Four Sun: Legados

1 1# — Invasão das Crianças Assassinas.


Four Sun — Invasão das Crianças Assassinas

Era uma manhã ensolarada no Reino de Áries, aparentemente um dia como qualquer outro. Ao sul, cercada de árvores, sobre uma longa estrada rochosa, ficava uma das quatro fronteiras do reino, que era fechado por dois imensos portões de aço e vigiado por uma dupla de poderosos guardas. Sentados em cadeiras, eles se aproveitavam da calmaria sonolenta de que gozavam para conversar despreocupadamente e faziam seu máximo para não dormir em serviço.

Desde que foi fundada, ninguém jamais tentou invadir aquela nação. Podia-se dizer com segurança que as fronteiras eram as regiões mais tranquilas daquele lugar. Por isso, guardá-las era um dos empregos mais almejados pelos arianos, quem exercia essa função recebia para passar manhãs, tardes, noites ou madrugadas inteiras sem fazer ou temer coisa alguma. Isso estava a ponto de mudar.

Enquanto os homens riam de uma piada contada pelo rapaz da direita, uma pequena menina loira, de olhos e pele clara, vestido branco florido, de pés descalços e olhar disperso, andava vagarosamente pelo meio da estrada na direção dos três degraus em que eles estavam. Ao notar a presença da baixinha, ambos pararam de rir.

O da esquerda se levantou, foi até ela sorridente e olhou em volta para ver se alguém a acompanhava. Não avistando ninguém, se abaixou com as mãos nos joelhos e falou com ela:

— Oi, anjinho. Se perdeu do papai e da mamãe?

A criança nada respondeu. Permaneceu calada e inerte por alguns segundos quando, de repente, acertou o meio da cara dele com um soco tão forte que o arremessou sobre os portões e os derrubou. O outro vigia conseguiu sair a tempo do raio de alcance dos destroços, partiu pra cima da criança mas foi morto tão facilmente quanto seu companheiro, só que com um chute giratório no estômago.

Após vencê-los, a garota subiu os degraus tão pacientemente quanto chegou no local, cruzou a entrada e, sem nenhuma resistência, adentrou o reino.

A vários quilômetros de distância dali, através das lentes de um binóculos e de pé sobre o teto de um caminhão, Arashi contava a quantidade de homens a cercarem um prédio. Em harmonia com sua jovem mente, seus olhos verdes claros localizaram dez atrás dos muros que fechavam o edifício e três no portão da frente.

Após realizar a contagem, o moreno colocou o binóculos dentro do bolso direito da jaqueta, se agachou e retirou os cabelos negros da frente dos olhos. Deu um toque na orelha esquerda, olhou ao redor e avisou aos seus companheiros escondidos:

— Dez dentro e três fora. Yue, Naomi e Sora, vocês cuidam dos de fora. Kin, pode acabar com os de dentro?

— Me ofende você perguntar isso. — A moça respondeu.

O prédio era rodeado por um extenso matagal. A doce Yue, a menor e mais nova do grupo, dona de uma curta cabeleira azul clara, de um par de olhos castanhos e de uma macia pele branca, estava deitada a quinhentos metros do alvo com sua camiseta preta sem mangas e seu short branco, oculta entre as gramas.

Logo ao lado de Yue estava Naomi, que tinha aproximadamente a idade dela, vestia o mesmo modelo de roupas mas possuía uma longa cabeleira lisa, castanha, olhos cor de mel e pele clara. A sua destra estava o impulsivo e vaidoso Sora, um jovem de descendência asiática que não gostava de usar camisas e tinha o corpo quase que todo coberto de tatuagens.

Sentada no galho da grande árvore atrás do trio estava a orgulhosa Kin. Loira natural, alta e sarcástica, trajava, a contragosto, roupas iguais as de Yue e Naomi. Seus olhos negros pairavam sobre os três homens que defendiam a frente da propriedade abandonada. A expressão de seu rosto não sofreu alteração alguma, seu narizinho fino e arrebitado continuou empinado — dois clássicos sinais seus de autoconfiança. Ela tinha certeza absoluta de que venceriam.

— Haru, você vai no meu sinal. Eu te dou cobertura daqui de fora. — Arashi sussurrou.

— Tudo bem. — Respondeu o garoto, cuja localização nem mesmo Arashi tinha ciência ainda. Irmão mais novo de Kin, seus olhos e seu nariz lembravam bastante os dela, muito embora os cabelos dele fossem alaranjados, um pouco mais lisos que os dela e seus olhos fossem castanhos. Suas roupas eram uma camisa preta sem mangas com capuz, uma bermuda cinza e chinelos de dedo.

O moreno deu à Yue, Naomi e Sora a deixa para avançar, os três, sem hesitar, obedeceram e correram animados na direção dos oponentes. Sora golpeou o do meio com um soco, Yue o da direita com uma joelhada e Naomi o da esquerda, com um chute. Os homens foram arremessados contra a parede mas se recompuseram e continuaram lutando.

Assim que Arashi ordenou, Kin abriu um par de asas douradas e voou até o prédio, aterrissando no quintal. Os dez guardas a notaram imediatamente, ela sorriu com arrogância e ergueu a guarda de combate. Todos a atacaram ao mesmo tempo. Do lado de fora, enquanto isso, Haru planava sobre o edifício com suas asas, aguardando o comando do líder. No segundo em que recebeu o aval, invadiu o oitavo andar do lugar pela janela.

Lá, bem no centro do salão xadrez quadriculado, estava o baú do qual o Primeiro Ministro falou. Era por ele que estavam ali. O ruivo olhou ao redor, hesitante. Tão fácil assim? Avançou a passos calmos e desconfiados, sempre olhando para os dois lados. "Atrás de você", Arashi avisou, e Haru se virou bem a tempo de segurar o pulso do atacante, contendo a facada desferida por este.

Após imobilizar a mão do inimigo, Haru cabeceou o nariz dele, tomou a faca de sua mão e lhe permitiu recuperar-se. O homem, pouco mais alto mas muito mais musculoso, atacou furiosamente com socos, Haru habilmente desviou todos com as mãos, acertou as costelas dele com murros e atingiu-o na cara com uma cotovelada, o jogando no chão.

— Não quero soar arrogante, mas eu esperava mais. — Disse o garoto.

— Não baixe a guarda, Hayate disse que eles são perigosos. — Arashi o alertou.

O ruivo se distraiu, o adversário se aproveitou disso, enfiou uma agulha com uma seringa no braço, injetou um líquido azul diretamente na veia e se pôs de pé ofegante. Uma nova expressão tomou o rosto dele, uma mais feroz, e Haru recuou intimidado com a guarda levantada, mas levou um soco tão forte que seus braços cederam e seu queixo foi atingido em cheio. Em seguida levou outro, um cruzado de direita, um de esquerda e um pisão no peito, voando de costas para a pilastra mais próxima.

Sacudiu a cabeça em um gesto involuntário, como que tentando repelir a dor das pancadas. Apoiou-se na pilastra para ficar de pé e, quando parou de ver tudo girando, tocou o comunicador acoplado a sua orelha esquerda.

— Essa doeu. Eu devia ter te escutado. — Disse, com a guarda recomposta.

— Foco na luta, Haru. — Arashi o repreendeu novamente. Já disse a ele várias vezes que essa falta de concentração era seu maior defeito em batalha.

O inimigo tentou golpear Haru outra vez, mas ele se esquivou escapando pela esquerda. A pilastra foi acertada pelo soco, destruída e o teto declinou alguns centímetros. O oponente, estupefato com a própria força, olhou para cima, o garoto ruivo tirou vantagem disso e o chutou no estômago com a perna da frente, lançando-o sobre a parede ao lado.

Ainda mais irritado, o brutamontes atacou o menino com toda a força e velocidade de que dispunha; acertou três socos na cara dele, levou um no estômago e um no nariz, girou e chutou mas errou, ganhou uma cotovelada na cara, um murro no peito e contra-atacou com soco, mas o teve bloqueado. Os dois recuaram alguns passos e se entreolharam. Os dois sabiam que aquilo não iria terminar se ficassem apenas trocando golpes, quem quisesse vencer só o faria se valendo de uma estratégia.

— Ele tá lutando de igual pra igual comigo, como ele tá fazendo isso? Eu achei que estivéssemos lidando com seres humanos normais. — Haru, confuso, se reportou ao líder da missão.

— Acha que pode vencê-lo sozinho? — O moreno o indagou.

— Acho, mas vou levar mais tempo do que o exigido. — Respondeu.

Arashi, com um plano em mente, pediu:

— Atrai ele pra essa janela atrás de você.

O adversário atacou com socos, chutes e joelhadas por várias vezes seguidas, Haru, a fim de seguir a ordem de Arashi, regrediu vários passos até a janela, ficando encurralado; o grandalhão conseguiu pôr as mãos na sua garganta e a pressionou com tanta força, por tanto tempo, que seu rosto começou a mudar de vermelho para roxo. Não conseguia nem falar.

Quando Haru estava a ponto de desmaiar, uma flecha de gelo, disparada por Arashi, estilhaçou a vidraça da janela e acertou o vilão no peito com tanta brutalidade que o jogou pra longe do jovem que ele tentava matar. Salvo pelo gongo, o garoto caiu de joelhos enquanto seus pulmões voltavam a reter oxigênio e a dor passava.

A face de Haru ainda estava recuperando a cor normal quando Arashi o chamou:

— Tudo bem aí? Não estou te vendo mais.

Com muito esforço e as mãos nos joelhos Haru se reergueu, olhou pela janela e acenou em agradecimento.

— Vou ficar bem, só me dá alguns segundos. — Falou, mesmo rouco.

O teto estremeceu e desceu mais alguns centímetros. Aparentemente o inimigo previu a derrota e danificou todas as pilastras, então não tinha muito tempo antes de talvez o prédio inteiro se transformar num monte de escombros.

Preciso sair logo daqui, pensou, correu até o baú, pôs ele nos ombros e saltou pela janela, caindo no quintal no instante que sua irmã nocauteou o último dos dez homens contra os quais lutava. Os dois se entreolharam.

O edifício balançou, Kin anteviu a catástrofe, lhe cedeu a mão para ajudá-lo a levantar, o apoiou em seu ombro, derrubou o portão com um pisão e, juntos, eles abandonaram o quintal do lugar. Lá fora, Haru entregou o baú para Yue e se apoiou em Sora. Arashi pilotou o caminhão sobre o qual estava de pé até o grupo, o estacionou diante deles e esperou ali até que todos entrassem. Kin se sentou no banco da frente ao lado do motorista, Naomi e os outros foram para a parte onde eram postas as cargas.

Com todos dentro, enquanto o prédio se reduzia a ruínas num estrondo ensurdecedor, o moreno arrancou para bem longe dali em velocidade máxima. A expressão de Haru chamou a atenção de Yue. Ela o olhou da cabeça aos pés e notou rapidamente seus hematomas e ferimentos, preocupando-se.

— Deixa eu dar uma olhada mais de perto. — Largou o baú e pediu, pegando no queixo dele para examiná-lo. Quando criança seu maior sonho era ser uma médica, não era exatamente uma especialista mas até que entendia um pouco do assunto. — Foi descuidado de novo, né?! — Exclamou, sacudindo, irritada, a cara dele.

— Ai! Dá um tempo, eu não sabia que ele era tão forte, o Hayate disse que eram seres humanos comuns! — Se explicou. Virou-se reflexivo para o lado e pensou em voz alta: — Parando pra analisar agora, eu me lembro de vê-lo injetar alguma coisa no braço. Quando começamos a lutar, eu senti que podia matá-lo com um soco só, mas depois ele teve um-

Algo ou alguém estourou os pneus do caminhão, mas Arashi o freou e manobrou a tempo de impedi-lo de capotar. Sora deu um pisão na porta do caminhão para que Yue, Haru e Naomi pudessem sair, mas assim que eles tentaram descer uma equipe de homens armados os rendeu com fuzis e metralhadoras, os forçando a descer do caminhão com as mãos para o alto.

O quarteto, de mãos atadas, se ajoelhou. Um dos homens entrou no caminhão para pegar o baú quando Naomi, com seu charmoso sotaque francês carregado de raiva e aflição, gritou:

— Não se atrevam!

Um deles ia acertar a cara dela com o rifle mas Sora, com zero noção de perigo, entrou na frente.

— Não comigo aqui. — Disse ele, confiantemente. Apanhou no lugar da francesa, foi ao chão, ficou de pé de novo e, pronto para a briga, concentrou toda a força no punho direito, mas teve o cano de uma metralhadora encostado na testa e parou de se mover.

— É só dar a ordem! — Disse o homem que o rendeu, para o sujeito que liderava a operação.

Sora sorriu para ele. Tinha o cano de uma arma entre as sobrancelhas e estava sorrindo. Sua atitude impressionou os inimigos, mas enfureceu seus amigos — principalmente Yue.

— Não, abaixe essa arma, houve um engano. — Disse o comandante da operação, acompanhado de Kin e Arashi. — Hanzuki os mandou, eles são retalhadores.

— Deviam ter avisado antes. — Resmungou o rapaz que Sora desafiou. — Eu estava pronto pra fazer um buraco nessa sua testa, garoto.

O garoto soltou uma risada, deu de ombros e brincou:

— Talvez na próxima.

Depois virou-se para dizer algo aos seus amigos, mas antes que pudesse começar a falar, Yue deu um soco no meio da cara dele.

— Ficou maluco?! Na próxima vez que bancar o suicida na minha frente ou se eu ficar sabendo disso, quem vai te matar sou eu! — Ela gritava. Quando escutou a risada de Haru, apontou para ele e disse: — Isso vale pra você, também!

Caído, Sora ainda foi forçado a ouvir mais algumas broncas, insultos e ameaças. Após contarem que eram policiais, Arashi disse aos homens que tinham um prazo para entregar o baú e que, sem um meio de transporte, nunca iriam chegar a tempo, então receberam uma carona. Com o baú no colo, Naomi se perguntava o que haveria ali dentro.

Fim do primeiro capítulo.