Foragidos
2 Kary
Correndo. É assim que sempre começa meu dia. Melhor, fugindo de agentes do governo.
É melhor eu explicar tudo antes.
Aos 2 anos meu pai me considerou uma aberração (não que eu não seja uma) e me largou na porta de um orfanato. Não me lembro de muita coisa sobre minha família, só que minha mãe morreu. Quando completei 6 anos fugi do orfanato, mas me acharam e mandaram para outro e lá conheci Tyller. Depois de quase um ano, nós fugimos e vivemos na rua. Chegando direto ao ponto: eu sou diferente das outras pessoas. Sou tipo aqueles monstros de histórias para assustar criancinhas, Tyller também é diferente, mas não é um monstro como eu. O governo quer nos esconder das pessoas para não causar “problemas” segundo eles. Eu acho que eles só querem nos usar como seus bichinhos de estimação ou armas. Eu e Tyller nunca paramos em um lugar. Sempre nos acham e temos que fugir para casas abandonadas ou galpões.
Corri o mais rápido que pude. Depois de despista-los avisto um tigre branco.
− Tyler vai logo! – sussurrei – Eles vão nos achar!
Ele pode se transformar em qualquer felino, mas hoje estava com dificuldades. Tyller se transformou em um homem-tigre, mas não era suficiente.
− Não consigo voltar ao normal! – ele reclamou.
− Então corre!
Continuamos correndo pelo que parecia um período interminável até que Tyller fez a coisa mais idiota possível, ele deu de cara com uma árvore. Eu o ajudei a levantar e tentei não rir da cara dele. Finalmente nós saímos da floresta e chegamos na estrada.
− Ty! Não da pra andar como um tigre em público! – eu disse.
Ele se transformou em um gato e eu fui para a estrada carregando um Tyller gordo e peludo. Pegamos carona até a cidade e nos escondemos em um galpão.
− Da próxima vira um gato mais levinho ta bom?
− Cala a boca. – ele reclamou − Será que eles vão nos achar?
− Provavelmente. – respondi.
− O que eles querem com a gente?
− Sei lá, talvez nos convidem para um chá com biscoitos. – lhe lancei um olhar sarcástico.
− Falando em biscoitos, eu to morrendo de fome. – ele disse.
− Eu também. – concordei.
− O que fazemos?
− Eu sempre tenho que planejar tudo. – suspirei.
Depois de alguns minutos discutindo o plano, resolvemos ir.
− É por isso que é você que planeja tudo.
Nós conseguimos comida suficiente para alguns dias e depois que comemos fomos descansar um pouco. Quando consegui pegar no sono ouvi um barulho. Tyller se transformou em uma pantera e se preparou para atacar. Eu me transformei e vi uma garota de pele cor de bronze e um garoto de cabelos negros saírem de trás de uma pilha de caixas. Ele foi pra cima do garoto. A garota olhou fixamente para Tyller e ele caiu desmaiado, o mesmo aconteceu comigo. Tudo se apagou.
Acordei deitada em uma maca com varias pessoas ao meu redor.
− Onde eu estou? – quase rosnei.
− Você esta segura Kary. – uma garota com a pele em um tom de cappuccino, cabelos negros perfeitamente lisos e olhos castanhos se aproximou.
− Como você sabe meu nome?
− Podem nos dar licença? – ela disse calmamente para o grupo curioso e depois de irem embora, se virou para mim – Meu nome é Marissa e você esta segura na fortaleza.
− O que é a fortaleza? – perguntei confusa.
− Bom, a algum tempo eu e uma amiga reunimos pessoas especiais que não tem para onde ir e precisão de ajuda aqui nessa casa e chamamos de fortaleza. A respeito de seu amigo, ele esta acordo e bem, só esta recebendo alguns cuidados devido à fuga de vocês. E eu sou uma telepata, posso acessar a mente das pessoas e até controla-la. Foi assim que descobri seu nome e sua preocupação com Tyller. Assim que verificarmos se está tudo bem, eu irei te mostrar tudo por aqui.
Os enfermeiros cuidaram de meus machucados causados pela fuga e Marissa me levou para um “tour” pela casa. Na verdade a casa estava mais pra uma mansão de tão grande.
Marissa me contou que a pouco tempo eles começaram a dar aulas em um pequeno prédio construído ao lado da fortaleza, pois a maioria dos abrigados era menor de idade e não haviam terminado os estudos. Mas além de ensinar as matérias normais eles também tinham uma aula para ajudar com os poderes de cada um e a se defender, para isso eles dividiram classes relacionadas a cada tipo de poderes: telepatas, elementares, metamorfos, físicos, sônicos, sensitivos, detonadores e táticos.
− Enquanto vocês estavam na enfermaria, eu defini um quarto para você e Tyller. O seu quarto é o 264 no 2º andar. Vou ver como seu amigo esta e explicar tudo a ele enquanto você vai conhecer suas colegas de quarto. – Marissa disse.
Eu subi as escadas para o 2º andar e parei em frente à porta com o número 264 em dourado com uma pequena plaquinha escrito:
Bem-vindo ao nosso quarto!
Ass: Ella, Phoebe e Olive!
Eu bati na porta e segundos depois uma garota com cabelos castanhos cacheados e olhos verdes vibrantes abriu com um enorme sorriso no rosto.
− Olá! Meu nome é Phoebe. Qual é o seu? Nooossa! Que cabelo legal você tem! – Ela pegou uma mecha do meu cabelo azul – E é preto embaixo!
− Phoebe! Não assuste a garota. – uma garota alta, loira e com olhos azuis a repreendeu – Desculpe, Phoebe tem um pequeno problema com cafeína, mas sempre toma café demais de manhã. – ela lançou um olhar ameaçador para Phoebe – Ah, meu nome é Micaella, Micaella Watson.
− Eu me chamo Karinne Mason, me chame de Kary. Sou nova aqui e Marissa disse que eu vou ficar nesse quarto com vocês.
− Então seja bem-vinda Kary! A Olive já deve estar chegando. – Micaella disse.
Nós conversamos por um tempo e Ella me contou que consegue mudar de aparência e Phoebe consegue dar um grito supersônico que deixa qualquer um desnorteado e também tem visões de vez em quando.
− É super raro alguém nascer com mais de um dom. – Ella comentou – E você? Qual é o seu dom?
Fiquei meio apreensiva. Eu não tenho nenhum dom, o que eu tenho esta mais pra praga ou maldição. A primeira vez que eu vi olhei no espelho quando me transformava foi horrível, minha boca se alarga, meus dentes dão lugar a presas enormes, minhas unhas viram garras e meus olhos ficam vermelhos. Eu sou um monstro.
Acho que Phoebe percebeu minha apreensão.
− Tudo bem, você nos conta quando estiver pronta. Olive também não se sentiu muito segura pra nos contar no começo.
− Com o tempo você acaba confiando nelas e contando.
Olive parou na porta enrolando uma mecha ruiva no dedo e me olhando com seus olhos castanhos.
Ela estendeu sua mão. – Olivia Carter, mas me chame de Olive.
− Karinne Mason, Kary. – respondi ao cumprimento.
− Kary é nossa nova colega de quarto! – Phoebe disse dando um sorriso de orelha a orelha.
− Eu sei, Marissa me contou e pediu para lhe entregar os livros da escola e seu horário. – ela me entregou uma pilha com cinco livros e um pequeno papel em cima. Meu horário de aulas.
Segunda: Matemática — Estudos Sociais — Opcional — Ciências — Combate
Terça: Estudos Sociais — Matemática — Ciências — Combate — Português
Quarta: Combate — Opcional — Estudos Sociais — Opcional — Ciências
Quinta: Redação — Estudos Sociais — Português — Filosofia — Ciências
Sexta: Filosofia — Matemática — Estudos Sociais — Opcional — Combate
− Ta vendo essas quatro aulas onde está escrito opcional? Você pode escolher duas entre Teatro, Música, Culinária, Moda e Arte. – Olive me explicou.
− Qual você vai querer? – Phoebe me perguntou.
− Arte e Culinária. – respondi.
− Eu também faço Culinária! E a gente vai fazer as aulas de Matemática juntas! – Phoebe disse animada.
− Me deixa ver. – Ella pegou meu horário – Bom, você vai fazer a aula de Arte e de Redação com a Olive e de Estudos Sociais comigo. Você já sabe de qual classe de combate você é?
− Acho que na de metamorfos. – respondi.
− Então vamos fazer juntas! Ah, nós quatro também vamos fazer Ciências. – Ella disse.
− Kary escolhe uma cor! – Phoebe me pediu.
− Hm, azul. – eu respondi.
Phoebe abriu a gaveta de sua mezinha de canto e me entregou uma caneta azul.
− Escreva seu nome no quadro!
Eu fui do lado de fora do quarto e, oficialmente, comecei minha vida na Fortaleza.
"Bem-vindo ao nosso quarto!
Ass: Ella, Phoebe, Olive e Kary"
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