Atualmente

Marília estava de frente à casa que, a partir de hoje, seria sua nova moradia. Era um pouco estranho olhar e não ver o balanço e sua árvore preferida no pequeno jardim que ali tinha. Mais estranho ainda, era não reconhecer aquela rua e aquelas janelas.

Haviam se mudado graças ao novo marido de Fátima, Ricardo. Para o mais novo padrasto de Sara e sua irmã, seria mais fácil elas morarem com ele do que fazê-lo ir para o interior. E sua mãe preferiu que viessem também, porque, como ela mesma dizia, seria mais propício aos estudos das filhas.

É claro que, no modo de pensar de Marília, o futuro seria muito melhor se ficassem ali, mas, sinceramente, ela não sabia se conseguiria ser como Sara ou como Dirce, que viera para cá com os pais há um ano.

Havia vários fatores que a estimularam mesmo a partir. Desde a saída de seu melhor amigo, aquela cidade não pareceu tão perfeita como era. As brincadeiras aos poucos perderam a graça, e aos poucos ela estava meio que virando um morto-vivo. Mia tinha superado e entendido que jamais veria Luís Miguel novamente, era impossível. Todavia, o importante era que, independente disso, ela o tinha consigo nas lembranças.

Algumas fotos tiradas pela sua mãe também validavam essa afirmação, mas não substituíam os momentos que não foram capturados. Os momentos que viveu ao seu lado e que, mesmo sem saber, havia sido os melhores de sua vida. Ele continuaria fazendo eterna morada em seuspensamentos, mesmo que não soubesse disso. E Marília continuaria guardando-o a sete chaves em seu coração, assim como fizera até aqui.

Não é certo afirmar que o que ela sentia por ele era mais que amizade, até porque eram apenas simples e ingênuas crianças.

Mas ambos sabiam que o que sentiram era muito forte, a ponto de fazê-la vagar todas as noites pela sua nova casa com os pensamentos perdidos, e toda vez que isso acontecia, sentia seu coração se apertar ainda mais. Não era muito saudável relembrar, mas não tinha como.

Se essa fosse a única forma de tê-lo um pouco ao seu lado, a menina de cabelos escuros e olhos azuis opacos pagaria o preço.

O tempo também ajudou que a ferida criada com a partida de Luís Miguel diminuísse, mesmo que não fizesse tanta diferença. Gradualmente foi aceitando e permitindo que aquela realidade, que aquele novo fator não influência mais a sua vida. Com isso seguiu a vida, teve alguns namorados, criou novas amizades, conheceu novas pessoas, no entanto, ninguém nunca chegaria aos pés de seu antigo amigo de infância.

Apesar de Sarah ter mudado junto com elas, a loirinha já conhecia a cidade. Ela viera várias vezes por causa de viagens que realizou com algumas amigas, algumas vezes Sarah chamara sua irmã, mas Mia nunca havia aceitado. No dia posterior, logo que ele nascesse, iriam dar uma volta pelo quarteirão para conferirem e se habituarem ao lugar o mais rápido possível. Todas já tinham finalmente terminado o ensino médio, em breve iriam começar uma faculdade, Marília só tinha certas dúvidas quanto a que curso se candidataria.

O novo padrasto não é exatamente como imaginaram que seria. Ele não era como um pai para elas, e muito menos fazia muitos esforços para deixar as irmãs mais à vontade; porém, não era um carrasco que ficava no pé. Muito pelo contrário, ele era bem neutro. Não sabiam ao certo sobre seu caráter, mas a mãe de ambas era uma mulher experiente, vivida; portanto, possivelmente sabia com quem estava se metendo.

Ninguém mais estava acordado, Mia ganhara mania de ficar pensando na vida durante a madrugada, onde ninguém tem a chance de incomodá-la. Levantou-se da cadeira e colocou seu copo de leite sobre a pia, a fim de voltar para a sua cama. Mesmo que soubesse que deveria dormir cedo, porque o dia havia sido cansativo, preferiu encarar o teto do quarto, e, ali, no meio de confusões de pensamentos e insinuações que a amedrontavam, acabou adormecendo.

No dia seguinte foi acordada pela irmã mais velha, que insistia em fazê-la sair da cama. Rolou de um lado para o outro, a fim de continuar inerte e aproveitar o máximo possível dos sonhos que, ao dormir, ela obtia. Porém naquela noite Mia não sonhara; muito menos havia relembrado algum momento seu guardado bem lá no fundo de sua memória.

Era a primeira noite sem sonho, ou pesadelo. E isso parecia proveitoso.

Agarrou-se à irmã, e com um pouco de dificuldade, ela levantou-se, e então abriu os olhos. Correu em direção ao banheiro ao notar que Sarah já estava pronta. Tomou um rápido banho para despertar, e fez sua higiene matinal, colocou um short curto, porém largo, junto com uma blusa qualquer. Calçou seu tênis, prendeu seus longos cabelos escuros num rabo de cavalo e saiu do seu mais novo quarto. Todos já estavam acordados, e comiam animadamente à mesa, o padrasto parecia até mais sociável.

— Coma alguma coisa, Mia. Daremos uma volta no quarteirão. Vamos aproveitar para decidir qual curso irá se dedicar este ano, afinal, esta na hora de finalmente crescermos. — Sarah disse olhando-a atentamente, Mia levantou a cabeça, retribuindo-a.

Sara estava certa: este ano era o ano de desapegarem totalmente da vida que tinham antes. Agora era vida nova, e Fátima merecia ter uma razão novamente para se orgulhar delas. De vê-las bem e felizes, sabiam que, uma das pessoas que mais se dedicara a criação delas fora Fátima. Mesmo que ela tivesse tido ajuda, mesmo que não tivesse sido tão difícil para ela as criarem, até porque Mia e Sarah nunca deram tanto trabalho, ao menos não a mais nova, e em sua caminhada até aqui, as coisas não foram fáceis para nenhuma daquelas mulheres. Mas agora seria; agora deveria ser, porque tinham tudo para crescerem e se tornarem pessoas independentes. As filhas de Fátima sabiam que isso era o que mais ela desejava, e se dependesse daquelas meninas, seu desejo iria ser suprido.

Mia e Sarah correram lado a lado até a praia, que não ficava muito longe de onde moravam agora. Enquanto corriam, Marília reparava em como sua irmã era bela, perto dela, sentia-se apenas um pontinho preto ofuscado. Não que isso fosse ruim, até porque Mia não falava apenas da beleza física. Sarah tinha bom coração, era amorosa e ajuda a irmã e a apoiava em todas as suas encrencas e confusões. Ela sabia quando devia simplesmente abraçá-la, quando Mia estava bem e quando eu não estava tão bem assim. Sarah, de fato, era a única pessoa que Mia confiava. Não que desprivilegiasse sua mãe, mas havia coisas que não conseguia ter intimidade o suficiente para contar a Fátima.

Ela havia se tornado uma pessoa um pouco mais fechada, não acreditava em romances ou felicidades como a que já sentiu uma vez. Não que não quisesse acreditar e sentir novamente, apenas não conseguia mais trazer aquela garota boba e extrovertida de volta. Porque aquela menina que corria pelo quintal com sorrisos no rosto, com os olhos cheios de brilho e esperança não era mais Mia. Era apenas uma conhecida sua que ficara num passado bem distante, e tudo o que ela era hoje, contradizia àquela menina. Os sonhos haviam sido destruídos, assim como o desejo de poder mudar o mundo, tudo isso não fazia mais parte de si.

Marília havia se tornado apenas um vazio em meio à escuridão. Apenas um retralho, uma máquina movida à rotinas e lembranças. Ela não tinha mais esperanças para si, e, sinceramente, não tinha vontade nem forças de mudar ou, quem sabe, trazer aquela menina de volta.

Cansadas, Mia e Sarah sentaram na areia juntas e olharam para o extenso horizonte, que separava o céu e o mar. Ela nunca tinha ido à praia, era a primeira vez que via aquela cena e sentia aquele clima tropical. Mia já vira isso tudo em fotos, e também por comentários de amigas do colégio que viajavam para cá como para outros lugares. Mas poder tocar a areia ou sentir sua textura, era completamente diferente. Ainda mais se tratando daquele vento que insistia em desprender o seu cabelo, até que cansou de ajeitá-lo e permitiu que suas mechas aproveitassem a temporária liberdade.

—É vida nova, Mia. Vamos ser muito felizes aqui, você vai ver. —Sarah preencheu o silêncio pela primeira vez, sorrindo ingenuamente para sua irmã mais nova.

—Eu espero que você esteja certa, Sarah. Estou cansada daquela vida, estou cansada de sentir-me perdida e fora de encaixe. Quero me libertar. —Confessou, fechando os olhos e deixando que aquele aroma salgado a embriagasse.

—Oh, maninha, você está bem? —Perguntou por vê-la um pouco abatida. Mia assentiu, e quando menos esperou, Sara abraçou-a.

—Ainda não, mas vou ficar. — Mia sussurrou de todo o coração, mesmo não sabendo se isso seria totalmente possível. Porque ela não estava totalmente mal, não. Muito pelo contrário. O vazio em si não se dá pela tristeza, ela é apenas uma consequência. O fato de não conseguir ao certo definir seu estado de espírito era o que a abatia de vez enquanto, e embora que aquela sensação não a deixasse por um segundo sequer, não sabia ao certo como fazê-la ir embora.

UMA SEMANA DEPOIS.

Mia já havia feito sua matricula, e logo começaria semana a estudar. Ela estava focada em terminar os estudos para, futuramente, poder cuidar de si. Não ter de acompanhar sua mãe a cada vez que ela encontra um novo amor seria bem agradável. Não que não gostasse de ficar com a família, muito pelo contrário, apenas preferia ter seu próprio cantinho. Também não conseguia se acostumar em ter que conhecer novos homens por quem sua mãe se apaixonava de vez em quando. Sua mãe nunca desistia do amor, e muitas vezes Mia preferia não ter de passar o dia num restaurante qualquer encarando uma nova paixão de Fátima, a maioria de seus admiradores era piadista sem graça. Talvez tivesse até graça a piada deles, mas Marília não achava engraçado.

No domingo, Mia saiu com Sarah para procurar emprego. Seu padrasto havia sugerido pagar a faculdade de ambas, mas elas recusaram. Não se sentiam à vontade para permitir que um estranho gastasse dinheiro com elas, muito menos que futuramente tivesse algum motivo para cobrar algo delas. As irmãs estavam desocupadas pela manhã e pela tarde, estudavam à noite apenas. Então, se soubessem fragmentar o tempo e estruturá-lo, conseguiriam com perfeição encaixar seus horários e administrar seus afazeres.

Sarah fora a primeira a conseguir arrumar um emprego pela manhã. Marília até tentou por uma semana, mas na semana seguinte desanimou. Todas as vagas que encontrava já estavam preenchidas, e em outros estabelecimentos que procurou por trabalho os homens que a entrevistaram eram tarados, focalizavam mais com o decote dela do que seu motivo de estar ali. Ela não se sentiria bem em ir trabalhar preocupando-se exageradamente com a roupa que usaria, não seria agradável.

Não que nas entrevistas tivesse usado algo bem decotado, muito pelo contrário, discrição fazia parte de sua personalidade. No primeiro mês, Mia contara com a ajuda do padrasto para pagar a mensalidade. É claro que por seu orgulho, era devolveria o dinheiro o quanto antes.

Assim que arrumasse um emprego, pensava ela.

Nos próximos meses ela não precisou contar com a ajuda de seu padrasto, arrumou alguns trabalhos como garçonete, secretária, mas sempre durava pouco tempo. Quando precisava, sua irmã, já com um emprego mais fixo, dispunha-se a ajudá-la. E tudo o que se rodava na cabeça de Marília era que um dia a recompensaria.

Foi então que numa terça à tarde, depois de fazer sua última entrevista, Marília correu em direção à praia e, mesmo que tivesse entardecido, pousou seus joelhos sobre a areia e, erguendo o rosto, como se olhasse para o céu, perguntou por que a vida tinha que ser tão injusta com ela. Esta não merecia uma chance de recomeçar, mesmo se fosse apenas um simples emprego, uma simples fonte de renda? Uma simples e ingênua forma de se sentir independente, uma forma de dizer que nem tudo está tão perdido assim.

O que ela havia feito de tão mal numa vida passada que a impedia de viver? Não precisamente feliz, ela não fazia questão mais de muito, mas ao menos em paz naquela vida? Seus joelhos estavam doloridos por causa do impacto, entretanto isso não a machucava mais que a sua situação. Ela não queria ser um eterno peso para sua mãe, e nem para sua irmã. Mia queria apenas sentir que a vida não a odiava tanto assim quanto pensara.

Olhou para trás e avistou uma barraquinha de cachorro quente. Sua fome prevaleceu, fazia horas que não se alimentava, por conta disso, levantou-se segurando sua sandália nas mãos e caminhou em direção à barraquinha.

Sentou-se no banquinho enquanto esperava seu lanche, e de longe, avistou um homem caminhando no calçadão. O que a surpreendeu não foi simplesmente ver um homem com trajes nada típicos àquele lugar, tampouco o fato de estar admirando um mero desconhecido com terno e até gravata de borboleta. Apenas tinha a impressão que já vira aqueles olhos em algum lugar, aquele par cintilante a fazia mergulhar numa imensidão de nostalgia e memórias.

Naquele momento, sabia que já estava louca, porque em seu ponto de vista, avistar um homem qualquer, andando em um lugar qualquer, olhando-a de uma forma qualquer, parecia ser a maior loucura já vivida desde o tempo que tivera ao lado de seu melhor amigo. Era como se agora, cada pessoa que passasse ao seu lado, ela o procurasse.

E se isso não era loucura, Mia não sabia o que poderia ser.

Percebera então que já estava condenada, já não era suficiente uma vida fracassada e falta de esperança? Tinha que se tornar maluca também?

Meia hora depois, Marília chegou a sua casa totalmente exausta. Tudo o que desejava, além de um longo banho, era cair em sua cama e não acordar. Adormecer e se transportar a seus sonhos era tudo o que Mia desejava. Neles, tudo era irreal e menos dramático. Lá a vida não brincava com ela e não a tratava mal, muito menos a decepcionava, naqueles lugares que estava enquanto seus olhos continuavam fechados, a música e a dança a puxavam para um mundo totalmente inusitado e mágico. Isso deixava claro, quando ela acordava nas manhãs seguintes aos seus sonhos, que dentro de si havia uma imensa vontade de voltar a fazer o que sabia de melhor.

Quando seus pés movimentavam-se sutilmente, principalmente, quando eles afastavam-se do chão, parecia que se dançava nas nuvens, parecia que sua realidade se desprendia dela, e, então, Mia poderia ser quem ela quisesse. Até mesmo aquela garota de sua infância. Até mesmo feliz naqueles poucos segundos. Porém, ela não podia se dar ao luxo de perder seu tempo com tolices. Havia coisas mais importantes para se preocupar, e os resultados adquiridos até então, não eram nada satisfatórios.

Assim que pousou sua cabeça, e terminou sua oração, tudo o que a menina tentou foi, pelo menos por aquela noite, esquecer seus problemas e concentrar-se em dormir bem, porque já havia faltado um dia a faculdade, não poderia se dar ao luxo de continuar a utilizar seu tempo noturno para as entrevistas que nunca dariam certo.