Fotografias

35 Detetive


Notas iniciais
OMG, hoje era dia de postar Coração Domado, mas estou tão compenetrada aqui que está quase impossível escrever lá. Mas aos poucos vou conseguir voltar pra rotina. Ah, queria deixar claro que aqui em Fotografias está se passando antes de Coração Domado, ou seja, ninguém foi pra fazenda e conheceu a Carla ainda. E eu não esqueci. Lopes, sua linda, obrigada pela maravilhosa recomendação. Linda demais *-*

A sala de monitoramento estava beirando os níveis do inferno. Era como se Débora e Nanda estivessem dentro de um forno ligado na máxima potência. A única coisa que tinha para refrescá-las era um minúsculo ventilador em cima de uma mesa abarrotada de papeis. Depois que a detetive aparecera, não havia demorado muito para que o mandato chegasse. Nesse meio tempo, elas conversaram sobre Júnior e o relacionamento de suas amigas. Oliveira, um de seus companheiros na Marinha, estava do lado de fora do apartamento, esperando por ordens no corredor.

– Volta um pouco – Débora pediu. Naquele momento, o colete estava jogado sobre as costas da cadeira e a regata dobrada até os seios, mostrando a barriga definida por anos de treino.

– Aqui? – A índia levou o cursor do mouse até a barra de reprodução da gravação e voltou dois minutos. Estava impossível trabalhar ali dentro. A calça jeans estava lhe matando e, por mais que arregaçasse as mangas da camisa até os ombros, o calor estava insuportável. Fez uma nota mental para que Manu reclamasse disso na próxima reunião sindical.

– Isso, agora pausa e dá zoom – a gravação estava em tela cheia e mostrava o lado externo do prédio. Pela forma despreocupada dos homens e a localização do carro, parecia que não estavam nem um pouco preocupados com as câmeras de segurança. Assim que a traseira do Range Rover foi ampliada, Débora anotou a placa. – JKY 2245. Chame seu amigo.

– Já volto – Nanda levantou da cadeira ao lado e saiu da pequena sala.

Numa busca inútil de tentar arejar o local, a loira foi até a única janela e tentou abri-la um pouco mais, porém estava emperrada. Como os seguranças conseguiam ficar ali dentro por seis ou oito horas seguidas? Isso transcendia os limites humanos. Nem ao menos conseguia pensar direito. No momento em que reparou seu celular tocar em cima da mesa do computador, notou o rosto de seu parceiro no visor. Suspirando, pegou-o, passou o polegar na tela e levou o aparelho ao ouvido.

– Conseguiu falar com sua irmã? – A voz da loira estava mais fria que o normal, apesar de saber quem estava falando do outro lado da linha. Quando ele terminou de falar, continuou: — Não vou voltar pra BH, Hugo. Estou em um caso agora – fechou os olhos quando seu parceiro alterou o tom de voz. – Não, eu vou ficar. Mande um beijo para Rebecca. Tchau – e encerrou a ligação.

– Queria falar comigo, detetive? — Oliveira indagou assim que entrou na sala, junto com Nanda. A farda da Marinha estava impecável, mostrando o quanto o homem seguia rigidamente as regras das forças armadas. Diferente da policial, que estava toda relaxada. Ele tentou não baixar os olhos para os músculos da barriga exposta.

– Quero. Pegue esta placa e ligue para o DETRAN. Precisamos localizar o carro dos bandidos – Débora entregou uma página de seu bloquinho de notas para ele. – Enquanto você tenta, Cairu e eu vamos tentar rastrear o celular da Sarah, o que deve ser mais preciso, já que eles podem ter deixado o carro em qualquer lugar e ter seguido para onde estão agora.

– Faça o que ela pediu – Nanda disse com seu tom de voz firme e profissional.

– Sim, senhora! – Oliveira bateu continência e saiu da pequena sala.

– O que foi? – A índia indagou ao ficarem finalmente sozinhas.

– Hugo me ligou, pedindo para que eu voltasse para Belo Horizonte com ele – Débora suspirou, pegou seu colete jeans e o colocou, sem se preocupar em baixar a regata. – Estou evitando ficar por perto e disse que ficaria por aqui. Vamos lá pra fora, não aguento mais ficar aqui dentro.

– O que realmente aconteceu, Débora?

Ela pensou um pouco antes de responder, vendo-a apertar o botão do elevador, que indicava estar no térreo. Só quando ele chegou até o andar em que estavam que decidiu responder.

– Terminei meu namoro – disse em tom baixo, entrando no cubículo metálico. Precisava desesperadamente de um cigarro. – Não aguentei a pressão, Fer. E ainda por cima matei uma criança sem querer, jamais vou me perdoar por esse erro fatal. Já deve está imaginando como minha vida anda – a loira sorriu triste, batendo nervosamente o pé no chão. Não era uma pessoa muito sociável, muito menos costumava se abrir para as pessoas.

– Tenho alguma ideia – a outra respondeu, sem muito saber o que dizer. Em sua mente sempre veria uma Débora forte e determinada, que nunca deixava ninguém tirar proveito de sua vida. – Mas você acha que foi mesmo válido ter feito isso?

– Não... Mas ando tão confusa – suspirou, saindo do elevador e indo para o hall de entrada do prédio ao mesmo tempo em que retirava o maço de cigarros do bolso do colete. – Não consigo nem olhar na cara dela, Fer. Uma amiga disse que ela não para de chorar, que discute com o irmão a todo tempo. Isso está acabando comigo, porque eu terminei pra ajudar a melhorar as coisas, mas só acabei piorando tudo.

– Se foi o que você escolheu – a marinheira abriu a porta do prédio para que ela passasse e fechou assim que saiu também. -, vai precisar de muito mais que isso pra seguir a diante. No final, tudo vai acabar bem. É o que minha mãe sempre diz. Talvez vocês fossem destinadas a apenas serem amigas.

– Eu duvido – rindo abafado, Débora finalmente acendeu o cigarro e o levou até a boca. Não tinha como pensar naquela ruiva sem querer tocá-la. – Mas vamos ao que interessa, suas amigas podem estar bem encrencadas.

(...)

Manu precisava desesperadamente de um copo d’água. Sua garganta estava muito seca, como se tivesse passado o dia inteiro caminhando pelo deserto. Sem contar as dores que estava sentindo por todo o corpo. Se não fosse Sarah lhe dando forças, não sabia o que seria de sua vida.

Não aguentava mais ficar naquela posição, em pé e com os braços para o alto, amarrada pelos pulsos, que já estavam roxos àquela altura. Seus cabelos estavam soltos e constantemente caía sobre os olhos, incomodando ainda mais, pois estava um calor infernal. Os feixes de luz atravessavam as frestas no teto e nas paredes. Em algum momento, Manu percebeu que eram de ferro. Onde será que estavam? Não fazia a mínima ideia.

Ainda assim, a única coisa que desejava de todo coração era que Sarah saísse dali sã e salva, que pudesse viver sua vida como sempre quis. Não que não desejasse sair dali também, mas sua prioridade era a ruiva. De que adiantaria viver sem tê-la?

– Amor? – Ouviu-a chamar da outra extremidade. Apenas enxergava a silhueta do corpo esguio, que se encontrava na mesma posição em que estava. – Você está bem? Aguenta firme.

– Estou – Manu tossiu ao dizer, sentindo a garganta arder por causa da droga inalada algumas horas antes. – Minha cabeça está explodindo.

– Eu estou quase me soltando – a ruiva avisou-a, embora seu tom de voz estivesse quase inaudível. Não poderia correr o risco de Júnior ouvi-la. Também não se importava com os machucados que a tentativa de fuga estava lhe causando. – Precisamos dar um jeito de sair daqui.

– Ele pode vir a qualquer momento – fez questão de lembrá-la, o coração batendo alucinado contra o peito.

– Eu sei, mas não posso ficar parada vendo você nesse estado – Sarah tirou os pés do chão, se pendurando pelos pulsos. A dor foi insuportável, porém a corda cedeu um pouco. Atrapalhando seus planos, passos foram ouvidos do outro lado do local. – Droga – voltou a firmar os pés no chão e ficou em silêncio.

Felizmente todos os minutos em que Júnior se manteve ausente fez com que Sarah conseguisse acalmar a si mesma e também a Manu. Não tinha porque se desesperar enquanto ele não estava por perto. Muito pelo contrário, tinham que ficar unidas como se fossem apenas um ser. Porém, quando ele voltou para o lugar onde estavam, todo o principio de relaxamento tinha se esvaído como mágica, dando lugar a mais pura tensão.

– Vocês estão quietas demais. O que estão aprontando? – Ele indagou, palitando os dentes no escuro.

– O que você quer agora? – Sarah se atreveu a perguntar. Seus pulsos queimavam como se estivessem mergulhados em água fervente.

– Você gosta mesmo de me provocar, não é? – Júnior ficou no espaçoso vão que as separavam. – Eu vim com boas intenções – ao dizer, ergueu uma garrafinha de água, que cintilou de leve devido a um raio de sol que invadia um buraco acima de suas cabeças. – Sua namoradinha deve estar com sede.

Sarah voltou a ficar tensa, olhando fixamente para a silhueta a sua frente. Conseguia ver mais ou menos o sorriso arrogante e o olhar divertido. Não queria que ele voltasse a se aproximar de Manu, mas sabia que se esperneasse, ele faria bem mais que isso. Então se manteve quieta, vendo-o andar a passos lentos na direção da loira de olhos azuis. Sentia seu coração martelar forte contra o peito. Não tinha como agir de outra forma, era natural.

– Aqui, beba um pouco – ele ergueu a garrafinha azul transparente até a boca de Manu. Alguma coisa estava errada. Porque ele estava sendo bonzinho? No segundo seguinte, tudo se explicou. Quando a fotógrafa abriu a boca, sedenta pelo liquido, Júnior afastou a garrafa e, com um sorriso aberto, derrabou toda a água do recipiente no chão. – Ops, desculpa. Escorregou a minha mão.

– Seu maldito – Manu disse baixinho, olhando-o com repúdio, mas o homem pareceu ignorá-la. Ele voltou o caminho, indo até a ruiva, e tirou outra garrafa do enorme bolso da calça jeans.

– Bebe um pouco. Você deve está morrendo de sede – o tom de voz mudou para um preocupado e protetor. Alguns meses atrás, Sarah cairia perfeitamente em seu truque.

– Não quero – virou o rosto ao sentir o plástico da boca da garrafa em seus lábios.

– Eu não estou pedindo pra você beber, estou mandando – e tentou mais uma vez, porém a ruiva mais uma vez desviou. Irritado, pegou o rosto dela com a mão livre, apertando as bochechas para que ela fizesse bico, e a obrigou. – Você não tem alternativa.

Assim que ele soltou o rosto da jogadora, ela franziu as sobrancelhas e cuspiu todo conteúdo na blusa dele. Sabia que ele ficaria muito irritado, porém nunca faria isso. Não podia simplesmente matar sua sede enquanto Manu a olhava do outro lado, precisando mais que ela. Como já esperava, ele ergueu a mão e acertou-lhe um tapa forte no rosto. Por alguns segundos, Sarah viu estrelas e quase não conseguiu ouvir Manu gritar por ela.

– Pare de agir como uma criança – Júnior segurou os cabelos cor de fogo entre os dedos grossos, apertando-os com força e puxando ao mesmo tempo. Sarah gritou de dor.

– Júnior, você não precisa agir assim – Manu falou baixo, forçando a voz. Estava tentando manter a calma, mas era quase impossível vendo sua namorada gritando daquele jeito.

– Não se mete, loirinha – ele apontou para trás, embora ainda olhasse fixamente para a jogadora de vôlei. Manu desviou os olhos, enojada, quando ele deu um selinho molhado nos lábios de SUA namorada. Queria matá-lo, mas estava fraca até para falar. – Eu disse pra beber – e voltou a segurar o rosto dela com força.

– Eu não vou beber, idiota! –Sarah mordeu os lábios e lutou contra a força dele para virar o rosto.

– Então morra de sede – com raiva, Júnior arremessou a garrafinha para longe, que bateu contra a parede de ferro num barulho alto.

– Eu juro que vou matar você quando sair daqui — a ruiva falou entre dentes. – Nos deixe em paz.

– Em paz? Vocês me deixaram em paz algum minuto sequer? Você me abandonou. O seu namorado!

– Ex – Manu o corrigiu.

– Cale a boca! – Júnior se virou e foi até onde ela estava, parando a centímetros de distância. – Ela é MINHA namorada. Você chegou estragando tudo, levando tudo que eu tinha.

– VOCÊ BATIA NELA! – Gritou, terminando de ferrar com sua garganta. Ficaria dias sem voz pelo visto.

– Eu batia porque ela merecia, porque ela me desobedecia, não dava valor as coisas que eu fazia para ela. Eu sempre estava presente em todos os momentos, sempre ligava, mandava SMS, mas ela me ignorava e dizia que eu estava sendo grudento demais. Mas tudo que eu queria era que ela se sentisse amada por mim, só isso – o psicopata falava de maneira desenfreada, deixando salivas escaparem dos lábios e molharem o rosto da loira, que fez questão de virá-lo para o lado. – Mas aí você apareceu e tomou conta de tudo! Você roubou o coração dela. Eu ia me casar com ela!

– IA – Sarah enfatizou do outro lado. – Eu a amo, Júnior. É com ela que eu vou me casar, ter um monte de filhos, viver numa casinha simples na roça até ficarmos velhinhas. Porque ela é o amor da minha vida. Você deveria aceitar isso de uma vez por todas.

– Eu nunca vou aceitar! – Ao lado dele, Manu sorria apesar das dores. Nunca tinha ouvido Sarah falar do futuro como naquele momento e pensar nisso acalentava seu coração cansado. – E vocês não se casarão se eu matá-la agora – Sarah ficou tensa quando o viu levar a mão até a barra dianteira da calça.

– Júnior, NÃO! – Ela gritou ao notar a pistola prateada. O que restava inteiro no seu emocional também foi para o buraco. Manu se mantinha em silêncio, olhando para o cano da arma. – Pelo amor de Deus, Júnior! Abaixa essa arma!

– Por que eu faria isso?

– Por que eu estou pedindo. Por favor, não faz isso. Só vai piorar as coisas para o seu lado – o coração da ruiva batia tão rápido que acabava por deixar sua respiração ofegante. – Não faz isso, por favor.

– Pensando bem, ela merece sofrer um pouco antes – ao colocar a pistola de volta no lugar, Júnior pegou um canivete no bolso lateral. – Vamos começar?

– O que você vai fazer?! – Sarah indagou em desespero. Conseguia ver claramente agora tudo que estava acontecendo. Seu coração falhou uma batida quando ele cortou a corda que sustentava o corpo da fotógrafa e ela desabou no chão, sem forças. – Manu! – Gelou quando Júnior a virou de costas para o chão sujo e cheio de lixo e sentou sobre o quadril dela. – Sai de perto dela! JÚNIOR!

– Eu estava falando sério quando disse que ia fodê-la – ele disse num tom divertido, levando as mãos até os seios moderados e apertando-os com violência. Manu franziu as sobrancelhas e tentou se livrar do peso sobre seu corpo, mas estava sem forças.

– DEIXE-A EM PAZ, JÚNIOR! Faz comigo, não com ela – a ruiva se sacudiu, tentando se livrar da corda. Não conseguia ficar olhando muito tempo para aquela cena. – JÚNIOR, SAI DE CIMA DELA!

– Apenas observe, amor – ele rasgou a camisa que Manu vestia, revelando o sutiã preto com detalhes rosa pink. – Enquanto eu fodo essa sua linda namoradinha.

– NÃO! – Gritou. As lágrimas voltaram a escorrer, grossas e em grande quantidade. Seu coração estava tão apertado que chegava a sufocar. Sabia que Manu não tinha forças para tentar se livrar dele, sabia que ela estava muito machucada. E isso tudo estava acabando consigo.

Queria ter forças para se livrar daquelas cordas e mandá-lo para o quinto dos infernos, mas tudo que podia fazer era olhar enquanto seu ex começava um ritual de estupro na mulher da sua vida. Não podia fazer mais que orar em silêncio para que Nanda chegasse logo, pois tinha certeza que ela viria resgatá-las.

(...)

Oliveira tinha descoberto o local onde se encontrava o carro em que os bandidos tinham levado Sarah e Manuela. Comunicando à delegacia responsável pelo caso, Nanda, juntamente com ele e Débora, foi para a localização que o DETRAN havia lhes passado. Acabaram por chegar num terreno baldio na extremidade do centro da cidade.

Estava ainda mais calor ali. Não demorou muito para que a patrulha chegasse com reforços. Com luvas descartáveis, Débora abriu o carro e primeiro procurou pelo celular de Sarah, mas felizmente não o achou. Então realmente estava com ela. Na parte de trás do carro, havia sangue no banco e no tapete, provavelmente de Manuela. De acordo com o que Fernanda havia lhe contato, duvidava muito que Júnior pudesse ser capaz de ordenar que batessem na mulher que ele supostamente amava.

Fora aquelas provas, o local estava deserto. Eles apenas tinham deixado o carro ali, como havia previsto, e seguiram para outro lugar. Como sem mais opções de escolha, Débora pegou o próprio celular e ligou para a operadora da qual Nanda lhe dissera que Sarah pertencia. Demorou uma eternidade para conseguir informações. Odiava fazer aquele tipo de serviço, odiava falar com pessoas, odiava atendentes de telemarketing. Eram uma praga na vida do consumidor. Então, depois de quase meia hora, encerrou a ligação e olhou para a índia de olhos e cabelos escuros.

– Zona Portuária – a detetive disse com um semblante sério.

– Precisamos de um plano – Oliveira se atreveu a dizer.

– Eu tenho o plano perfeito – Débora voltou a falar, já que Nanda apenas estava esperando por sua decisão. – Entramos no carro e vamos até lá chutar algumas bundas – um sorriso de expectativa brotou nos lábios volumosos.

De alguma forma, Nanda também sorriu. Afinal, foi por isso que tinha ligado para ela.

Continua...

Notas finais
E então? O que acharam? Amanhã no curso respondo os reviews. Beijos, gente sz