Tudo começou em uma festa. Uma festa que o levou ao destino, ao seu ponto de apoio. O apoio mais certo.

Deve-se fazer tudo por esse ponto de apoio, para que ele fique sempre firme para quando precisarmos. Não podemos perdê-lo... Jamais.
Ele chegou até a porta do apartamento, 403, onde o barulho de uma música alta invadia os ouvidos de quem estivesse por perto, era cativante, para uma sexta-feira a noite. Manhattan estava à luz noturna, música contagiante e um pouco indie — dependendo dos lugares onde você queria ir.
Joseph foi recebido com um grande sorriso pela velha amiga Vera.
Os cachos ruivos cobriam o rosto cheio de sardas da jovem universitária que tinha também um enorme sorriso no rosto. Seus lábios carnudos convidativos beijaram-lhe o rosto. Ele sorriu e acenou positivamente com a cabeça.
_ Pensei que não vinha mais.
Ele continuou sorrindo.
_ Eu tinha que passar em casa para tomar um banho. Perdoe-me pelo atraso, nunca corri tanto por essa Manhattan como hoje.

_ Tudo certo, eu sei como você vive correndo. – ela puxou-lhe a camisa para dentro do apartamento movimentado. – Venha vamos beber um pouco porque precisamos.
O cheiro de cigarro, vodca e camarão impregnava-se nas paredes velhas do apartamento. O papel de parede verde bastante gasto não tinha mais cor perto dos jogos de luzes que incendiavam o local junto com o calor dos jovens universitários. Joseph foi adentrando logo atrás de Vera com os olhos colados nos transeuntes que dançavam em um espaço cheio de copos. Os olhos das moças desfilavam para ele, flertando.
Joseph não era dispensável, não mesmo! Seus cachos loiros mesclavam com seus olhos verdes e o deixavam lindo de morrer. Sua camisa desbotada combinava com uma calça jeans azul nova.
_ Minha amiga Wanda vai amar te conhecer. Que tal? – Vera perguntou entregando um copo cheio de cerveja preta para Joseph.
_ Eu acabei de chegar, me deixa fazer uma ronda primeiro.
_ Eu desisto de você Joseph. Juro que desisto, você nunca aceita as amigas que te apresento, assim não dá. – Ela queixou-se. Pôs a mão no queixo e ficou olhando para o amigo.
_ Uma vez Vera, sempre Vera. – ele murmurou virando a cerveja preta na boca. Estava completamente gelada, isso era bom, afinal ninguém merecia aquele calor em Manhattan. Depois de correr por horas no trânsito a trabalho ele merecia mesmo uma boa e velha cerveja. Boa e velha cerveja preta. – Então como está na faculdade?
Ela bufou.
_ Uma merda! Como sempre, nada de novo... Espera tem uma novidade, um cara novo que entrou na minha turma. Um brasileiro chama-se Rodrigo. Ele está por aí – ela vasculhou com os olhos pela casa a procura de Rodrigo. – Vou te apresentar, assim que eu achá-lo.
_ Não se incomode. Mas... – ele pigarreou envergonhado. Precisava fazer aquela pergunta. – Megara anda me ligando e já disse a ela que acabou de verdade, mas ela não se toca disso. Disse que você estava a incentivando... Por favor, me diga que isso é mentira?!

_Ah... Eu até incentivava, você sabe, porém eu percebi que ela realmente estava ficando meio louca e obcecada por você. Tudo bem que você é lindo de morrer, mas não vale apena se desidratar por nenhum homem. Sem querer ofender.
Ele balançou a cabeça.
_ Tudo bem. Ela é perfeita demais para mim. Sei lá tão mimada, acho que não quero alguém que sempre quer algo que não posso dar que cria expectativas erradas comigo mesmo sabendo que não irei satisfazer todas as suas vontades. Me irritam garotas assim.
_ Por isso disse a ela que você não a queria e que estava na hora dela aceitar isso. Você é meu amigo Joseph, vou te defender, porque sei exatamente como você é. – Ela colocou mais um pouco de cerveja preta no copo de plástico de Joseph e então se silenciou olhando para ele. – Mas e você? Está mais magro ou a vodca já subiu a minha cabeça?

Eles riram juntos. Era verdade ele estava mais magro. Do jeito que trabalhava quase não conseguia parar um segundo para comer, beber ou mesmo descansar. Ele ter ido aquela festa já era um milagre imenso, apesar de estar sempre em contato com os amigos da faculdade que ele largara. Um milagre chamado Vera, que ameaçara cortar toda amizade com ele se ele não aparecesse na tal festa casual.
Ele virou mais um gole da sua cerveja e a fitou.
_ Acabou de vez ? – ela perguntou.
_ Definitivamente! – ele respondeu cauteloso. – Vou rodar um pouco por aí. Te vejo depois.
_ Vai lá Dom Juan, meu Dom Juan.

*

Ele vagou por entre os transeuntes que dançavam loucamente, que se divertiam ao máximo dentro daquele apartamento em um Beco de Manhattan. As pessoas ali eram conhecidas mas Joseph não queria conversar muito... Hoje não. Ele cumprimentava educadamente alguns amigos e saia andando a procura de novidades para seus olhos cautelosos e curiosos.
Algumas o puxavam para uma dança e ele simplesmente não fazia nada, queria algo a mais que uma simples dança ali. Entretanto uma loira bastante alta e magra havia o puxado e ele resolveu dar uma chance.
_ Você é o primeiro cara bonito da festa – a loira sussurrou em seu ouvido com uma voz que quase não dava para ser ouvida devido à música alta.
_ Uau, então talvez seja seu dia de sorte, porque sou só um.
_ Excelente, pretendo não dividir! – Ela murmurou puxando sua camisa, deixando-o mais perto dela. Seu perfume o fez virar o rosto, era enjoativo. Ela segurou seu braço e o fitou. Seus olhos castanhos claros eram convidativos, bem convidativos...
_ Me mostra seu lado dançarino, senhor lindão?!
Talvez ele mostrasse.
Ele sorriu para ela. Ela lhe retribuiu o sorriso radiante. Era o inicio de uma noitada?...

*
_ Então, agora que me lembrei que não sei seu nome.
_ Joseph.
A loira revirou os olhos propositalmente mostrando interesse no rapaz. Ele encostou-se no encosto do sofá e a observou por um tempo. Era bonita. Não podia negar!
_ E o seu?
_ Wendy Westah.
_ Westah? Da família Westah dona de metade do shopping de Manhattan? – ele perguntou curioso, enquanto Wendy se colava mais nele, estavam perto demais agora. A respiração de ambas quase homogêneas agora, mescladas esperando o momento certo de mesclarem no hálito também.
_ É sim. Meu avô é dono da Westah INC. Mas odeio isso, porque sempre que me aproximo de alguém parece que só querem a droga do dinheiro, é irritante.
_ Imagino como deve ser. – ele acariciou seu rosto levemente, sentindo em seus dedos a maciez de sua pele que corava a cada novo milésimo de segundo em que ela deixava os olhos fechados. Queria sua boca? Não sabia ao certo!
Ele se aproximou mais, deixando seus lábios colarem nos dela. Ainda não sentia algo que o atraísse demasiadamente, mas poderia ficar com aquela garota. Não faria mal algum, ou não.
_ Espera – ela o afastou e sorriu. – Me dê um minuto. Eu já volto.
Ele assentiu enquanto ela corria para algum cômodo da casa.
Ela era interessante, não negava. Era bonita e atraente, mas sabia que não o atraia da forma como era sempre atraído pelas outras garotas. Será que ele queria levá-la para cama? Será que ela já estava esperando isso dele? Argh!
Ele se levantou a procura de Vera...
Vera estava entre quatro garotas e alguns garotos, completamente risonha, provavelmente, bêbada. Ele caminhou até ela, entre empurrões e puxões.
Desistira, ela estava completamente rodeada e parecia muito feliz em seu mundinho, feliz demais para ser incomodada por qualquer pessoa que fosse. Ele mordeu os lábios e encostou-se à parede, enquanto retribuía sorrisos para as jovens que flertavam com ele com o olhar.
Algumas o chamavam com os dedos, mas ele se limitava a negar com a cabeça.
Estava tão cansado! Uma confusão em sua mente apoderava-se dele; por um lado não devia estar ali, devia estar dormindo e descansando para trabalhar no dia seguinte. Por outro pensava que faltava algo nele, não era sua ex, mas sentia falta de alguém para conversar, por mais que Vera fosse uma amiga fiel e companheira ele sentia que precisava de algo a mais.
Com certeza não era Megara! Por mais que ela estivesse sempre perto, ali sempre pedindo, sendo fofa e incrivelmente doce como um caramelo. Sendo linda e dedicada a ele, ele não sentia falta alguma dela, sentia-se aliviado por terminar com ela. Agora era livre, não precisa ficar sempre ligando para ela ou correndo do serviço direto para a casa luxuosa dela para ouvi-la queixar-se de que seu dia era monótono sem ele. Megara estava completamente apaixonada, mas ele não. Sentia que aquele relacionamento era leviano e que algo era muito mecânico, não era como ele esperava.

Uma verdade era que, Joseph era completamente ocupado e focado. N ao queria alguém que o regrasse. Ele largara a faculdade em busca de algo a mais na vida, em busca de sucesso profissional apesar de saber que a vida de motoboy não o levaria lugar algum, mas pagaria suas contas no fim do mês.
A vida dele nunca fora tão fácil. Sair de Denver em busca de estudo e um diploma e de repente ver que tudo o que ele havia sonhado não era o paraíso. Era algo puxado e que ele não dava conta. Descobriu que nem tudo eram flores e rosas como imaginava! Contas, aluguel, alguns relacionamentos que resultaram em brigas catastróficas, fora outras coisas.
Tudo piorava quando ousava pensar nos pais, na sua família...
Por outro lado, nunca fora tão livre em sua vida... Sem preocupações com seus pais.
Joseph ficou observando as pessoas ali, e queria entender o motivo das pessoas olharem tanto para ele. Sentia-se um ridículo esquisito na festa, por não pular loucamente como os outros convidados. Sentia-se um ET em uma festa. Talvez fosse melhor ir embora.
_ Joooseph! Estava te procurando. – Wendy puxou a mão de Joseph despertando-o de seus pensamentos rotineiros. – Desistiu de mim?
“Será que ela lê mentes?!. “ Pensou ele, irônico
_ Preciso comer. E eu estava te procurando, onde estava? – ele mentiu.
_ Eu estava tentando liberar um quarto para nós, mas aqui está tão cheio que um motel sai mais barato do que dividir cama com os que já estão no quarto.
Vish...
_ Um motel?
Ela segurou seu rosto aproximando-se. Ele já podia sentir seu perfume mesclado com bebida alcoólica.
_ Eu pago, está tudo bem.
O problema não era dinheiro. Era se ele a queria.
_ Não, nem é isso... É só que sei lá, acabamos de nos conhecer. Não te incomoda?
Ela balançou a cabeça negativamente e então o beijou velozmente. Seus lábios eram urgentes demais nos dele, que tentava lerdamente acompanhá-la para não desanimá-la ou parecer rude.
Ela se afastou limpando os lábios.
_ Vou falar com uma amiga. Depois podemos ir.
“Fodeu. Fodeu. Fodeu.” Pensou ele. Dispensar a garota como? Poderia simplesmente dar o fora dali. Era rude da parte dele, mas fodas, melhor que ir para cama obrigado só porque não queria magoar a garota riquinha.
Ele foi andando para perto da porta olhando para trás. Ele torcia para que ela desaparecesse por mais um tempo. Ele ficou olhando para trás. Seus olhos percorriam a festa rezando para que Wendy caísse ou desistisse.
Sentiu uma trombada repentina e brusca. Sentiu algo gelado em sua blusa. Levantou os olhos pronto para xingar quem quer que fosse, com as palavras mais chulas do mundo na boca, na ponta da língua.
Os olhos de Joseph encontraram dois oceanos grandes, curiosos. Eram profundos, pertenciam a um rosto simples e aveludado. Algumas sardas pequenas e uma boca que parecia ter sido desenhada sob medida para aquele rosto delicado. Um anjo em forma de mulher?
Os cabelos escuros desciam em um rabo de cavalo que deixava seu rosto mais visível, revelando a todos que reparassem bem a beleza que ele trazia. Muito belo!
Joseph ficou sem piscar por algum tempo, tentando entender se aquilo era fruto da imaginação bêbada dele.
A moça abriu a boca pronta para argumentar.
_ Ah meu Deus. O que eu fiz?! Desculpe-me eu não pretendia juro que... Era nova? Tomara que não.

Joseph estava pronto para contar ao mundo que Afrodite era tão real quanto na mitologia. Prontinho para dizer que ela era translúcida, com cabelos castanhos, de olhos puramente azuis e tinha algumas sardas no rosto... E sim era uma deusa...
A garota estava louca! Não sabia o que fazer com o copo de cerveja preta e nem com a camisa suja, mas tentava se desculpar humildemente.
_ Eu juro que se for nova eu dou um jeito.
Ele piscou olhando-a profundamente com admiração.
_ Ah, tudo bem, não se importe não era nova.
A garota de olhos azuis sorriu timidamente e assentiu com a cabeça. Quando estava prestes a dizer algo – talvez desculpar-se mais uma vez – Wendy pôs-se ao lado de Joseph e a olhou furiosa, sentindo-se desconectada e com alguma raiva e disse:
_ Sou Wendy e você é?
_ Hm, Jazz. – Jazz estendeu a mão para Wendy – Muito prazer?!
_Talvez seja mesmo. Ah eu atrapalho alguma coisa? Quero dizer, vocês estavam...
_ Sem querer molhei a blusa dele, é só isso.
_Ah, não se preocupe ele não vai usá-la, pelo menos por um tempo!
Jazz sorriu nervosa.
_ Bom , eu já vou indo. Perdoe-me pela camisa, mais uma vez... Ér, to indo.
_Ei espere – Joseph segurou o braço de Jazz por impulso, ignorando completamente a presença de Wendy ao seu lado. Ele não queria perder a chance de ficar mais um tempo olhando para ela. Só o som da palavra “estou indo” já o deixava angustiado. – Derramei sua cerveja, eu pego outra para você se você quiser.
“Por favor, aceite e me livre dessa loira”, pensou ele.
_ NÃO! Quero dizer, eu... Eu pego. Até logo. – Ela saiu andando e se misturou no meio das pessoas, enquanto Joseph simplesmente a perdia de vista.
Ele não queria que ela fosse embora.
Ele perdera a deusa dona de dois oceanos.
_Venha. – Wendy o chamou – Vamos sair daqui.
Eles saíram, entretanto, a mente de dele continuou na festa, vagava incessantemente por cada pessoa ali tentando encontrar a menina... Jazz.Dona de um nome de estilo de música dançante, cativante, era como o jazz verdadeiramente, bela e cativante. Hipnotizante.

Ele sentira-se atraído por ela de uma forma nova. De um jeito que o fazia se perguntar como não havia percebido a presença dela. Alguém tão linda como um vento que canta em morros e vidros, suave e doce como um vinho caro e delicioso de boa adega. Os olhos puramente azuis traziam a ele sensações de ondas em seus pés, do frio da água tocando-o... E aquilo tudo só de vê-la uma vez, em pequeno – longos para ele – minutos. Ele sentiu pela primeira vez, depois de um tempo, algo pulsando dentro de si. Algo forte em seu coração, por ela.
Viu Wendy a sua frente nua, mas não sentia nenhum desejo por ela, não depois de ter visto Jazz.Talvez quando a vira antes de ver a garota dos olhos oceanos, agora via Wendy e só pensava em como às vezes era covarde e imbecil. Queria sair dali!
_Vem. Vem Joseph – Convidou Wendy, angelicalmente, acariciando sua nuca. Ele fechou os olhos ignorando o efeito da bebida em sua cabeça, que o fazia delirar com Jazz e deitou-se...

*

_Você vai me ligar Joseph? Ou terei que continuar te ligando feito uma desesperada? – Wendy soluçava no celular, a voz triste, enquanto Joseph fumava na janela do seu pequeno apartamento. – Você nunca me liga, ao menos se importa comigo?
_ Wendy, eu me importo com você, muito. Só que sabemos que desde quando começamos não era algo sério, somente casual. Eu ia te ligar.
_ Quando tivesse que pedir alguma coisa?
_ Quando desse saudade! O que é impossível com você me ligando a cada uma hora, eu jamais te pedi alguma coisa. – Ele a ralhou, frio. Tragou mais uma vez e lançou o cigarro para fora da janela. Ele queria ser o cigarro...
_Ok, vou parar de te ligar, é só que preciso te ver, mais uma vez.
_ Tá, eu vou aí te ver!

A verdade é que, assim que desligou o celular, Joseph pegou uma garrafa de água e bebeu a metade. Depois foi trabalhar. Nada se passava em sua cabeça além da preocupação com as entregas que deveria fazer hoje para seu chefe e depois na papelada que ele deveria preencher para tentar conseguir uma promoção na empresa. Enfim, sair do medíocre posto de office que desempenhava na empresa. Pensou que com um salário maior poderia trocar a moto e pagar algumas contas atrasadas.

Em nenhum momento pensou em mulheres, ou em Wendy. Pensou em tudo, menos em mulheres. E logo, esquecera que havia um mundo vivendo fora...