Free Soul
3 Precisamos de um porão
Gilbert iniciou a percursão sozinho na bateria. Francis iniciou os riffs no baixo e depois Arthur e Antônio os acompanhou sincronizadamente na guitarra.
(Michel Jackson)
O moreno batia com o calcanhar no chão e movia o quadril no ritmo da percussão.
They told him don't you ever come around here!
(Eles disseram "nunca mais volte aqui!")
Don't wanna see your face, you better disappear!
("Não quero ver sua cara, melhor você desaparecer")
The fire's in their eyes and their words are really clear
(O fogo está nos olhos deles e suas palavras são reais e claras)
So beat it
(Então caia fora)
Just beat it
(Apenas caia fora)
Francis mordia o lábio inferior e movia a cabeça no ritmo da música, deixando o baixo predominar mais que qualquer outro instrumento.
You better run, you better do what you can
(Melhor você correr, melhor fazer o que puder)
Don't wanna see no blood, don't be a macho man
(Não queira ver nenhum sangue, não seja um macho man)
You wanna be tough, better do what you can
(Você quer ser brigão, melhor fazer o que puder)
So beat it
(Então cai fora)
But you wanna be baaad!
(Mas você quer ser mau!)
Just beat iiiit
(Então caia fora)
Beat iiiiit
(Caia fora)
No one wants to be defeated
(Não queira ser derrotado)
Showin' how funky and strong is your fight
(Mostrando como é divertida e forte sua briga)
It doesn't matter who's wrong or right
(E não importa quem está errado ou certo)
Just beat it
(Apenas caia fora)
Just beat it
(Só caia fora)
Just beat it
(Só caia fora)
Just beat it
(Só caia fora)
De repente a força desligou. Nenhum dos amplificadores funcionava, nem o microfone e as luzes haviam se apagado.
– EI!! – Gilbert gritou – Quem fez isso?
– Eu. Vocês não estavam nem me escutando. – Disse o invasor.
Arthur olhou para o rapaz que tinha mexido na chave de força. Era um austríaco bem vestido, de cabelos castanhos, olhos lilases e uma pinta perto da boca.
– Aristocrata dos infernos! Agora você foi longe demais!
– É mesmo. – Francis fez um muxoxo – O Tônio fica sexy rebolando.
O austríaco deu uma tapa na própria testa.
– Esse bloco é destinado aos acadêmicos de música e nós vamos usar essa sala.
Antônio deixou a guitarra no suporte e se aproximou do austríaco com um sorriso amarelo.
– Espera, Rod. Podemos conversar.
– Não há nada para conversar. Teremos uma demonstração amanhã e precisamos dessa sala.
Arthur estava atento à conversa dos dois, tanto que se assustou quando Francis o cutucou.
– Lindo, não? Roderich Edelstein. Primo do Gil, ex do Tônio e acadêmico do terceiro ano de música. Era nosso brinquedinho antes de você entrar na banda.
– QUEM DISSE QUE VIREI BRINQUEDO?
Roderich suspirou, ajeitando os óculos.
– Vocês inverteram as prioridades. Esse bloco é nosso. Só podem usá-lo quando ninguém mais quiser.
– Mas deve haver outras salas livres! – O albino argumentava impaciente.
– Então vão procurar por elas. Agora saiam e achem outro lugar pra ensaiar.
–------
– Então vocês foram expulsos do bloco de música?
Alfred perguntava enquanto comia um hot dog com ingredientes que Arthur nem imaginava que um daqueles levava. Caminhavam juntamente com Kiku pelo campus.
O inglês apenas olhou para baixo.
– Yes. Mas aquele cara, Roderich, tem razão. Já estávamos abusando.
– Não se preocupe, Arthie! Vocês logo acharão outro lugar pra ensaiar.
Kiku mostrou-se alheio à conversa enquanto passavam por perto da área das rampas de skate.
– Eu não sei se eu deveria me importar. – o inglês sibilava — Acho que essa banda está destinada ao fracasso.
– E daí se estiver? Vai ser bem divertido enquanto durar.
Os olhos verdes miraram os azuis surpreso. Alfred sorriu e continuou falando:
– É mais legal assim, quando você não espera que vá dar certo. Se você não espera nada, tudo o que vem é um ganho extra. As coisas ficam mais divertidas.
– Alfred...
– E você está precisando se divertir. Parece um velho... — De repente o americano tossiu.
– Coma devagar, idiota! Pode acabar se engasgando!
– Cof! Cof! Ok, ok, já passou. Pare de me tratar como criança.
– Não tenho culpa se você age como uma!
Kiku parou de andar de repente. Alfred e Arthur acabaram parando também. Estavam perto de uma grade de arame que cercava a área de rampas para esportes sobre rodas.
Numa das rampas, Mathias fazia manobras no skate. Anko o observava junto com um islandês pequeno, de cabelos bem claros, que usava uma bicicleta.
– Kiku? – Chamou o americano.
– Agora eu me lembrei deles, mina–san. São os nórdicos. Os campeões do Circuito de Rodas. Uma competição que tem todo ano aqui na Axis.
– Que acrobacias legais! Não tinha visto isso aqui.
– Se você parasse de ficar trancado no seu quarto comendo aquelas porcarias e jogando vídeo-game, teria conhecido essa ala do campus. – Arthur resmungou.
– Eu to aqui há uma semana. Aposto que você levou meses pra achar esse lugar.
– Não levei!
O norueguês sisudo terminou de ajeitar os patins e escorregou pela rampa para iniciar as manobras.
Numa outra rampa estava um casal de irmãos. Uma belga loira de patins, do segundo ano de Educação Física, e seu irmão holandês, no terceiro ano de Agronomia, colega de Francis.
– Você consegue fazer manobras na bicicleta, Alfred-kun? – Kiku perguntou – Porque daria pra completar o time de Abel-san e Anly-san.
– Who? Ta falando da garota no patins e do grandão no skate?
– Hai. Eles queriam participar do Circuito ano passado, mas não conseguiram achar uma terceira pessoa.
– A primeira coisa que Alfred terá que fazer pra participar é uma dieta.
O americano ficou levemente corado:
– E-eu não to gordo!
– Será? Você só usa roupas largas e vive comendo porcarias.
– Mas eu pratico esporte! E sou forte! Consigo levantar você brincando, quer ver?
O inglês recuou prontamente:
– N-não! Claro que não! Não é como se eu quisesse que você me carregasse!
– Mas eu vou provar!
– Não se aproxime! — de repente o celular do inglês tocou — E quem será agora?
Alfred deixou Arthur checando o sms que havia recebido e foi para perto de Kiku assistir aos acadêmicos fazendo acrobacias.
– É o Francis. Disse pra eu encontrar o grupo na lanchonete do bloco de engenharia. Vão querer ficar aqui?
Americano e japonês se olharam.
– A reunião não é restrita aos membros da banda, Arthur-san?
– Bem, eles não colocaram nenhuma restrição.
– Nesse caso... Vamos.
–-------
Na lanchonete, cinco pessoas dividiam uma pizza. Num dos bancos estava Ludwig ao lado dos gêmeos Vargas. Dois calouros italianos. Um de cabelos e olhos castanhos, chamado Feliciano, e outro de cabelos mais escuros e olhos verdes amarelados, chamado Lovino.
No outro banco, Antônio e Francis se derretiam de amores pelos gêmeos.
– Vee! Que bom que a banda de vocês está completa, Antônio! – Feliciano parabenizava enquanto comia pizza – O Ludwig me falou.
Lovino cruzou os braços e fez bico:
– Mais um idiota pra equipe.
Antônio apenas riu. Não se incomodava com nenhum comentário de Lovino. Achava os gêmeos italianos fofos demais pra brigar com eles.
– Arthur é rabugento, mas é bem legal, Lovi. Só que agora temos outro problema. Não temos lugar pra ensaiar. Francis divide o apartamento com o Ivan e ele mataria a gente se fizéssemos muito barulho. O Arthur não tem colega de quarto, mas os vizinhos dele vão reclamar.
– E o apartamento do Tônio é tão pequeno que nem a bateria do Gil cabe lá. – Lamentou o francês — Ela ainda está comigo. Sorte que o russo não se importa.
– Assim como você não se importa com o estoque de vodca que ele armazena la.
– Mas eu não tenho escolha, cher. – Olhou triste para a sua pizza – Tantas pessoas na Axis e tenho que dividir o quarto com um que nem dá pra pegar. O destino é tão cruel...
A porta da lanchonete foi aberta pelo baterista da banda. Gilbert viu os amigos e abriu um grande sorriso.
– Ola! O incrível eu chegou! Bruder! Chegou antes de mim! Oi, gêmeos Vargas. – Puxou o ahoge de Lovino ao passar.
O italiano ficou vermelho:
– N-NÃO TOQUE AI, IDIOTA!
– Kesesesese! — O albino se sentou ao lado de Antônio e foi roubando a azeitona preta do pedaço de pizza dele. — Já deram as notícias a eles? A boa e a má?
– Sí. – o espanhol respondeu descontente — O jeito é alugarmos uma hora no estúdio.
– Vee. O nosso apartamento é muito pequeno, mas se vocês quiserem, podem ensaiar lá. – Feliciano se ofereceu.
– Se um de vocês abusar de mim, vocês vão ver. – Lovino bufou.
Gilbert riu:
– Kesesese! Não se preocupe, o incrível eu não tem nenhuma vontade de pegar vocês. Mas cuidado com esses dois. Especialmente com o Fran. Ele pega qualquer coisa que tenha um buraco ou algo pra enfiar no dele.
O francês atirou um paliteiro na cabeça do albino.
– AI!
– Pare de falar assim de mim, alma penada! Sou apenas um romântico!
– Romântico o caralho! Eu ainda não esqueci que perdi meu incrível sangue por sua causa! Ta me devendo!
– Gente, vamos parar? – Antônio sorria nervoso enquanto coçava o nariz – Temos que ver um lugar pra ensaiarmos.
Mais pessoas entraram. Arthur, Alfred e Kiku.
– Desculpem o atraso. – Pediu o inglês.
– Vee! Esse é o novo membro da banda? Prazer, sou Feliciano! – olhou para Kiku – Vee. Que aluna bonita!
Kiku ficou da cor do centro de sua bandeira:
– E-E-Eu não sou garota!
Francis abafou a risadinha:
– Deixe-me apresentá-los. Kiku, Alfred e Arthur, esses são Feliciano, Lovino, e Ludwig. Alfred é calouro do curso de astronomia, Feliciano do curso de Artes, Lovino do curso de moda e Ludwig do curso de engenharia mecânica, irmão do Gilbert. Kiku é veterano do curso de robótica.
– Não ligue para a indiscrição do Feliciano. – Dizia Ludwig — É que ele não pode ver uma garota bonita que fica assim.
– M-mas eu já disse que não sou uma garota!
Antônio colocou a boca no canudo e bebeu seu refrigerante olhando pensativo para cima.
– Hm... E que tal o Vash, turma? Ele mora numa casa com porão.
Gilbert fez uma careta.
– Não! Aquele suíço não! Ele consegue ser pior que o Rod! Além disso, ele odeia a minha família.
– Na verdade ele odeia somente os Eldestein. Isso não nos engloba – Francis falava interessado – Eu não me importaria de tentar brigar com aquele suíço tsundere. Hihihi!
Antônio encostou-se à cadeira e olhou para Gilbert.
– Eu posso falar com ele. Talvez ele ache que eu também odeio o Rod.
– E quando ele descobrir que não, vai nos expulsar.
Feliciano ficou cabisbaixo:
– Por que será que eles não se falam? Ouvi dizer que eles eram muito amigos antes.
– E eram, Feli. – O albino explicou — Toda vez que eu mexia com o aristocrata, ele vinha defendê-lo. Só que Vash perdeu os pais e os meus tios viraram tutores dele. Péssimos tutores. Usavam a herança do Vash e da Lily como se fossem deles. Gastavam nas coisas mais inúteis. Vash denunciou os pais do Rod, eles brigaram e agora ele não quer mais ver um Edelstein nem que esteja coberto por uma pilha de dinheiro.
– Vee... Mas Roderich não é como os pais. Ele cuidava de mim e do fratello junto com o Antônio quando íamos passear no parque.
– Diga isso pro Vash. E como temos ligação com o Rod eu acho difícil convencer o suíço pão duro a emprestar o porão pra gente.
Francis escutou a frase e logo veio uma ideia:
– Pão duro! É isso!
– Que foi?
– Vash adora dinheiro! Vamos convencê-lo a alugar o porão para nós!
– Com que dinheiro?
– Arrumamos um emprego de meio expediente, não importa. Basta convencermos ele! Vamos fazer isso! Vamos até a casa dele!
–--------
Vash Zwingli era um acadêmico do terceiro ano de economia que morava em uma casa no território do campus. Arthur e o Bad TouchTrio estavam interessados exatamente naquele lugar.
O francês espiou o interior da sala pela janela.
– Cuidado, Fran. Pode ter algum alarme. — Gilbert alertava.
– Eu duvido que ele tenha gastado dinheiro nisso.
Arthur deixou os três bisbilhotarem os arredores da casa e ficou ali parado, olhando para o céu. Havia um pássaro solitário cruzando os ares. Sozinho, mas livre.
Antônio tocou a campainha e ninguém atendeu.
– Eu acho que ele não está. Melhor voltarmos outra hora.
O moreno deu meia volta e se deparou com o cano de um revólver bem na direção de seus olhos.
– Ei.
– AAAH!! — Antônio gritou e deu um pulo ao ver o dono da casa com a arma.
De repente Francis, Arthur e Gilbert foram para perto do vocalista, e o albino o puxou para trás dele:
– TA MALUCO, SUÍÇO? LARGA ISSO AI! PODE ACABAR MATANDO ALGUÉM!
– Gilbert, você está gritando. – Uma gota escorria da testa de Francis.
– NÃO TO NÃO!
Vash, um rapaz loiro, de cabelos lisos até os ombros e olhos verdes, baixou a arma:
– Ah. São vocês. Não se preocupem, aqui só tem balas de festim.
– Idiota! Quase nos matou de susto! — O alemão ainda estava alterado.
– O que fazem perto da minha casa?
– Temos uma banda, mas não temos onde ensaiar, então queremos alugar seu porão! Vamos pagar, então diga seu o valor!
– Alto.
– Não importa se é caro! Diga o valor!
– Se for caro, como vocês vão pagar? Nem trabalham.
Foi como se um balde de água fria tivesse acertado os membros da banda.
– Tem vários meios. – Arthur comentava – Podemos arranjar um emprego... Ou até mesmo organizar uma festa. Os acadêmicos fazem muito isso. Festas rendem dinheiro e vamos poder pagar o aluguel.
O suíço pareceu ligeiramente interessado:
– Dinheiro?
– Falou a palavra mágica. – Francis cutucou Antônio.
– Sim. Dinheiro. — o inglês esclarecia — Normalmente fazem isso para ajudar na festa de formatura. De qualquer forma, teremos como pagar.
Vash ficou refletindo sobre essa ideia. A mão no queixo, o olhar no chão e a mente fazendo mil cálculos.
– Vamos fazer o seguinte... Poderão usar meu porão se eu ajudá-los a organizar uma festa com a banda de vocês.
– Que?! — Os visitantes não entenderam.
– Isso mesmo. Uma festa. Se os rendimentos forem muito bons, poderão usar meu porão quando quiserem durante o semestre. Aceitam?
– Olha, avarentos vão pro inferno, sabia? – O albino estava de mal humor.
– É pegar ou largar.
Os quatro se olharam e depois de um tempo assentiram.
– Aceitamos. – Francis falou pelos demais – De qualquer jeito ganhamos já que vamos poder ensaiar no seu porão até a festa.
– Então faremos isso. E qual é o nome da banda de vocês?
– Bem... Era Bad Touch Trio, mas ai entrou o Arthur...
– Nada de Bad Touch Four. — O inglês foi logo avisando.
– Precisamos pensar em outro nome.
Todos se colocaram a pensar.
Na mente de Arthur só vinha a imagem daquele pássaro voando pelo céu sozinho, mas que mesmo assim dava inveja a qualquer um. Afinal o vôo era sinal de liberdade. Opássaro era livre.
– Que tal… Free Soul?
Os três olharam para o inglês, pensando no nome sugerido.
– Free Soul. — Francis repetiu — Parece-me bom.
– Isso soa incrível! — Disso o albino — Vai ser Free Soul então!
Após entrarem em um acordo, Vash guardou a arma e abriu a porta da casa:
– Free Soul então. Podem trazer seus instrumentos. Meu porão está disponível para vocês por enquanto.
Continua
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