8 meses depois…

Acordei cansada naquele dia. Devo dizer que não acordei, apenas abri os olhos, preguiçosa e com vontade de continuar na cama. Mas eu não podia dormir; eu tinha que levantar da minha cama deliciosa, tomar banho, vestir-me, ir para o trabalho. Estiquei os braços querendo me espreguiçar quando senti os lábios de Patch em meu pescoço. Sorri instantâneamente.

— Bom dia, anjo. — Ele sussurrou no meu ouvido. O seu hálito quente fazia cócegas em minha pele, e eu adorava sentir a sua boca logo de manhã cedo. As mãos de Patch estavam firmes em meus quadris, segurando-me e mantendo-me perto dele o suficiente para que eu pudesse me sentir bem. Quis virar-me para ele, mas não consegui. — Dormiu bem?

— Enquanto eu dormi, sim, foi ótimo. — Impliquei. Eu só percebi que estava completamente nua quando ele deslizou a mão para o meio das minhas pernas, tocando-me com total indiscrição. Patch gostava tanto de me tocar exatamente ali que eu acho que ele faria aquilo em público, se tivesse a oportunidade. — Patch, eu tenho que trabalhar, sabia?

Ele fingiu que não me ouviu. Seus lábios me beijavam o pescoço, o colo, a orelha, enquanto ele invadia a minha intimidade com os dedos macios. Meus músculos ficaram amolecidos imediatamente; aquela sensação de bem estar que só ele sabia me proporcionar. Já havia se passado muito tempo desde a nossa última discussão, e eu não me lembrava mais de ter me indisposto com Patch nenhuma vez. Eu precisava deixar de ser insegura e de querer mudar o que eu mesma não queria ver mudado. E Patch tentou impedir que eu visse as garotas se relacionando com ele. Porque eu tinha certeza que elas continuavam a tocá-lo e a desejá-lo; eu só não sabia mais.

Virei-me para Patch à força, e olhei em seus olhos completamente dilatados. Suspirei, irritada e extasiada, porque ele parecia muito mais perfeito do que ele realmente era. Ninguém tinha o direito de acordar lindo, penteado, cheiroso, como Patch. Ele estava sempre refrescado, e aquilo era inadmissível. Eu certamente estava tão amassada quanto uma uva passa, mas lá estava ele, impecavelmente olhando para mim e me fazendo desejá-lo logo nas primeiras hora da manhã.

— São sete horas, anjo. — Ele sussurrou novamente, e atacou meus lábios, beijando minha boca com aquele gosto de manhã. — Você não precisa levantar agora…

Eu não precisava, mas isso não queria dizer que eu não deveria. Era inútil argumentar com Patch. Ele virou-se por cima de mim, prendendo-me entre seu corpo e o colchão, e segurou minhas duas mãos atadas por sobre minha cabeça. Enquanto eu ensaiava um protesto, Patch começou a beijar-me o pescoço novamente, e quando dei por mim ele já sugava meus seios e me penetrava violentamente. E eu, que estava absurdamente excitada, não sabia que ele também estava pronto para continuar de onde tínhamos parado, à noite.

Geralmente, durante as manhãs, Patch me proporcionava orgasmos fantásticos. Ele dizia que era para que eu começasse bem o dia; que ele apostava que nenhuma mulher poderia ficar mal humorada depois de uma boa sessão de sexo. Aquilo quase nos causou uma briga, porque eu me questionei para quantas mulheres ele já tinha feito aquilo. Foi só até eu me lembrar que Patch nunca fez sexo com ninguém como sendo um anjo, apenas comigo. Antes, ele esperava o cheshvan e possuía o corpo do seu vassalo nefilin para depois relacionar-se com mulheres. O corpo físico de anjo dele nunca tinha tocado uma mulher, e aquilo era o suficiente para me fazer esquecer qualquer discussão.

Eu esquecia até mesmo Dabria.

— Agora você pode se preocupar em trabalhar. — Ele beijou meus lábios outra vez, depois de alguns minutos necessários para nossos corpos se recomporem.

— Agora eu não quero mais. — Dei uma risada. Era mesmo difícil sair de perto dele. Mas eu precisava fazer outras coisas que não apenas sexo com Patch. — Qual será a sua programação do dia? — Perguntei.

— Vou tratar de negócios com Rixon. — Ele se levantou e caminhou para o banheiro. Eu tinha a opção de ir atrás dele, mas eu e Patch no chuveiro raramente gastávamos menos do que meia hora no banho. Se fosse tomar banho o que estivéssemos fazendo. Por outro lado, eu era dependente demais dele. Era uma droga; ele era meu vício e eu não fazia questão alguma de me curar. O toque de Patch, a voz de Patch, a presença de Patch; tudo nele me confortava, me acalmava, me fazia sentir melhor. Achei melhor entregar-me e perder-me com ele no chuveiro.

— Vou levar Rose para a universidade, então. — Falei, entrando de cabeça na água morna. Fazia frio em Portland; ainda era inverno e as temperaturas naquele ano estavam baixas. — E depois passarei no mercado; quase não tem comida nessa casa.

— Se quiser, eu fico com ela.

— Está tudo bem, Patch. — Apoiei-me em seu peito, enquanto permitia que os dedos dele esfregassem meu couro cabeludo. — A universidade tem creche, Rose adora as outras crianças, e todos os meus colegas adoram a nossa filha. Ela não vai estar menos segura lá do que estaria aqui, ou com você.

Ele me beijou, assentindo parcialmente. Patch era super protetor, mas nunca demonstrava aquilo desnecessariamente. Depois de devidamente vestida para o trabalho, fui até o quarto de Rose, que dormia ainda, e tive que acordá-la. Minha filha nunca parecia ter mal humor, e vê-la chorar era a coisa mais difícil de todo universo. Não era à toa que todos a adoravam; ela estava sempre sorrindo e interagindo com qualquer um. Os seus cachos loiros como a palha do milho estavam maiores, enfeitando sua cabecinha de bebê. E os olhos azuis eram absurdos, destoavam da maioria dos olhos azuis que existiam. Claro, ela era um anjo, e não uma pessoa comum.

Patch vestiu seus jeans escuros e sua camiseta preta padrão, com as botas de motoqueiro e foi para a cozinha preparar o café da manhã. Mamãe não estava mais conosco; ela voltou para Coldwater e para o seu trabalho com leilões quando Rose completou seis meses. Eu sentia falta dela, eventualmente, mas era preciso cuidar da minha família sozinha, pelo menos um pouco. Eu e Patch estávamos nos saindo muito bem, criando um bebê especial e trabalhando para pagar as contas. Eu trabalhava, Patch jogava, e ganhava mais dinheiro do que podíamos gastar.

O dia transcorreu perfeitamente bem, como tudo estava perfeitamente bem. Tinha que ter alguma coisa errada para atrapalhar as coisas, mas eu não estava pensando nisso quando peguei minha Rose e fui com ela para o supermercado, que ficava bem perto do meu apartamento. Lá ela poderia ficar no bebê conforto do carrinho de compras, que ela adorava. E eu compraria tudo que faltava para a casa, porque Patch também precisava de uma alimentação regular, com a sua condição semi-humana. Mas.

— Nora? — A voz era conhecida. O cheiro também. Virei o pescoço para visualizar Scott, loiríssimo e lindíssimo, na minha frente.

Scott. Fazia tanto tempo que eu não o via que quase me esqueci que ele também morava em Portland.

— Oi, Scottie. Tudo bem? — Tentei ser gentil. Terminei com ele, mas não me tornei sua inimiga. Ao menos era o que eu pensava. Mas ele me olhava com uma cara pouco amistosa, e não conseguia tirar os olhos de Rose.

— Então é verdade. — A voz dele era grave. Ele se aproximou, e coloquei-me na defensiva.

— O que é verdade?

— O bebê. — Ele apontou para Rose. Tirei minha filha do carrinho e segurei-a nos braços, como se aquela atitude fosse fazer alguma diferença. — Você teve mesmo um filho.

— Como você sabe que eu tive um filho, Scott? Ouviu falar em Coldwater? Minha mãe fez fofoca?

— Ora, Nora. Não se faça de inocente. Você sabe o que eu sou, claro que você sabe. — Scott sorria, mas não havia humor naquele sorriso. — Seu namoradinho caído te contou, certamente. E por isso você terminou comigo. Você teve um filho dele, do anjo caído. Isso é… esquisito.

— Eu não vou ficar discutindo esse tipo de assunto com você, no meio de um supermercado. — Falei, querendo ir embora. Mas ele não parecia muito interessado naquilo. Não parecia interessado em me deixar sair, ou em parar a conversa.

— Posso vê-lo? — Ele se aproximou mais.

— Não ouse tocá-la. Por que você está interessado nela, o que você quer com a minha filha?

— Filha? — Ele riu. — É uma menina! Veja, que curioso. Nora, entenda que a sua filha é um presente dos anjos. Para os anjos, na verdade. E eu sou um Nefilim; aposto que seu namorado também explicou que somos naturalmente inimigos. Afinal, todo ano ele e a turma dele possuem os Nefilins para transformar nossa existência em um inferno, por duas semanas.

— Patch não faz mais isso. — Torci os lábios, não querendo pensar naquelas coisas que ele fazia antes de mim. Patch tinha um passado, e um passado do qual nenhum de nós se orgulhava. — Ele não tem mais um vassalo, ele não possui mais ninguém.

— Ele ainda é um anjo caído. — Scott moveu os ombros. — Mas tudo bem, o Mão Negra vai adorar saber que a criança é verdade.

— Quem? — Meu cérebro não conhecia aquele nome.

— Mão Negra. Ele espalhou o boato de que os arcanjos tinham criado uma raça nova de semi-anjos, mas ninguém sabia se era verdade. Agora você está me apresentando a filha de um arcanjo caído. Quando ele ficar sabendo, será um sucesso entre os Nefilins.

— Você não vai contar para ninguém que me viu, ou que a viu! — Protestei, e segurei Rose com mais força. Ela estava dormindo, e eu senti imediatamente vontade que Patch estivesse ao meu lado. Senti-me incapaz na presença de Scott, como se ele tivesse um poder com o qual eu não poderia lidar. — Deixe-me em paz, Scott; deixe minha família em paz. O tempo que passamos juntos não significou nada para você?

— Para mim, sim. — Ele enrijeceu o semblante. — Mas você foi correndo se deitar com o caído; justo com um caído, Nora! Você, uma Nefilim, por que?

— Não sou Nefilim. — Protestei.

— Realmente, você é uma puro-sangue. Ainda assim, deveria ser inimiga dos caídos. Eles subjugam nossa raça, e você virou a prostituta de um deles.

Fechei os olhos e decidi que eu precisava me controlar. Scott não poderia me tirar o sério a ponto de me fazer perder a linha em um ambiente público. Olhei para ele, e havia fogo em meus olhos, e disparei para fora do supermercado, caminhando de volta para casa a passos largos. Meu sangue estava em ebulição; eu estava com muita raiva de tê-lo encontrado e de ter ouvido o que ouvi. No caminho para casa, no entanto, só conseguia pensar em quem seria Mão Negra e por que ele gostaria de saber da minha filha. Eu não entendia muito daquele universo, mas eu tinha certeza que o que vinha por aí não era boa coisa.

Para minha sorte, ao chegar ao apartamento encontrei Patch, Rixon e Vee, que me aguardavam. A ideia era sairmos para jantar, porque Patch, apesar de tudo, lutava contra ficarmos toda noite perdidos apenas no corpo um do outro. Eu não estava reclamando, eu adorava sair com meus amigos. E, naquele momento, eu não me importava em ter um monte de gente em casa. Patch notou a minha apreensão tão logo eu apareci esbaforida com Rose. O bebê, sempre muito calmo, não dava sinais de stress. Já a mãe dele… eu parecia uma pilha alcalina quando fechei a porta do apartamento; respirando com dificuldade e tremendo. O encontro com Scott não justificava toda aquela agitação, então eu só podia acreditar que meu sexto sentido havia captado algo ruim acontecendo.

— O que houve, anjo? — Patch segurou-me em seus braços imediatamente após entregar Rose para Vee. — Aconteceu alguma coisa, você viu algo estranho?

— Eu encontrei-me com Scott no supermercado. — Disparei. Vee fez uma careta, e Rixon tinha uma interrogação estampada na face. Para ele, meu ex-namorado Nefilim não deveria fazer muito sentido.

— E o que aquele Nefilim fez para te deixar assim? — Patch rosnou.

— Ele sabe de Rose. — Olhei para Patch, desejando mergulhar no escuro breu de seus olhos e desaparecer ali. Ele me trazia conforto, sempre; e era o que eu estava precisando. — Ele disse que um tal de Mão Negra gostaria de saber que ela existia de verdade. Eu não sei quem é Mão Negra, mas eu não gostei da conversa, Patch. Não mesmo.

— Você tem razão em não gostar. — Rixon ponderou. — Nenhum assunto envolvendo o Mão Negra é agradável. O que você acha que significa, Patch-o?

— Eu não sei. — Patch mantinha-me abraçada a ele, enquanto divagava. A sua linguagem corporal mostrava que ele estava distante dali, pensando. — Rose é assunto dos arcanjos; eles têm interesse nela. Não vejo o que os Nefilim possam querer com um anjo.

— Eles não podem achar que ela também é um Nefilim? — Arrisquei. Afinal, Rose era filha de anjos que possuíram humanos, e os Nefilim poderiam não ser espertos o suficiente para entender que ela era uma puro-sangue. Ou que implicações aquilo representaria.

— Pode ser que sim. — Patch ainda estava distante.

— Eles podem acreditar que Rose seria uma importante aliada, pois, no final, ela seria um Nefilim muito poderoso. — Prossegui com minha teoria — Os arcanjos podem chamá-la do que quiserem, e podem dar a ela diversos atributos, mas Rose é filha de um arcanjo caído com um Nefilim.

— Nora. — Ele segurou minha face entre as mãos e me encarou. Seus olhos estavam tão agitados que pareciam um mar em tormenta. — Nunca compare nossa filha com essas bestas impuras. — Patch disse, em tom de voz austero. — Rose é um anjo; você é uma criatura especial. Eles podem te chamar de Nefilim, mas você é filha de dois arcanjos. Não há sangue humano em suas veias. E Rose, ela é ainda mais pura. Por isso os arcanjos têm tanta admiração por seu trabalho; Rose é a primeira criatura que eles conseguiram que possui consistência humana, corpo físico humano, mas não o é. Eles teriam usado você, se não tivessem chegado tarde demais. Depois dos dezesseis, você se tornou inútil para eles.

As palavras de Patch não me fizeram sentir melhor do que as de Scott. Tudo aquilo era repugnante demais, acreditar que aqueles imbecis estavam todos atrás da minha garotinha para transformá-la em objeto de suas guerras. Eu odiava pensar naquilo.

— Então, eles podem querer eliminá-la? — Era meu último palpite.

— Sim, eles podem. — Patch olhou para Rixon com chamas saindo de seus olhos. — Vamos deixar as garotas em casa; elas comem uma pizza. Precisamos encontrar alguns Nefilins e fazê-los falar.

— Ah, mas não vamos ficar aqui olhando enquanto vocês caçam monstrinhos pela noite! — Vee protestou, mais do que depressa.

— E o que você pretende que façamos? — Rixon cruzou os braços e a encarou. — Acha que deveríamos levar vocês para um passeio e, eventualmente, torturar alguns Nefilins?

— Eu só sei que você me prometeu um jantar e depois uma noite romântica; não falou nada de tortura ou seja lá o que for que pretenda fazer com esses Nefilins. — Minha amiga estava irredutível, e tive uma enorme vontade de rir, mesmo em se tratando de uma situação tão tensa.

— Eu continuo prometendo a noite romântica. — Rixon aproximou-se de Vee e beijou-a na boca, sem nenhuma suavidade. Eu poderia apostar que ela adorava ser tratada daquele jeito por ele; eu também adorava ser abusada por Patch. Principalmente porque era apenas encenação; eu duvidava que ele fosse capaz de me ferir. — Mas precisamos resolver isso. Você não quer ajudar a sua amiga?

Vee fez uma careta, mas assentiu. Eu não tinha conseguido comprar nada do que pretendia, então a melhor opção era mesmo pedir uma pizza e passar a noite em casa, enquanto os anjos caídos causavam o caos entre a sociedade Nefilim.

— Deixe tudo fechado. — Patch disse, antes de sair. — E não abra a porta para ninguém que não seja eu. — Ele me beijou também. — Mantenha seu celular próximo de você. Pode fazer isso, anjo?

— Sim. — Resmunguei. Eu era como Vee, preferia ir atrás deles caçar bandidos do que ficar em casa sendo mãe de Rose e me protegendo de algo que eu nem sabia o que era. Mas havia responsabilidades que eu não podia evitar. E que, no final das contas, eu adorava.

Os dois caídos saíram porta afora e Vee ligou a televisão, escolhendo algum filme em preto-e-branco que deveria ser mais velho do que minha mãe. Depois, puxou uma lixa de unha e o celular da bolsa, na intenção de pedir a pizza e cuidar da beleza, ao mesmo tempo. Só me restava aguardar.