Forgotten Lady
3 Capítulo II
Notas iniciais
Os dias se passaram e o Colégio já estava agitado. O fim do verão marcava também a proximidade do novo ano letivo e logo outros professores começaram a chegar ao colégio. Com um coque impecável, Senhora Riley foi a primeira chegar. Seu vestido escuro fora tão perfeitamente passado e engomado que parecia feito de um tecido impossível de se amassar e as costumeiras duas gotas de perfume atrás das orelhas traziam o cheiro do mais doce perfume francês lançado. Aurora a encontrou após escorregar no salão recém encerado e deixar cair um vaso, a mulher a olhou com pura reprovação:
–Vejo que ainda não aprendeu a corrigir sua postura, senhorita Aurora. — disse a encarando da porta sem fazer menção de ajuda-la a se levantar.
Aurora suspirou e se levantou, tentando limpar a terra que sujara seu vestido e então caminhou até a exigente professora de Etiqueta para cumprimenta-la.
–Bem-vinda de volta, Senhora Riley. Como foi de viagem?
–Bem. – respondeu semicerrando os olhos para o sorriso cortês de Aurora e caminhando de volta para o corredor, ao lado contrário da garota.
A garota nunca compreendera o porque, mas desde os tempos de mais nova sempre fora alvo de críticas da professora. Diferente de Madame Verbeek ela não parecia fazer aquilo para forçar uma melhora na garota, mas sim depreciá-la, fazendo questão de elogiar outras meninas em sua frente, dizendo em como elas eram suas esperanças para futuras Ladies, já que outras (e nesse momento ela fazia questão de olhar para Aurora) não pareciam aptas a isso.
Mesmo assim, a menina continuava apreciando as aulas, ao perceber que se conseguisse ao menos se tornar uma Lady, seu passado em branco não iria interferir em sua vida e ela poderia ser feliz. Sua paixão e determinação pelo piano vieram logo depois e contente ela se aperfeiçoou na música por achar algo em que Riley não poderia criticá-la e deixou de ligar tanto para as críticas durante as aulas.
Mademoiselle Louise chegou três dias depois. Como sempre, usava a última moda de Paris. Na cabeça, um belo chapéu carmim com algumas flores enfeitadas e uma discreta fita. Seu corpete era apertado marcando a cintura fina e de mangas cumpridas, apesar do calor. Dizia não se incomodar, já que o decote era largo e transparecia boa parte do colo, algo que sabia pelo que Madame Verbeek iria torcer o nariz, porém não havia nada a se fazer, nossa professora de francês e costura fora escolhida justamente por sempre estar a par da última moda. Ao ver Aurora, deu um grande sorriso e cumprimentou a menina. Sem dizer uma palavra apenas mostrou sua mão para Aurora, onde um belo anel de ouro branco reluzia em seu dedo anelar. As duas trocaram olhares cúmplices e então a mulher seguiu seu caminho, subindo a escada segurando o tecido rosa do vestido para não tropeçar e cantarolando uma cantiga infantil em francês.
Blekking estava descendo a escada e parou ao perceber a mulher. Parecia que iria cumprimenta-la, porém ela estava tão distraída com seus próprios pensamentos que não o percebeu e apenas seguiu em frente. Ele desceu até Aurora sem parecer entender:
–Mademoiselle Louise. – indicou a mulher que já sumia pelo corredor do andar de cima – Acredito que Madame comentou sobre os outros professores, não?
–Um pouco. – ele admitiu.
Ouviram o barulho de outro motor e se aproximaram da porta no momento em que Collins abria a porta, Aurora, que já estava com a mão na maçaneta, foi jogada para trás e caiu sentada no chão, derrubando o mancebo e sendo soterrada por alguns casacos. Blekking logo se prontificou a ajuda-la a se levantar e lhe ofereceu a mão, ela aceitou e se levantou, já vendo o sorriso de Collins e Desmond que a observavam:
–Ainda caindo por aí, senhorita Aurora? – Collins riu.
–E eu pensando que depois de lhe ensinar a ler mapas saberia onde está cada coisa e tomaria mais cuidado. – Desmond colocou a mão na testa, como se realmente estivesse se culpando por aquilo.
Todos riram de sua falsa culpa e logo se cumprimentaram. Collins a recebeu com um afago nos cabelos e Desmond a abraçou rapidamente. Ambos eram seus professores desde pequena e sempre cuidaram muito bem da menina. Quando Madame a trouxe ela estava amedrontada e se recusava a falar com qualquer um, porém Desmond chegara mais cedo para as aulas e logo foi apresentado a menina. Começou apenas contando histórias sobre batalhas e mitos, passava noites na porta do quarto da menina, que se recusava a permitir a sua entrada, velando suas últimas horas antes do sono, pois ele sabia dos pesadelos que muitas vezes faziam Aurora acordar gritando em desespero. Algumas noites se passaram e um dia, quando as histórias de batalhas já não pareciam ser suficientes, ele contou para a menina sobre a sua vida:
–Eu nasci nos Estados Unidos em um pequeno vilarejo ao sul. Minha mãe fazia perfumes e cremes com algumas ervas e flores da região e meu pai era marinheiro. –ela pode perceber o sorriso nostálgico que dava apenas pelo tom de sua voz – Meu primeiro presente de aniversário foi um urso que minha mãe costurara com pedaços de vestidos antigos. Ele não era como esses ursos bonitinhos de loja. Não, não. Era feito de retalhos tão antigos e gastos que se não prestasse atenção não veria a cor deles, apenas as marcas do tempo. Porém como eu gostava dele! – riu ao se lembrar – A cabeça era de um tecido rosado e cada olho de um botão diferente, o resto do corpo era uma mistura entre azul, bege, cinza e laranja. Tão remendado, trazendo o pedaço de tantos vestidos diferentes, ele era um conjunto de vários anos da vida da minha mãe...
Ele se calou, refletindo sobre o singelo presente e lembrando de sua infância conturbada. Os poucos anos que passara com a mãe eram seu alento quando foi mandado para a casa dos tios e logo depois para um rigoroso internato perto de Londres. Deixar seu país e o resquício de família que ainda tinha foi uma separação difícil, mas aqui estava ele, um homem já feito e com uma profissão honrada. Adorava poder ensinar outras crianças, mesmo sendo apenas meninas, e ver o futuro e seus sonhos brilhando através de seus olhos. Era como uma oportunidade de reviver sua juventude, consertando todos os momentos de tristeza e injustiça.
Ouviu o ranger da porta se abrir e uma figura pequena e desajeitada engatinhou até ele, que estava sentado encostado na parede ao lado. A menina se enfiou debaixo de seu braço, procurando conforto e o encarou com seus olhos azuis-esverdeados. O cabelo era de um castanho escuro, porém dava para se ver mechas ruivas em alguns pontos:
–E então? – ela perguntou, sua voz tão baixa que ele quase não ouvira.
–O que, pequena? – ele a observava, receoso de fazer qualquer movimento e assustá-la.
–Você... Ainda tem... O urso? – ela falou com certa dificuldade, separando as sílabas aos poucos como se para ter certeza que as palavras fariam sentido.
–Eu o perdi. – ele suspirou – Quando saí do Internato não o encontrei mais.
–Você procurou?
Ele sorriu para ela e afagou sua cabeça, ela se aconchegou mais perto dele, abaixando a cabeça para sentir melhor o carinho. Depois de algum tempo em silêncio, com a pergunta da menina sem resposta, ela suspirou:
–Acho que você vai encontrar seu urso. –ela sorriu sonolenta – Ele só deve ter se perdido tentando achar sua casa...
Disse logo caindo em um sono profundo. Ele observou a menina por mais alguns segundos, não se demorando a logo levantar e carrega-la até a cama. Entrou no quarto observando a simplicidade do lugar. Madame fazia questão que todos os quartos para alunas fossem iguais e a única diferença deles para o quarto dos professores era a presença de uma escrivaninha, um lembrete do trabalho deles na escola. Já ouvira alguns professores e alunas divagando sobre a aparência do quarto da diretora, porém pelo tamanho entre as salas, parecia ser apenas mais um pequeno cômodo, sem decoração e com apenas o necessário.
Ele a colocou na cama e cobriu-a com os lençóis, dando um beijo na testa da menina e encostando a porta ao sair. Quando chegou ao próprio quarto, abriu o armário e pegou uma maleta antiga onde guardara alguns pertences de sua infância e juventude. Porém os fechos estavam quebrados, então assim que a puxou fora do armário todo o conteúdo se espalhou pelo chão.
Ajoelhou-se começando a juntar vários boletins, cartas e até algumas roupas velhas. Se inclinou para pegar um lenço de seda que percebera ter escorregado até ali quando suas mãos agarraram outra coisa. Puxou para perto de si e não podia acreditar.
Era o urso que sua mãe fizera.
Nunca mencionou nada para Aurora, afinal a menina parecia não se lembrar direito do que acontecera naquela noite, apenas tendo uma vaga lembrança dela abrindo a porta e se aconchegando em um abraço apertado. Mas a coincidência daquilo...Não. O misterioso aparecimento do urso apenas preveu algo que ele logo descobriria ao observar o desenvolvimento e inteligência da menina, ela trazia consigo algo especial e inacreditável. Desmond apenas torcia para estar perto quando a mesma percebesse e descobrisse o que era isso.
Despertando de seu devaneio, Desmond seguiu com Collins e Robert até a cozinha, onde tentariam roubar alguma comida de Hilda antes do jantar. Aurora seguiu para seus afazeres, já preparando tudo para a chegada dos próximos professores. Não demorou muito e John, professor de Inglês junto com Riley, chegou. Ele estava queimado de Sol e os cabelos compridos até os ombros, mais parecendo como um pirata do tempo em que as pessoas ainda acreditavam em deuses e monstros do mar. A única que faltara era Margareth, professora de desenho e música, entretanto como esta sempre chegava em cima da hora ninguém se preocupou muito.
No jantar anterior ao dia da chegada das alunas todos professores conversavam animadamente. Madame permitira que algumas taças de vinho fossem servidas e todos pareciam um pouco mais felizes pela bebida. Aurora conversava com Mademoiselle Louise sobre as férias, a professora tomara a liberdade de trazer alguns vestidos a mais e confidenciara a Aurora que daria alguns deles para suas melhores alunas para o baile. Em um certo momento, Aurora percebeu Blekking saindo da sala em direção a porta de entrada. Pediu licença para Mademoiselle e o seguiu.
Certamente era algo indecoroso de se fazer, porém a garota estava curiosa. Desculpou-se à sua consciência alegando que algo poderia ter acontecido e apenas estava preocupada, mesmo em pensamento a mentira era evidente. Escondeu-se no canto da parede e espiou a porta. As costas do professor tampavam sua visão, entretanto conseguiu ver o que parecia ser um tufo de cabelos loiros.
–O que está fazendo aqui? – Blekking falara em uma voz baixa, mas ainda assim nervosa.
–Ela pediu para que eu fizesse uma ronda e percebi algo estranho. – uma voz masculina o respondeu.
–Eu também percebi, mas isso não é motivo para nos alarmarmos. Pode ser apenas a energia dela.
Aurora franziu o cenho, não entendia nada do que os dois falavam. Fazer uma ronda? Perceber uma energia? Será que o professor na verdade era algum investigador ou pesquisador? Ouvira falar que a Terra emanava certo tipo de energia em alguns locais, mas não lhe parecia algo muito científico. “Bobagens de mentes delirantes.” Era isso o que seu antigo professor falara sobre tais pesquisas.
–Acho que eles já sabem. – o outro respondeu numa voz suspeita.
Uma pausa e então Blekking suspirou:
–Terminaremos essa conversa na minha sala.
Aurora se assustou, se os dois se dirigissem à sala de Blekking perceberiam que a garota estava espiando a conversa. Decidiu então fingir que acabara de sair do jantar e começou a caminhar, fazendo questão que seus passos fossem ouvidos.
Quando passou pela porta em direção à escadaria fingiu surpresa ao ver Blekking:
–Ah! Professor, está tudo bem? Collins estava o procurando.
Blekking demonstrou ligeira surpresa e então sorriu:
–Realmente estava em uma conversa acalorada com ele há alguns minutos.
Aurora se aproximou, percebendo que o visitante se escondera atrás do professor. Ou tentara pelo menos, já que parecia ter a mesma altura:
–E quem seria este cavalheiro que se esconde atrás do senhor? – ela riu verdadeiramente divertida.
O rapaz deu um passo para o lado e Aurora subitamente sentiu-se corar. Ele tinha os cabelos loiros curtos e olhos claros e expressava um sorriso torto como se a desafiassem a tentar deixa-lo sem graça. Por alguns segundos Aurora esqueceu-se de respirar observando o corpo esbelto e os músculo por debaixo da camisa fina.
–Ah! Desculpe-me senhorita, sou sobrinho de Robert e apenas vim lhe cumprimentar enquanto estava de passagem pela cidade. – sua voz sonora parecia envolver Aurora em um encanto. – Incomodo?
–N-não. – ela respondeu em um sussurro e então se endireitou, repetindo de forma mais clara – Não, qualquer parente do senhor Blekking será bem-vindo em nosso Colégio.
Ele sorriu para ela, seus olhos claros a observando de forma misteriosa. Era como se os dois fizessem uma dança silenciosa, mas Aurora não soubesse os passos. Ele se aproximou dele e envolveu sua mão a levando até os lábios. Beijou sua mão sem tirar seus olhos dos dela:
–Então terei certeza de vir novamente.
Blekking pigarreou e Aurora sentiu-se corar novamente:
–Meu sobrinho apenas veio pegar algumas coisas que esqueceu, senhorita, logo irá embora já que tem muito trabalho a fazer. – Andou até Aurora – Com licença.
Seguiu pelo corredor e seu sobrinho foi atrás, deixando Aurora sozinha na entrada sem saber o que fazer.
– Très charmant. – Mademoiselle apareceu ao seu lado e comentou com um sorriso.
Aurora apenas deu um sorriso tímido e as duas voltaram ao jantar. Uma conversa animada parecia entreter todos enquanto Collins contava uma de suas várias histórias, porém Aurora não conseguia acompanha-la por estar perdida na misteriosa conversa entre Blekking e o sobrinho e seu belo par de olhos azuis.
Fale com o autor