Forgotten

4 Capítulo IV


Notas iniciais
Boa leitura!

Era uma manhã de primavera, limpa e com o ar fresco. As ruas da cidade estavam movimentadas, e por ela passavam pessoas, carruagens, carrinhos de mão lotados de uva. Era uma das épocas mais agitadas do ano, pois estavam se preparando para a entrega de uma leva de vinhos ao povo élfico da Floresta das Trevas.

Apesar da confusão, sorria feliz ao caminhar por lá, sendo gentilmente recebida pelo povo; por onde passava, alguém murmurava um “bom dia”, ou curvava a cabeça em sinal de respeito. Contudo, o motivo por estar tão feliz, além de viver em um lugar tão belo, era que iria com seu pai até os limites do reino, e veria o grande rio. Aquela não era a primeira vez, mas não acontecia com frequência, portanto toda vez que seu pai lhe deixava ir, ela ia com grande alegria.

Minha senhora...

A barra de seu vestido esverdeado passeava gentilmente pelo chão de pedra, em um movimento leve. Os pés raspavam por sobre o chão, e podia sentir toda a textura da pedra através dos sapatos de couro fino. Os belos cabelos negros como a noite, e ondulados como o mar, balançavam ao vento, fazendo com que todos a admirassem como a bela senhora que era. Os olhos acinzentados como a pedra sob seus pés emanavam um brilho que se comparava com o das estrelas no alto céu. Por ultimo, o mais adorado por todo o seu povo, era o sorriso doce e gentil, que nunca deixava sua bela face. Por onde ia, sorria; para quem olhasse, confortava o coração.

Minha senhora...

Ao longe, via a cerca que protegia os arredores das plantações e sorriu ainda mais. Amava aquele lugar, seu lar. Correndo até lá, pulou-a e se viu perdida em um mundo misturado de cores, verde, roxo, amarelo, e azul. Abrindo os braços, correu, sentindo o vento sobre o rosto, e o cheiro maravilhoso de...

“Minha senhora?” abriu os olhos de supetão, se arrependendo imediatamente. A luz que emanava do lugar feriu-a, e teve que manter os olhos fechados por alguns momentos, enquanto sua cabeça girava. Quando abriu-os novamente, piscou várias vezes até se acostumar. Olhou para o teto, vendo uma superfície marrom, com pequenos ramos que se estendiam e arrastavam, como a raiz de uma árvore. Abaixou os olhos até a parede, que era lisa mas também marrom.

Respirou fundo, sentindo o cheiro de chuva e madeira recém cortada; abriu os ouvidos e escutou sons de pássaros conversando entre si e uma cachoeira não muito distante deixando suas águas caírem sem piedade. Se mexeu e sentiu algo macio, aveludado sob seu corpo. Ah! Se lembrara de que tinha um corpo; olhando para baixo, viu uma coberta fina sobre si, e seus braços ao lado do corpo. Mexeu os dedos, sentindo uma sensação de alivio ao conseguir senti-los, vivos; mexeu as pernas, os dedos do pé, e, por ultimo, a cabeça.

Se virou lentamente, vendo um vulto sob si. Era alta, esbelta e a olhava com um sorriso amigável no rosto comprido e magro. Olhos azuis lhe sorriam, e reconfortavam seu coração. Mas assim que o conforto passou, percebeu que não se lembrava daquele rosto. Inconscientemente se afastando, perguntou.

“O-onde estou?” fechou a boca assim que a abriu; sua garganta estava seca e dolorida, e sua voz saiu como um sussurro rouco. A jovem que estava a sua frente, ainda sorrindo, respondeu.

“Está em Mirkwood, minha senhora. Lar dos elfos da floresta e do Rei Thranduil.” Olhou-a confusa, sem entender o que ela dizia. Se desesperou ao perceber que não fazia ideia de onde estava, ou o porquê de estar ali, naquela cama, com aquela elfa a encarando. A elfa pareceu perceber sua confusão, mas não respondeu suas perguntas não feitas. Apenas continuou sorrindo. “Como se sente? Alguma dor ou desconforto?”

Olhou- a profundamente antes de responder, sem saber se deveria confiar ou não nela. “Não, estou bem. Só estou com sede.” Se forçou a dizer e sua garganta queimou; a elfa assentiu, e se virou rapidamente. Quando voltou, estendeu-lhe uma taça prateada com água cristalina. Fitou por uns segundos, sem saber se deveria ou não beber, mas no fim aceitou, percebendo o quão avida pela água estava. Bebeu rapidamente e engasgou, o que a deixou envergonhada. Abaixou os olhos e devolveu a taça vazia para a elfa. “Obrigada.” Murmurou sem olha-la.

Sem se incomodar com seu constrangimento, ela se virou e caminhou para um canto do quarto. Quando voltou, trazia uma peça de roupa esverdeada em seus braços. Olhou-a com estranhamento, franzindo o cenho.

“O Rei Thranduil pediu para ir vê-lo assim que acordasse, pois ele muito deseja falar com você.” Colocou a peça de roupa sobre a cama, e ainda sorrindo continuou. “Não se preocupe. Ele apenas quer saber quem você é e de onde veio. Vista-se quando estiver pronta, estarei te esperando do lado de fora do quarto.” Com um aceno, virou-se e saiu do quarto.

Após alguns segundos encarando o lugar por onde a elfa tinha saído, percebeu algo que a deixou desesperada. Não se lembrava quem era, ou o que estava fazendo ali, assim como não sabia onde estava exatamente.

Olhou para o seu corpo, agora parcialmente descoberto pois estava sentada, e viu que parecia normal. Parecia tudo perfeitamente em ordem; se virou, tirando o cobertor de cima de suas pernas. Lentamente, colocou os pés sobre a pedra lisa do chão, que era confortavelmente fria. Ao se levantar, cambaleou, pois suas pernas estavam tremulas, e teve que se segurar na cabeceira da cama. Uma leve tontura tomou conta de si, mas se manteve de pé. Depois de alguns segundos que pareceram horas, resolveu arriscar um passo. Conseguiu se manter de pé, e assim foi seguindo até o outro lado do quarto. Viu uma pequena comoda de madeira e caminhou até ela. Sobre a comoda tinha um pequeno espelho, e logo o alcançou.

Ao olhar para seu reflexo, não se reconheceu. Viu seus olhos, seu nariz, sua boca, suas orelhas e o cabelo negro bagunçado adornando a face. Mas nada lhe era familiar. Abaixando os olhos, viu uma marca em seu ombro; era uma cicatriz negra e grossa, mas não se recordava de tê-la feito.

Suspirando, voltou para a cama, onde a peça de roupa verde ainda estava; se vestiria, arrumaria os cabelos e iria de encontro a esse Rei. Talvez ele pudesse responder suas perguntas.

Assim, sem pressa, tirou a camisola branca que vestia, deixando-a cair no chão aos seus pés. Observou o resto de seu corpo, e seus olhos se arregalaram ao ver uma cicatriz longa e esbranquiçada em sua coxa; passou os dedos sobre ela, sentindo sua textura sob os dedos.

O que será que aconteceu?’ se perguntou, olhando curiosa e perdida para a cicatriz. Após alguns segundos pensando, tentando tirar algo de sua mente, qualquer coisa que a lembrasse do que tinha acontecido, resolveu se vestir. Pegou a peça de roupa, desdobrando-a e vendo um lindo vestido esverdeado. Observou-o, vendo os detalhes da vestimenta. Era de um verde folha, com pequenos ramos amarronzados sobre a parte do peito.

Vestiu a roupa, que lhe serviu perfeitamente, e caminhou até a porta, de pés descalços, onde encontrou a elfa lhe esperando com um sorriso cortês.

“Siga-me.” Disse com sua voz melodiosa, e começou a andar. Olhou para os lados, se vendo perdida em um enorme corredor, com paredes ramificadas como o teto, de um tom marrom, que era iluminado por lamparinas com uma luz dourada. Percebeu que era longo, pois andaram por vários minutos e ainda não tinham chegado ao seu destino. Contou cinco portas por onde passou, e todas eram exatamente iguais, de madeira com maçanetas prateadas brilhosas. Finalmente saíram do corredor, e seus olhos arregalaram ao ver a imensidão que era o lugar.

Era mal iluminado, mas tinha certa beleza até mesmo na escuridão. O chão, percebeu, era todo de pedra clara, e em algumas partes era lisa, em outras naturalmente esculpida. Via altos arcos brancos, belamente esculpidos em formas diferentes, assim como pilastras altas como os troncos das árvores mais extensas; pode ver uma ponte atravessando o lugar, e uma fresta por onde a luz solar entrava, brilhando sobre as águas de uma cachoeira.

Estava tão deslumbrada com o lugar que não percebeu que finalmente chegara ao seu destino. Viu que a elfa que a acompanhava parou, e fez uma breve reverência. Depois, ficou parada atrás de si, com os braços na frente do corpo, e um olhar solene.

Sua atenção então se voltou para o ser parado a sua frente, com um sorriso esticado no rosto longo e belo. Tinha cabelos longos e dourados, adornados por uma longa coroa de flores brancas e ramos verdes, e olhos azuis que brilhavam frios como prata recém encontrada. Era alto, esbelto, e vestia uma túnica prateada, que brilhava até mesmo na escuridão de seu reino, com calças acinzentadas e botas negras. Segurava um cajado de madeira em uma mão, enquanto a outra era adornada por belos anéis de ouro e prata, com pedras de cores diferentes.

Conseguiu identifica-lo, mesmo que não conseguisse identificar a si mesma. A pose altiva, o olhar arrogante e o sorriso gelado deixavam claro quem aquele elfo era. Ele era o Rei Thranduil do qual a elfa lhe falara. E a forma com a qual a elfa fizera uma reverência, logo que chegara, só confirmou suas expectativas.

Ficaram se encarando, ela sem saber o que fazer e ele medindo até quando ela iria olha-lo daquela forma estranha. Finalmente, vencida pelo silêncio agonizante, falou, hesitante.

“Rei Thranduil, não é?” ela perguntou; os olhos do Rei faiscaram mas seu sorriso não saiu de seu rosto, e por um momento toda a sala parecia ter esquecido de respirar. No incomodo silêncio da sala, ouviu uma leve risada, que soou como música para seus ouvidos. O foco de sua visão mudou, procurando a fonte daquela risada, e vendo, atrás do Rei, ao lado do trono entalhado na madeira, um elfo.

Era belo, e uma luz emanava de seu ser. Seus cabelos tinham um louro dourado como os do Rei, com a diferença de estar trançado nas laterais, impedindo que os fios caíssem sobre sua face; os olhos também eram azuis, mas ao invés de frios, eram confortantes e brilhavam como o céu num dia de verão, enquanto a olhavam com certo divertimento. O rosto era longo, com as maçãs do rosto altas, o nariz reto e os lábios finos. Tinha um sorriso sincero no rosto, nada parecido com aquele que o Rei vestia, que lhe dava calafrios.

Lembrando-se do Rei, voltou a olhar para ele, que agora a encarava sem sorrir.

“Sim, eu sou.” Ele respondeu, a voz ríspida que a fez morder os lábios e olhar para baixo. Não falaram mais nada, e novamente o silêncio pesava o ar em volta. Lembrou-se das perguntas não respondidas, e levantou o olhar. Talvez aquele Rei soubesse quem ela era ou o que fazia ali.

“Pode me dizer uma coisa?” esperou ele responder, mas apenas viu um leve levantar de sobrancelha. Resolveu que aquilo era um sinal positivo e continuou. “Sabe quem eu sou? Ou o que estou fazendo aqui?”

O Rei dessa vez a encarou, e por um segundo viu surpresa em seus olhos, mas assim como chegou, foi embora. E para a surpresa de todos, o Rei deu uma risada estrondosa, que ecoou por todo o lugar, dando-lhe arrepios. Se mexeu desconfortável, mas não deixou de olha-lo. Um momento depois, ele parou de rir, mas continuou sorrindo.

“Infelizmente, minha cara, não posso responder suas perguntas. Não sei quem é, tampouco o que faz aqui, em meu reino. O que sei é que você foi atacada por orcs na Estrada velha da floresta, e entrou em meus domínios. Você lutou bravamente, segundo me foi dito, mas infelizmente caiu. A sua sorte, ou destino — chame do que quiser -, foi a sua bela égua, que veio a trote até o local onde meus elfos faziam patrulha, e atraiu sua atenção, os levando até você. Você estava praticamente passando para os salões de Mandos¹, e estava severamente ferida, mas cuidamos de você e aqui está.” Ele terminou tudo com uma risada sem humor. “Lhe digo que, se não fosse por meu filho, você não estaria aqui agora. Isso é tudo o que sei.”

Confusa, ficou encarando o nada, tentando se lembrar de alguma coisa. Qualquer coisa. Mas nada veio, e sua mente estava em branco. E seu nome? Nem mesmo isso se lembrava.

Olhando para suas mãos, ressecadas e frias, sentiu lagrimas pingarem de seus olhos. Não conseguiu controla-las, pois apenas cairam. Não entendia o porquê de estar chorando; talvez de medo, ou tristeza, mas não se importava. Não se moveu, nem falou nada. Logo, seu corpo tremia, e as pernas estavam fracas demais para suportar o seu peso, fazendo a sucumbir no chão. Porém, antes que pudesse bater na pedra dura, algo, ou melhor, alguém, a segurou.

Olhando para cima, com a visão embaçada por causa das lagrimas que ainda caiam, viu o elfo jovem de cabelos trançados. Ele a olhava de uma forma tranquila, e sorria levemente, mas pode ver uma pontada de pena em seus olhos azuis. Ajudou-a a se levantar e assim, percebendo que era alvo de olhares, tentou se recompor. Respirando fundo e limpando as lagrimas, olhou novamente para o ser altivo a sua frente.

“Sabe pelo menos o meu nome?” perguntou com a voz embargada, mas sem esperanças de que ele saberia. Mas talvez, talvez ele pudesse olha-la e deduzir qual seu nome era, por mais estúpida que a ideia fosse.

“Não sei, criança.” Ele respondeu, e por um breve momento pode ver um pingo de compaixão em seus olhos; ou talvez seria pena? Não pode dizer. Mas ele continuou. “Mas como você entrou nesse reino como um milagre, e provavelmente por obra do destino, podemos dar-lhe a honra de um nome, mesmo que não seja o seu verdadeiro. O que acha?”

Ponderou sobre a ideia, mordiscou os lábios e, após pensar, percebeu que essa era uma ideia relativamente boa. Até porque não poderia ficar sem um nome, sem uma identidade. Já era ruim o bastante não se lembrar de nada; não ter um nome quase a fazia se sentir inexistente. Pensando nisso, sem palavras, assentiu. Dessa vez o Rei bateu as mãos, e novamente sorriu, como se aquilo tudo fosse uma grande diversão para ele.

“Ótimo. Sendo assim, podemos dar o direito ao seu salvador, meu filho, Legolas. O que me diz?” ele se virou para o elfo de cabelos brilhantes e sorriso encantador, e este por sua vez a fitava intensamente, como se quisesse resolver uma charada. Minutos se passaram até que ele sorriu, encarando-a profundamente.

“Poderíamos chama-la de Tawariel, já que te encontramos na floresta, e estava viva. Talvez isso seja um bom pressagio.” Sua voz era firme mas ao mesmo tempo suave; sem saber o porquê, quis sorrir. E foi o que fez; sorriu admirada encarando aquele elfo loiro, como se ele fosse a coisa mais engraçada que já vira.

“Parece que gostou.” Disse o Rei, dessa vez encarando-a com certa seriedade. Mas não se importou, pois só conseguia enxergar o elfo que reluzia a sua frente, com um sorriso que parecia engolir qualquer incerteza de seu coração. “Que seja então. Apresento-lhes Tawariel, aquela que passou por dentro da escuridão da floresta e, bravamente, sobreviveu.” O Rei disse, em alto e bom som, e, Tawariel, como fora nomeada, percebeu a multidão que se aglomerava em todos os cantos possíveis do palácio. Todos pareciam ter parado com seus afazeres enquanto observavam a cena.

“Pode ficar aqui por quanto tempo precisar Tawariel, pois o reino de Oropher acolhe todo e qualquer parente perdido e em um momento de confusão e tristeza. Portanto, seja bem vinda ao reino élfico da Floresta das Trevas.” Ao terminar seu discurso, sorriu mais uma vez, e com um meneio da cabeça loira, se virou e desapareceu por detrás do trono.

Agora estava ali, no mesmo lugar, parada como uma estatua, sem saber o que fazer. Pensou em se virar e voltar por onde tinha vindo, mas agora também não se lembrava o lugar, pois ficara deslumbrada e esquecera de gravar o caminho.

Olhou para cima, vendo que a multidão que antes se formara se dissipar como poeira no vento. Começou a descer a escadaria, mas foi impedida por uma mão em seu ombro. Se virou e deu de cara com o filho do rei, Legolas, que a encarava.

Ele não sorria mais, mas também não demonstrava qualquer outra emoção em sua bela face. Apenas a encarava compenetrado, e podia sentir seu olhar penetrando sua pele.

“Não nos apresentamos formalmente.” Ele disse, se dirigindo a ela pela segunda vez naquele dia. “Sou Legolas Thranduilion, príncipe das Florestas das trevas, e capitão da guarda do reino.” Ao terminar de falar, fez uma reverencia com o braço cruzado sobre o peito. Constrangida por não saber o que responder, abaixou os olhos.

“Sou Tawariel, a seu dispor meu senhor.” As palavras rolaram de sua boca, e sua cabeça pendeu para baixo, numa demonstração clara de submissão. Apesar de não se lembrar de quem era, ainda entendia o que ser um príncipe significava, e, embora não tenha demonstrado muita cortesia e educação ao Rei, demonstraria ao seu filho, que a tratara com tamanha gentileza. Ouviu uma leve risada, e deixou que seus olhos subissem para a face de Legolas novamente.

Ele sorria, e de seus olhos um brilho emanava.

“Nos veremos novamente pelo reino, Tawariel. Enquanto isso não acontece, Lothriel tomara conta de seu bem estar.” apontou com a cabeça para a elfa que lhe trouxera ali, a qual permanecera parada durante toda sua conversa com o rei, e ela abaixou a cabeça em uma reverencia. “Que a paz reflita em seu coração transtornado.” E com um leve meneio da cabeça, se virou e saiu, tal como seu pai fizera.

Ficou encarando suas costas até desaparecer completamente em um dos corredores. Lentamente, se virou para Lothriel, e a viu olhando-a com uma certa seriedade, mas logo sorriu.

“Venha comigo, Tawariel. Deve estar faminta.” Como que se para confirmar o que ela dizia, seu estomago roncou alto, fazendo-a ficar vermelha de vergonha. A elfa sorriu mais ainda, pegando seu braço e a guiando pelas escadas.

Caminharam por vários degraus de escada, e enquanto andavam, Tawariel se pegou novamente perdida na imensidão do local; feixes de luz passavam por entre as paredes de pedra, e iluminavam parcialmente o lugar. As paredes eram cheias de detalhes, e algumas eram circuladas por galhos longos de árvores, que deveriam ser tão antigas quanto o reino; uma música leve e confortante era ouvida por todo o lugar, como um eco que nunca parava.

Chegaram a uma área ampla, iluminada pela luz solar que entrava por entre as folhas de faia do teto; as grandes árvores circundavam o local, servindo de paredes, com seus largos troncos. O chão era de pedra lisa e branca, e as folhas verdes das árvores enfeitavam boa parte de sua superfície. No centro, uma grande mesa de madeira se estendia, tomando boa parte do espaço, com bancos longos, também de madeira. Algumas luminárias, apagadas, estavam penduradas em galhos sobre a mesa, usadas provavelmente a noite.

Era um ambiente muito bonito, e relativamente mais iluminado do que o resto do reino, que era tão escuro. Ali podia, pelo menos, sentir a luz do sol sobre sua pele, embora não fosse muito forte.

“Tawariel, pode se sentar. O horário do desjejum e do almoço já passou, mas providenciarei algo para você. Espere só um pouco, já voltarei.” Disse Lothriel, se virando e saindo do salão. Tawariel, por sua vez, ficou parada, observando os detalhes de todo o lugar.

Não demorou muito para Lothriel voltar, trazendo outros dois elfos consigo, e esses elfos traziam bandejas com o que pode imaginar ser comida e bebida.

Olharam-na curiosos, mas sorriram por fim. Ambos tinham longos cabelos loiros, algo comum para o povo daquele reino, e olhos claros como água. Suas feições eram bem parecidas, e Tawariel não pode deixar de pensar que talvez fossem irmãos. Automaticamente colocaram pratos sobre a mesa, com diversas comidas diferentes neles, e uma jarra de prata com algum liquido dentro.

“Tawariel, esses são Calanon e Glandur.” Lothriel apontou para os elfos, identificando-os. Tawariel encarou-os, e sorriu tímida.

“Minha senhora, é uma honra conhece-la.” Disse Glandur, fazendo uma reverência. Calanon logo fez a mesma coisa, antes de ambos se virarem e saírem.

Lothriel apontou para o banco, em um convite silencioso para Tawariel sentar, e foi o que fez. Pode sentir o cheiro do pão fresco, das frutas recém- colhidas, do queijo e da manteiga, e, por fim, da inebriante bebida. Tudo parecia maravilhoso, fazendo sua boca salivar; porém, não tocou na comida até Lothriel permitisse que o fizesse.

Comeu tudo o que pode com avidez, sentindo os sabores se misturarem em sua boca. Soltou um suspiro de satisfação, percebendo que provavelmente não comia há dias. Lothriel observava-a com uma expressão de divertimento, e a sombra de um sorriso aparecia no canto de sua boca.

A elfa não disse nada durante todo o tempo em que estivera ali, e ficara apenas observando, parada como uma estátua, algo que fazia com frequência. Tawariel, contudo, não se importou, pois estava mais concentrada na deliciosa comida a sua frente. Quando terminou, provou da bebida, que logo descobriu ser de um gosto familiar; era escura e quente, e deveras reconfortante. Sentiu o corpo relaxar, e um leve sorriso de satisfação apareceu em seu rosto.

“Estava tudo muito bom, obrigada.” Disse, quando finalmente acabou com tudo, olhando para Lothriel. A elfa assentiu, sorrindo levemente. Não demorou muito para que Calanon e Glandur voltassem, e silenciosamente retirassem os pratos e a jarra de cima da mesa, deixando-a livre de qualquer objeto.

“Você gostaria de algo mais?” perguntou Lothriel.

“Não, obrigada. Acho que agora gostaria de descansar mais um pouco; minha cabeça está muito confusa e meu corpo está fraco.” Murmurou em resposta, mordendo o lábio inferior. Realmente, tudo o que precisava era pensar e tentar se lembrar do que acontecera consigo ou a razão de estar ali, naquele reino. E seu corpo, embora um pouco mais revigorado após se alimentar, ainda estava um pouco dolorido.

Lothriel assentiu, e assim saíram do amplo salão, em direção ao que Tawariel imaginou ser o quarto onde tinha ficado antes. E foi para lá mesmo que foram, andando pelos diversos corredores e subindo escadas.

Logo chegaram no quarto, onde Lothriel a deixou.

“Minha senhora, a noite teremos um banquete. Virei aqui para chama-la.” A elfa disse, parada na porta; Tawariel, percebendo que a elfa não estava lhe convidando, e sim avisando, assentiu.

“Tudo bem. Vou descansar um pouco então.” Disse, e Lothriel sorriu e se virou para sair. Ficou encarando o lugar onde a elfa estava por alguns segundos, e fechou a porta. Suspirando, caminhou até a cama, e se sentou.

O que vou fazer?’ pensou, fechando os olhos e se jogando na cama.

Notas finais
Olá a todos! Como vão? Espero que estejam bem. ^^ Bem, aqui está mais um capítulo de Forgotten, o qual finalmente vemos Legolas e o reino dos elfos da floresta. Como não se tem muita informação sobre a estrutura do reino, tirei boa parte da descrição das cenas do filme, enquanto outras eu inventei. Agora a estória começa a tomar um novo rumo, e eu espero de coração que todxs os meus leitores continuem acompanhando :D O que eu gostaria de deixar avisado é que vou seguir a cultura dos elfos descrita pelo próprio Tolkien em alguns de seus livros. Logicamente, também inventarei uma coisinha aqui e outra ali. Agora, vamos para o Glossário da fic haha. Para quem nunca leu Silmarilion, os Salões de Mandos ¹ é o lugar para onde o espírito dos elfos vai quando eles morrem. Tawariel quer dizer "Garota da floresta" de acordo com o site , de onde eu tirei o nome. Gostaria mais uma vez de agradecer pelos leitores, aqueles que dão uma olhadinha e nunca mais voltam, e aqueles que continuam aqui comigo :) Muito obrigada pelos comentários, eles me inspiram. É isso, perguntas e criticas são bem-vindas, então sintam-se livre para faze-los. Até a próxima, Bjs. P.S.: Mudei a capa da fic, o que acharam? P.S.2: Eu vejo uma atriz como Tawariel. É a Katie Mcgrath, que na minha opinião entra no papel de elfa perfeitamente.