio sorriso preencheu seu rosto. Eu me sentia patética por estar desviando minha atenção de seus olhos para seus lábios a cada segundo.
— Já que é assim, vai me deixar me levar para as masmorras.
— Sim. — respondi a contragosto e seu sorriso se iluminou mais ainda, exibindo os dentes ridiculamente brancos.
— Não foi uma pergunta. — sussurrou se aproximando de meu ouvido. Uma série de arrepios me percorreu e eu engoli em seco. Estávamos próximos demais.
— Não tem muito espaço pra dois. — falei apressadamente antes que eu vomitasse. — E você é monitor, pode andar por aí sem capa.
— Vamos então. — ele saiu, sorrindo para mim.
Nosso percurso foi em silêncio, mas meu cérebro estava à mil. Não conseguia simplesmente não pensar nas sensações que tinha perto dele e em como eu queria sentí-las de novo. Mas também não conseguia esquecer sobre os momentos em que ele me desprezou de alguma forma. Eu era orgulhosa demais pra isso então jamais daria qualquer passo. Precisava deixar todos aqueles pensamentos pra lá, antes que a situação ficasse mais complicada pra mim.
Chegamos mais rápido do que eu gostaria, mas estava aliviada. Não queria continuar me sentindo sufocada ao lado dele. Queria apenas descansar. Mas Scorpius não parecia disposto a me deixar fazer isso tão cedo, apesar de ter sido tão insistente a me levar em segurança.
— Tire a capa. — ele pediu percorrendo os olhos para o ponto em que eu estava, talvez tentando localizar meus olhos novamente. — Quero te dizer uma coisa. — retirei a capa, dobrando-a nos braços. Malfoy estava sério e me encarou por alguns instantes.
— Pra quem me queria em segurança, você bem que está me atrasando.
— Eu quero sua segurança. E justamente por isso estou aqui. E também é por isso que vou falar algo agora.
Seus olhos cinzentos não desgrudavam dos meus e eu não fazia questão de desviá-los também. Me sentia presa em um transe. Ridiculamente presa em um transe.
— Estou ouvindo. — incentivei. Se ficássemos mais alguns segundos em silêncio nos encarando talvez minha cara gritasse “estive pensando em como seria te beijar de novo” e eu não queria nada daquilo. Não mesmo.
— Não saia por aí de novo. Não sozinha, não sem avisar ninguém. Estamos juntos nessa. Todos nós.
— Não quero me sentir inútil. — desabafei, me sentindo repentinamente frágil. Exatamente da forma que não queria. — Não sou frágil. — acrescentei, tentando me convencer de que eu não era assim e não seria.
— Rose… Inútil? Frágil? — seus olhos se arregalaram, num tom de surpresa. — Você já é forte o bastante só por estar aqui após somente uma semana. E quem mais sairia por aí caçando o próprio abusador assim? Eu que me sinto um inútil por ser da mesma casa e provavelmente mesmo ano de um cara nojento como ele e não fazer ideia de quem seja… Você é a vítima nisso tudo. Você… Rose. — ele segurou meus ombros e o arrepio foi instantâneo, fazendo meu corpo estremecer. Scorpius não deixou minha reação passar em branco, mas ao invés de me apertar mais ou sorrir ele me soltou. — Desculpe.
Quis dizer que ele não precisava me pedir desculpas, mas ao mesmo tempo senti mais do que borboletas no estômago com o toque. Senti uma ponta de receio. E talvez fosse exatamente isso que ele tenha notado ao afastar-se. Não deixei passar esse detalhe pois, sim, ele se preocupava. O idiota realmente se preocupava comigo, outra idiota.
— Eu não quero que você faça nada imprudente, Rose. Você precisa ter seu tempo pra lidar com tudo, eu sei, mas não é caçando ele por aí que… Vai resolver alguma coisa. Não sei o que eu faria se algo te acontecesse. — ele passou a mão pelos cabelos ao cortar o contato visual pela primeira vez desde que me parou para conversar.
— Por que se importa? — me peguei perguntando, tentando buscar seus olhos novamente.
— Já disse. Somos amigos.
— Não se importou com Catherine andando sozinha por aí. — observei. Eu queria calar a boca, mas também queria ouvir alguma coisa mais concreta. E me sentia uma completa idiota por isso, por tentar me segurar em uma pequena frase que pudesse indicar algum sentimento. Meu Merlin, o que estava acontecendo comigo?
— Ela estava com Tony…
— Ela o encontrou depois. — corrigi e ele bufou, me olhando nos olhos finalmente.
— O que você quer que eu diga?
— Não quero que diga nada.
— Não parece.
— Eu sabia que isso seria idiotice. — murmurei irritada, encarando meus pés. Onde é que eu estava com a cabeça? Que saco. Scorpius Malfoy estava fazendo com que eu perdesse a cabeça. Nada mais estava fazendo sentido e eu tinha uma vontade crescente no peito de entrar pela passagem e chorar.
— Rose, o que está acontecendo? Sei que não éramos tão próximos, mas… Achei que… — ele se calou, olhando para o chão também quando ergui meus olhos para encará-lo.
— Achou o quê?
— Achei muitas coisas. — falou por fim, um pouco irritado. — Sei lá, Rose. Eu tô me sentindo puto por você ter discutido ontem comigo e hoje ter saído por aí e discutir de novo comigo. Eu sinceramente não estou entendendo a forma como você tá me tratando. Quando você voltou eu… — ele fez uma pausa. Meu coração iria sair pela boca, mas Scorpius simplesmente não completava a frase. — Não importa.
— Você está de brincadeira com a minha cara. — despejei aos risos. — Não consegue terminar a porra de uma frase?
— Eu não sei como devo agir com você! Não quero parecer invasivo. Não quero despertar… Lembranças, ou coisas ruins.
— Acredite, você não está despertando isso. — comentei desgostosa, mas Scorpius não deixou minha fala passar em branco.
— Estou despertando algo, então?
— Raiva. — falei com rispidez, o que era uma meia verdade. Scorpius parecia que tinha levado um tapa na cara.
— Por que estou tentando te proteger? Rose, porra, isso não faz sentido nenhum.
— Scorpius, me deixa em paz. — pedi, exausta. Ele se calou e respirou fundo, assentindo. Ia virando as costas quando eu levei meu queixo ao chão. Ele não ia me deixar ali daquele jeito. Não mesmo. — Não literalmente! Você é idiota? — o loiro se virou na velocidade da luz, irritado.
— Eu não sou idiota, você que está me fazendo de idiota com esse joguinho. Você quer que eu vá embora ou não?
Por que minhas discussões com Malfoy nunca faziam muito sentido? Na maioria das vezes eu nem fazia ideia de como havia ficado com raiva dele tão rapidamente, só sei que ficava. Na realidade, naquele momento, tudo que eu sabia é que meu coração estava pesado e minha cabeça confusa. Eu só queria sumir.
— Me desculpe, Rose… — sua voz foi um sussurro inaudível. Olhei pra Scorpius com raiva, prestes a perguntar porque ele estava pedindo desculpas, quando eu notei que as lágrimas que estive contendo começaram a cair. — Eu não quis…
— Eu só estou confusa.
— Com o quê? — ele se aproximou, aparentemente preocupado com o fato de eu estar chorando sem motivo algum e isso só me fez ficar mais angustiada.
Quando senti suas mãos segurarem as minhas meu choro cessou, ao passo que minha respiração havia se tornado minha preocupação — ou a falta dela. Quando o olhei eu podia jurar que se ele me perguntasse novamente eu diria. Diria que estava ansiosa com toda a situação do abuso, mas também falaria que tinha pensado muito nele e isso só me fazia sentir mais culpada ainda, pois obviamente não era hora de ficar pensando nessas porcarias.
Mas também diria que não era nada demais, era provavelmente só carência, porque ele tinha aquela mania irritante de ser fofo e gentil e que o fato dele estar se mostrando preocupado e segurar minha mão com tanta força só me deixava mais perdida ainda.
Queria dizer muitas coisas. Mas não diria, de fato. Ele chegou a perguntar novamente o motivo da minha confusão, mas não cedi. Tentei desconversar e agradeci quando ouvi passos apressados e encontrei Catherine, acompanhada de Tony, quando me virei.
Ela fez menção de brigar comigo, mas ao notar a situação em que eu estava ela parou. Seu olhar foi de raiva para compaixão em segundos e ela me abraçou, fazendo com que minhas mãos se soltassem das de Malfoy.
Mesmo que eu sentisse um pouco de falta do calor que as mãos do loiro emanavam, me senti mais tranquila ao sentir o abraço de Catherine. E sabia que eu não poderia continuar daquela forma. Eu teria que falar. E isso implicaria em ter que assumir de que talvez eu estivesse gostando de Scorpius Malfoy mais do que eu achei que estava.
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