Fragmentos de Lembranças
19 O Acidente
Notas iniciais
Capítulo Narrado pela Terceira Pessoa.
Aquela noite tinha tudo para ser perfeita, as estrelas brilhavam ao lado da lua, e assistiam do céu negro a felicidade de Anabell. A garota realizaria um sonho de criança e interpretaria a personagem principal Odette na peça O Lago dos Cisnes.
O casal estava a alguns passos da Academia de Dança, com apenas uma avenida à caminho para atravessar. Do outro lado da rua podia-se enxergar os cartazes divulgando a peça, e as luzes iluminando a entrada.
Anabell entregou nas mãos de Eric seu celular, e agachou-se para amarrar a fita de sua sapatilha. No mesmo instante, o menino sentiu o celular vibrar, e por reflexo abriu a mensagem que havia chegado. Seu coração não pode aguentar, era o ciume falando mais alto que todas as suas outras emoções. Joseph Edwards, o garoto que declarou guerra contra Eric, estava no remetente da mensagem que dizia:
– "O ensaio de ontem foi ótimo. Estou louco para te ver de novo"
Anabell levantou-se, e enciumado com o que leu, Eric jogou de volta o celular nas mãos da garota.
– Olha só quem está louco pra te ver. — Ele gritou. Mesmo de costas para a avenida, ele continuava dando passos, sem dar o mínimo de atenção para os carro que vinham à sua direção..
Reclamava enciumado com Anabell, e ela, sem entender o que estava acontecendo. Ela viu o perigo que ele corria agindo daquela forma, e avistou de longe um carro em alta velocidade. Desesperada, ela gritou para que ele pudesse se salvar a tempo, mas era tarde de mais. O carro lhe atingiu.
Ela viu de perto o corpo de Eric estirado no chão. Desmaiado e com ferimentos graves. Em seu rosto, alguns cacos de vidros perfuraram sua pele, o corte no supercílio que ganhou meses antes, se reabriu, e em sua cabeça, um corte profundo. O chão coloria-se do sangue vermelho de Eric. O para-brisas do carro estava completamente destruído. Uma multidão de pessoas se formou ao redor do corpo inconsciente e ferido de Eric. Anabell ligava desesperadamente para uma ambulância. Com o celular colado em sua orelha, olhou para o motorista responsável, e o mesmo, sorriu debochado, e em instantes, sumiu daquela imensidão de gente.
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O corpo de Eric foi levado para um hospital com urgência, e rapidamente, os médios trataram de fazer curativos nos cortes causados pelos cacos de vidros. Ele, porém, não acordava. Sua cabeça se chocou tão fortemente contra o chão, que lhe causou um coma.
Sentada em uma cadeira ao lado da cama hospitalar, Anabell observava o rosto coberto por curativos de Eric, e em silêncio, ouvia os aparelhos trabalhar pela saúde dele. Segurando a mão fria dele, ela torcia para que ele acordasse logo. Anabell viu a maçaneta se mexer, e sabia que havia alguém do outro lado da porta.
– Vim assim que recebi sua ligação, querida. — Luíza entrou desesperada. — Como ele está? — Perguntou se aproximando do corpo coberto por cateteres e tubos.
– A enfermeira disse que a recuperação dele pode ser longa, já que ele teve um corte profundo na cabeça. — Anabell respondeu tristonha.
Luíza respirou fundo, tentando se acalmar. Se sentia culpada pelo que aconteceu, era responsável pela vida do sobrinho desde que sua irmã o deixou. Agachou-se ao lado de Anabell, e lhe perguntou o que aconteceu.
– Ele ficou nervoso com uma mensagem que recebi, e atravessou a rua. Não viu que vinha um carro em alta velocidade e.. foi atingido.
– E o motorista?
– O motorista? — Repetiu tremula. Seu rosto já branco, ficou ainda mais pálido.
– Sim, o motorista, querida. Ele está por aqui?
– Bem, o motorista, ele.. — Anabell disse focada na sombra que as observava pela janela. Era o mesmo rapaz de antes, o motorista. Era um rapaz alto, tinha cabelos castanhos e um tanto encaracolados, barba mal-feita, olhos claros e a pele pálida. Ela mais do que ninguém, sabia quem ele era.
– Você está bem querida? Quem está procurando? — Luíza perguntou olhando para a mesma direção que Anabell, mas não encontrou nada.
– Estou sim. O motorista abandonou o carro e fugiu.. — Falou ainda concentrada na janela.
– Que desgraçado. Aposto que ficou com medo de se encrencar pelo atropelamento. Mas não se preocupe querida, o que é dele está guardado. Agora, vá descansar um pouco, esteve aqui a noite toda. Pode deixar que eu fico com ele aqui, se ele vier a acordar, prometo te ligar, tudo bem? — Luíza sugeriu.
– Tudo bem. — Ela falou levantando-se da cadeira.
Acelerou os passou para que pudesse alcançar o rapaz que observava perante a janela. Não encontrou nada além de médicos, enfermeiras, pacientes feridos e até mesmo mortos.
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Uma semana se passou após o acidente, e Eric continuava em coma. Luíza, Caroline e Anabell revisavam as noites que passavam ao lado dele, esperando para que seus olhos se abrissem novamente.
Naquela manhã, Anabell perambulava de um lado para o outro, quando viu a mão esquerda de Eric se mover. Correu para ver de perto, mas ele havia parado.
Deitou sua cabeça no peito de Eric, e sem mais aguentar, deixou que as lágrimas que imploravam para sair serem vistas.
– Eric, por favor, acorda. — Falava. — Acorda logo, não posso te perder de novo. — Dizia em meio as lágrimas. Sua voz estava abafada, mas foi o suficiente para Eric ouvir.
– E quando foi que você perdeu? — Ele respondeu com a voz falhada e fraca.
– Eric? Eric? Você acordou. Não acredito. — Falou levantando sua cabeça. Viu que ele realmente estava acordado, e não pode ficar mais feliz. — Finalmente você acordou, está se sentindo bem? — Perguntou.
– Eu poderia estar melhor. E como assim finalmente? Por quanto tempo estive desacordado? — Eric perguntou confuso, se esforçando para colocar seu corpo fraco sentado na cama.
– Uma semana. — Ela respondeu o ajudando.
– Uma semana? Pra mim aquilo aconteceu ontem. Lembro claramente de ter ouvido sua voz me alertando sobre o carro, como se tivesse acabado de acontecer..
– Pode até ter sido rápido pra você, mas para mim, Luíza e Caroline foi uma eternidade. Sabia que você poderia ter morrido?
– Mas não morri. Mas não quero falar sobre isso, como foi a peça? — Perguntou ele com dificuldade.
– A peça? Eric, você sofreu o acidente no dia da peça. Eu fiquei com você no hospital a noite toda, não interpretei a Odette.
– Porque fez isso? Abriu mão de seu sonho por mim?
– Porque me preocupo. E era um sonho bobo de criança, pode vir a acontecer de novo outras vezes..
– O que foi que eu fiz pra te merecer, hein? — Ele sorriu. Ela
o beijou na testa.
– Vou buscar algo para você comer, volto em um instante. — Ela falou próxima a porta.
Aquele seu sorriso alinhado voltou a bordar o rosto dela. Desceu as escadarias correndo, foi até uma lanchonete que havia frente ao hospital, e lá comprou o maior lanche que avistou. Deduziu que Eric estaria faminto, e que a comida do hospital não iria satisfaze-lo.
Quando voltou ao quarto, Eric havia adormecido novamente. Ainda cansado e fraco, não aguentou espera-la voltar. Ela balançou a cabeça negativamente, ainda com um sorriso no rosto. O cobriu novamente, e colocou o lanche que comprou na mesa ao lado da cama. Virou-se para porta, e se assustou com quem viu.
– O que faz aqui? — Perguntou assustada.
– É assim que me recebe depois de tanto tempo, Anabell? — O homem perguntou aproximando-se dela.
– Todo desprezo do mundo ainda é pouco para você, saia daqui ou vou gritar. — Ela ameaçou.
– Mas porque, Anabell? Eu te ajudei tanto, lembra? — Falou irônico.
– Você, foi você quem atropelou o Eric. Porque está fazendo isso, já não teve o que queria?
– Sim, eu consegui o que queria. Mas você está me contrariando, e não vou deixar que isso aconteça. Ah, não se preocupe meu bem, só quero assistir as desgraças de sua vida mais de perto. Não é fácil assistir de longe.
– Então é você quem anda invadido minha casa de madrugada? — Perguntou desconfiada.
– Exatamente. Oh, Anabell, não fique brava, eu estava com saudades, e toda vez que eu me aproximava para dizer um Oi, você gritava, assim como pretende fazer agora.
– E com razão. Fique longe de mim. — Ela afastava-se.
Com a discussão, Eric que ainda não havia dormido por completo conseguia ouvir com dificuldade a conversa. Tentava enxergar o homem com quem Anabell conversava, mas sua visão estava turva, e tudo que ele enxergava era um grande borrão.
– Anabell, quem esta aí com você? — Perguntou tentando levantar-se da cama.
– Eric? Está acordado? — Ela perguntou virando seu corpo em direção á cama.
– Quem esta aí com você? — Tornou a perguntar.
– Ninguém. — Ela respondeu.
– Vou estar sempre observando seus passos, assistindo de perto as tragédias que a vida planeja para você. Te vejo por aí, minha doce e adorável, Anabell. — O homem disse saindo pela porta.
Antes que pudesse fechar-la, Victória apareceu, e consigo carregava flores e balões.
– Anabell, vamos ter um trégua pelo menos hoje. Quero vê-lo. — Victória disse entrando pela porta.
– Tudo bem. — Anabell respondeu saindo pela porta.
– Anabell, espere. — Eric gritou, mas ela já havia saído.
Victória aproximou-se de Eric, colocou as flores na mesa, e amarrou os balões na cabeceira da cama. Sentou na cadeira, e sorriu ao vê-lo acordado.
– Está se sentindo melhor? — Perguntou.
– Estou sim, um pouco fraco e cansado, mas estou. Victória, você viu quem era o homem que saiu pela porta agora pouco? — Ele perguntou curioso.
– Não consegui ver o rosto dele, ele saiu tão depressa. Você viu que Anabell saiu correndo atrás dele? — Ela provocou.
– Não começa, Victória. Não foi você quem acabou de pedir à ela trégua? Acho que aquele homem não faz muito bem à ela...
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Do lado de fora do quarto, ela procurava pelo homem, mas ele foi mais rápido, e como fez das outras vezes, sumiu antes que ela pudesse alcança-la. Distraída, acabou esbarrando em um homem alto e de cabelos negros. Olhou para cima para que pudesse enxergar o rosto do homem, mas não era quem ela procurava, e sim Sebastian.
– Sebastian, ele voltou a me procurar. — Ela disse desesperada.
– E o que queria desta vez? — Sebastian perguntou nervoso.
– Foi ele quem atropelou o Eric. Estou com medo, Sebastian. Não sei o que ele é capaz de fazer. — Falou abraçando seu fiel e companheiro mordomo.
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