— O pai de Miguel morreu, sim, infelizmente. E em seu testamento, está escrito que seus haveres ficarão suspensos até que as jovens que nele estão sendo citadas como herdeiras sejam encontradas. — O advogado de Lourenço declarou pela milésima vez para Fernanda, esta insistia em não acreditar nas palavras do fiel amigo de seu sogro.

Lourenço morrera há um mês, e embora Luís Miguel tenha largado de mão e não se importado com o fato de vários assuntos envolvidos à empresa de seu pai estarem pendentes, sua noiva insistia em não abdicar o que, para ela, apenas seu futuro marido tinha direito. E quando a mesma se cassasse com o herdeiro, consequentemente tudo aquilo se tornaria dela também. Fernanda não era uma pessoa má, muito pelo contrário, gostava de Miguel e não gostava de vê-lo tão triste como naquele mês, contudo, suas prioridades eram outras do que a temporária tristeza dele.

—Pela milésima vez, Fabrício! Lourenço não tinha outros filhos, muito menos filhas. A não ser Arthur, mas ele já ficará com todos os imóveis que Lourenço possuía em toda parte do mundo. A empresa é de Miguel, ponto. Não há a menor possibilidade de essas ações serem divididas a três pessoas. Mesmo que, de acordo com suas palavras, Miguel ficará com a maior parte, não tem cabimento pessoas desconhecidas, até então, encostarem as patas em algo que não pertence à sua respectiva família. —Fernanda despejou seus argumentos de maneira grosseira, não se importando em parecer simpática. Sua paciência estava esgotada, e tudo o que queria era esganar o advogado, porém não podia realizar tal desejo.

—Sinto muito desapontá-la, senhorita Pontes. Mas a única vontade que será realizada é a de meu amigo Lourenço. Tudo ocorrerá da maneira que ele desejou. —Fabrício tentou transparecer sinceridade, apesar de no fundo estar rindo pela situação da garota.

—Não duvido que você tenha fraudado o testamento, Fabrício. —Nanda persistiu, demonstrando um de seus piores defeitos. Quando perdia a paciência, não media suas palavras. Para ter êxito em seus planos, teria que cuidar disso urgentemente. — E, aliás, para você é senhora. Em breve me casarei com Miguel, e então me tornarei dona disso tudo que está tentando tirar da gente! E, finalmente, você será despedido, por não nos apoiar.

— Vejo que está exaltada por não estar de acordo com as vontades do falecido, embora me entristeça saber com que tipo de mulher Miguel se casará. De qualquer maneira, meu objetivo já foi cumprido. Por favor, repasse a informação ao seu noivo. —Fabrício finalizou, deixando-a estática na sala de reuniões, embasbacada com a audácia e falta de consideração do homem que por anos teve que aturar. Não queria ser julgada como uma golpista, muito menos como alguém interessada apenas no dinheiro daquela família. Apenas não gostava de injustiça, e principalmente, não gostava de saber que havia duas garotas afora prestes a encostar-se ao que, daqui a algum tempo, seria dela. A jovem de belas curvas e rosto agraciado por fortes traços jogou-se à primeira cadeira avistada e afundou as mãos no rosto, contanto até três para não enlouquecer.

Miguel encontrava-se perdido em pensamentos, de repente, sua vida encontrava-se da mesma forma que há alguns anos. Aguentara uma vez a dor da perda, mas duas? Era mais do que podia aguentar. À noite, naquela tarde de terça, houve uma pequena reunião para homenagearem seu pai pelos anos todos de trabalho à grande empresa que administrou perfeitamente até o fim. Apesar dos defeitos de Lourenço, Miguel o considerava seu grande e majestoso herói. Havia conseguido erguer uma das maiores potências daquele lugar, apesar das pequenas falhas, o criou e o fez se tornar um homem digno de tê-lo como pai. Dera educação a ele, e apesar de Lourenço não ter sido um dos pais mais amorosos, esforçava-se de vez em quando para demonstrar o quanto se orgulhava do único filho. Miguel caminhava de maneira presunçosa pelo calçadão, desafrouxou a gravata para conseguir respirar melhor, mais o ar escapara dele muito antes de colocar aquele terno. Não sabia ao certo o porquê de ter saído no meio da reunião para andar sozinho e relembrar tudo o que viveu ao lado do homem que o deixara. Contudo, não conseguiria continuar sabendo que a maioria das pessoas que estava lá, não se importava de verdade com o fato de seu pai ter morrido, muito pelo contrário, estavam ali apenas para seu próprio interesse. Lembrou-se do momento que subiu em um pequeno palco, assim que seu grande amigo o chamou e também se lembrou das palavras que usara para descrever Lourenço.

‘’ Meu pai era um homem incrível, e quem o conheceu de verdade com certeza concordará comigo. Não estou falando dele como profissional, muito menos como o chefe Lourenço carrancudo e autoritário. Estou falando dele como homem, como cidadão, como pai e como amigo. Eu queria ter dito a ele o quanto me orgulhei e o amei, o quanto ainda o amo e preciso dele aqui, vivo. Mas é impossível. Tudo o que posso, então, dizer, é que não importa o tempo que passe, eu sempre o levarei comigo. Ele está guardado em meu coração, assim como seus ensinamentos. E espero do fundo do coração que ele continue me guiando em minha caminhada, com a mesma maestria que teve ao construir a sua. ‘’

Miguel não se importou com a hora, muito menos com Fernanda. Apenas queria respirar um pouco ar fresco, fazia tanto tempo que não andava descalço pela areia, fazia tanto tempo que não sentia o cheiro salgado embriagá-lo, fazia tanto tempo que não era mais aquele garoto que corria pelo quintal da madrasta e comia a fruta madura do pé. Apesar de parecem insignificantes, essas coisas faziam muita falta a ele. Desde que se mudara com o pai, percebeu que não era mais aquele garoto alegre e cheio de expectativas quanto ao futuro e as pessoas. Não que sua essência ou sua personalidade tivesse mudado, continuava o mesmo quanto a muitos tópicos. Mas havia algo fundamental, algo que ele não conseguia definir ao certo o que era. Algo que morreu nele assim que seus pés saíram de sua antiga casa no interior. Ele sentou-se de frente ao oceano e encarou o extenso mar, permitindo-se pela primeira vez depois de muito tempo chorar como um menino novamente. Era como se não fosse somente a dor pela perda do pai que fizera com que ele agisse dessa maneira, sabia que sua vida tinha dado um giro de 360º, e infelizmente, não era daquele jeito que um dia sonhou estar no futuro. Aquele garoto que um dia se assustou ao descobrir que iria deixar a meia-irmã, agora se encontrava presente nele. Porque os medos eram os mesmos, a falta de esperança e a angústia eram muito semelhantes. Apenas a aparência mudava naquela situação, nada mais.

Três horas mais tarde, Luís Miguel achou melhor ir embora. Caminhou como um bêbado entre as ruas, tentando lembrar-se em qual rua morava. Seu raciocínio estava tão lento que, se alguém dissesse que dois mais dois é era igual a três, ele acreditaria sem pestanejar. Chegou a seu prédio, acenou brevemente para o porteiro e depois de alguns segundos no elevador, logo entrou em seu apartamento. Assim que fechou a porta, com o paletó pendurado no braço esquerdo, assustou-se ao enxergar Fernanda. Esta estava pronta para descrever a ousadia e afronta que Fabrício fizera a ela, mas ao notar os olhos vermelhos do homem com quem desejava ter um futuro, desistiu. Percebeu que Miguel não teria paciência, muito menos daria devida atenção a ela, então apenas o recebeu com um selinho e voltou para o quarto. Amanhã, quem sabe, conversaria com ele e diria suas preocupações.

O homem de cabelos castanhos claros tomou um longo banho e, ao sair do banheiro enxugando os cabelos, notou pela janela que o tempo mudara repentinamente. Aquela noite havia acabado de se tornar pior ainda, até hoje, ele tinha certa dificuldade em adormecer com a chuva e os barulhos de trovões e relâmpagos. Ele não possuía medo, muito pelo contrário. Sentia culpa. Apenas sabia que outra pessoa talvez ainda sentisse anseios quanto a esse tipo de tempo, era testemunha o quanto isso incomodava sua meia-irmã. E não poder ajudá-la, como sempre fazia antigamente, o inquietava. Às vezes, ele fazia suposições graças à insônia que adquiria quando o tempo estava feio assim, e dessa forma, imaginava-a de diversos jeitos. Imaginava-a próxima a ele; com seus longos cabelos pretos e seus olhos claros encarando-o, cujo brilho e intensidade o atingia com força. Achava ridículo lembrar-se dela quando, na verdade, Mia provavelmente nem se lembrava do meio-irmão que tanto a amou durante a infância. Mais errado ainda era pensar naquela menina quando sua noiva encontrava-se deitada ao seu lado.

Felizmente, Fernanda não parecia ter problemas com os trovões.

—Venha para a cama, amor. —Pediu assim que abriu os olhos e o viu encostado à janela, com os olhos fixados nos pingos que escorriam pelo vidro molhado. Assim que a escutou, ele virou-se, e, com um meio sorriso, caminhou até a cama e deitou-se. Mas não pregou os olhos. — Confesso que até hoje não entendo esse seu receio quanto às tempestades. Você é tão forte, tão corajoso, como pode não conseguir dormir sempre que o tempo está assim? —Perguntou. Essa era uma das maiores curiosidades de Fernanda. Embora não confessasse, muitas vezes flagrara o jovem acordado a noite sem a menor possibilidade de voltar a dormir. Não acreditava que Miguel tinha medo, ou algo parecido, apenas não encontrava uma explicação plausível quanto àquela constatação.

—Isso é coisa da sua cabeça, Nanda. Volte a dormir, não quero atrapalhar seu sono. Hoje o dia foi muito exaustivo.— Pediu, e sabendo que não tiraria nada do noivo, Fernanda finalmente dormiu. Ao contrário de Miguel, que como sempre, passara a noite acordado. Entretanto, dessa vez seus pensamentos vagaram também em direção ao pai.

O dia de hoje seria agitado, portanto, Mia tratou-se de levantar rapidamente e despertar o máximo possível. Deixou os pés pousarem sutilmente no chão gelado do banheiro, desfazendo-se de seu chinelo. Não demorou muito dessa vez no banheiro, porque seu banho durou poucos minutos dessa vez. Ela não estava com tanto sono assim, afinal, mal pregou os olhos à noite. É claro que não era mais uma menina boba com medo de trovões ou relâmpagos. Ela não sentia mais aquele temor de antes, muito pelo contrário, esse medo se converteu em algo pior ainda. Não se sabe ainda o que, na realidade, a falta de companhia nas noites assim deixou-a com certo trauma. Embora dormisse com a mãe, ou mesmo com a irmã, não adiantava de nada. Então, obviamente, não era uma companhia qualquer que a fazia falta. Era como se seu melhor amigo tivesse sido uma cura, mas ao menos tempo, uma doença. Por isso e muito mais, Mia já imaginava que não restava mais esperança para si mesma.

Logo pela tarde, recebeu um telefonema. Pegou o celular presunçosamente; completamente desinteressada.

—— Alô?

— Olá, Marília, correto? — Uma voz estranha para ela indagou, apesar de não fazer ideia de quem se encontrava na outra linha, a garota confirmou. —Sou Silvia Fonseca, lembra-se de mim? A moça que te entrevistou semana passada. Ficamos de avaliar seu currículo, e como isso já foi feito, estou ligando para a senhora com o intuito de pedir que venha, caso seja possível, até dia primeiro à empresa. Confesso que suas características nos agradaram bastante!— Silvia pareceu simpática, embora continuasse com aquele ar profissional.

A ligação havia pegado Mia de surpresa, por conta disso, teve que esperar uns segundos para conseguir responder a mulher sem demonstrar muito entusiasmo, e muito menos desinteresse. Teve que equilibrar-se, para não deixar estampado o tanto que precisava daquela ligação. Era a chance de reembolsar o padrasto, e poder pagar sua faculdade sem precisar do novo marido de sua mãe.

—Tudo bem, até dia primeiro estarei ai. —Confirmou, com um enorme sorriso no rosto.

(...)

—Alguma objeção quanto às regras?— Silvia perguntou a Mia assim que esta se levantou da cadeira, com uma pasta contendo diversos documentos dentro. Os olhos da menina do interior brilhavam, afinal, há pouco tempo suas esperanças quanto a conseguir um emprego despencavam-se gradualmente. Agora, finalmente, conseguira conseguir um passo a sua liberdade.

—Não, felizmente não. Estou em total acordo com elas, e quando poderei começar? —Perguntou, já não conseguindo segurar a expectativa. Ao notar finalmente Mia expressar alguma emoção, Silvia não pôde deixar de conter um sorriso em seu rosto. Não sabia ao certo o porquê, mas havia de cara simpatizado com a garota à sua frente. Poderia muito bem sero jeito, ou algo parecido. Até porque não era do perfil de Silvia julgar as pessoas tão rapidamente assim. Principalmente se tratando de uma universitária que não tinha em seu currículo tanta experiência assim. Entretanto, para convencer seus superiores a permitir a entrada daquela jovem, utilizou-se das ótimas virtudes que a menina possuía. Além disso, o fato da menina estar cursando a área que aquele emprego requer, colaborou com sua aprovação. Ao ver Marília sair de sua sala, logo após se despedir, percebeu que aquilo nada mais se tratava que sua intuição. E raramente sua intuição falhava.