For all my life
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Mia sentia-se mais humilhada ainda ao ver a reação da mãe; tudo o que desejava era um buraco para se afundar e nunca mais sair. Mas um tempo atrás ouviu alguém dizer que era impossível fazer buracos graças ao novo piso da casa, muito mais resistente e difícil de perfurar. Droga!
Ao descobrir o que tinha acontecido, Fátima ordenou que Luís Miguel fosse para o seu quarto ou para outro lugar para deixá-las a sós, assim poderia tratar da filha. Miguel, preocupado e querendo apenas o bem da meia irmã, apenas acenou e seguiu a ordem como um menino obediente que nunca fora. Marchou sutilmente, indo como um soldadinho para o seu respectivo quarto. Ele sentou-se na cama e fechou os olhos pela primeira vez, orando, pedindo que Deus cuidasse de sua cereja, e que nenhum mal viesse tirá-la dele.
Apesar de, nos últimos meses ela começar a se comportar de maneira estranha, ele a amava com todo o coração e, caso ela partisse, seu coração agora cheio de amor por aquela menina, ficaria vazio. Murcharia como um balão perdendo o ar e ficaria tão pequeno, a ponto de quebrar-se e sumir.
Enquanto o menino orava preocupado, Mia sentou-se na cama depois de sua mãe retirar o forro manchado. Fátima estava ao lado da menina, que tremia de medo da reação da mãe. Esperando o pior.
— Não acredito que a minha menina virou mocinha! — De repente sorriu, levando seu polegar até o rosto da filha e, de forma carinhosa, acariciou o rosto da mesma.
— Não vai brigar comigo, mãe? — Mia perguntou ainda reprimida, com receio da situação inusitada. Ela nunca havia conversado com ninguém sobre isso, nem com sua irmã mais velha, Sara, a qual era mais velha e provavelmente havia passado pela mesma situação. Fátima apenas permaneceu com seu sorriso de mãe orgulhosa, seus olhos transmitiam a Mia toda à nostalgia, possivelmente a mulher lembrava-se de todos os momentos ao lado da filha enquanto ainda menor, e colocou uma mecha do cabelo de Marília para trás. Olhou mais uma vez para o rosto angelical da menina e ficou satisfeita ao notar algumas mudanças em sua maçã do rosto, um pouco mais contornada e menos... Infantilizada. Sua pequena estava crescendo, ainda que sentisse um receio de perder seu neném, percebia que ganhava uma adolescente. Uma bela e adorável adolescente.
Depois de conversarem durante horas, sem nem perceberem a noite dominar mais uma vez o dia, Fátima e Mia despediram-se. Miguel, de seu quarto, ouviu passos estranhos no corredor e, abruptamente, abriu a porta e sorriu eufórico ao ver sua meia irmã à sua frente. Marília, já entendendo com mais clareza sua situação, sorriu majestosamente, retribuindo o olhar de Miguel. Deu pequenos passos em direção ao garoto que olhava para ela maravilhado, e logo em seguida, abraçou-lhe com carinho.
— Eu estou bem, Lu. Apenas estou virando mocinha. Não se preocupe.
— Promete que isso não vai te afastar de mim? — Pediu demonstrando seu receio. Miguel nunca fora do tipo de pessoa que demonstrava possuir alguma fraqueza ou coisa parecida. Ironicamente, Mia despertava-lhe não só as suas melhores qualidades, mas também os seus piores medos.
— Nada fará eu me afastar de você. Nada, Miguel. — Marília respondeu o tranquilizando.
Sete anos atrás, precisamente.
Mia balançava-se no balanço, era apenas um pneu segurado por cordas, estas se estendiam verticalmente até o galho da mangueira, a mesma árvore que ela se escondera muitas vezes durante várias brincadeiras de criança. Estava sozinha, aproveitando o aroma das flores de Fátima. Olhava atentamente para a diversidade de plantas, a variedade de perfumes e cores. Mia desejava possuir futuramente um jardim exatamente como aquele, para todos os dias cuidar da enorme e delicada quantidade de plantações. Às vezes ela ajudava a mãe a regar algumas flores, outras vezes apenas observava para, num futuro próximo, fazer a mesma coisa que a mãe sempre fizera com tanto amor e cuidado. Sua mãe cuidava daquelas plantas assim como cuidava dela, e seria eternamente agradecida por isso.
Fechou os olhos para adquirir mais paz de espírito, assim dizendo. Morar no interior tinha suas vantagens, porém isso não mudava o fato dela ter certa curiosidade sobre que existia além dos planaltos. Algumas de suas amigas já viajaram e passaram uma temporada por lá, disseram que era uma gritaria sem tamanho e que havia diversos McDonald’s espalhados pelas redondezas. Quando Dália indagou o que era isso, porque ali não existiam nada com esse nome, as aventureiras disseram que era uma espécie de loja que vendia hambúrgueres, sucos, entre outras coisas industrializadas. E eram horrorosos, não chegavam perto do que elas consumiam no almoço. Embora isso não tivesse agradado-as, houve muitos elogios sobre várias espécies de divertimentos, como parques cheios de brinquedos e grande variedade de lojas e shoppings.
Mas sua curiosidade não fora totalmente saciada. Havia certa diferença entre a teoria e a prática. Ela conseguiu imaginar situações expostas pelas amigas, e conseguiu fazer novas descobertas também. Todavia, sabia que mesmo imaginando, caso um dia visse todas aquelas coisas, iria se surpreender como uma garotinha que acabara de ganhar um doce.
Os pensamentos de Mia foram interrompidos quando ouviu gritos, para ser específica, de sua mãe. Preocupou-se imediatamente, e graças ao pulo repentino que dera, caiu na grama e sujou o vestido que estava usando. Porém, ela não se importou com esse detalhe, apenas movimentou os pés rapidamente correndo em direção à porta de sua casa. Quando se aproximou da fechadura, alguém a abriu antes. O homem, cuja expressão era indecifrável, abaixou-se e encarou os olhos amedrontados de Marília, e se perdeu ali por alguns longos segundos.
— Cuide de sua mãe por mim, cereja. — Apesar de não ter costume de comunicá-la assim, achou propício chamá-la da maneira que apenas o seu único filho a chamava.
Era o seu padrasto dando adeus? O que estava acontecendo? Marília não entendia.
De repente seu mundo estava sendo demolido. E ela confirmou isso ao ver Miguel passar pela sala carregando uma pequena mala, com os cabelos bagunçados e a cabeça baixa. Apesar de Miguel não ter a visto, já que estava cabisbaixo, ele sabia que sua cereja estava perto, pois sentiu o aroma dela embriagá-lo. Aquele perfume, aquela essência de sua meia-irmã fez com que sua situação piorasse. Apenas aquele cheiro era capaz de, como um fio desavisado, entrelaçá-lo pelo pescoço e sufocá-lo como se nada no mundo fosse melhor que aquela fragrância.
Seus olhos estavam já caídos, mas graças à proximidade da menina, suas lágrimas despencaram por conta do peso que elas adquiriram. Não suportaria levantar a cabeça e olhá-la. Se ele fizesse isso, não conseguiria nunca mais achar que era um homem. Porque, de acordo com o que um amigo seu dissera uma vez, homens não choram.
Mas Miguel queria chorar. Naquele momento, ele não queria ser um homem.
Ele só queria que aquilo não estivesse acontecendo, ele não queria ser separado dessa maneira da menina por quem era tão apegado. Da menina que, de uma maneira inconfundível, havia se tornado uma espécie de dependência dele. Era tão jovem, e já viciado em alguma droga? Não era possível, pensava ele.
Mia calculou seus passos, indo até o garoto que por tanto havia sido para ela uma espécie de anjo da guarda. Quando estava a poucos centímetros dele, parou repentinamente. Todos se calaram, até Fátima. Todos os presentes naquela sala fincaram os olhos nos dois amigos. Todos vivenciaram e estavam de prova da tamanha cumplicidade que existia entre os dois, e embora suspeitassem, não conseguiriam imaginar o tamanho do buraco que estava sendo cavado no peito deles.
Ninguém conseguiria.
A princípio, Mia não entendia o que estava acontecendo naquele lugar. Mas ao esperar ansiosamente a cabeça de Miguel se erguer, e os olhos dele adquirirem força, notou que aquilo era um adeus.
Adeus não é uma palavra muito boa, pensou ela. E não era mesmo. Adeus significava partida, adeus significava não tê-lo mais ao seu lado. Adeus significava sentir medo durante as noites de tempestade, e não ter alguém para estar ali e fazer seus temores se dissiparem. Adeus significava alguém ir embora.
Miguel iria embora, e Mia ficaria.
Não demorou muito para que os olhos de Marília se enchessem de lágrimas, resultado do enorme esforço dela para entender o porquê dele ter consigo uma mala. O porquê de seu padrasto ter dito para cuidar de sua mãe. Mia girou o corpo, sem mover-se de lugar, encontrando o olhar de Fátima e Sara sobre ela.
— Eles irão embora, minha filha. Dê um tchau a Luís Miguel. — Fátima tentou falar sem soluçar, o que não adiantou muito. A mulher também possuía grande estima pelo filho do ex-marido. Para ela, Miguel era um menino de ouro que não merecia se afastar de maneira tão rude de sua filha, por quem era tão apegado. Mas era necessário, ela não conseguiria olhar mais para o rosto de Lourenço. Naquela manhã, ela havia encontrado nas coisas dele cartas de uma mulher. E não era qualquer uma, era a mãe de Luís Miguel. Ela não conseguiria ser trocada tão grosseiramente mais uma vez, ela não suportaria. Por isso, tomou a decisão de por um fim no seu relacionamento com o homem que, naquele momento, encontrava-se à porta com duas grandes malas nos braços.
Eles partiriam. E junto com suas filhas, ela conseguiria se reerguer. E reerguê-las também.
—Eu não quero te perder, Lu. — Ela enfim conseguiu dizer algo, depois de tanto tempo. Fizera um esforço enorme para formular alguma frase naquela ocasião, havia muitas coisas para dizer, sim, mas conseguir fazê-las ser proferidas por sua boca era complicado, senão impossível. Não havia palavra naquele momento que explicasse ou fizesse com que Miguel compreendesse o quanto ela precisava que ele não fosse embora.
E ele pensava o mesmo, embora não fizesse esforço para dizer algo como ela. Todos respeitaram o momento dos dois, Fátima só aguardava por causa da filha mais nova, se não fosse por isso, empurraria Lourenço para que ele fosse embora o mais rápido possível. Para ela, quanto mais rápido ele fosse, mais rápido ele seria passado. Mais rápido ela o esqueceria.
—Eu não quero te perder, cereja. — Miguel sussurrou finalmente, sentindo seu coração bater com mais intensidade do que ele estava acostumado a suportar. Os deram mais um passo à frente, fazendo a pouca distância entre eles sumir. Os braços finos e delicados de Mia entrelaçaram o pescoço dele, e Luís deixou seu rosto descansar no pescoço de Marília. Seu nariz naquele momento inalou o máximo possível de perfume que coseguiu, como se aquele estoque pudesse fazê-lo sobreviver por pelo menos algum tempo. Ou, quem sabe, fazê-lo lembrar-se dela, e fazê-la presente. Embora soubesse que, independentemente de qualquer coisa, ele não conseguiria esquecê-la, não poderia perder nenhuma oportunidade.
Ele não sabia o dia de amanhã, e qualquer opção que pudesse levá-la um pouquinho consigo era válida.
Ela fora apertada mais ainda contra ele pelos braços dele à sua volta, e apesar de sua pouca idade, a força de Luís era impressionante. Não duvidariam caso ele conseguisse fazê-la ultrapassá-lo, ou fazê-los se tornarem um só.
E, de todo o coração, era o que eles mais desejavam.
O que eles não sabiam, no entanto, era que a dor da partida era mínima perto da dor que viria no dia seguinte, quando ambos acordassem e não tivessem mais um ao outro. Finalmente, então, perceberiam quanto se amavam e eram dependentes um do outro.
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