Fotografias

34 Desespero


Notas iniciais
Gente, desculpem a demora. Sério. Acabei me enrolando demais com essa viagem. Mas trouxe o capítulo pra vocês. Espero que gostem.

– Como é que é?! – Nanda gritou na sala de estar, assustando Mari e Gustavo. O celular estava grudado ao ouvido. – Como assim “elas não estão em casa”?! Vocês não estão em plantão 24 horas? – A índia mal notou sua mulher levantar do sofá com um semblante preocupado. – Almoçando? Almoçando?! E vocês não poderiam revezar? Mas que droga, Oliveira! Estou decepcionada – ao terminar de dizer, encerrou a ligação, bufando alto em seguida.

– O que aconteceu, meu amor? – A loira se aproximou. Gugu brincava com um carrinho de corrida no tapete felpudo, agora distraído.

– Sarah e Manu não estão em casa – ela respondeu, exasperada, notando-a arregalar os olhos cor de mel. – A porta estava escancarada e os idiotas não viram ninguém entrando no prédio porque estavam almoçando. Todos juntos como uma família – ironizou. – É por esse motivo que eu não simpatizo com policiais.

– Fica calma. Vamos ligar para elas.

– Tente ligar e também ligue para as meninas. Pergunte se elas sabem de alguma coisa sobre as duas – deu um selinho apressado nos lábios de Mari e depois um na testa de Gugu.

– Aonde você vai? – Mari já estava discando o número de Manuela no Iphone branco.

– Vou ir até o apartamento da Manu – respondeu, enquanto pegava o celular do bolso da calça jeans que usava e já discava um número muito conhecido. – Se alguma coisa de fato aconteceu, vou precisar de ajuda. Não confio na polícia, eles são lentos demais – ao terminar de dizer, bateu abriu a porta e saiu apressada.

Era impressionante como nada saía do jeito que planejava. Chegava a até ser engraçado.

(...)

Sarah não teve a mínima ideia de onde estava quando abriu os olhos devagar. O lugar era amplo e escuro, iluminado apenas por alguns feixes suaves de luz que invadiam os buracos no teto e nas junções da parede. Demorou um pouco para que percebesse que estava em pé com os braços para o alto, amarrada pelos pulsos. Inutilmente, balançou o corpo com o intuito de se soltar daquelas cordas. Mal percebeu que por todo canto tinha vazamentos, o que deixava um cheiro de mofo horrível.

O que diabos tinha acontecido? Onde estava Manu?!

Com certo desespero, voltou a percorrer os olhos pelo lugar, agora semicerrando-os para apurar a visão. Seu coração disparou alucinado quando a viu na outra extremidade. Manu estava na mesma posição, em pé e amarrada, mas sua cabeça estava tombada para frente. Mais uma vez tentou se soltar, dessa vez colocando mais força em seus movimentos. Droga! Tinha que tirá-la dali, precisava fazer isso logo, enquanto estavam sozinhas. Não aguentava ver sua namorada tão vulnerável.

– Manu – chamou-a, medindo o tom de voz para que não a escutassem. Antes de voltar a falar, olhou em volta para ter certeza de que estava realmente a sós. A preocupação tomava conta de seu corpo e mente. – Pelo amor de Deus, Manu. Acorda!

Mas não obteve resposta, o que fez com que todo seu corpo tremesse de medo. Ela não podia estar machucada, não podia! Disse aquilo em pensamento, como se fosse um mantra a ser seguido. Nunca se perdoaria se alguma coisa tivesse acontecido com ela. Quantas vezes teria que prometer protegê-la para depois vê-la machucada mais uma vez.

Chamou-a mais umas duas ou três vezes, porém continuou sem resposta. Podia sentir um bolo preso na garganta e nem percebeu que seu corpo doía por causa da posição em que era obrigada a ficar. Não iria se dar por vencida, não enquanto soubesse que Manu ainda estava viva. Simplesmente não podia desistir. Ela estava inconsciente bem na sua frente, precisava fazer algo para ajuda-la. Precisava ter certeza que ela estava bem!

– Manu, por favor... – as lágrimas escorreram pelos olhos verdes, expressando toda a agonia que estava sentindo. Mal se importava que seus cabelos estavam soltos sobre os ombros, desalinhados por causa de toda aquela confusão.

– Boa noite, Sarah – uma voz grave invadiu o ambiente, fazendo todos os pelos do corpo da ruiva arrepiarem. Não conseguiu enxergá-lo direito por causa da escuridão, mas via a enorme silhueta se aproximar cada vez mais. Os passos ecoavam de forma seca e sombria. – Olha em que circunstância viemos parar, não é?

– Júnior...

– O próprio – Sarah não enxergou o sorriso debochado. – Parece que sua namoradinha ainda não acordou depois da surra que levou.

– Isso é mentira! – O sangue gelou em suas veias. Sacudiu o corpo com força, inutilmente tentando se soltar. As lágrimas haviam parado de escorrer, embora o rosto alvo ainda continuasse molhado. – O que vocês fizeram com ela?! Me solta, Júnior!

– Não adianta se sacudir, amor – ele estava próximo demais, o que a deixava cada vez mais tensa. Conseguia sentir a respiração quente tocar sua bochecha. – Ela só levou uns tapas. Deveria me agradecer – a ruiva o olhou incrédula, porém não teve tempo de responder. – Eu pedi para que te apagassem para não vê-la apanhando. E eu também não permiti que te machucassem. Só eu posso fazer isso, porque você é minha mulher. Se algum deles tocasse um dedo em você, eu seria capaz de arrancar-lhe os olhos.

Surpreendendo-o, Sarah levantou a cabeça e cuspiu no rosto dele. Sabia que estava mexendo com fogo, mas não toleraria que ele falasse como se fosse propriedade dele, porque não era! Não tinha mais nada com aquele homem! Odiava-o com todas as suas forças, o que chegava a ser difícil de imaginar que um dia o amou perdidamente. E agora ele estava ali, ordenassem que batessem na mulher da sua vida, na única pessoa que a entendia perfeitamente, que largaria qualquer coisa para que ficassem juntas. Isso tudo porque não aceita perder.

– Mais respeito! – Júnior levantou a mão e lhe acertou um tapa forte no rosto da ruiva, que virou para o lado e se manteve daquele jeito. Depois passou a mão em seu próprio e limpou o cuspe com a palma, secando-a no jeans. – Você tem ficado cada vez mais desaforada.

– E você está ficando cada vez mais insuportável. Me solta, Júnior!

– Já falei que não adianta espernear. Eu dei um aviso para sua namoradinha e ela não me escutou – os passos foram se distanciando. Sarah ficou tensa. – Ela não acreditou que eu fosse capaz de fazer as coisas que prometi. De matar você, de sequestra-las. Ela pensou que eu estivesse brincando.

– Sai de perto dela! – Sarah gritou entre dentes, tentando não se abalar com as coisas que ele dizia. Mais uma vez tentou se soltar, em vão.

– Parando pra reparar – ele comentou, despreocupado. A visão da jogadora ia se acostumando com a escuridão aos poucos. – Você arrumou uma namorada bem gostosinha – Sarah arregalou os olhos quando Júnior alisou o corpo inerte de Manu.

– NÃO SE ATREVA A TOCAR NELA! – Berrou, puxando com ainda mais força os pulsos. Não se importava nem um pouco com a dor que os movimentos bruscos estavam lhe causando. – JÚNIOR!

– O que você vai fazer? – Júnior indagou, sarcástico. A mão grande e calejada subiu pelas coxas e entraram por dentro da blusa de Manuela. – Olhe enquanto eu fodo essa gracinha.

– NÃO TOQUE NELA! – Sarah gritou tão alto que teve a sensação de ter sido escutada pelo país inteiro, por mais que não fizesse a mínima ideia de onde estavam. As lágrimas voltaram a escorrer, grossas e violentas. – JÚNIOR, VOCÊ ESTÁ ME ESCUTANDO?!

– Não – riu e beijou o pescoço da loira, que ainda estava inconsciente. Sarah desviou os olhos. Não conseguia assistir aquilo. – Que perfume ela usa? É tão bom — ele se divertia com o desespero da ruiva de olhos verdes.

– Para com isso! – Desistindo de lutar contra as cordas, parou com os movimentos. – Por favor, Júnior. Eu imploro... Eu faço o que você quiser... Mas não toca nela...

– Olha que interessante – Júnior a ignorou e levantou a cabeça de Manu pelos cabelos dourados, que estavam soltos como os de Sarah. – Ela está acordando.

– Manu!

– Sarah? – A fotógrafa tossiu, sem forças. – O que está acontecendo?

– Sai de perto dela, Júnior. Eu juro que vou matar você quando eu me soltar daqui! — Sarah voltou a balançar as pernas. Os pulsos já estavam ficando roxos.

– Parece que você ganhou algumas forças depois que ela acordou. Mas isso não vai ser por muito tempo – ao terminar de dizer, ele soltou a loira e se afastou, indo na direção de onde tinha chegado. – Vou pedir uma comida. Estou morrendo de fome. Sei que também estão, mas só tenho dinheiro pra uma – rindo, ele saiu do local.

Manu não tinha ideia do que estava acontecendo, mas por algum motivo não conseguia se mexer. Seu corpo estava dolorido e algo parecia estar queimando seu estômago. A última coisa que lembrava era que estavam no carro e em algum momento respirou algo muito, mas muito forte. Sentia o nariz ardendo até agora por causa daquilo. Depois disso, não se lembrava de mais nada.

– Amor... – A voz desesperada da ruiva fez com que seus olhos a procurassem no escuro. Estava tão desnorteada que não percebeu que ela estava chorando. – Fala comigo.

– S-Sarah – sentiu a garganta seca ao dizer. Precisava de um copo d’água.

– Deus, você está bem? – Ela indagou, tentando mais uma vez se soltar.

– Não sei – Manu tossiu. Estava muito fraca. – Eu não consigo respirar direito. Onde nós estamos?

– Não faço a mínima ideia – ela mordeu os lábios, tentando conter as lágrimas. Queria sair dali, queria que Júnior fosse preso. Ver Manu tão debilitada fazia com que seu coração ficasse apertado a ponto de doer. – Nanda vai nos encontrar. Tente aguentar mais um pouco.

– Tudo bem – a loira semicerrou os olhos azuis e encontrou o que deveria ser sua namorada, presa na outra extremidade. – Estou com medo...

– Eu sei. Também estou – confessou, respirando fundo. – Mas lembra do que eu disse? Nosso amor é como o sol, firme e poderoso – sorriu ao percebê-la assentir. – Então não tem com o que se preocupar. Tudo vai acabar bem se ficarmos juntas até o fim – queria realmente ter certeza daquilo, mas não tinha. – Nós vamos conseguir sair daqui. É só uma questão de tempo.

Tudo que Sarah mais queria no mundo era se ver livre de Júnior. Quanto mais longe ele ficasse, melhor. Serpa que nunca poderia viver em paz com a pessoa que amava? Era dessa resposta que desesperadamente precisava naquele momento.

(...)

Por mais que Nanda tentasse se comunicar com as meninas, de nada adiantava. O celular de Manuela só chamava sem parar e o de Sarah caía direto na caixa postal, como se não tivesse sinal no lugar em que estavam, o que não ajudava em nada a encontra-las. Quando chegou ao apartamento da fotógrafa, notou o aparelho dela sobre a mesinha de centro na sala de estar. Talvez Manuela não tivesse tido tempo em pegá-lo.

No caminho de casa até ali, ligou para o local em que Manu trabalhava e também para o Clube do Flamengo, onde Sarah treinava. Nada. Estava cada vez mais impossível pensar que nada de ruim tinha acontecido. Elas não sairiam sem se comunicar com ninguém, muito menos deixariam a porta escancarada daquela forma. Precisava encontrá-las de qualquer jeito.

Antes de subir para o apartamento, primeiro tratou de dar uma bronca em cada soldado de sua equipe, fazendo o mesmo com a equipe policial. Era um absurdo que um furo tão grande tivesse acontecido bem debaixo de seus narizes.

Precisava pegar as imagens das câmeras de segurança do prédio, tanto internas quanto externas. Só estava esperando o mandato chegar. Enquanto isso não acontecia, só podia esperar. E isso era uma verdadeira agonia.

– Parece que você está mesmo enferrujada depois que casou – uma voz muito conhecida invadiu o ambiente, fazendo um sorriso escapar de seus lábios, apesar da situação. O sotaque mineiro carregado misturado com aquele tom marrento fez Nanda perceber o quanto sentia saudades.

– Foi preciso mesmo eu te chamar para que você viesse me ver, não é? – Nanda ergueu os olhos negros e levantou do sofá. – Vem pro Rio e não visita os amigos.

Encostada no batente da porta do apartamento, estava uma mulher de cabelos loiros enrolados. Os olhos eram de um azul tão claro quanto o céu lá fora, intensos e brilhantes. Ela trajava calça jeans colada e um colete também jeans por cima de uma regata preta. Nos pés, botas de couro salto agulha. Era impossível não notar a maquiagem forte em seu rosto. Um sorriso debochado lhe dava um charme a mais.

Nanda se aproximou e a abraçou apertado. Haviam se conhecido num trabalho que precisou fazer em Belo Horizonte pela Marinha, há algum tempo. Desde então, nunca mais perderam contato.

– O que está acontecendo? – Ela indagou ao se afastar, agora com um semblante sério e preocupado.

– Eu acho que minhas amigas foram sequestradas – a índia respondeu, apreensiva. – Eu sei que o Hugo vai te matar, mas preciso mesmo da sua ajuda pra encontrá-las. Até porque...

– Quem é você? – Um homem alto vestido numa farda da marinha indagou ao chegar no corredor, interrompendo a índia. Num movimento automático, a mulher levou a mão ao colete e tirou um distintivo.

– Débora Rodrigues – ela respondeu com um sorriso divertido. – Detetive de homicídios.

Continua...

Notas finais
Não me matem pela cena do Júnior, pelo amor de Deus u.u E quem aqui leu ou lê Coração Domado? Pra quem não conhece, é uma personagem minha de lá *---* Quem conhece, o que achou da aparição dela? Beijo gente.