Free Fallin'
2 Marie: She is a good girl.
Notas iniciais
Observo meu reflexo no espelho. Meus cabelos longos num tom loiro mel e lisos, mas com ondas nas pontas. Meus cílios grandes, meus olhos verdes e meu sorriso acompanhado por covinhas. Retoco o rímel, e passo um brilho. Nos últimos dias tenho feito muito isso. Me arrumar, querer me achar bonita. Desde que terminei meu meio que namoro, que durou por quatro meses. Desde que fui trocada. Meu psicólogo diz que isso é bom, tentar me valorizar, ver algo de bom em mim mesma, sei lá. Talvez seja. Não, não vou em psicólogo pra falar que fui trocada e não entrei em depressão por isso. Isso já é outra história.
Olho para o relógio e já são duas da tarde, então saio de casa, em direção a casa de minha melhor amiga, Anne. Ela me ligou desesperada e chorando. Ela mora bem perto de casa, então chego em questão de minutos.
– Oi, Ann.
– Marie, eu... — Ela me abraça, e eu a abraço de volta, muito, muito forte.
– Me conta, o que aconteceu?
– Ele veio falar comigo...
– John? Meu Deus, eu nem conheço esse menino, mas como eu o odeio! Não fica assim por ele, ele é um idiota.
– Um idiota tão lindo. — Diz ela já chorando, eu respiro fundo e respondo.
– Mas ainda é um idiota. Me conta, o que ele disse?
– Nada demais, ele disse bom dia, perguntou se eu tava bem e disse que tava com saudade. E eu sabia que era mentira, então disse que já ia passar... E menti que a minha saudade dele tinha passado, sabe? Mas não passa, Marie. Já fazem dias, ele mal tinha lembrado que eu existo e eu já vi ele em festa com outras, já vi ele mandando mensagem pra outras. Por que quando eu tô superando ele vem? Por que ele lembra de mim? Por que não continua fingindo que eu não existo? O que se passa na cabeça dele? Por que ele era tão fofo comigo? E por que só agora fui descobrir que ele é assim com todas?
– Calma, respira.. — Digo e a dou outro abraço. — Meu amor, esquece ele. Você vai achar alguém melhor. Que te fará sorrir, não chorar. Ele é um verdadeiro galinha, idiota, babaca. E você precisa esquecer ele. É isso, você sabe.
– Se você conhecesse direito ele, me entenderia.
– Eu te entendo. Eu já conheci muitos canalhas, lembra? Agora sou incapaz de me apaixonar por um, graças a Deus.
– Mas ele é um canalha tão... Tudo de bom.
– Anne, você não conheceu ele direito, foi isso. Vamos mudar de assunto, você tem que se distrair, tá afim de ir pra algum lugar hoje a noite?
– Pra onde? Uma festa em que ele esteja? Pra eu ver ele beijando outras? Dispenso. Pode ir sozinha, amiga. Eu fico bem.
– Tem certeza?
– Sim... Eu vou ter que superar, não vou? Uma hora ou outra.
– Vai. E você vai conseguir, confie em você, como eu confio. E te veja com meus olhos. Você é linda, não merece sofrer assim por tão pouco.
– Obrigada... Você também não merece. Tá melhor?
– Eu não tô sofrendo, já superei. Tinha que superar. E agora, pode estar certa, eu mudei. Bom, amiga, eu vou embora. Só vim ver como você tava, logo meu primo chega em casa e eu tenho que estar lá.
– Ok. Obrigada por vir.
– De nada.
A gente de abraça mais uma vez e vou em direção a minha casa, e enquanto estou indo, um carro diminui a velocidade e abaixo o vidro, ao meu lado.
– Oi. — Respiro fundo e ignoro ao ver quem é. John. — Oi. — Ele repete.
– Oi. — Respondo e pela primeira vez olho pra ele. Digo, de verdade. Já o vi antes, mas nunca nem se quer reparei. Cabelo castanho, bagunçado e liso. Tem barba, mas bem pouca, e mal feita. Um sorriso bonito. Olhos amendoados. Realmente bonito. Talvez seja por isso que tantas meninas gostam dele. Mas o que adianta ser tão belo por fora, e ser horrível de modo infeliz por dentro?
– Você é... Marie, certo?
– Sim, e eu tô indo embora. Tchau.
– Não quer uma carona? — Pergunta com um sorriso malicioso e de lado.
– Obrigada, dispenso.
– Eu moro perto de você, é só uma carona vai, eu não mordo. A não ser que você queira...
– Como você sabe aonde eu moro? — Pergunto surpresa.
– Sou um cara muito bem informado.
– Eu também sou bem informada, por isso, dispenso sua carona.
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