Forgotten
3 Capítulo III
Notas iniciais
Sentiu o coração bater acelerado, e se assustou ao ver uma flecha negra passar de raspão por seu ombro, indo parar no chão. Melda acelerou o passo o máximo que pode, e a única coisa que pode fazer foi pedir para as estrelas que a protegessem e ajudassem. Pois sabia que sozinha não teria chance contra tantos daquelas nojentas criaturas das trevas.
Suas esperanças aumentaram um pouco quando viu a curva que o rio fazia próximo a floresta. Talvez conseguisse despista-los se fosse rápida o bastante.
Mais flechas negras voaram, silvando ao seu lado. Conseguia se desviar, mas não tinha nada para jogar de volta. Se fosse atingida, estaria morta. Nessa hora pensou em quão ruim era não ter aprendido a usar o arco e flecha. Eram os objetos de luta mais usados entre outros de seu povo, mas não era a cultura em sua casa. Lá só aprendiam a lutar corpo-a- corpo, com armas de curta distância como espadas e adagas.
Sua esperança reacendeu ao ver a curva que tanto esperava; o corpo de Melda se virou, e assim que passou parte da floresta, conseguiu ver uma estrada. Agradeceu as estrelas sobre a sua cabeça com louvor por ter achado o caminho que queria. Entretanto, os monstros ainda a seguiam, e pareciam incansáveis. Continuou por um tempo, mas seu coração parou em seu peito quando avistou a sua frente, bloqueando o caminho, mais criaturas terríveis como aquelas atrás de si. Sem saber para onde ia, e sentindo Melda tensionar sob si, virou as rédeas e entrou na floresta amaldiçoada.
O caminho era horrível, com grandes raízes de arvores serpenteando pelo chão, tornando difícil passar em uma velocidade rápida. Seu coração batia velozmente, e logo pode ouvir as criaturas atrás de si novamente. Teve vontade de gritar, chorar, e se arrependeu amargamente de ter saído de seu lar por um motivo bobo. Nunca tinha passado por aquilo, e, apesar de ser treinada nas artes da luta, nunca tinha encontrado um oponente que não fosse membro de seu reino.
Mais uma flecha passou por sua cabeça, e conseguiu se abaixar a tempo de não ser atingida. Respirando fundo, resolveu deixar os pensamentos desesperadores para trás, já que não adiantariam de nada, e tentou pensar em uma solução para os seus problemas. Viu a solução em forma de um galho, grosso e distorcido, que estava logo a sua frente. Se pendurou nele, subindo rapidamente pela árvore.
“CORRA, MELDA. CORRA PARA LONGE.” Gritou para sua égua, que virou sua cabeça para olha-la mas não parou de correr. Nunca desobedecia uma ordem de sua mestra. Sentindo-se aliviada por ter salvo a vida de sua mais querida amiga, subiu em outro galho, ouvindo resmungos abaixo de si. Lançou um olhar rápido para baixo, vendo que seus perseguidores apontavam flechas em sua direção, mas graças a altura conseguia se desviar facilmente. Foi pulando de galho em galho, de árvore em árvore, com esperanças de conseguir escapar.
Subiu o mais alto que conseguia, e corria o mais rápido que podia, mas as criaturas não paravam de segui-la. Em um momento de distração, enquanto pulava de um galho para o outro, uma das flechas negras atravessou a carne de seu ombro, e com um grito de dor perdeu o equilíbrio, indo ao chão. A área atingida ardia como se tivesse fogo vivo em seu braço, escorrendo por suas veias e corroendo ossos, carne e músculos; atordoada, olhou ao seu redor, vendo que os monstros estavam se reaproximando. Piscou os olhos, e sem pensar arrancou a flecha agourenta de sua carne; mordeu os lábios para segurar outro grito de dor, e se levantou, pondo-se a correr novamente.
Passava por sobre os troncos, quase tropeçando algumas vezes, mas não parava. Ouvia rosnados, gritos, e como se não fosse suficiente, seu braço atingido parecia perder as forças, enquanto sangue misturado com algo negro jorrava da ferida recém aberta e pingava no chão, fazendo uma trilha agourenta atrás de si. Começou a se desesperar, mas uma voz em sua cabeça a fez parar. “Não tema” Disse suavemente, como uma música em seus ouvidos. Infelizmente, uma das criaturas a alcançou e a derrubou no chão, ficando sobre ela, pronto para ataca-la. Olhando para aquela criatura grotesca, e com uma força que não sabia que tinha, jogou-lhe para trás com o impulso das pernas, e desembainhou sua adaga; em um movimento rápido, pois logo os outros a alcançariam, avançou por sobre ele e arrastou a adaga em seu pescoço em um movimento cruel.
O monstro caiu ajoelhado, olhando-a com os olhos sem vida; olhando para trás e percebendo que os outros estavam próximos demais, continuou a correr.
Seu braço já não se mexia, o que a desesperou ainda mais, pois sem ele não conseguiria lutar. Suas pernas também começavam a se cansar da correria, e os músculos ardiam; mesmo assim se recusava a parar, pois se o fizesse, morreria. Mais flechas vieram, e mais dor sentia em seu braço. Em um ultimo ato desesperado, tirou de dentro de sua bota uma pequena faca, e olhando para trás, atirou-a no monstro mais próximo, acertando-o no peito. Se fosse morrer, pelo menos levaria algum deles consigo.
Cansada de correr, com as pernas e o braço dolorido, a cabeça dolorida e uma tontura crescente, parou e se virou, encarando-os. Levantou a adaga com o braço bom, e apontou para eles. Viu em suas caras medonhas sorrisos de escarnio, e aquilo a fez odiá-los. Como se tivessem brincando, foram vindo um por um. O primeiro, com dificuldade, conseguiu derrubar. O segundo, já sem forças, feriu-a em sua perna, um corte profundo que a fez segurar as lagrimas nos olhos e gemer. Mesmo assim também conseguiu abate-lo, pois em um momento de distração, se virou para rir com os outros e levou a adaga primeiro na perna, e quando estava de joelhos, teve a cabeça cortada. Agora estavam furiosos, encarando-a com olhos amedrontadores e bocas distorcidas.
Não se deu conta do que acontecia até sentir o primeiro soco atingi-la na face, e ouviu-se um “crack” e o gosto metálico de sangue veio até sua boca. Caiu no chão e bateu a cabeça, mas o pior estava por vir. Uma dor lacerante veio em sua costela, e teve certeza de que tinham-a quebrado com um chute. O próximo chute veio em seu braço ferido, mas naquela altura já não sentia mais nada. Encarava o céu, que podia ser visto por uma fresta por entre as árvores; estava começando a amanhecer, e as estrelas aos poucos sumiam.
“Será que também vou sumir?” pensou, sentindo lagrimas descendo pelos olhos. Fechou-os, sentindo toda a dor tomar conta de sua mente, e tremeu. Porém, não sentiu mais nada, e uma escuridão crescente a envolvia, como um manto negro jogado sobre seu corpo desfalecido. Ao longe, ouviu sons estranhos, metal batendo contra metal, flechas perfurando a carne, urros de dor. Mas ao fundo, bem distante, ouviu o primeiro canto de pássaro depois de dias. E aquilo aqueceu seu coração.
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