O vestido realçava perfeitamente a silhueta de Marília, e embora não fosse nada extravagante para o seu primeiro dia, com certeza não a deixaria passar despercebida. De vez em quando, ela gostava de se sentir bonita, por isso às vezes dedicava-se um pouco do seu tempo para alguma espécie de vaidade. De frente ao espelho, delineou com cuidado a pálpebra de seu olho, destacando-o. Começou pelo canto externo com um traço mais grosso e aos poucos foi afinando até chegar ao interno. Finalizou sua simples maquiagem com um batom.

Secou os cabelos molhados, e depois de penteá-lo, prendeu-o em um simples rabo-de-cavalo. Calçou o sapato de cor escura, que contrastava com sua roupa e, depois de pronta, olhou-se pela última vez no espelho. Seu reflexo parecia melhor, até porque não era todo dia que se encontrava cuidado dessa forma. Sorriu quando se viu, percebendo que sua vida estava apenas começando. E embora não fosse um dos começos mais desejados por qualquer pessoa, ainda assim era um começo.

Não demorou muito para que sua mãe a levasse até a empresa que a contratou há poucos dias, ela poderia muito bem vir andando a partir dos próximos dias, Fátima apenas insistiu em levá-la aquela vez por conta do orgulho bobo e singelo em ver a filha provando como crescia rapidamente. Não esperava que tão cedo sua mais nova pudesse mostrar as asas novamente, e sentia certo receio quanto a isso. Seu desejo era sempre manter as filhas presas sob sua proteção, mas isso não seria possível. Não poderia livrá-las sempre dos problemas que enfrentariam, como fizera até o colegial.

As duas já se encontravam adultas, e ao ver Mia acenando para ela, e logo após seguindo para seu primeiro dia de trabalho, Fátima notou o quanto o tempo passara. Relembrou-se de sua filha mais nova acenando para ela na porta da creche, e ao contrário de outras crianças, toda feliz por finalmente ir à escola, era como se fosse ontem isso para ela. E com seu sentimento egoísta de mãe, cobiçou que aquele dia voltasse.

Todas as mães dizem que não esperam a hora de ver os filhos longes, seguindo a vida, e sendo felizes. Na teoria poderia até ser verdade, mas na prática, principalmente com Fátima, não era assim. Já havia escutado essa frase de diversas amigas mães, porém nunca se identificou com ela. Queria os filhos felizes, mas se possível, ao seu lado. Debaixo de sua saia.

Assim que Mia pisou os pés naquele lugar, notou diversos olhares direcionados a ela. As pessoas olhavam-na com muita curiosidade, provavelmente sabendo que ela era novata. Pelo que ficou sabendo, ficaria no segundo andar, como assistente de Silvia. O lugar em que trabalharia era um enorme edifício, completamente espaçoso e decorado, e por dentro tudo realçava modernidade e sofisticação. A começar pelo vestuário das pessoas que ali passavam parte do dia, todos elegantes e clássicos. Nas regras que havia lido, não tinha um tópicoinformando que era obrigatório usar saia e blazer, porém, a maioria da galera utilizava essas peças.

Hum... Será que eu deveria começar a gostar de blazer? Mia se perguntou por pensamento. Provavelmente não, seu gosto não era tão sofisticado assim. Continuou a caminhar, carregando consigo sua bolsa, e no meio do caminho, por obra do acaso, esbarrou-se em Silvia.

—Bom dia, querida! —Silvia parecia contente mesmo em vê-la.— Creio que esteja um pouco perdida, o que acha de eu te levar para conhecer o resto deste departamento?

Mia apenas assentiu com a cabeça, sentia-se um pouco tímida, mais do que já era cotidianamente. O que piorava ainda mais a sua situação. Porém, sabendo que isso não seria satisfatório para seu bom desempenho, procurou jogar no lixo todas as suas inseguranças. Para crescer, bem sabia ela, era necessário muito mais do que um bom currículo e boas notas. Era preciso experiência e boas recomendações.

Gentilmente, tentando deixar a Marília mais à vontade, Silvia procurou desfazer-se de certas formalidades. Sorria sempre que possível, tentando-se mostrar ao mesmo tempo compreensível e paciente. E rapidamente funcionou, pois a garota de cabelo preso em um rabo-de-cavalo, logo notou que não seria tão mal assim ficar ali. Aliás, se todas as pessoas fossem como Silvia, seria um enorme prazer. Silvia levou Marília a vários lugares daquele mesmo andar, explicou que futuramente, caso ela subisse na empresa, aos poucos seu conhecimento sobre aquela companhia aumentaria. Até porque, graças a enorme circulação de pessoas naqueles corredores, principalmente naquele horário, traumatizaria a garota do interior.

Apesar de amar a companhia da moça que a contratara, Mia amou quando se sentou em sua cadeira sem mais nenhuma pressão sobre ela. Bom, não a princípio. Enquanto a novata arrumava seus pertences em sua extensa mesa, cuja forma soava um pouco peculiar, muitas das pessoas que a circulavam comentavam sobre o figurino e o cabelo dela. Não que falassem mal, mas há muito tempo aquele pessoal precisava de novidade para fofocar. Portanto: Mia era a novidade. Então, com certeza, frases como ‘’ Ouvi dizer que ela... ‘’, ‘’ Parece ser aquela... ‘’, eram muito repetidos. Tanto foi que, sem querer, a garota acabou escutando alguma das frases. Ora positiva, ora negativa, não importava, sempre esboçava um sorriso no rosto, mesmo tímido, e fingia que não era com ela. Havia, no canto esquerdo da mesa, um notebook ligado, a área de fundo tinha um banner da empresa e logo um e-mail chegou a sua conta, e sorriu ao ler.

‘’ Olá, querida Marília.

Venho por este e-mail lhe dar mais uma vez as boas vindas. E espero que realmente sinta-se à vontade, e qualquer coisa, estarei aqui para ajudá-la. Ah, e quanto a esse povo, ouso lhe dar uma sugestão: Não ligue, rapidamente passa, isso é por causa da novidade. Por não te conhecerem, mas tenho certeza que em breve conhecerão.

Entretanto, como nem tudo são flores, eu quero te pedir que venha à minha sala neste instante, tenho já uma tarefa reservada a você.

Atenciosamente,

Silvia. ‘’

Como ela mesma disse: como nem tudo são flores, Mia foi obrigada a se retirar de sua humilde mesa e ir até a sala de sua mais nova chefa. A qual, felizmente, seu santo batia. A sua primeira tarefa não foi tão pesada assim, era apenas um esboço sobre o que ela, como cliente, esperaria de um produto. No início pareceu simples, mas depois a situação se complicou, pois aquilo nada mais era que um teste. Marília era esperta, e já esperava por isso. No dia seguinte, depois de finalizar com sagacidade seu pequeno texto, e analisá-lo novamente umas três vezes, deixou o papel sobre a mesa da chefa, pegando um objeto qualquer pesado e pondo por cima. Na hora do almoço, pôde descer por causa do pequeno horário livre que tinha, saiu do edifício, deixando para trás aquela enorme construção, e procurou um restaurante próximo, com um preço em conta e uma comida de qualidade. Ao encontrar, entrou no estabelecimento, fez seu prato e sentou-se num lugar vago qualquer. Quando Mia pôs sua primeira garfada na boca, viu um vulto e, ao erguer os olhos, deparou-se com uma figura distinta à sua frente. Não fora difícil lembrar-se dos cabelos ruivos do rapaz, tampouco seu olhos claros. Era um cara da agência com quem trocou palavras apenas uma vez, quando ele lhe deu boas vindas.

—Desculpe chegar assim. Mas confesso que fiquei muito feliz ao perceber que você escolheu logo este restaurante para almoçar, a maioria das pessoas daquele prédio preferem ir a lugares que, tendo ou não comida boa, o preço altíssimo é o que conta. —Ele revirou os olhos, como se já fosse íntimo de Marília. A garota não respondeu e desistiu de por a porção de comida na boca, e franziu a testa estranhando aquela invasão.

—Desculpe-me, mas... Qual é o seu nome?— Mia indagou não se importando em ser muito delicada.

—Arthur, e o seu pelo que sei que é Marília... Nome diferente, pouco usado hoje em dia. — Arthur, agora não tão desconhecido assim, comentou.

—Na minha terra é mais comum, sou do interior.

—Veio para cá há muito tempo ou... — Mia o interrompeu.

—Vim por causa da minha mãe, que se casou com um homem que mora aqui. Faz algum tempo, sim. Estou no último período de publicidade e propaganda. —Ela murmurou. Arthur sorriu para ela, fazendo-a retribuir com um meio sorriso. Aos poucos a conversa entre os dois fluiu e, consequentemente, Mia ficou um pouco melhor em notar que poderia ter alguma amizade ali dentro. Tinha Silvia, mas ela não gostava muito da ideia de tê-la como única, até porque, ela era a sua chefa.

—Meu pai morreu há pouco tempo, apesar de nossas situações serem diferentes. Acredito que elas se condizem graças ao fato de termos de nos acostumar com algo totalmente inesperado. A mudança me assusta, embora me fascine também. — Ele especulou, acertando em cheio. Isso acabou aumentando um pouco seus pontos com a garota, cuja armadura foi aos poucos tirada graças aos encantos e raciocínios do ruivo. Ele era legal, isso ela não poderia negar.

Assim que chegou de volta na empresa, Silvia chamou Marília a sua sala.

— Olá... — Sussurrou batendo sutilmente na porta, que estava encostada provavelmente esperando por ela.

— Olá, Marília! Sente-se e fique à vontade. Quer biscoitos? —Silvia ofereceu. A outra apenas recusou com a cabeça. – Então, te chamei para conversar com você... Eu li o esboço que fez sobre o produto. E é sobre isso o que quero falar com você. Espero que me ouça atentamente e desperte a garota que eu vi em você durante a entrevista.

Marília enrugou a testa, não entendendo onde sua chefa queria chegar. Notando isso, ela continuou.

—Quando fiz a entrevista com você e diversos outros universitários, Marília,eu notei algo diferente. Julguei-a mais pela minha intuição, admito. O que quero dizer, é que eu vi em você o que infelizmente, hoje em dia, tornou-se raro. É claro que com certeza você ambiciona várias coisas na sua vida, mas por algum motivo, sei que possui princípios e estes vem antes de qualquer coisa. Portanto, quero que entenda o que eu quero de você. O que este lugar espera que você faça. Gostei muito da sua escrita, o modo como joga as palavras e os argumentos, e até a forma como colocou humor em alguns subtítulos. Mas, antes de tudo, eu quero verdade naquilo. Como passaremos a certeza ao cliente, se aquele texto, embora perfeito, não tenha a essência e a veracidade para diferenciá-lo dos outros? Eu quero que você acredite no produto como se você estivesse escrevendo uma carta para o seu namorado, ou para alguém que ame e queira impressionar. Na realidade, queira fazê-lo acreditar no que diz. Entende?

Marília raciocinou um pouco em cima das palavras de Silvia. E notou que ela tinha razão, porque sim, havia colocado no texto tudo o que aprendera durante anos de estudo. Mas não colocou o principal: A essência dele. O propósito de oferecer um produto, ou uma ideia, dava-se ao fator de aquilo ser real, e de fazer a diferença não só para com o consumidor, mas para a troca mútua de informações e satisfações. Aquelas descrições expostas em seu teste, eram superficiais e comuns. Sem particularidades, muito menos entusiasmo.

—Obrigada pelo puxão de orelha, acho que você está certa. Fico feliz que tenha depositado em mim um voto de confiança, é muito importante. Espero conseguir recompensá-la. —Marília respondeu após se levantar da cadeira, olhando com determinação a mulher à sua frente.

A partir daquele dia, com a ajuda de Arthur, mesmo ele sendo de outro setor, ela permitiu-se mergulhar de vez naquele mundo. Dividia seu tempo com muita aptidão, conseguia deixar que os estudos para as provas e sinônimos caíssem em dias oportunos,como o sábado, o domingo e suas folgas.

Todo o dia Mia almoçava com seu novo amigo no restaurante em que conversaram de verdade pela primeira vez, e quase sempre, ela sentia-se bem. Ela mal parava em casa ultimamente, sempre atarefada e cheia de coisas para realizar.

Às vezes foi necessário dar uma espécie de pausa, e nesses momentos, sozinha, em passeios na praia ou em parques, aproveitou para pensar e agradecer a Deus por, apesar da correria, sua vida parecer estar mais tranquila, se não fosse o fato de ter em suas costas uma nova tarefa: criação de convites para um evento. Não que ela achasse ruim, porém seria trabalhoso e exigiria dela muito mais tempo e dedicação.Não era um grande evento, até porque isso aconteceria com o ganho de experiência. Ela ainda era iniciante, dessa forma, havia limites mais expressivos.

Ela só não estava tão desesperada, porque Arthur prometeu ajudá-la, e sabia que poderia contar com a ajuda e o apoio de Silvia caso fosse necessário.

Por ora, tudo ocorria bem, e assim ela esperava que o percurso continuasse.