Four Sun: Legados

2 2# — A essência de Azin.


2# — A essência de Azin.

Após entregarem o baú recuperado ao Hayate, segundo ministro, braço direito do primeiro e líder do Reino de Áries, Haru, Kin, Arashi, Sora, Yue e Naomi foram chamados no gabinete de Hanzuki, que ouviu de Hayate que um dos inimigos, embora humano, fez frente a Haru num combate corpo a corpo. O ancião estava preocupado e, assim como Arashi, acreditava ter motivos para estar.

O gabinete não era tão glamouroso quanto o grupo achou que era. Na verdade, nada tinha de glamouroso. Era pequeno a ponto de os seis, lado a lado, o lotarem, suas paredes eram feitas de madeira, seu teto era de concreto mas foi tingido de verde escuro, o piso tinha a mesma cor e era composto do mesmo material que o teto e tudo o que tinha no meio era uma mesa de madeira maciça vermelha. Na parede atrás dela estavam presos os quadros com os retratos dos ministros que o antecederam na sua atual função.

De todos, apenas Kin e Arashi já haviam estado ali antes. Eles estavam de prova: a arrumação e as cores nunca mudaram. As cores podem ter sido acentuadas, mas nunca alteradas. Ninguém se atrevia a mudar alguma coisa ali dentro, deixar tudo do jeitinho que estava era quase que uma tradição e não seria um idoso da idade de Hanzuki, com a personalidade conservadora dele, quem desobedeceria isso.

Um senhor de cabeça pelada, rosto sem nenhum resquício de barba, sobrancelhas grisalhas, pequena estatura, pele azeitonada, sempre com a expressão facial e corporal de um sargento veterano de guerras, Hanzuki volta e meia encarava Haru e seus ferimentos. Mas o ruivo era obstinado, não se deixava intimidar: o olhava nos olhos sem piscar.

Agora mesmo, enquanto Arashi falava sobre os meses que dispendeu com as investigações para descobrir o paradeiro do baú, de quem estava atrás dele e detalhava os acontecimentos decorrentes ao longo da missão e depois dela, os dois se entreolhavam fixamente. Toda atenção do ministro estava voltada para as palavras do moreno, mas seu olhar repousava sobre Haru.

Arashi parou de falar e Hanzuki fez mais algumas perguntas. Depois de ouvir respostas para as duas, o ancião sentiu que Sora queria perguntar algo e deu vez a ele.

— Eu só queria saber o que é que tem naquele baú. — Disse, sendo repreendido por seus companheiros. — Que é? Eu só perguntei o que todo mundo aqui queria saber! Além disso, pusemos nossos pescoços em risco lá, nós merecemos saber pelo quê!

— Isso não é da nossa conta, Sora. Não precisa dizer nada, senhor. — Disse Kin, secretamente pensando: — Cara, ele tem razão! Pensei que eu era a única que estava curiosa, ainda bem que ele perguntou...

Hanzuki pigarreou.

— Ele está certo, eu não tinha o direito de esconder essa informação de vocês e nem de pedir que Arashi o fizesse. Especialmente de vocês dois. — Se referiu à Kin e Haru, fazendo com que os dois se interessassem ainda mais em escutar a respeito. O velhinho se levantou e a equipe, curiosa, chegou mais perto da mesa dele. — Dentro daquele baú está a essência de Azin.

Eles não ficaram surpresos, só podiam dizer ter estranhado. Não viam sentido nas palavras dele.

— Como assim a essência do nosso pai estava no baú? — Haru perguntou. — Sem querer parecer desrespeitoso ou algo assim, mas na escola nos ensinaram que nossa essência está em nós e se esvai com nossa morte.

— Existe uma chance, muito remota, de que ela renasça através de alguém e, para evitar que as nossas caiam em mãos erradas, a mãe de vocês descobriu um meio de cristalizá-las. Foi o que fizemos com a de Azin. No entanto, Santsuki a roubou de nós há alguns anos e a escondeu. Desde então, encarreguei Arashi de encontrá-la. — Contou o primeiro ministro.

A verdade mexeu com Kin e Haru, revelando, enfim, o porque de Hanzuki ter mantido e pedido segredo. A loira e o ruivo ficaram visivelmente cabisbaixos, o clima na sala mudou.

— Se me dá licença, senhor, vou ao hospital cuidar dos meus ferimentos. — Disse Haru, numa desculpa perfeita para sair.

Ao vê-lo passear até a porta daquele jeito, o coração de Yue pesou de compaixão.

— Nós três podemos ir com você, se quiser. — Disse ela.

E ele retrucou:

— Não, tá tudo bem, eu não vou demorar.

Precisava ficar sozinho. Logo depois dele saiu Kin, Arashi pediu desculpas por ela a Hanzuki e foi atrás dela. Os outros três ficaram e conversaram por mais alguns instantes com seu chefe de estado, que lhes contou um pouco mais sobre a história dos pais de Haru e Kin e os parabenizou pelo sucesso e o profissionalismo na missão, dispensando-os em seguida.

Sem deixar o prédio, Arashi subiu e desceu escadas a procura de Kin, e justo quando ia desistir por pensar que ela precisava ficar sozinha, a encontrou sentada junto a parede no primeiro degrau do quarto andar, pensativa, claramente aérea. Aproximou-se a passos firmes para não assustá-la e mudar o curso de seus pensamentos.

Tocou o ombro da loira. Quando ela se virou para olhá-lo, ele tinha um sorriso de culpa na boca.

— Tudo bem? — A questionou.

Um tanto confusa, com um sorriso forçado nos lábios, Kin mexeu a cabeça para o lado convidando-o para sentar e respondeu:

— Tudo.

Os olhos verdes de Arashi fixaram-se numa pequena bolinha preta que manchava o chão entre seus pés. Mesmo aclamado como um gênio por seus superiores e por todos os que o conheciam, era um sujeito muito humilde e gentil com os que o cercavam, por isso Kin, que só não o conhecia melhor do que ele mesmo, não entendia a razão de sentir que ele tinha algo entalado na garganta para dizer.

— Me desculpa por não ter falado nada sobre o conteúdo do baú. Era direito seu e do seu irmão saber o que tinha nele. — O moreno disse, finalmente.

Kin se ajeitou com as costas na parede e o encarou.

— Não foi nada demais. Além disso, você só estava seguindo ordens. Como sua chefe, seria irônico eu ficar com raiva de você por causa disso. — Disse, dando uma risada depois. — Nem eu sei porque saí do gabinete do senhor Hanzuki daquele jeito... Talvez porque, por um minuto, me senti abandonada pelo meu pai de novo. Eu nunca contei pra minha mãe, nem pro meu irmão e nem pra ninguém, mas eu estava com ele momentos antes da última batalha dele. Eu estava escondida quando o ouvi desligar o telefone. A pessoa com quem ele falava disse: "Eu estou morrendo de medo.", ele sorriu e respondeu: "Eu também." Eu nunca o tinha visto daquele jeito. Quando ele ia cruzar a porta, eu o abracei por trás e implorei pra ele não ir. Ele me deu um beijo na testa, sorriu de um jeito diferente de antes e saiu sem falar nada. Parecia... mais determinado, depois de me ver.

— Você lhe deu a força e a coragem que ele precisava para lutar e vencer. — Afirmou Arashi, olhando-a nos olhos e deixando a mão no ombro dela. — Me arrisco a dizer que, se não tivesse te visto, Azin não teria lutado como lutou e, por isso, eles teriam perdido a batalha.

Suas palavras alcançaram o fundo do coração e da alma dela, que em resposta sorriu emocionada e pôs a mão sobre a dele após um par de lágrimas escapar de seus olhos. Em absoluto silêncio, olhos nos olhos, os dois passaram os próximos sessenta segundos.

A projeção de uma sombra sobre os dois os retirou do transe em que eles entraram. Ambos olharam pra frente ao mesmo tempo e afastaram as mãos. Era Hayate.

— Desculpe interromper, mas precisava falar com vocês, já que os outros retalhadores de elite estão em serviço. — Disse o rapaz, desconcertado. Não era muito mais velho do que a dupla, era amigo deles e, como a maioria dos seus conhecidos, suspeitava que havia algo rolando entre os dois ou que eles se gostavam, por isso o pudor em chamá-los.

— Claro. Aconteceu alguma coisa? — Indagou Kin, assumindo o mesmo ar formal com que falava com ele quando em trabalho.

— Encontramos os dois guardas que vigiam a fronteira no turno da manhã mortos. — Contou, surpreendendo-os e preocupando-os.

Haru foi para um hospital a poucas quadras de distância dali e estava sentado em uma cadeira branca de aço enquanto uma jovem e bonita enfermeira suturava um corte que ele conseguiu na bochecha direita. Vê-la, logo que chegou, foi o que levantou seu ânimo. Só o que o irritou foi a demora para ser atendido por ela.

Não parava de admirá-la. Ela parecia ter entre dezoito e dezenove anos de idade, tinha uma linda e suave pele escura, um brilhante par de olhos castanhos claros e seus cabelos eram longos, encaracolados. A cor de seus cachos e olhos era natural. As roupas brancas de trabalho ressaltavam a encantadora expressão de sua sempre amigável face angelical, seu corpo era esbelto, dela não se podia dizer se era alta ou baixa: tinha uma estatura mediana, sendo talvez três centímetros menor do que Haru.

A adorável enfermeira não era gorda e também não era magra, seu peso era o ideal para alguém de sua altura. Suas orelhas não tinham brincos e nem eram furadas, mas seu pescoço ostentava um cordão dourado de profundo valor sentimental. Suas unhas não eram pintadas e em nenhuma parte de seu corpo havia tatuagens — ela tinha vontade de fazer uma, mas abria mão disso para poder doar sangue todos os anos.

— Prontinho. — Disse a moça, ao finalizar o trabalho. — O que queria dizer?

— Ah, eu queria saber o seu nome. E se você tem namorado. — Foi direto. Há alguns anos teria hesitado, travado, mas depois de se dar conta das oportunidades que perdia sendo assim, mudou na marra.

Ela riu. Não de surpresa, não era a primeira vez que alguém a cantava no trabalho, mas porque sempre ficava desajeitada. Nunca se acostumava.

— Bom, meu nome é Kyoko. E não, eu não tenho namorado. — Respondeu, receosa de decepcioná-lo com o que estava para dizer: — Mas eu também não estou procurando um, então...

— O melhor que a vida oferece chega quando não estamos procurando. — Ele rebateu, sorridente.

Ela, entre risadas, cruzou os braços e pediu:

— Me dá um exemplo disso.

Ele pensou um pouco. Depois, com os polegares, apontou para si mesmo.

— O que me diz? O que me diz? — Insistiu, contente com as risadas que estava fazendo ela dar.

— Você é uma graça. O problema é que eu não tenho muito tempo... Trabalho aqui e em outros hospitais a semana toda pra pagar minha faculdade e as horas que me restam, uso pra estudar.

— Tudo bem, nos veremos aqui na próxima vez que eu me machucar. — Deu a solução, estendendo a mão para ela apertar. — Encontro marcado.

— Encontro num hospital? Do lado do vomitório? Não vai ser muito romântico.

— Eu trago algumas flores. — Jurou, antes de sair.

— Não vá se machucar de propósito!

Já o conhecia. Claro que não intimamente, mas já havia escutado seu nome, sabia de sua fama de descuidado em batalhas e temia que ele se tornasse ainda mais despreocupado só para poder vê-la. Quando se deu por si, estava sorrindo sozinha feito uma boba. Também não sabia que ele era tão charmoso.

Naomi convidou Sora e Yue para passar um tempo com ela no apartamento em que vivia sozinha. Os dois convidados escolheram o confortável sofá branco de sua sala de estar para se sentar, Naomi escolheu a mesinha de vidro a frente deles. Juntos, os três conversavam e bebiam vinho — Yue não gostava de álcool, então se contentou com um copo de refrigerante.

A morena francesa esbanjava classe. De pernas cruzadas, com a alça da taça entre os dedos, ela agitava a bebida e os escutava com atenção. Era uma dedicada degustadora e conhecedora de vinhos, sabia de A a Z os nomes das maiores e melhores marcas e de suas distribuidoras. Não tinha nenhum receio em gastar seu dinheiro com isso, tinha até uma pequena adega em que guardava as garrafas antigas, gostava de colecioná-las.

Em seu apartamento tudo era cuidadosamente organizado e insistentemente limpo. As paredes, diferente das roupas que ela gostava de usar, eram brancas, não continham uma só mancha de poeira. Seu tapete era bege, de camurça, e atrás de onde ela estava sentada ficava uma pequena estante, também branca, encostada na parede. Sobre essa estante ficavam seus livros.

Pelas caras deles, o tema da conversa não era muito alegre. A história dos pais de Haru e Kin lhes deu o que pensar.

— Você perdeu no "Cara ou Coroa", Yue. — Lembrou Naomi, guardando a moeda no bolso. — Você conta seu passado sombrio primeiro.

— Sorte a de vocês. — Disse ela, tomando o último gole do refrigerante. — Minha infância não foi exatamente um parque de diversões, mas nem se compara com a que eu imagino que vocês tiveram. Vamos ver... eu era muito tímida e esquisita. Como podem imaginar, eu era a chacota da turma.

Curiosa quanto a história deles, se viu obrigada a contar tudo para deixá-los a vontade e também saber de tudo. Cresceu num abrigo para menores, sem nenhuma figura paterna ou materna. Como confessou, nem sempre foi essa garota confiante de personalidade explosiva, quando mais nova tinha a voz bem fina, falava baixo e não encarava ninguém nos olhos. Era alvo de zoação e de vários tipos de brincadeiras e apelidos humilhantes. Nunca se impunha e nem ao menos pensava em revidar.

Sempre manteve isso em segredo. Chorava sozinha, gritava, se criticava e se condenava na solidão. Quando só, esmurrava as paredes e os armários enquanto se chamava de fraca. Ia embora ou mudava de assunto nas poucas vezes em que as pessoas lhe perguntavam se estava tudo bem. Foi cada vez mais se fechando na sua própria bolha, nunca teve amigos. Quando uma alma amigável tentava se aproximar, a afastava com a grosseria e a indiferença.

Assim foi até conhecer Haru. Um dia, voltando da escola, ele a viu sendo insultada e agredida pelos colegas e tomou a frente para defendê-la. Apanhou por ela. Yue o ajudou a chegar em casa e disse a ele para nunca mais fazer aquilo mas seu conselho em tom de ameaça, dirigido a ele, entrou por uma orelha e saiu pela outra. Pouco tempo depois lá estava o ruivo de novo se metendo em encrencas por causa dela, insistindo em ter sua amizade. Até que a conquistou.

Haru a apresentou à Kin, a figura feminina que Yue mais admirava no mundo inteiro. Com a convivência, Yue foi absorvendo seus aspectos prediletos na personalidade da loira e, exposta ao exemplo dela, se tornou a garota forte e confiante que é hoje, bem como a retalhadora poderosa em que se transformou depois de se entregar aos mais árduos treinamentos dos quais ouviu falar. Desde que se entende por gente quis ser igual a ela. Até hoje é assim, de certa forma.

Comovida, Naomi deu um abraço nela. Jogou par ou ímpar com o Sora, venceu e o declarou como o próximo a desabafar.

Fim do segundo capítulo.