Vozes. Poderosas e estrondosas soando em seus ouvidos, alimentando a escuridão que a cercava. Ela não conseguia se mexer ou enxergar, tudo era escuridão e este tudo era preenchido pelas vozes. Não compreendia o que diziam, pareciam falar outra língua, mas ao mesmo tempo o som das palavras lhe eram estranhamente familiares. Sua respiração começou a ficar mais acelerada conforme o som das vozes iam crescendo, até que apenas duas se sobressaiam. Disputando pela atenção dela. Lampejos de chamas a cercaram e logo se viu novamente naquele conhecido, porém ao mesmo tempo estranho, local. A vila em que fora resgatada, aonde renascera milagrosamente ao ser resgatada por Madame Verbeek. Contudo a imagem da afeiçoada diretora não conseguia permanecer muito em sua mente, pois ela estava tomada por chamas e gritos.

Forçou-se a se mover, correndo pelas casas em chamas. Pessoas que um dia poderiam ter tido um rosto e significado para ela agora se contorciam como vultos das sombras. Agarrou a saia de seu vestido para que pudesse correr mais rápido, tentando fugir daquele lugar terrível. O fogo parecia crescer cada vez mais e as chamas lambiam seus pés, provocando-a. Correu pelo que pareceu a eternidade até que chegou ao fim da vila. Deu mais alguns passos por impulso até que parou, observando que agora tudo a sua volta era escuridão. A vila em chamas havia desaparecido e, junto dela, as vozes que tanto a perturbavam. Deu um passo vacilante e sentiu sua pele roçar no que parecia uma pena, virou-se procurando algo e percebeu um par de olhos vermelhos a observando. Ao piscarem, mais vinte surgiram e novamente se multiplicaram até que ela se visse cercada pelos olhos vermelhos. Ouviu um grasnar distante e logo os olhos se movimentaram e ela pôde ouvir o bater de asas dos corvos em sua direção. Arranhando sua pele com garras afiadas e perseguindo-a na escuridão.

Ela fechou os olhos, desejando espantar tudo aquilo para longe, e gritou dando voz ao medo que a tomava e parecia sufocar sua respiração. Sentiu, então, algo frio debaixo de seus pés e abriu os olhos em um sobressalto. Estava no pátio do lado de fora da escola, o vento frio da manhã era sua única companhia. Abraçou-se e observou o céu, já estava amanhecendo e não poderia ser encontrada lá fora apenas de camisola. Nada serviria de desculpa para Madame por um comportamento tão estranho.

Não era a primeira vez que tivera aquele pesadelo ou que caminhasse enquanto dormia, mas nunca fora até tão longe. A sua frente uma pequena trilha levava a um lago onde passara muito tempo nos dias quentes de verão. Se tivesse continuado teria seguido até o lago e acordado com a sensação da água ou acabaria por se afogar sem nem ao menos perceber? Já faziam algumas semanas desde que começara a ter tais comportamentos noturnos e estava cansada disso. Da próxima vez trataria de trancar o quarto e esconder a chave em algum local que não conseguiria pegar enquanto dormisse.

Ouviu um bater de asas e correu de volta a escola. Sabia que poderia ser idiotice, muitos pássaros e corujas viviam naquela região por causa da floresta, mas agora não se sentia mais tão segura assim sozinha. Com a ponta dos pés foi silenciosamente até seu quarto e fechou a porta. Suspirou aliviada ao ouvir a tranca se fechando. Virou-se pensando se conseguiria dormir mais um pouco antes de seguir para sua rotina quando percebeu a janela aberta. Empalideceu ao ver uma pena negra no peitoral da janela e rapidamente correu para fechar a janela e as cortinas. Pegou a pena, sentindo sua suavidade ao mesmo tempo que lembrava do pesadelo. Jogou-a dentro da gaveta da cômoda e deitou na cama. Trouxe os cobertores para mais perto de seu rosto, quase o cobrindo, tentando espantar o frio sem perceber que ele não vinha do quarto, mas sim de si mesma.

Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ

Algum tempo depois, sem conseguir dormir, resolveu se levantar e dar início ao seu dia de afazeres. Tomou um banho e fez sua higiene matinal, colocando a camisola, que estava suja de terra na barra, em um cesto para depois lavar. Escolheu um vestido curto e leve para o dia, o Sol já aparecera e o céu sem nuvens prometia mais um dia quente. Logo, o alaranjado do outono tomaria conta das florestas e o tempo se tornaria mais frio, marcando também o início das aulas no Colégio.

Saiu do quarto e seguiu para a cozinha, onde ajudaria Hilda a fazer o café da manhã. Este seria um ano agitado para Aurora, era o ano em que faria sua apresentação à Sociedade como uma verdadeira Lady. Título apenas figurado, claro, apesar de algumas meninas que lá estudaram realmente terem se tornado esposas de diversos Lordes.

–Bom dia, Hilda. – cumprimentou ao entrar na cozinha.

A jovem senhora estava lavando alguns legumes com as mangas arregaçadas até o cotovelo. Seu vestido cinza era simples e o cabelo loiro estava preso em um coque firme no alto da cabeça. A mulher se virou para dar um beijo na bochecha da garota e voltou a lavar os legumes. Sua pele estava bronzeada pelos vários dias em que trabalhara debaixo do sol quente de verão e alguns fios grisalhos poderiam já ser vistos, porém nem mesmo as pequenas rugas ao redor dos olhos e a mão marcada pelos anos de trabalho poderiam denunciar a idade de Hilda. Sua beleza exótica de quadris largos, boca carnuda e olhos grandes ainda chamava a atenção de muitos rapazes, apesar dela os espantarem assim que percebia-os olhando seu decote. Tivera um marido a vida inteira, mas se tornara viúva poucos anos após o casamento quando ele fora pisoteado por um cavalo. Dizia nunca mais querer se casar, pois já tinha encontrado o amor desta vista, mas Aurora percebia a solidão disfarçada em seus olhos.

–Pegue aquelas maçãs e corte-as para mim, mein lieber?

– Ja! – Aurora sorriu e se sentou em frente ao balcão descascando as maçãs e cortando-as em cubinhos. Apesar de Madame considerar o francês e inglês as línguas mais belas e dignas de uma Lady, Hilda ensinara um pouco para Aurora de sua antiga língua nativa, dizendo que não importando se fosse Lady ou não, ela deveria saber se virar sozinha.

Quando terminou de cortas as maçãs, retirou os pães do forno e começou a levar as cestas de frutas e pães para a sala, pegou alguns potes de geleia também e dois pedaços de queijo. A mesa já estava posta por outras empregadas que agora se ocupavam de varrer o chão e limpar as cortinas. A toalha branca rendada esticada em apenas um canto da extensa mesa, já que o ano letivo não começara e apenas Aurora e Madame costumavam tomar o café. Entretanto mais um prato estava posto a mesa, em frente ao costumeiro lugar de Aurora e logo a curiosidade atingiu a menina.

–Madame está esperando uma visita? – questionou uma mulher que abria as cortinas da janela próxima a Aurora.

–Eu não sei, senhorita. – A mulher desculpou-se. Vestia um traje acinzentado claro com um avental e os cabelos presos em um coque alto com uma pequenina rede, como as outras mulheres que ali trabalhavam. – Madame apenas pediu que mais um lugar fosse preparado.

Aurora sorriu para si mesma, as funcionárias eram instruídas a não fofocar sobre os acontecimentos do colégio e ainda mais sobre Madame, mas conhecendo a diretora como a conhecia aquele pedido deveria ter sido uma verdadeira ordem seguida por uma crítica. A senhora sabia como achar defeitos em tudo e raras eram as ocasiões em que verdadeiramente elogiava alguém.

–As pessoas não valorizam seus elogios se os expressa toda hora. Deve saber perceber o momento certo em que uma crítica irá melhorar o desempenho em uma tarefa e um elogio a incitará a aperfeiçoá-la. É muito fácil para qualquer um que é elogiado toda hora a se desleixar, por já estar acostumado. Da mesma forma que meninas que são sempre mimadas choram quando não conseguem o que querem. – ela lhe explicou uma vez quando Aurora lhe apresentou uma nova música que aprendera a tocar e reclamara por não receber um elogio de Madame depois de tanto esforço.

Sorriu ao pensar nisso. Em sua mente de criança, achava que não ser recompensada era a maior injustiça do mundo, não existindo uma explicação para tal suposta maldade. Quem diria, porém, que graças à isso estudou tanto para poder mostrar para Madame como realmente tocava bem e que ela tinha errado por não elogiá-la que o, até então, difícil aprendizado se tornou um de seus mais apaixonados hobbies chegando a passar um dia inteiro apenas praticando para aprender uma partitura difícil. Quando então Madame finalmente a elogiou pelo trabalho duro, tal comentário alegrou seu coração de forma terna, pois mesmo não sendo elogiada, já se orgulhava de si mesma pelo trabalho duro e não sentia mais a necessidade dos elogios. Era grata sempre que os recebia, mas sabia que realmente fizera por merecer e nada era mais satisfatório do que ser consciente de seu talento e poder ter certo orgulho por isso. Independência, era esse o sentimento que desenvolvera e agora a tornava uma garota mais certa de suas opiniões. Não se deixaria abalar por qualquer olhar reprovador ou crítico, sabendo que não existia real fundamento naquilo.

Despertou de seu devaneio ao ouvir os saltos do sapato de Madame anunciando sua chegada. Correu para dar uma última ajeitada nas flores e então aguardou que a senhora entrasse, disfarçando sua atenção ao fingir observar algo na janela.

–Bom dia, Aurora. – Madame a cumprimentou ao entrar na sala.

–Bom dia, Madame. – a garota respondeu demorando-se mais alguns segundos antes de finalmente se sentar para saborear o café da manhã. Como estava faminta!

Serviu-se de um pedaço de pão e passou a geleia recém preparada na fatia. Como adorava aquele gostinho das sementes de amora! Madame olhou para tudo com um olhar crítico, porém satisfeito, e começou a comer também. As duas ficaram alguns momentos em silêncio, apenas saboreando as delícias quando Aurora pulou de susto ao ouvir uma buzina. Acabou por deixar a xícara de chá cair na mesa, derrubando o líquido vermelho pela toalha de mesa branca.

Rapidamente a menina correu para a cozinha e buscou um pano para limpar a bagunça. Quando secou a toalha de mesa percebeu que o líquido acabara pingando no chão também e se abaixou para limpá-lo. Sem precisar olhar para Madame já poderia ver seu olhar de reprovação. Suspirou secando o chá do chão de madeira, primeiro fora totalmente desastrada e agora tentava consertar o que fez limpando o chão, piorando ainda mais seu erro. Quando já se viu uma Lady limpar o chão? Tinha certeza que era isso que Madame estava pensando. Levantou os olhos para ver se o chá da toalha ainda pingava quando percebeu um homem a observando do outro lado da mesa. Seu rosto parcialmente escondido pelas flores no centro da mesa, a encarava de certa forma, surpreso. Madame pigarreou e Aurora se levantou, escondendo o pano sujo por baixo da mesa.

–Aurora, este é Robert Blekking, será o novo professor de Ciências de vocês a partir deste ano. – Madame explicou.

–Muito prazer, senhor Blekking. – a garota fez uma pequena mesura – Meu nome é Aurora Verbeek.

Como se tivesse acordado de seu estado de estupor, o homem sorriu e a cumprimentou. Sentando-se na mesa logo depois enquanto Aurora voltava para a cozinha para lavar o pano. Aquele homem era muito estranho. Encarava-a como se nunca tivesse visto uma garota antes. Não. Era como se ele nunca esperasse que Aurora estivesse ali. Sacudiu a cabeça, mandando estes pensamentos para longe. Se a partir de agora ele seria seu professor, deveria criar uma boa impressão. O que não seria também muito difícil, ignorando a estranheza deste primeiro encontro. Robert era um homem atraente, mesmo pelo rápido olhar que Aurora teve já sabia que muitas garotas tentariam conquista-lo durante as aulas.

Voltou para a mesa e se sentou, mordiscando um pedaço de pão doce e observando o recém-chegado. Deveria ter por volta de trinta anos, sua barba não fora devidamente aparada e os cabelos pareciam bagunçados, mas isto lhe conferia certo charme. Era estranho, mas sua presença lhe parecia familiar.

–Aurora? – Madame chamou sua atenção.

–Sim? – a menina tentou disfarçar ao perceber que Blekking agora a encarava também.

Madame suspirou:

–Ela vive nas nuvens, senhor Blekking, porém é uma boa aluna acredite.

–Ah sim, Madame. – ele deu um sorriso torto – Deve ser.

Aurora sentiu as bochechas corarem e voltou sua atenção para Madame:

–Gostaria que mostrasse a escola para o senhor Blekking após o café, Aurora. Tenho ainda algumas pendências a acertar para o novo ano letivo, assim estarei muito ocupada.

–Claro. – Aurora assentiu, com um pequenino sorriso.

Pelo resto do café a menina procurou analisar melhor o novo professor. Apesar de sua aparência, ela não se sentia atraída por ele, mas aquela estranha familiaridade era reconfortante e ao mesmo tempo estranha. Como podia sentir isso de alguém que nunca vira antes? Deveria ser apenas uma falsa impressão sua.

Quando todos terminaram de comer, Madame pediu licença e se dirigiu até o escritório, deixando os dois sozinhos. Aurora suspirou caminhando até a grande porta de madeira escura e Blekking a seguiu. Ela começou a mostrar a parte de dentro da mansão, apresentando-o as salas de aula no primeiro andar e comentando brevemente sobre os outros professores. Ele se manteve em silêncio quase o percurso todo, apenas assentindo sempre que ela lhe explicava ou comentava alguma coisa. Mostrou a cozinha, a sala de recepção e o salão principal, aonde acontecia o baile de apresentação. Ele caminhou até o piano no canto do salão e passou a mão por suas teclas, tocando algumas notas:

–A senhorita toca? – ele perguntou de súbito.

–Sim. –respondeu incerta do interesse dele nisso.

Ele sorriu e se sentou em frente ao piano, começando a tocar algumas notas de um jeito habilidoso. Aurora aproximou-se dele para observar melhor. A música parecia bem simples e até de certa forma infantil, como uma pequena cantiga para as crianças brincarem de roda. Ele terminou de tocá-la e então se virou sorrindo para a menina:

–Conhece?

Ela sentou-se ao seu lado, repetindo algumas notas que assimilara da música:

–Não. – respondeu sincera.

Ele deu um sorriso triste e se levantou, se dirigindo as grandes janelas. Aurora fechou o piano e caminhou até o seu lado. Ele parecia perdido nos próprios pensamentos, um sorriso triste ainda em seu rosto.

–Venha, senhor Blekking. – Ela o despertou de seu devaneio, puxando seu braço com um aperto leve. –Quero lhe mostrar uma coisa.

Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ

–É lindo, não? – sorriu soltando-se de seu braço e seguindo para o centro do jardim.

Um dos poucos passatempos que Madame a permitira ter era cuidar do jardim. Sempre que podia ia até o lugar para cuidar das flores e admirar sua beleza. Ficava em um canto escondido da floresta. Se a pessoa não procurasse com atenção, nem perceberia a discreta trilha que indicava o jardim.

–Este lugar era apenas um apanhado de antigas ruínas quando o descobri. – Aurora começou a falar, como se pensando em voz alta. – Madame não sabe o que antes estava construído aqui e como já tinha espaço suficiente para a escola permitiu-me ficar com o lugar, como um refúgio secreto.

Aurora sorriu para si mesma. Muitos pensavam na diretora como uma figura imponente e crítica, porém poucos percebiam seu bom coração.

–Mas já não existe um jardim na entrada? – Blekking se pronunciou aproximando-se dela.

Ela sorriu, feliz por ele já não estar mais com um sorriso triste no rosto. Não sabia o porque, mas ver aquele sorriso triste a incomodava e não pode evitar de tentar distraí-lo. Ela pegou um regador do chão que ainda estava com um resto de água e começou a regar as flores.

–Mas aquele é o jardim de apresentação. Existem jardineiros e outros cuidadores que se prontificam a manter a beleza do colégio para aqueles que vem visitar. Percebeu que existem apenas margaridas? Isto é porque elas florescem o ano todo, assim o jardim estará sempre bonito para qualquer um que chegar.

–A senhorita sabe muito sobre flores, recebeu aulas sobre isso também? – ele riu se referindo ao estranho currículo de aulas que o colégio apresentava.

Apesar de abranger o currículo mínimo de conhecimento sobre as matérias tradicionais, como Madame sempre lembrava, seu colégio não formava mulheres quaisquer, mas sim ladies, proporcionando aulas de francês, costura, etiqueta, desenho, redação, conversação e música. Apesar da última não ser muito popular entre algumas alunas por acharem a música tradicional algo já superado.

–Não. –ela sorriu – Acabei por aprender isso sozinha mesmo.

Eles se entreolharam e Blekking começou a caminhar pelo jardim. Aurora o observava esperando algum comentário. Era estranho levar alguém até seu local secreto e muito menos alguém que acabara de conhecer, porém ele lhe transmitia certa confiança e ela aguardava sua aprovação sobre a maneira que cuidava das flores. Ela terminou de regar as camélias e seguiu Blekking que agora observava o resto de seu jardim.

Aurora usara algumas ruínas para criar as flores que precisavam ser suspensas e com pedras que achara jogadas pela floresta separara algumas que precisavam de cuidados especias em alguns cantos, como se formando um grande círculo ao redor das ruínas. Entretanto, não deixara de aproveitar o espaço livre ao redor, plantando enormes quantidades das mais variadas flores. Uma em cada ponto cardeal diferente. Dessa forma, quando a pessoa pensasse ter visto tudo entre as ruínas, seguiria por um dos caminhos e novamente se encontraria em um mar de flores. Dava muito trabalho cuidar daquilo tudo sozinha e algumas vezes teve de pedir ajuda a Hilda quando ainda não aprendera a organizar seus horários e conciliá-los com seu novo passatempo. Sempre que a menina ia até Hilda pedir ajuda, preocupada por tal flor aparentar não florescer a mulher lhe sorria e afagava seus cabelos:

–Se está preocupada, mein lieber, lhes dê a coisa mais preciosa que você pode oferecer.

–Mas não posso dar vestidos ou joias para as flores, Hilda! – a garota reclamara.

Hilda sorriu e se abaixou, ficando na altura da menina que na época tinha oito anos.

–Lieben, mein lieber. – Ela sorriu – Amor. É a coisa mais verdadeira e preciosa que podemos dar. Mais que os vestidos que tem no armário e poderão estragar, mais que as joias que possui que um dia deixarão de brilhar, mais que os livros que perderão suas páginas com os anos, o amor de verdade nunca termina com os anos, ele apenas floresce.

Aurora suspirou ao se lembrar disso, chamando a atenção de Blekking.

–Está cansada, senhorita?

–Oh, não, apenas me lembrava de algumas coisas. – respondeu – Gostou de meu jardim, senhor Blekking?

Ele lhe sorriu:

–É uma incrível coleção de belezas que possui aqui. Conseguiste até cuidar de u m jardim de tulipas! – ele exclamou parecendo realmente contente.

Ela caminhou até a trilha que Blekking observava, deixando as paredes altas das ruínas para trás e admirando a mistura de cores a sua frente. Uma brisa fria movimentou um pouco as tulipas, fazendo-as parecerem um mar colorido. Voltou-se ao homem e lhe indicou uma pequena trilha lateral. Ela acabaria no meio da floresta, mas Aurora já conhecia o lugar.

Chegaram ao lago e a garota lhe explicou que nos dias mais quentes do Verão as alunas obtiam permissão para se refrescar perto do lago. Deram a volta nele caminhando até o pequeno pátio de volta ao colégio. Sem perceber, Aurora se aproximou mais de Blekking, observando as árvores ao redor. Sem sinal de corvos.

–Algum problema? – ele lhe perguntou, percebendo a atenção da menina.

–Não, nada. – mentiu – Vamos voltar logo para o colégio, aqui está muito frio.

Apressaram o passo e Blekking abriu a porta do salão para que ela passasse. Entrou fingindo estar calma, no entanto não conseguia deixar de sentir que estavam sendo observados. Assim que Blekking entrou, disfarçadamente trancou a porta e guardou a chave em uma gaveta qualquer. Não importa se aquilo fosse mais um ato irracional seu, já que existiam tantas outras portas que davam acesso à parte de dentro do colégio. Contentou-se subindo as escadas com o novo professor ao seu lado e lhe mostrando o resto dos aposentos. Comentava e gesticulava sem perceber o olhar de Blekking para as janelas, que a guiava de um quarto para outro rapidamente.

Ao longe, um corvo piscou seus olhos vermelhos e levantou voo.

Notas finais
Espero que tenham gostado ^-^ Críticas e comentários são sempre bem-vindos!