Fotografias
17 Sinuca de Bico
Notas iniciais
O rapaz desceu do cavalo e foi até onde a loira estava, dando um abraço mais apertado que o normal nela. Sarah desviou os olhos e só voltou a olhar quando ele se afastou. Tentou manter uma expressão neutra, mas Manu com certeza tinha percebido que tinha ficado incomodada com aquilo. Ele cumprimentou dona Helena e depois Miguel, que logo em seguida subiu no cavalo branco e saiu a galope. De acordo com o loiro, ele trabalhava numa fazenda, mas estudava durante a noite. Era bom ver que mesmo em cidade pequena como aquela as pessoas se interessavam no futuro. Dona Helena criou seus filhos muito bem, concluiu.
– Tom, meu filho, como estão seus pais? – A mulher mais velha indagou, quebrando aquele clima incômodo.
– Ah, eles mandaram um beijo para a senhora e pediu para Manu ir visitá-los – sorriu e puxou a rédea do cavalo, fazendo-o se aproximar para tornar a montá-lo. – Preciso voltar para a fazenda. Ainda tenho que pintar a cerca de frente casa – ele deu meia volta com o animal, mas parou. – A propósito, você continua ainda mais linda.
– Obrigada – Manu respondeu, quase seca.
Quando ele sumiu do seu campo de visão, soltou um suspiro e franziu as sobrancelhas. Havia namorado Tom quando tinha 15 anos e ainda assim não durou muito tempo, porém ele nunca desistiu e sempre rodeava como uma mosca de padaria.
– Filha, por que você e sua amiga não trocam essas roupas e vão cumprimentar o resto do pessoal? Mais tarde leva ela pra dar uma voltinha – ao terminar de dizer, dona Helena deu meia volta e voltou para dentro de casa.
– Ei, não fica com essa cara – Manu se aproximou dela devagar. O AllStar branco já estava bem sujo por causa da poeira do chão de terra. – Ele sempre foi um idiota.
– Eu deveria imaginar que tinha ex-namorado metido no meio disso – revirou os olhos e foi até o carro.
– Você ta com ciúme?
– Não. De onde tirou isso? E sai daí – disse quando ela se apoiou no porta-malas, com um sorrisinho travesso brincando nos lábios bem rosados. – Que cara é essa?
– Essa é a primeira vez que você demonstra que está com ciúmes de mim.
– Não tem nada de bom nisso – franziu as sobrancelhas e empurrou-a de leve para que saísse de cima do carro. Destrancou o porta-malas e tirou a sua e a dela de dentro. –E desfaz essa cara de vitória.
Então ambas levaram as malas para o quarto da loira e trocaram de roupa. Sarah opinou por outro vestido, dessa vez branco com flores rosa. As alças eram finas e deixavam os ombros nus. Nos pés colocou rasteirinhas também brancas e, a pedido de Manu, retirou o pouco da maquiagem que ainda tinha no rosto. Já a loira estava linda, como sempre. Estava mais simples que o normal, com um short jeans e uma regata cinza claro. Quando terminaram, dona Helena insistiu que comessem doce de leite que ela mesma havia feito no dia anterior e Sarah percebeu que nunca tinha comido algo tão gostoso em sua vida.
Depois voltaram para o carro e foram de casa e casa. Sarah conheceu um bocado de gente e duvidava muito se lembraria do nome de todos no final do dia. Conheceu Denise e todo seu charme de garota da roça. Também conheceu os gêmeos, Bruno e Bento, que a ruiva assim que desviou os olhos não soube diferenciar mais qual era um e qual era outro. Todos eram amigos de infância de Manu e nenhum deles a trataram de forma diferente. Sempre sendo simpáticos e puxando assunto para não deixá-la deslocada, perguntando como eram as coisas no Rio de Janeiro e como conseguia viver em um lugar com tanto barulho urbano.
Também tinha conhecido a parte mais velha da cidade, pelo menos os mais importantes. De acordo com Manu, iriam conhecer o restante à noite, quando fossem à igreja. Por alguns segundos Sarah imaginou que seria legal viver num lugar assim, onde todo mundo se conhecia e se ajudava. Uns protegiam os outros ali, tinha certeza disso. Sabia que deveriam ter seus momentos de desunião em algumas horas, afinal eram todos humanos, mas ainda assim não conseguia imaginar um lugar melhor do que aquele para viver. A essência dali era rústica e chegava até ser pura em muitos pontos.
E foi assim que a tarde foi indo embora. Por último passaram novamente no bar dos pais de Fábio para tomarem mais uma cerveja gelada.
– Estávamos esperando vocês – Marcela se pronunciou assim que as duas entraram. – Quero ver quem nessa venda é melhor que eu na sinuca – apontou o taco de madeira para elas.
– Fábio, coloca uma na mesa aí – Sarah disse, provocando um sorriso torto nos lábios do moreno.
– Você é das minhas, ruiva – virou para pegar uma garrafa no freezer. – Meu pai vai assumir a partir de agora, então eu vou jogar com vocês.
– Vocês duas contra nós dois – a garota de cabelos castanhos claros disse e Manu revirou os olhos, evidentemente não aprovando.
– Você não quer jogar comigo? – Sarah empurrou a loira, completamente inconformada.
– Eu jogo com você – Fábio pegou dois tacos e ofereceu um a ela. – Vamos calar a boca dessas duas convencidas.
Enquanto Sarah verificava se o tamanho do taco era o ideal para ela, Fábio abriu a cerveja e a serviu em quatro copos. Então colocou uma ficha na mesa para liberar as bolas. Antes de tirá-las da gaveta, olhou para as meninas.
– Mata-mata? – E lançou seu sorriso torto.
– Melhor ainda – Marcela deu de ombros e bebeu um longo gole da cerveja.
Sentindo calor, ele tirou a blusa e deixou-a em cima do balcão. Depois colocou as bolas na mesa. Elas eram de duas cores. Quatro vermelhas e quatro amarelas. Além dessas, uma branca. Ele arrumou duas de cada cor nas extremidades de ambos os lados e uma em cada lateral, também em ambos os lados, próximo às caçapas do meio. Por último colocou a branca no centro. Ele e Sarah passaram giz branco no corpo e na ponta do taco, para que não escorregasse de suas mãos.
Depois de fazerem “par ou impar”, foi decidido que Manu e Marcela começariam a partida.
– Prestem atenção – Marcela prendeu os cabelos claros num coque alto e pegou o taco que estava encostado na mesa. Escolheu a cor amarela e se debruçou sobre a mesa para dar sua primeira tacada.
– Vê se acerta, Mar – a fotógrafa cruzou os braços, encostando a lateral do corpo na mesa e sorriu quando as duas bolas amarelas se espalharam para os lados. – Quem vai primeiro de vocês?
– Eu – Sarah fez um bico.
Ela rodeou a mesa, a fim de ficar mais próxima da bola branca, que tinha ido para o canto oposto ao que ela estava antes. Estava mais próximo das sua bola da extremidade e era ali mesmo que a jogaria. O forró pé de serra tocava baixinho, deixando o lugar com mais clima ainda de cidadezinha do interior. Marcela balançava de leve, seguindo o ritmo da música.
Manu tentou não olhar muito tempo quando a ruiva se curvou e o vestido florido subiu, mostrando um pouco daquelas pernas alvas. Nem conseguiu prestar atenção direito na jogada ela fez. Sarah era uma tentação difícil de resistir. Em seguida fez a sua jogada, encaçapando a primeira bola do jogo. Como havia acertado, jogou outra vez e deixou outra bola bem próxima da caçapa.
– Ai quem me dera voltar pros braços do meu xodó. Saudade assim faz doer e amarga que nem jiló – Fábio cantou baixinho, enquanto fazia sua jogada e sacudia o quadril no ritmo da música. – Mas ninguém pode dizer que me viu triste a chorar. Saudade, o meu remédio é cantar.
– Que sinuca é essa?! – Marcela exclamou, pensando em como faria sua tacada, já que as bolas vermelhas estavam protegendo as amarelas. E não podia acertar as vermelhas primeiro, por que tinha penalidade de uma bola adversária sendo encaçapada. Naquele momento a música ficou esquecida ao fundo.
– E agora? – Sarah riu.
– Calma, estou pensando – rodeou a mesa duas vezes, analisando todas as bolas e todas as possíveis jogadas. – Vou tentar por aqui – parou na lateral da mesa e tentou fazer uma tabela forçada, mas não conseguiu acertar nem a amarela nem vermelha.
– Só estamos começando – o único rapaz sorriu torto e tomou o restante do liquido do copo. – Painho, coloca outra na mesa aí. Vai, Sarah, mantém a sinuca de bico.
– Pode deixar.
Depois de dito, Sarah fez a sua jogada. Tocou o taco o mais leve possível na bola branca, fazendo-a acertar a vermelha e colar nela. Riu quando viu Manu revirar os olhos Só que, diferente e Marcela, a loira conseguiu acertar a bola amarela e espalhou o jogo inteiro. O rapaz a parabenizou-a e piscou antes de fazer sua própria jogada. Acabou que Sarah e Fábio ganharam, encaçapando as quatro bolas, contra duas delas.
– Vocês pagam a cerveja – Fábio tratou de jogar para cima delas as quatro garrafas. – Afinal, vocês são as perdedoras.
– Roubando é mole – a fotógrafa franziu as sobrancelhas e tirou uma nota de dez reais do bolso do short jeans. – Você paga o resto, Mar.
– Acabei de lembrar. Amanhã a noite vai ter uma festa lá na casa de seu Tião. Aquela de sempre – ele disse, colocando as garrafas vazias de volta no balcão. – Vocês vão, né?
– Vamos sim – Manu respondeu e piscou para Sarah.
Alguns minutos depois, elas se retiraram. Ainda tinham que se arrumar para darem um pulo na igreja com sua mãe. Foi Sarah quem voltou dirigindo, alegando que já sabia o caminho de volta, porém acabou se perdendo e parando num lugar deserto. De ambos os lados tinha uma imensidão de pasto, com vacas e cavalos pastando. Fez cara feia quando Manu gargalhou, mas não entendeu quando ela saiu do carro e correu. Simplesmente ficou de boca aberta quando ela se abaixou e passou pela cerca de madeira impecavelmente pintada de branca. Estacionou o carro no canto da estrada e desceu, indo atrás dela, mas tendo um pouco mais de dificuldade para passar pela cerca. Sua altura não facilitava muito as coisas.
– Espera, garota! – Continuou a correr, morrendo de medo de alguma vaca aparecer do nada e avançar contra ela. – Manu!
– Vem me pegar – ela gritou, bem mais a frente, indo rumo a uma enorme árvore.
– Te peguei! – Exclamou quando finalmente a agarrou por trás. A gargalhada alta encantou Sarah. – Você é louca?
– Você tem um senso de direção horrível! – Voltou a rir, mesmo sentindo seu corpo arrepiado por estar com as costas grudadas no corpo dela. Ela estava se referindo ao fato de terem se perdido.
– O que você disse? – Indagou e fez cócegas nela.
– Ta surda é?
– Você está muito abusada! – Derrubou-a por cima do mar de capim.
Manu era mesmo encantadora de todas as formas possíveis. Sentia seu coração bater acelerado por causa do simples contato. Aquela risada, aquele sorriso, se tornaram os preferidos de Sarah. Podia ver e sentir que ela estava feliz. Que ela era feliz naquele lugar. E pela primeira vez na vida pensou em como as pessoas realmente eram mais felizes em um lugar como aquele do que na cidade. Na verdade Sarah achava que poderia ser feliz em ambos lugares se Manu estivesse junto com ela. Necessitava dela para isso.
Olhou-a nos olhos, estando deitada em cima do corpo dela. A brisa soprava suave e oscilava as folhas de capim. Sarah via o céu e o mar naqueles olhos azuis. Eram tão perfeitos que sentia vontade de voar e mergulhar ao mesmo tempo neles. Manu ainda ria baixinho por causa das cócegas que tinha feito nela, mas quando a ruiva sorriu, ela parou e colocou os cabelos vermelhos por cima do ombro esquerdo dela. As pontas onduladas brilhando com o sol de fim de tarde.
– Você esperava por isso? – Manu indagou.
– Sinceramente, não – respondeu, sorrindo. Era como se nada mais no mundo pudesse atrapalhá-las agora. – Quando vi que iríamos vir pra cá, pensei que ficaríamos perto da praia e tudo mais.
– A capital é linda – ao dizer, desviou os olhos azuis para o céu alaranjado. – Mas você gostou daqui?
– Claro que gostei. Aqui é tão calmo, tão aconchegante. Passa uma paz, sabe? – Sarah percebeu que, enquanto dizia, o sorriso dela se abria ainda mais. – Não estou falando isso pra te agradar. É a verdade. Isso porque eu cheguei hoje. Ainda não conheci muita coisa, mas seus amigos são tão legais, tão receptivos. Ainda falta descobrir muito sobre você.
– Você quer descobrir o que sobre mim?
– O que você fazia quando criança, para onde saía na adolescência, essas coisas. Eu conheço o você da cidade grande, não do campo. Tudo que você quiser me mostrar, eu estarei aqui para ver – se apoiou em um dos cotovelos para vê-la melhor. Os cabelos loiros estavam espalhados pelo capim.
– Vamos mais tarde na igreja, vai ser divertido. Amanhã de manhã podemos ajudar minha mãe com as tarefas e depois fazer um piquenique – sugeriu, sem deixar de sorrir um segundo sequer. Aquela era a primeira vez que os olhos verdes brilhavam tão intensamente, tão vívidos. Estava feliz por isso.
– Piquenique com comida da roça – Sarah fechou os olhos, imaginando as delicias que dona Helena faria.
– Sua fominha – riu e apertou o nariz dela. – Já quer ir se arrumar?
– Não, quero ficar mais um pouquinho com você.
– Ah, é? E por quê? Posso saber? – Semicerrou os olhos, mas nos lábios tinha um sorriso maroto.
– Por que essa é a primeira vez que ficamos sozinhas desde que chegamos, então...
– Você quer se aproveitar de mim?! – Fingiu surpresa e gargalhou quando a ruiva fechou a cara. – Porque eu quero me aproveitar de você.
E como queria. Desde que ela colocou aquele vestido, que modelava perfeitamente todas as partes sinuosas daquele corpo, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse estar sozinha com ela. Conseguiu graças à falta de direção horrível que ela tinha. Não sabia como conseguiu se segurar quando ela inclinou o corpo naquela mesa de sinuca. Agora ela estava ali, com uma perna entre as suas e simplesmente a sua disposição. Como não querer se aproveitar?
Como ela ficou em silêncio, sabia que tinha ficado surpresa com suas palavras. Então riu baixinho, passando a ponta dos dedos pelo ombro desnudo. Percebeu que ela se arrepiou e sorriu com isso. Sarah era tão encantadora. Aqueles olhos verdes a fitavam com curiosidade, mas também conseguia ver desejo neles. Subiu um pouco os dedos até a calça do bendito vestido branco florido e deslizou-a até sair do ombro dela. Essa era a primeira vez que ia ao longe. Apesar da vontade, sempre respeitou o que ela pensava. Mas agora era diferente, enxergava isso naquele simples morder de lábio inferior. Ela queria.
Então aproximou o rosto e beijou a pele dela, sentindo aquela textura macia e fazendo-a fechar os olhos como consequência. Subiu beijando devagar, se deliciando com aquela suavidez toda. Também era a primeira vez que fazia isso com uma garota. Estava nervosa, mas queria tanto que pouco estava se importando com isso. Cheirou profundamente o pescoço dela, subindo uma mão até a nuca dela para segurar os cabelos ruivos. Prendeu-os entre os dedos, sentindo o cheiro do perfume que ela usava.
Sarah mordia os lábios, deliciando-se com os carinhos dela. Seu corpo inteiro estava arrepiado e estremecia a cada toque seu. Um formigamento gostoso ficava por onde aqueles dedos passeavam e queimava por onde os lábios roçavam. Suspirou quando ela mordeu sua orelha e, quando ela soltou o ar quente, seu corpo estremeceu.
– Manu... – Chamou-a, sem ter muita noção disso.
Ela não respondeu com palavras. Ao invés disso, mordeu o queixo de um jeito provocante. Manu estava se segurando para não tirar aquele vestido ali mesmo, no meio do pasto. Tentando cortar esses tipos pensamentos, apenas a beijou. Apertou com firmeza os dedos naquele mar de sangue que eram os cabelos dela, trazendo-a ainda mais para si. Movimentou os lábios sobre os dela, sendo correspondida com a mesma intensidade. Agora que estavam sozinhas, não precisava mais se conter. Era impressionante como seu corpo reagia ao dela, como se milhões de volts a estivessem envolvendo junto com o calor do momento. Enquanto travava uma batalha gostosa com a língua dela, sua mão livre descia pela lateral daquele corpo. Queria explorá-la de todas as formas possíveis, conhecê-la como ninguém mais jamais conheceria. Um suspiro foi abafado por seus lábios quando apertou a cintura dela para tornar a subir a mão, agora pelas costas.
Quando o as lhes faltou, Manu tornou a apoiar a cabeça no chão para assim poder olhá-la melhor. O cheiro da natureza circundava, passando uma sensação de paz que há muito não sentia. Já estava quase anoitecendo. Notou que o rosto dela estava corado e imaginou que o seu estivesse da mesma forma.
– Se tivéssemos mais tempo, eu me aproveitaria muito mais – disse com a voz um pouco rouca e Sarah percebeu que o tom dos olhos azuis ficaram levemente mais escuros.
– De que jeito? – Engoliu em seco ao perguntar. Seu corpo ainda estava trêmulo.
– De um jeito que finalmente te fará só minha – sussurrou no ouvido nela, notando-a se arrepiar.
– Não vejo a hora...
Foi bem difícil não agarrá-la depois daquelas palavras, mas Manu franziu as sobrancelhas e se segurou até seu corpo acalmar um pouco. Então deu um selinho nos lábios dela, antes de se levantarem e voltarem para o carro. Não tinha necessidade de tanta pressa. Voltou dirigindo e poucos minutos depois chegaram em casa, onde jantaram e tomaram banho. Manu dessa vez não opinou por seus shorts jeans e sim um vestido comportado, até a metade das coxas, azul claro. Deixou os cabelos soltos e passou uma maquiagem bem leve. Depois de pronta, ajudou Sarah a escolher uma roupa também e decidiram por uma bata preta e calça jeans.
E pela primeira vez em muito tempo, Manu se sentiu realmente livre. Deixaram o carro estacionado em frente casa e foram a pé. As ruas totalmente escuras, apenas iluminadas pela luz da lua e o brilho das estrelas. Estavam os quatro ali: Dona Helena, Miguel, Manu e Sarah. Pelo caminho encontraram com Marcela e seus pais, que eram donos da padaria da cidadezinha. Dona do melhor pão do planeta, de acordo com a fotógrafa.
Enquanto caminhavam, iam conversando entre si. Sarah descobriu que Marcela havia voltado há um mês de São Paulo, onde estava fazendo faculdade de Veterinária. Já estava formada, com seus 23 anos, e pretendia cuidar dos animais daquele lugar. Qualquer pessoa a chamaria de louca por deixar de ganhar muito dinheiro na cidade grande em troca de alguns poucos reais para cuidar de animais numa cidadezinha do interior. Mas Sarah entendia. Agora entendia. Aquele era o lugar dela, de onde nunca deveria ter saído. A cidade inteira deveria estar orgulhosa de ter uma veterinária capacitada e tão orgulhosa do lugar e que nasceu e que viveria até os últimos dias de sua vida.
Antes do culto, Manu cumprimentou o padre e todas as outras pessoas conhecidas. Assistiram só a metade, porque Miguel a cutucou e apontou para trás. Fábio e Denise faziam gestos para que fossem lá fora. Quando chegaram lá, a loira percebeu que estavam todos ali.
– Que tal aquele esconde-esconde? – Bento, um dos gêmeos de cabelo cortado asa-delta, sugeriu com os olhos negros brilhando.
– Oh, Deus, quanto tempo eu não brinco disso! – Marcela sorriu, super de acordo com a ideia. – Eu topo.
– Eu também – Bruno, irmão de Bento, Fábio e Denise disseram em uníssono.
– Então vamos todos – Manuela ergueu os braços, radiante. Sarah riu com aquilo.
– Vocês perceberam que, desde criança, Manu vem pra igreja com esses vestidinhos de princesa?
– Vão começar? –A loira fez cara feia, mas arregalou os olhos quando lembrou de algo. Correu até o acostamento e tirou uma folha de capim. – Folhinha de abacate, eu bato e ninguém me rebate.
– Que diabo é isso?! – Sarah indagou e o restante riu como resposta.
– Você sempre faz isso, cara! Perdeu a graça quando você fez sete anos, sabia? – Miguel implicou, vendo sua irmã revirar os olhos. – Eu primeiro.
Manu colocou as duas mãos para trás do corpo por alguns segundos e depois colocou-as para frente, fechadas em punhos, com os braços em formato de X. Muito tempo mesmo que não fazia aquilo. Depois de pensar, ele deu um tapinha de leve em sua mão esquerda. A loira sorriu maliciosa e abriu, revelando a folhinha verde.
– Dentro – acusou a fotógrafa.
– Que droga, eu nunca escapo!
Em seguida vieram Marcela, Bruno e Denise, que escolheram a mão vazia, se livrando. E foi fazendo com o restante. A penúltima foi Sarah, que também escolheu a vazia.
– Vai, Fábio. Se você tirar dentro, livra o Bento – Manu tornou a mostrar as mãos fechadas, escondendo a folhinha em uma delas. Depois de alguns segundos, abriu a mão que ele escolheu. – Fora. Bento conta.
– Injustiça – ele revirou os olhos.
– Se eu chegar a contar, como eu vou saber quem é quem na hora de rebater o nome? – Sarah sussurrou para Miguel.
– Torce para não te acharem, porque eu nunca sei também – ele riu e piscou para ela. – Ou se acharem, corre muito.
– Que ótimo – revirou os olhos, mas também riu.
Continua...
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