Fotografias
33 Forte Como o Sol
Notas iniciais
– Vamos, levanta dessa cama – Sarah sacudia a fotógrafa, que resmungou e virou para o outro lado. – Anda, amor.
– Eu não quero mais ir – reclamou fazendo charme. – Deita aqui e vem dormir, Sarah.
– Nada disso, você prometeu – enquanto dizia, a ruiva puxou o lençol que cobria o corpo perfeito de sua namorada. Ela estava somente de calcinha e sutiã, perfeita como sempre. – Vaaaaamos.
– Ah, tá bom – Manu bufou e tampou o rosto com o travesseiro de penas de ganso. – Antigamente você era mais carinhosa na hora de me acordar.
– Se eu for carinhosa, você não vai levantar – ela sorriu de um jeito doce, sentando sobre a barriga da loira. – Vamos, amor. Levanta.
– O sol nem saiu ainda – a loira choramingou, tirando o travesseiro para olhá-la. Ela, sem sombra de dúvidas, era a mulher mais linda do mundo. Do seu mundo. Os cabelos ruivos estavam soltos e desalinhados, com aquela ondulação nas pontas que tanto amava. E os olhos verdes brilhavam em expectativa. Parecia uma criança.
– Essa é a graça. Anda logo, amor.
– Só se você me der um beijo direito de bom dia – ela fez um bico irresistível que obrigou Sarah a fazer o que ela pedia, beijando-a com delicadeza, transmitindo todo o amor que sentia por aquela loira linda.
– Satisfeita? – Os olhos verdes encontraram os azuis.
– Na verdade, não, mas por enquanto assim está bom – deu um tapinha nas coxas de sua ruiva para que ela saísse de cima e então levantou da cama.
– Sabia que você fica ainda mais linda quando acorda? – Sarah a observou da cama. E aquele rostinho corando era completamente encantador. – Eu não me canso de dizer isso. Sei que fica sem jeito, mas você é tudo pra mim.
– Você é quem é tudo pra mim – um sorriso sincero brotou nos lábios rosados da loira, que se sentou no colo dela. – Eu te amo, sabia? – Olhou-a bem de perto e depositou um suave selinho naquela boca deliciosa.
– Eu te amo mais – suspirou, apaixonada. Mas no segundo seguinte, deu um tapinha nas coxas alvas. – Agora vamos, antes que o sol nasça e acabe estragando tudo.
– Mas o que diabos você quer fazer a essa hora? – Indagou a loira, enquanto pegava uma toalha no guarda-roupa.
– Não, você não vai tomar banho. Coloque um biquíni e uma roupa leve – aconselhou-a, pegando o seu próprio na gaveta e naturalmente tirando a camiseta e calcinha que estava vestindo. Sorriu quando o olhar dela foi atraído para o seu corpo.
– Vamos pra onde, afinal?
– Pare de fazer perguntas e se vista logo – ouviu-a bufar. – E sem reclamar.
– Está bem, sua chata.
E Manu acabou fazendo o que ela pediu. Pegou seu biquíni preto e o vestiu, assim que tirou as roupas íntimas que estava vestindo. Antes de conseguir colocar a saída de praia branca, Sarah a prendeu contra a porta do guarda-roupa e um suspiro escapou de seus lábios ao sentir a superfície gelada do espelho em suas costas. Sem pensar duas vezes, correspondeu ao beijo que ela iniciou, apertando-a contra seu corpo e envolvendo sua língua na dela. Era como se fossem uma só. O sentimento intenso que sentiam uma pela outra era tão grande que às vezes chegava a sufocar. E quem diria que isso tudo iniciaria de uma amizade virtual? Ao se afastarem, a fotógrafa a olhou e se derreteu com o sorriso dela.
– Agora vamos – Sarah quebrou o momento mágico e se afastou.
– Sua idiota, foi você que começou – ela passou os dedos nos lábios úmidos pelo beijo e foi calçar os chinelos, emburrada.
Sarah riu, balançando a cabeça negativamente. Ela era apaixonante demais.
Assim que a loira afirmou que estava pronta, ambas saíram em direção ao estacionamento. Sarah preferiu pegar seu carro e dirigiu-o até a praia de Copacabana. Estacionou próximo ao forte e ambas saíram com calma. Sabia que Manu ainda estava confusa, se perguntando o que diabos estavam fazendo antes das seis da manhã na praia.
O lugar estava deserto, a não ser por algumas aves que começavam aparecer junto com o nascer do dia. As minúsculas ondas daquela parte da praia reproduziam um barulho agradável aos ouvidos. A tonalidade escura do céu estava aos poucos se tornando mais clara, denunciando a proximidade do sol. Na primeira barraca da praia, uma luz fluorescente estava ligada e um rapaz de cabelos loiros estilo surfista estava cochilando em uma cadeira azul de plástico da Antarctica.
Sem se incomodar com a brisa constante daquele fim de madrugada, Sarah puxou a loira para a areia e juntas caminharam até a barraca.
– Você madrugou, Cadu – Sarah disse alto, despertando-o de seu leve e tranquilo sono. Os olhos dele tinha um tom achocolatado. – Bom dia.
– Está me devendo uma enorme, garota – ele respondeu, coçando os olhos. – Vai lá e escolhe as duas que você vai levar. Pode ficar o quanto quiser.
Manu o observou de forma curiosa, ainda tentando entender o que Sarah pretendia fazer. Seus braços estavam cruzados contra os seios, tentando manter o corpo quente.
– Por isso que você é meu primo preferido – ela bateu na mão dele e contornou a barraca, puxando a loira consigo. Pousadas na areia, tinha quatro pranchas de stand-up. Duas brancas com detalhes em azul, uma vermelha e branca e outra preta. Sarah decidiu ficar com a vermelha. – Qual você quer?
– A branca e azul – Manu franziu as sobrancelhas. Acima de suas cabeças, o céu ia ficando cada vez mais claro.
– Ótimo. Pode tirar a roupa – disse e começou a desabotoar o short e baixá-lo.
– Vamos entrar na água? Agora?!
– Vamos. Por que não? – Sarah tirou a camisa e jogou em cima do short e dos chinelos.
– Você só pode está brincando. Está muito frio – a loira fez questão de não descruzar os braços. – Eu não vou entrar.
– Ah, você vai sim. Nem que eu tenha que te arrastar daqui – se aproximou e depositou um breve selinho nos lábios dela. – Anda, tira essa roupa – ao dizer, pousou as mãos naquelas coxas e foi subindo-as devagar, levando o tecido fino da saída até tirá-la do corpo dela.
– Você adora fazer isso – ela fez bico, franzindo as sobrancelhas.
– Adoro mesmo – deu-lhe outro selinho e pediu para que seu primo a ajudasse a levar as enormes pranchas, com seus respectivos remos, para a água. – Vamos, amor. A água está morna.
E realmente estava, mas ainda assim a brisa conseguia deixar a fotógrafa um pouco receosa. Porém depois de muita insistência, acabou deitando sobre a prancha para em seguida ser conduzida por Sarah até que as pequenas ondas não a movimentassem tanto. Poucos segundos e ela estava ao seu lado, deitada sobre a prancha vermelha.
– Vamos lá para o fundo – ela alegou, remando com os braços ao mesmo tempo em que prendia o remo entre o corpo e a prancha.
– O que você está planejando? – Manu a seguiu, o corpo arrepiado de frio.
– Vem comigo e você vai ver.
Sarah estava com os cabelos ruivos presos num coque mal feito e quando já estavam bem longe da praia, tentou se equilibrar e ficou em pé sobre a prancha. Riu quando a loira tentou duas vezes e não conseguiu, então sentiu-se obrigada a se aproximar com o remo e ajudá-la. E juntas remaram rumo ao horizonte. Poucos segundos depois, Sarah se sentou de pernas cruzadas e apoiou o remo nas coxas. Olhou para ela, que ainda estava em pé, e sorriu.
– Olha pra lá – apontou com um sorriso enorme no rosto, vendo-a fazer o que pediu.
A loira não havia percebido que o céu tinha ficado num tom laranja e rosa, mas seu queixo caiu quando o sol foi se mostrando aos poucos, como se saísse do fundo do mar. Sem dúvidas aquela era a coisa mais linda que Manu já tinha presenciado na vida. Era tão... mágico. O mar começava a cintilar, brilhando contra seus enormes olhos azuis. Pareciam que estavam no paraíso.
– Nosso amor é como o sol – Sarah quebrou o silêncio de repente, chamando a atenção dela, embora olhasse fixamente para o fenômeno. – Forte e poderoso, mas sempre tem a escuridão da noite para ofuscá-lo, ou até as nuvens pesadas de uma futura frente fria. Só que, assim como ele, nosso amor sempre retorna com força total, pois no fundo ele sempre vai estar ali, presente.
– Nossa... – Manu estava paralisada, segurando o remo com ambas as mãos. Nunca ninguém tinha dito coisas tão lindas para ela. – Eu não sei o que dizer. Você é tão... perfeita – ela mordeu os lábios.
– Por que não sai dessa prancha e vem pra cá? – Ao indagar, a ruiva esticou o corpo esguio e puxou a prancha devagar, para que ela não caísse. Tentou ao máximo fazer com que a sua não virasse quando ela passou de uma para outra e sentou-se de costas para si. Com um sorriso bobo no rosto, abraçou-a por trás e ficaram em silêncio por incontáveis e perfeitos segundos.
– Sabia que você é a mulher da minha vida? – a fotógrafa desviou os olhos do perfeito horizonte para olhar aqueles olhos verdes brilhantes. – Foi o que eu ganhei de mais precioso.
– Você está tirando as palavras da minha boca – a ruiva corou de leve e depositou um beijo suave no ombro dela. – Vira pra mim – quando ela o fez, sorriu abertamente. – Eu te amo demais, você precisa só saber disso.
– E eu sei – o mar as embalava num ritmo lento e aconchegante, enquanto o sol subia aos poucos em direção a um céu que ia ficando cada vez mais azul. – E também te amo muito, muito mesmo.
– Espera, eu tenho algo pra você – sorriu quando ela olhou-a com curiosidade. Os olhos azuis ainda mais expressivos, com a mesma tonalidade do céu. Sarah virou um pouco de lado e desamarrou um pequenino saco feito de um tecido delicado azul, contrastando com seu biquine vermelho.
Como Manu não tinha percebido aquilo ali? Com as sobrancelhas franzidas, observou com curiosidade ela desatar o nó de uma fina fita branca e tirar outro saquinho de dentro, agora de plástico transparente. Seu coração falhou uma batida quando entendeu o que era. Sem dizer uma única palavra, notou-a abrir o saquinho e despejar dois anéis prateados sobre a palma da mão úmida. Sua garganta estava seca e o coração começava a bater numa velocidade incrível.
– São... lindos – ela conseguiu dizer, olhando para a prata reluzente.
– Aqui dentro está o nosso amor – Sarah pegou um dos anéis e o virou para que ela visse o que tinha dentro. Surpreendentemente, tinha um pequenino conjunto de nuvens, porém, atrás delas, tinha um firme e forte sol, como se brilhasse mesmo ofuscado pelo desenho da frente. – E eu quero simbolizar esse momento como uma oficialização dele, quero dizer que você é e sempre será parte de mim e da minha vida. Que não importa o que aconteça, eu sempre vou te amar, por toda a eternidade.
– Eu... Deus, não sei o que dizer – os olhos azuis encheram de lágrimas. – Eu te amo tanto, muito mais do que você imagina. Você é tão única, tão linda, tão perfeita...
– Tão sua – a ruiva completou, com um sorriso que não cabia no rosto. Então, um pouco trêmula, pegou a mão de sua namorada e colocou o anel no dedo fino. Ambos os corações batiam de forma descompassada. – Você é o amor da minha vida e eu não vivo sem você um segundo sequer.
– É tão bom saber disso – uma lágrima escorreu pelo rosto alvo. A felicidade não tinha fim. Com um jeito nervoso, também colocou o anel no dedo dela, beijando-o assim que terminou de fazê-lo.
De uma coisa Sarah tinha certeza, era realmente bom amar e ser amado. Ter um sentimento puro e intenso sendo compartilhado sem pedir nada em troca. Era como se uma precisasse da outra pra viver. E isso deixava tudo ainda mais perfeito. Sarah a amava demais e não tinha mais dúvidas sobre isso. E seja lá o que viesse a acontecer, jamais deixaria que aquele sentimento morresse. Com esses pensamentos, beijou-a de um jeito calmo e profundo, demonstrando tudo o que sentia por aquela mulher maravilhosa.
Depois de saírem do mar, ainda a levou para tomar café da manhã em um restaurante de luxo ali na orla mesmo, com direito a tudo que ela quisesse comer e um pouco mais até. Sarah não se importava com o dinheiro quando o assunto estava relacionado a ela. Gostava de vê-la sorrir e isso acalentava seu coração. Mesmo que soubesse que o mais simples gesto a deixaria feliz, pois conhecia a humildade presente em sua vida. Ainda assim, fazia questão de levá-la para conhecer diversos lugares e diversas culinárias, porque simplesmente era bom estar e fazer tudo aquilo com ela.
Quando o sol estava a pino, elas foram para casa. Sarah tinha um treino marcado para as duas horas e precisava de um banho demorado para tirar todo o sal da praia. Também precisava ligar para sua mãe e marcar para sair com ela. Pretendia dizer que estava apaixonada por Manuela e que era com ela que passaria todos os dias de sua vida. Sabia que não seria uma conversa fácil, mas tentaria fazer o possível para que fosse. Afinal, um dia teria que enfrentar seu futuro.
Manu abriu a porta do apartamento e entrou. Ela estava com a saída de praia já seca no corpo e nos chinelos ainda tinha areia. Sem contar que o cabelo estava duro e embaraçado por causa do sal da água.
– Que tal tomarmos aquele banho? – Sarah propôs, jogando a bolsa da loira em cima do sofá. – Estou agoniada com esse sal todo no corpo.
– Vamos, sim. Deixa só eu ligar o ar condicionado. Está um calor danado.
E foi o que fizeram. Ficaram por quase uma hora no banheiro, uma dando banho na outra. Beijaram-se por incontáveis minutos, de diversas formas. Fizeram amor, declararam o amor que sentiam uma pela outra. Não precisavam de mais nada na vida se estavam juntas.
Já atrasada, Sarah correu pelo quarto, em busca de seu uniforme. Se chegasse mais uma vez atrasada no treino, Denis arrancaria seu pescoço fora. Isso era certeza. Ainda com o corpo úmido, vestiu suas roupas íntimas, enquanto Manu a olhava com um sorriso divertido nos lábios. Era tudo culpa dela! Sempre linda e maravilhosa, distraindo-a com aquele jeito sedutor que ela sabia muito bem que tinha! Enquanto estava desesperada, ela se vestia com uma calma quase irritante. Depois de vestida, escovou os dentes com pressa e colocou uma rasteirinha nos pés. Pela terceira vez, verificou se o uniforme estava todo na mochila e suspirou ao notar que sim.
– Amor, estou indo – Sarah a encheu de selinhos rápidos.
– Eu vou com você até a por... – ela se interrompeu quando um barulho ensurdecedor veio da sala. Como num modo automático, ambas correram em direção a ele.
– Sabia que as duas estariam em casa – a voz estrondosa veio de um homem alto e forte. A pele dele era clara e os cabelos negros estavam penteados para o lado. Ele estava acompanhado de mais três caras. Atrás deles, a porta estava arrombada. – E vão vir com a gente.
– Quem são vocês?! – A ruiva se postou na frente da garota de cabelos loiros, como num intuito de protegê-la.
– Amigos do seu namorado – o sujeito de trás respondeu. – Sem delongas, vamos andando.
– A gente não vai a lugar nenhum – Manu puxou Sarah pelo braço. – Saiam da minha casa.
– Acho que a boneca não entendeu. Não estamos pedindo, estamos mandando – ao terminar de dizer o homem apontou uma pistola preta para elas. – Meu amigo ali no corredor está esperando pra levar vocês.
Era muito bom para ser verdade, Sarah pensou. Sem opção de escolha, segurou firmemente a mão de sua namorada e os seguiu. Do lado de fora, diferente do que pensava, não era Júnior quem as estava esperando. Era um sujeito baixo e parrudo, que estava vestido de preto e que tinha nas mãos um fuzil negro e intimidador. No rosto uma expressão séria. Com uma frieza descomunal, ele pegou com firmeza no braço de Manu e a jogou junto com Sarah dentro do elevador.
O coração da jogadora de vôlei falhou uma, duas, três batidas. Não era possível que Júnior tinha chegado a tal ponto. Será que ele nunca ia entender que não existia mais nada entre eles? Que amava perdidamente Manu?
Diferente da ruiva, Manu tinha certeza que Júnior tinha ciência que o relacionamento deles não teria mais volta. Não depois de ter presenciado tudo que havia dito. Mesmo assim, não abriria mão daquela mulher, nem para ele, nem para ninguém. Por mais que estivesse ali, morrendo de medo, ainda seria forte para ficar ao lado dela. Afinal, aquela seria só mais uma escuridão para ofuscar o brilho do amor delas. Só que, como o sol, ele sempre estará lá, com força total.
Continua...
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