Fotografias
32 Revelação
Notas iniciais
– Você notou que a Lia tava um pouco distante hoje? – Mariana indagou, enquanto obsevava sua mulher dirigindo no banco ao lado. – Ela estava nervosa. Não era a Lia de sempre.
– Também acho. Alguma coisa deve ter acontecido – o azul-marinho do céu ia clareando com o passar dos minutos. Já passava das cinco da manhã e finalmente estavam voltando pra casa. – Deve ser sobre isso que Claudia quer conversar na hora do almoço.
– É possível.
Fernanda tinha ido para a festa mais simples que o restante do pessoal. Estava trajando calça jeans colada, uma rasteirinha bege e camiseta justa e longa, que mais parecia um vestido muito curto. Também não quis se maquiar muito e sua arma estava esquecida no cós da calça, já que as coisas não estavam em todo bem. Dirigia com calma, enquanto conversava com a médica. Não tinha bebido mais que três garrafinhas de Heineken, diferente de Mari, que bebeu quase o bar inteiro.
– O que você quer fazer agora? – A loira de olhos cor de mel indagou depois de um tempo.
– Dormir – Nanda deu de ombros e sorriu quando a viu fazer um biquinho lindo. – Precisamos descansar para daqui a pouco pegar o Gugu com a Márcia – ela se referia a irmã de Mari. – E depois vamos almoçar com o pessoal.
– Mas...
– O que você quer fazer? – Sorriu ao olhá-la brevemente. Não era possível existir mulher mais linda no mundo. Aqueles olhos claros e tão únicos a atraíam como um imã poderoso.
– Ah, eu queria fazer umas coisinhas – como quem não quer nada, Mari pousou uma das mãos na coxa da índia e sorriu maliciosa. Nanda não conseguiu segurar um sorriso.
– Você não tem jeito mesmo, né?
– Você sabe que não – a loira piscou e no segundo seguinte subiu a mão pelo jeans, até chegar à virilha. Sorriu travessa quando notou que ela tinha ficado tensa. – O que foi? – Indagou, cínica, abrindo o botão e descendo o zíper devagar logo após.
– Sossega, Mari. Eu vou acabar me desconcentrando da estrada – a índia avisou, mas em seguida mordeu os lábios volumosos. Mari adorava quando ela fazia isso.
– Vai é? – Ela sussurrou rouco em seu ouvido.
Quando ela havia se livrado do cinto de segurança? A marinheira sentiu a mão fria entrar por sob o tecido da calça e da calcinha e acariciar sua intimidade, num movimento dedos leve e provocante. Teve que apertar o volante com força e franzir as sobrancelhas para não desviar os olhos do tráfego a sua frente. Não que estivesse movimentado, pois era fim de madrugada, mas todo cuidado é pouco quando o assunto está relacionado a trânsito.
Todo o corpo da índia estava arrepiado, pois Mariana passava os dedos frios por toda a extensão de seu sexo, mesmo que a posição em que estava não ajudasse muito.
– Mari... – Chamou-a, percebendo o quanto sua voz estava rouca. Manteve os lábios pressionados entre os dentes e soltou-os quando a sentiu tocar seu clitóris, suspirando como consequência.
– O que foi, meu amor? – Nanda não precisava olhá-la para saber que estava sorrindo daquele jeito imprestável.
– Você vai me pagar por isso...
Mari soltou uma risada abafada na orelha de sua mulher e continuou movendo os dedos, notando-a cada vez mais inquieta. Então tratou de beijar-lhe o pescoço, deliciando-se com os princípios de gemidos que escapavam por aqueles lábios que tanto amava beijar.
A vida de Mariana tinha mudado drasticamente no dia em que tinha conhecido Liane Atsuke e se achou estar apaixonada por ela. Foi por esse motivo que conheceu a Capitã Cairu, com seu jeito de menina inocente e atitudes de mulher madura. Não podia simplesmente negar que tinha ficado encantada por ela a primeira vista. E depois, quando ouviu todas as coisas bonitas e confortantes, não conseguiu pensar em outra coisa que não fosse aquela índia de cabelos compridos. Dona dos olhos escuros mais intensos que Mari não se importava nem um pouco de se perder neles.
Quando a loira sentiu que Nanda estava quase chegando ao orgasmo, parou os movimentos covardemente e a deixou ofegante atrás do volante.
O sorriso malicioso fez com que Fernanda sentisse vontade de socá-la. Ainda apertando com força o volante, entrou no condomínio para em fim estacionar o carro. O peito subindo e descendo devido à respiração forte. Estava com a garganta seca também. Assim que abriu a porta e saiu, sentiu que suas pernas estavam bambas e seu sexo ainda latejava, pedindo por mais daquela loira maldita, que faltava saltitar de felicidade até o elevador.
Nanda nem esperou que as portas fechassem, pois jogou-a contra uma das extremidades do pequeno cubículo e a pressionou com toda força adquirida em anos de treino na Marinha.
A médica gargalhou, porque era justamente isso que queria que acontecesse. Apesar de não saber que ela cairia na sua tão rápido assim. Mas não importava, a faria sua novamente, como todas as outras vezes. Jogaria-a na cama e a faria gritar até depois do sol nascer.
Doce engano.
Ela veio com uma ousadia que ainda não tinha experimentado, mesmo estando juntas há quase dois anos. O corpo atlético pressionava o seu contra a parede metálica e não conseguiu conter um gemido fraco quando a coxa dela pressionou-lhe o sexo com força. Não teve forças para empurrá-la e virar o jogo. A boca gulosa se apoderou do seu pescoço com tanta vontade que se sentiu obrigada a puxá-la ainda mais para si.
As portas abriram e fecharam, porém nem uma das duas se moveu dali. Ambas movimentavam as mãos de forma experiente, passando pelas costas, coxas, bunda. Relutante, Nanda se afastou e apertou o botão para que a porta voltasse a abrir, arrastando a médica consigo para dentro do apartamento.
– O que deu em você? – Mari indagou entre golfadas de ar. Seu corpo estava trêmulo por causa do beijo devastador.
– Eu disse que você ia me pagar – a outra respondeu, não muito melhor que ela. Ainda assim, segurou-a pelo pulso, ali na sala mesmo, e derrubou-a com muita facilidade sobre o tapete felpudo, imobilizando-a como fazia com os praças rebeldes de seu batalhão. – E você vai pagar – pagando na mesma moeda, Nanda sussurrou rouco no ouvido dela, notando-a se arrepiar por completo. Gostou daquilo.
Se ela iria responder, Nanda não sabia, mas fechou sua boca sobre a dela, iniciando um beijo intenso e íntimo. Suas línguas dançavam no mesmo ritmo, travando uma disputa fervente. A índia a beijou de todas as formas possíveis. Lento, devagar, com carinho, com força, mas sem diminuir a intensidade um segundo sequer. Não sabia quantos minutos tinham ficado ali, mas, por mais que ela tentasse se soltar, manteve os braços dela presos com firmeza acima da cabeça.
Em algum momento Nanda se afastou e puxou-a consigo. Indo contra todas suas crenças que diziam tratar uma mulher com delicadeza e carinho, tirou a bata que ela usava às pressas, tratando logo de jogar para longe. Os olhos cor de mel estavam tão escuros que pareciam negros agora, o desejo aflorando por cada poro da loira. Fernanda descobriu que gostava de fazê-la se sentir assim, de fazê-la sua com tanto vigor. Com esse pensamento, se livrou do sutiã e apertou ambos os seios simultaneamente, enquanto seus lábios deslizavam por aquele pescoço alvo.
– Agora você decidiu bancar a ativa? – Mari indagou após um longo suspiro, sua voz rouca de desejo por aquela índia gostosa.
– Coisa que eu deveria ter feito há muito tempo – ela respondeu e desceu os lábios pelo colo. Não se demorou a abocanhar o mamilo e sugá-lo para dentro da sua boca, enquanto uma das mãos descia pelo corpo perfeito para em seguida abrir o short jeans.
Mari teve que prender a respiração enquanto a língua movimentava-se de forma ágil e a mão buscava seu sexo. Apertou-a contra seu corpo, gemendo baixinho. Sabia que já estava muito molhada e conseguia sentir o quão isso agradava sua mulher, que não tardou em deslizar dois dedos para dentro de si. Mordeu o dedo indicador com força, prendendo a respiração. Uma onda de prazer invadiu seu corpo, fazendo-o esquentar tanto que Mari pensou estar pegando fogo. E Nanda os deslizava com velocidade constante, entrando e saindo com força. Era impossível tentar se manter sã.
A cada gemido da loira, Fernanda ficava ainda mais excitada. Sua calcinha estava encharcada àquela altura. Porém não parou os movimentos. Continuou a penetrá-la com avidez, entrando e saindo de um jeito que a estava fazendo arfar. As unhas dela estavam cravadas em suas costas como numa maneira de controlar o prazer todo que estava sentindo. E não tardou que ela chegasse a um orgasmo longo e delirante, rebolando em seus dedos enquanto o líquido melado escorria entre eles.
Mas Nanda queria mais que aquilo, muito mais. Então, sem esperar que ela se recuperasse, virou-a de costas e distribuiu uma sequência de beijos quentes e molhados, provocando-lhe arrepios. O corpo dela estremecia a cada toque. Antes de chegar à intimidade latejante de prazer, a índia apertou e mordeu aquela bunda durinha e gostosa. Pediu para que ela a empinasse e, quanto o fez, deliciou-se com sua visão do paraíso. Ela era linda demais e era só sua. Sua mulher.
O sol nasceu e as duas ainda estavam em um conflito delicioso, disputando pelo poder. Nanda a imobilizou diversas vezes, levando-a a incontáveis orgasmos. Só deixou ser dominada quando o bico zangado fraquejou suas ações. E juntas dançaram sobre o tapete da sala, até chegarem ao orgasmo quase simultaneamente. Não havia necessidade maior que a de estarem juntas.
(...)
Todos estavam reunidos na sala de jantar da casa de Claudia. Esse era geralmente o ponto de encontro, desde sempre. O casal, com a ajuda de Manu e Sarah, fez um delicioso almoço. Bobó de camarão, batata gratinada e uma salada colorida como acompanhamento. A fotógrafa fez um convidativo suco de abacaxi com hortelã. Do lado de fora do apartamento, o sol estava a pino, indicando que era exatamente meio dia.
– Acho que a Lia tem uma coisa para contar a vocês – Claudia finalmente disse, pousando o garfo sobre o prato florido. Sorriu quando a japonesa lhe fuzilou com o olhar.
– Eu sabia que tinha alguma coisa errada com você ontem – Mari comentou, desviando brevemente a atenção de Gugu para ela. Estava comendo e dando na boca dele ao mesmo tempo. Ser mãe significava não ter paz em nenhuma hora do dia, isso incluía a hora do almoço e da janta.
– Eu também – Ju olhou-a ao dizer, notando-a ficar tensa. – O que aconteceu?
– Calma, gente. Ela vai falar, parem de pressioná-la – a morena de olhos azuis tratou logo de defendê-la, antes que ela mudasse de ideia.
– Estava tão na cara assim? – Liane finalmente se pronunciou, sentindo o rosto corar aos poucos, ao passo que seu corpo estava tenso de puro nervosismo.
– Claro que sim – Victor disse, antes de levar uma batata para a boca. Assim que engoliu-a, continuou: — Você estava nervosa e distante.
– Desembucha logo, minha filha – a única ruiva presente incitou-a, fazendo gestos para que ela começasse a falar de uma vez. Franziu as sobrancelhas quando levou uma cotovelada de Manu. – O que eu fiz? – Falou baixinho, fazendo bico, mas ela não respondeu.
– Eu queria dizer pra todo mundo ao mesmo tempo, então não fica chateada comigo, amor – a japonesa começou e mordeu os lábios antes de continuar, hesitante. – Eu... – respirou fundo e tomou coragem quando viu Claudia assentir para que continuasse. – Eu estou grávida.
Juliana quase deixou o garfo cair de sua mão, enquanto olhava para ela com os olhos escuros arregalados. Tinha ouvido bem? Ela estava grávida? Isso significa que ia ser mãe? Não sabia como reagir aquilo. Com o queixo caído, ficou apenas observando-a em silêncio.
– Meu Deus – Mari riu. – Não pode ser. Eu não consigo imaginar você sendo mãe, Lia.
– Nem eu – Manu disse, porém sorria abertamente. – Mas você vai ficar linda.
– Quando você fez a inseminação? – Juliana perguntou, chamando a atenção de todos. Ela estreitou os olhos, esperando por uma resposta.
– Você não sabia que ela tinha feito? – Clara pegou seu copo de suco ao indagar.
– Não, eu quis fazer uma surpresa. E acabei...
– Surtando – Claudia completou, interrompendo-a. – Ela ficou louca ontem, quando descobriu.
– Cala a boca, Claudia – a japonesa apontou, semicerrando os olhos puxados. A jogadora gargalhou, levantando as mãos mostrando que se rendia. – Eu vou matar você, garota.
– O que ela fez, Claudia? – David se pronunciou pela primeira vez, assim que terminou de comer.
– Eu não fiz nada, idiota – ela respondeu por Claudia. – Amor, não vai falar nada?
– Eu não sei o que dizer – respondeu a mulata, olhando-a. Lia não conseguiu ler sua expressão, o que a fez sentir um pouco de medo. – Eu vou ser mãe...
– Ju, sai desse transe e levanta a bunda daí pra dar um beijo na sua mulher – a marinheira disse com um sorriso terno nos lábios. – Ficar pensando agora não vai adiantar nada.
– Ah é, antes que ela arranque o bebê com os dentes – Clara implicou enquanto semicerrava os olhos azuis, referindo-se ao fato de ter sido enganada pela japonesa, que alegou que arrancaria o possível feto de Juliana. Todo mundo caiu na gargalhada.
– Você nunca vai esquecer isso, não é? – Lia conseguiu perguntar, entre risadas.
– Claro que não. Eu fiquei desesperada. E não pense que esqueci, você me deve o dinheiro daqueles sorvetes que eu paguei.
– Já disse que você nunca mais o verá. Peça pra Claudia, foi ela quem me mandou te distrair – ela deu de ombros e riu de novo. Tinha sido engraçado ver a cara desesperada da loira.
– Eu tenho uma coisa pra dizer – todos pararam de rir para olhar a mulata, atacante da Seleção Brasileira. Ela parecia um pouco nervosa. – Eu realmente não sei o que fazer numa hora dessa, mas só consigo imaginar essa japonesa linda segurando um embrulho azul e sorrindo feito boba. Meu coração parece que vai sair pela boca. Quem diria que eu seria mãe sem nem mesmo engravidar? – Ju riu de suas próprias palavras, juntamente com o restante. Viu que os olhos de Lia estavam ficando marejados. – Mas isso não me deixa menos feliz. Muito pelo contrário, eu estou explodindo de felicidade. Por quê? Porque eu quero viver esse momento junto com você, Lia. Eu quero cuidar de você, quero te mimar e estar ao seu lado em todos os momentos. Não fiquei chateada por você ter escolhido contar primeiro para Claudia, vocês são amigas desde o ginásio e eu reconheço a amizade de vocês a ponto de não me abalar em saber junto com o restante. Isso porque eu vejo a nós – ela fez um jeito como se incluísse cada pessoa que estava sentada à mesa. – como um só ser. Por isso fico feliz em estar compartilhando com vocês a minha felicidade. E... Liane Atsuke... você é a mulher da minha vida. Eu te amo demais.
– Gente, eu vou chorar – Manu passou a mão nos olhos azuis, sentindo em seguida o braço da ruiva mais linda do planeta passar por cima dos seus ombros. – Vocês são tão lindas.
– Primeiramente – a voz da japonesa estava embargada. – Eu quero agradecer a essa idiota – ela apontou para Claudia. – Por ter cismado que eu deveria investir em você.
– Garota, você acerta todas! –Victor gargalhou, referindo-se ao fato da morena também ter cismado em Sarah e Manuela.
– Em segundo lugar, quero dizer que, desde o momento em que você entrou na minha vida, você tem sido a parte mais importante dela, tem sido essencial em cada momento. E eu te amo mais que tudo – uma lágrima escorreu pelo rosto alvo, misturando-se a um sorriso tímido, porém verdadeiro.
– Ah, Deus, se beijem logo – Clara sorria abertamente ao dizer.
Sem pensar duas vezes, Juliana afastou a cadeira e levantou. A japonesa também fez o mesmo. E, ali, na sala de jantar, em meio a um monte de pessoas, as duas se beijaram como se estivessem sozinhas. Os gritos, assobios, e palmas ecoaram ensurdecedores ao fundo. E ficaram assim por longos segundos, enquanto Lia erguia os pés ao máximo e Ju se envergava um pouco para ajudá-la. Era um casal engraçado, mas não se amavam menos por isso.
– Nem vem todo mundo se beijar agora – Victor puxou Manu quando Sarah a beijou ardentemente.
– Concordo com ele. Não seria legal nós dois ficarmos olhando quatro casais lésbicos se beijando ao mesmo tempo – David parou um pouco, como se estivesse pensando sobre o assunto. – Na verdade, seria ótimo. Mas não podemos bater uma agora.
– Garoto, que nojo. Cala essa boca – Claudia gargalhou e jogou um pedaço do camarão esquecido no prato nele. – Por que vocês não namoram? Seria lindo – cutucou-os com um sorriso imprestável.
– Ta maluca? – Ambos disseram em uníssono.
– Eu estou brincando, calma – ergueu as mãos em defesa e riu junto com os demais. – Mas sério, está mais que na hora de vocês namorarem. Calma! – Antecipou-se quando Victor abriu a boca pra falar. – Cada um com uma garota. Pelo jeito a Lara ficou caidinha por você.
– Ela gosta de mulher, não deu pra perceber? – Ele choramingou. – Que desperdício, meu Deus.
– É, a vida não tá fácil pra vocês – Nanda riu enquanto dizia.
– É, não tá mesmo – David suspirou e só então todos notaram que Juliana e Lia continuavam se beijando.
– Gente, já chega, né? – Claudia as separou a força.
– Você é uma empata foda mesmo – Lia fez um biquinho, sentindo suas pernas bambas.
– Jura? Isso soa ironia pura vindo de você – todos gargalharam.
Era sempre assim quando estavam juntos. Como Juliana havia dito, eram como se fossem apenas um. E de fato era a única coisa que realmente importava.
Continua...
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